segunda-feira, março 13, 2006



Anarquismo e religião

O anarquismo, em seu período mais turbulento e ativo, no final do século XIX e inicio do século XX, levou uma critica importante contra as instituições religiosas ocidentais, as relações entre as pessoas e Deus – Deus, segundo a teoria crista, bom ressaltar -, e ao próprio conceito de Deus. Cabe a nos, em pleno século XXI, escutar essa critica de maneira a observar de que modo ela esta ligada a seu próprio tempo, suas intenções, sua validade na sua época especifica e nos nossos tempos.

De fato, desde aquele período, o cristianismo em termos de poder, decresceu, contudo, ainda vive com uma força absurda em nossa sociedade ocidental (cristianismo aqui entendido como a parte institucionalizada do mesmo). Ainda é constante vermos a antiga atitude de lidar com Deus de uma maneira passiva, de modo a projetar toda as causas de benefícios e malefícios acontecidos em suas mãos, renegando inclusive nossa própria responsabilidade nas mãos dos desígnios divinos, um exemplo clássico seriam as frases: “Por que Deus esta me punindo?” ou “Por que Deus quis assim?”. Sartre, por exemplo, chamava essa atitude de não assumir as responsabilidades por nossas ações de má fé. Se considerarmos que os desígnios divinos eram as interpretações do poder eclesiástico sobre a bíblia, poderemos compreender melhor a insubmissão anarquista, já que, de maneira nítida, o poder clerical estava intimamente ligado ao poder político e hierárquico da sociedade da época.

Se a critica anarquista atentou, em sua observação, para o modo em que a religião usurpava o poder popular e reprimia as revoltas, autonomias e insatisfações, temos que observar que em muitos casos existiram religiosos que tiveram outra relação, tanto com Deus, quanto com a sociedade, de maneira a não propagar a onda hierárquica e totalitária. O próprio Kropotkin, anarquista que reverenciou a ciência clássica, fez suas observações sobre alguns desses religiosos, quando diz:

“Na Boêmia teve o nome de movimento hussita; e de anabatista, na Alemanha, na Suíça e nos Países Baixos. Pode-se afirmar que estes movimentos, além de constituírem uma revolta contra o senhor, tinham uma outra característica: a revolta completa contra o Estado e contra a Igreja, contra o direito romano e contra o direito canônico, em nome do cristianismo primitivo”¹.

Estes movimentos tiveram origem de movimentos gnósticos antiautoritários (contemporâneo do cristianismo que teve seu “auge” por volta do séc II d.C) que podem ser inclusive, segundo uma interpretação, um proto-anarquismo. A critica dos anarquistas aos religiosos estava calcada, sobretudo, sob a égide do movimento positivista e de tal forma esteve incluída em seu tempo que não observou as alternativas que a própria religião demonstrou durante toda sua existência. Desde as palavras de Jesus, contidas em Salmo: “Sois deuses” como as palavras de São Paulo onde diz que: “a graça eleva o homem acima das leis deste mundo”², poderiam e levaram a interpretações contra as autoridades ctônicas tais como os governantes, o estado e as leis constituídas. Os anarquistas em seu contexto não observaram as possibilidades também revolucionarias (apesar de trabalhar mais com a subjetividade, ou com aspectos ontológicos) dos movimentos religiosos, místicos ou congêneres.

O gnosticismo valeriano, por exemplo, tinha um sistema de crenças que tentava romper com o que eles chamaram de estado de sistase. A sistase seria um limitador da nossa potencialidade divina (do espírito, das partículas divinas, ou atmás) que foi presa pelo Demiurgo, um anjo ou deus criado em todo processo ocorrido na queda de Sofia (outra divindade gnóstica) e que sem o saber inibia o ser humano ao contato com o pleroma, a realidade verdadeira, para os gnósticos (encontrada na câmera nupcial, que pode ser mais bem descrita pelo evangelho de Felipe); inibia, sobretudo, o ser humano de entrar em contato com suas forças originarias, deixando-o preso então no kerona (do gr. kenósis- esvaziamento). Essa singularidade oculta era protegida por sete arcontes, demônios de demiurgo e eram materializados nas figuras dos governantes. Esse jogo de deuses e demônios eram, em maior parte, para o gnosticismo, símbolos ou alegorias.

Cabe a nos, hoje, tentar permitir essa liberdade de crença de modo a não criar um dogma ateu que arbitrariamente limite a crença dos indivíduos. Sem deixar de observar, contudo, as criticas anarquista as instituições verticais, tais como a igreja, que todo o momento tenta servir de mediador entre a população e a divindade forjando uma única interpretação de todas as escrituras consideradas como sagradas, alienando a população, dessa forma, de sua autonomia. Como diz Kropotkin sobre Denck (anabatista):

“...quando perguntaram a Denck, um dos filósofos do movimento anabatista, se reconhecia a autoridade da Bíblia, ele respondeu que somente a regra de conduta que um indivíduo encontra, para si, nessa mesma Bíblia, é que constitui a obrigação da sua consciência.”

A existência de religiões que, não só não renegam, como apóiam um modo de ser autônomo e uma sociedade que busque tal autonomia antiestatal, mostram a pluralidade de intenções dentro do mundo religioso, desde as mais dominadoras ate as mais libertarias. Dever-se-ia, portanto, creditar esta liberdade de crença e em especial, compreender que não existe ligação intrínseca entre autoritarismo, centralismo e religião ou mística.

¹ - http://www.magianarq.blogspot.com/#_ftn2

² - op.cit.

sexta-feira, março 10, 2006


O Bolso.

Um bolso fundo segurava aquela que não poderia ficar ali. Pareciam paredes enormes, construídas para nunca deixar ela partir, mas um movimento – e apenas um movimento – poderia mudar o destino fatalista e rodar a historia. Um tropeção do dono daquele bolso – ou daquela masmorra – era o ponto nevrálgico para aquela mudança que começara a se manifestar, ao som do metal, de uma moeda, saindo da escuridão.

No inicio, ela começou a sair do mais recôndito dos bolsos, do fim da escuridão, onde nada – ou nenhuma coisa – pareciam que um dia iriam mudar, mas naquele momento nada era real, pois, tudo, havia se modificado. Um vento surgiu, de cima para baixo e depois, de baixo para cima; incrível, sentiu a moeda:

- Mas que sensação fantástica – sentia, enquanto temia aquela soberba desgraça.

Mas enquanto tudo inspirava temor, as coisas começaram a piorar ainda mais. Os sons fortes das passadas de sapatos, tênis e chinelos começaram a brotar, vozes de todos os tipos também, aquele caos começou a gerar uma fobia gigantesca na moeda. A saída do bolso parecia ser a mais dura das torturas.

- Por que meu destino deve ser esse? Que fiz eu, moeda, para que tal desgraça se assole em minha existência, que me afogue no meio desse embriagamento?

Era tarde demais, não havia volta, não havia esperança, a moeda já havia passado do ponto seguro. Ela não foi e voltou para o fundo do bolso, não, pois a “derrota”, em sua visão, já fazia parte de sua constituição; ela estava desgraçada demais para medir suas sensações. Agora já via a luz solar, algo nunca antes experenciado, terrível, diria ela, se tivesse uma boca. O calor era manifesto, o cheiro de todas as coisas, as cores de todas as coisas, o terror apoderou-se dela, pobre moeda, nunca teve a chance de escolher: ser ou não ser. Preferia ficar naquele bolso, pelo menos, era isso que sentia.

O calor a esquentava ao mesmo tempo em que aquele vento a fazia sentir calafrios, via, de forma nítida, que seu destino se aproximava. O chão. O chão lhe parecia o mais terrível dos monstros, um leviatã, afinal, não era atoa, a moeda nunca estivera naquele recinto, tal como, via-o como corpo estranho, sujo, e onde todos pisavam. Poderiam, com efeito, massacrar-lhe, destruir suas estribeiras.

Não havia alternativas. Já resignada, a moeda cai, sua face girou, uma, duas, três, quatro e finalmente cinco vezes, pelo chão, formando círculos cíclicos ate que seu movimento se acalmasse e ela caísse, com um lado para cima e o outro para baixo. Sentiu aquele bafo tremendo de uma cidade, seu brilho se ofuscou pela sombra dos pedestres, tudo parecia terrível, acabado, maldito.

Num momento, contudo, o sol atingiu-a - e da tal modo - que ela ofuscou tudo a sua volta, sua beleza radiante, dourada e reluzente acendeu-se, para todos a verem. As pessoas olharam aquela cena, meio inacreditável, meio banal, sobre o solsaio de suas carapaças, mas foi apenas um ser que ficou realmente aturdido diante daquele espetáculo. Era uma linda moça. Ela passou e pegou a moeda brilhante, a moeda, tal como a moça, se sentiu fantástica, nunca, de tal modo, fora tão valiosa. A moça a olhou e viu seu sorriso. A moça que estava muito faminta comprou um cachorro quente. De fato, ela não comia já havia dias.

Depois de tal feito, a moça e a moeda não mais existiam. Em meio a fumaça que restara no recinto espacial que outrora fora ocupado por estes dois corpos, uma luz apareceu, e dizem que hoje ambos deixaram de ser cousas para se tornarem eternidade.

quinta-feira, março 09, 2006

Poementos.




Tempos atras ou minutos em alcatraz?


Sentido

Quebra brusca sem saida,
perdida a perspectiva
tudo toma só um plano
perde-se aos poucos o tempo
toda noção de espaço
geometriza-se o embaraço
de não existir mais a vida
o sonho se torna ferida
pois não ha mais motivo


--

O mundo emoçao

O vagao chegou atrasado
pela estrada de terra,
o universo ja tinha se afogado
Em um infinita cratera,
de choro.

quarta-feira, março 08, 2006

Histerie et Dementia Praecox

Transcrição da conferencia de Jung em setembro de 1913 no Congresso Psicanalítico de Munique. Pego do livro: Tipos Psicológicos; paginas: 461-464.

A Questão dos Tipos Psicológicos.

Conforme se sabe, se compararmos o aspecto geral da histeria e da dementia praecox (esquizofrenia), saltará aos olhos o contraste de seu relacionamento com o objeto. A histeria tem, normalmente, uma intensidade de relacionamento com o objeto que ultrapassa o normal, enquanto na esquizofrenia o nível normal não é alcançado. No relacionamento pessoal isto se nota pelo fato de se ter, no caso de histeria, uma comunicação a nível do sentimento com o paciente, não ocorrendo o mesmo na esquizofrenia. Não se falará aqui das exceções a esta regra. Também se constata a diferença nas demais sintomatologias das duas doenças. No que se refere aos sintomas intelectuais da histeria, trata-se de imagens fantasiosas, que são humanamente compreensíveis, do histórico anterior do caso individual; na esquizofrenia, porem, as imagens fantasiosas tem um caráter mais relacionado com sonhos do que com a psicologia do estado de vigília. Alem disso, é evidente forte interferência da psicologia da historia dos povos ao invés do material das reminiscências individuais. Os sintomas físicos tão numerosos na histeria, que simulam quadros de doenças orgânicas bem conhecidas e impressionantes, não se encontra no quadro clinico da esquizofrenia. Disso é fácil concluir que a historia se caracteriza por um movimento centrífugo da libido, ao passo que na esquizofrenia o movimento é mais centrípeto. Inversamente, a influencia compensadora da doença constatada na histeria obriga a uma redução do movimento centrípeto da libido, substituindo a vivencia objetiva por sonhar acordado, ficar de cama, internação em sanatório etc. Na fase de incubação, o esquizofrênico que se fechou em si mesmo e se isolou do mundo externo torna-se forte, através da compensação na doença, e é forçado a sair de si procurando atrair a atenção dos outros, por meio de um comportamento intencionalmente extravagante, insuportável e diretamente agressivo.
Chamei extroversão e introversão essas duas direções opostas da libido. Nos casos mórbidos em que idéias delirantes, inspiradas na emotividade, ficções ou interpretações fantásticas adulteram no paciente o juízo de valor sobre os objetos e sobre si mesmo, gostaria de acrescentar o termo regressivo. Falamos de extroversão sempre que o indivíduo volta seu interesse todo para o mundo externo, para o objeto, e lhe confere importância e valor extraordinários. No caso contrario, quando o mundo objetivo fica praticamente na sombra, e pouca atenção recebe, mas o homem se torna o centro de seu próprio interesse e aparece como único a seus olhos, trata-se de introversão. O fenômeno que Freud chama transferência, em que o histérico projeta ilusões e avaliações subjetivas no objeto, eu o denomino extroversão regressiva. Por introversão regressiva entendo o fenômeno inverso, tal como ocorre na esquizofrenia, onde estas representações fantásticas atingem o sujeito.
Não é difícil observar como os dois movimentos da libido podem atuar num mesmo individuo, na qualidade de simples mecanismos alternativos da psique. No mecanismo histérico da extroversão, conforme ensina Freud, a personalidade procura livrar-se do conteúdo doloroso, do complexo, surgindo então fenômenos psíquicos que Freud denominou “repressão”. Nesses casos, o individuo se aferra aos objetos para esquecer e deixar para trás o conteudo doloroso. O mecanismo da introversão, ao contrario, procura concentrar a libido totalmente no complexo, libertando e isolando da realidade a personalidade juntamente com o complexo. Este processo psicológico está vinculado a fenômenos que poderíamos chamar mais apropriadamente pelo nome de “desvalorização” ao invés de “repressão”. Até aqui introversão e extroversão são dois modos psíquicos de reação que podem ser encontrados num único e mesmo individuo. O fato, porem, de dois distúrbios psíquicos tão opostos, como histeria e esquizofrenia, serem caracterizados pela predominância do mecanismo da extroversão ou da introversão, indica que provavelmente também tipos humanos normais sejam caracterizados pela prevalência de um ou outro mecanismo. Assim, por exemplo, é fato bem conhecido do psiquiatra que o esquizofrênico já vinha caracterizado pelo predomínio de seu tipo especifico, bem antes de apresentar-se a doença, e até em sua mais tenra infância.
Como diz Binet, a neurose apenas coloca em relevo excessivo os traços típicos do caráter de uma personalidade. Já sabemos de há muito que o assim chamado caráter histérico não é mero produto da neurose manifesta, mas de certa forma o precede. A mesma conclusão chegou Hoch em suas pesquisas sobre a anamnese esquizofrênica; fala de uma “shut-in-personality” (personalidade fechada em si) que é anterior ao aparecimento da doença. Nestas circunstancias, poderíamos esperar sem mais encontrar os dois tipos também fora da esfera da patologia. Sem pretensão de exaurir a serie de possíveis testemunhos da existência dos dois tipos, gostaria de trazer alguns exemplos.
Na ótica do meu limitado saber, as observações mais pertinentes sobre o assunto devemo-las a William James que parte desta idéia fundamental: “Qualquer que seja o temperamente de um filosofo profissional, ele tenta, ao filosofar, pensar o fato a partir de seu temperamento”¹. Segundo esta concepção, totalmente em consonância com a psicanálise, divide os filósofos em duas classes: “tender-minded” e “tough-minded”. O primeiro termo significa literalmente “de espírito meigo”, o outro, “de espírito inflexível”. Em tradução mais livre, poderíamos dizer “voltado para o espiritual” e “voltado para o material”. Os próprios termos já deixam prever a direção do movimento da libido. A primeira classe dirige a libido para as idéias, é sobretudo introvertida; e a outra dirige a libido para o objeto sensual, a matéria. É extroversiva. James caracteriza o “tender-minded” em primeiro lugar como racionalista “going by principles” (que se orienta por princípios). Para ele, os princípios e sistemas de pensar são determinantes; ele administra a experiência, isto é, coloca-se acima dela e a submete friamente a seus princípios, convicções e conclusões lógicas. Subordina os fatos e a multiplicidade empírica a suas premissas, estranhas ao material, sem deixar-se influenciar ou desconcertar pela experiência. Lembremos, por exemplo, Hegel e sua atitude para com a questão do numero de planetas. No campo da patologia, identificamos esse filosofo como paranóico que procura impor ao mundo sua concepção delirante, não importando que todos os fatos digam o contrario, e tudo “arranja” (Adler) de tal forma a servir a seus sistema preconcebido.
As outras características que James atribui a este tipo são lógica e facilmente deduzidas dessa premissa. O “tender-minded” é intelectual, idealista, otimista, religioso, indeterminista, monista e dogmático. Todos esses atributos deixam facilmente entrever a centralização quase exclusiva no mundo das idéias. A centralização nesse mundo ideal, como mundo interno da personalidade, nada mais é do que introversão predominante. A única função que a experiência tem para esses filósofos é a de servir ao projeto da abstração, a necessidade de colocar em ordem a multiplicidade e desorganização dos acontecimentos que, em ultima analise, devem submeter-se a fator subjetivos-ideais.
O “tough-minded”, ao contrario, é empírico, “going by facts” (orienta-se por fatos). A experiência manda nele, ele a segue e seu pensar é por ela determinado. O que não é fato palpável externamente não conta. Seu pensar é reação a experiência externa. Seus princípios são menos importantes que os fatos; são mais retrato dos acontecimentos, mais descritivos do que constitutivos de um sistema. Por isso suas teorias tendem a ser internamente contraditórias e são muitas vezes turvadas e sufocadas por material empírico em demasia. Para ele, a realidade psíquica se limita a observação e a uma reação de prazer ou desprazer; não vai alem disso, nem procura reconhecer o direito de existir ao postulado filosófico. Da mesma forma que muda a superfície do mundo empírico, o “tough-minded” está sujeito a mudança da experiência. Conhecer múltiplos aspectos e possibilidades teóricas e praticas do mundo e de suas coisas, mas, por isso mesmo, nunca chega a um sistema unificado que pudesse satisfazer ao “tender-minded”. O “tough-minded” é redutivo. Diz muito bem James: “O superior é explicado pelo inferior e sempre tratado como um caso de ‘nada mais do que’ – nada mais do que algo de espécie bem inferior”¹. Os demais atributos elencados por James seguem logicamente as premissas dadas: o “tough-minded” é sensacionalista: dá mais espaço a sensação do que a reflexão. É materialista-pessimista: conhece bem demais a incerteza e o caso desesperançado dos acontecimentos mundiais. É irreligioso: não está em condições de sustentar a realidade do mundo psíquico interno em face do valor dos fatos externos. É determinista e fatalista, pois é resignado. É pluralista, porque incapaz de síntese. E, como conseqüência ultima e necessária, é cético.
O próprio James se exprime de forma tal que se conclui facilmente ser a diversidade dos tipos proveniente de uma diversidade na localização da libido, da “força mágica”. Em contraste com o subjetivismo religioso do solipsista, diz James sobre nossa atitude empírica: “Mas nossa estima pelos fatos... ela própria é quase religiosa. Nosso temperamento cientifico é piedoso”.¹

¹ - Eu, Fernando, não utilizei todas as notas de pagina, contudo, todas se referem ao mesmo livro de William James que Jung cita, a saber: “W.James, Pragmatism, 1911”.

segunda-feira, março 06, 2006

Historias Cotidianas


Acontecimentos veridicos acontecidos com um amigo meu... eu estava la. E assim começamos nossa campanha contra as balas de tamarindo.

Venho ao público contar minha experiência aterrorizante com a famigerada bala de tamarindo, aquelas redondas com gosto azedo. Bem, a história se inicia numa tarde de domingo, quando no meio de uma calorosa discussão entre amigos, resolvo chupar (no bom sentido) uma dessas terríveis balas. Poucos minutos depois, a maldita bala resolve se enfiar em minha goela, e sai descendo sem pedir qualquer permissão. Quando me dou conta, a maldita fica entalada (do tipo "nem fode nem sai de cima) bem no final da garganta. Em poucos segundos, estou quase sem ar, pedindo desesperadamente um copo d'água...
Meus amigos parecem ainda não acreditar no que estava acontecendo. Mas a coisa vai piorando, ao ponto de eu sentir vontade de vomitar. Eu bebo água e não desce de jeito nenhum. Bebo mais água, e nada. Os segundos vão passando, e a coisa vai piorando. A tosse vai ficando cada vez mais forte, e meus amigos assumem de repente uma cara de espanto. "Você tá vermelho", diz um deles. Um deles, ou melhor, uma delas diz que eu devo botar pra fora. Vou ao banheiro, ajoelho e bleeerrggh. O corpo dá conta. É como se dissesse pra bala, "ou dá ou desce". Eis que, numa vomitada, a bala cai, inteirinha, dentro do vaso. Ufa, estou livre.Vou processar essa empresa por fazer balas tão grandes e redondas.

sexta-feira, fevereiro 24, 2006


O Castelo

Lentamente andava, esperando algum augúrio, com a consciência refrescada pelo vento matinal. Cristina aguardava o momento certo, onde as conjunções extemporâneas em flutuações inatas poderiam dizer algo, sobre o porque de tudo aquilo. Andava calmamente pela praia, observando os pedestres, um a um, roupa a roupa, detalhe por detalhe; caminhava e não ignorava nenhuma sensação, sobrelevou-as a um grau altíssimo, tanto a de dentro, como as de fora.
O movimento de Cristina era lento, o pensamento, contudo, era a mil. O seu pensamento, que andava a trem bala, passava por diversas paisagens e conversava com seus vizinhos de cabine, no trem, tal como seu pensamento pensava o tempo todo e também, a todo tempo. Há dezessete horas que o pensamento seguia seu rumo, contudo, ate agora não chegara ate seu destino. Seu destino? Ele mesmo não sabia, tal como, também Cristina não sabia. Podemos dizer que seu destino estava lá, onde tudo se desfaz, e um albatroz o guardava, como um segredo de sete chaves trancadas.
Bem sabemos, que o albatroz come peixes.
- Um dia, poderei eu, infante da delinqüência, marchar pelos cadáveres do meu passado? A vida um dia me dará aquela infância, aquele prazer, de viver em protuberância – de estado de espírito -? Eu me mordo, e assim, estarei evitando, a todo modo, aquele augúrio a que procuro, de tal maneira, que sem ele não posso prosseguir?
A essa altura dos acontecimentos seu chinelo não falava, mas grasnava, e para sobrepor seus berros Cristina fazia-o dançar, para deixá-lo, ao menos, mais feliz. Com efeito, e de maneira bizarra, parecia a dança, essa epigênese dos ditirambos, a produtora do fenômeno tão esperado, o augúrio que tanto ressoava em sua mente, e de maneira ainda mais potente, em sua alma.
O algurio estava ali, a sua frente, concentrado. Ele produzia um castelo de areia, com suas mãos débeis, não de habilidade, mas de qualquer coisa que poderia chamar-se de humana. Sua aparência era grotesca, talvez, por viver na rua, talvez, por escolha própria, ou ainda, poderia ser apenas parte da realidade da alma e do poder de Cristina.
Cristina ao ver aquela cena, não se conteve, começou a chorar, as lagrimas pesadas corriam sua face em uma competição frenética, que nada competia, para ver qual caia mais rápido no chão e ajudaria a criar um novo florescer de uma vida que ainda está por nascer. Abismada, assim encontrava-se Cristina, com os olhos não só em lagrimas, sua respiração ofegante, suas mãos, tremulas, seu coração, apertado.
- Só pode ser ele, eu não acredito, finalmente – enquanto pensava em seus botões, todo seu corpo se contagiava, seus pés cansados faziam uma festa tremenda e chegavam ate mesmo a dar cantadas – naquele momento oportuno – nas unhas.
Correu de maneira atroz em direção a seu alvo, seu augúrio. O mendigo não compreendeu bem a expressão de felicidade de Cristina ao abordá-lo, contudo, ficou muito feliz em ver aquele contagio; fez então, o que só um rei saberia fazer, falou com aquela voz falha e, no entanto, sabia, que aprendeu com a vida:
- Venha fazer um castelo comigo.
Nesse momento Cristina entrou em êxtase, caiu num abismo dentro de sua alma, e tudo parecia brilhante – como estrelas -, seu corpo dizia, você tem tudo, esse é o maior momento de sua vida ate hoje, aproveite-o serenamente. Ela tremeu. Como uma menina levada, jogou um pouco de areia em Rico, o mendigo, que sorriu com seus dentes podres, todavia, que beleza maravilhosa havia naquela arcada, beleza que só um mago, ou um rei, poderiam ver.
Cristina começou então, vagarosamente, e com estilo, a construir aquele castelo ao lado de Rico, fizeram um lindo castelo que, em muito, se parecia com as belezas dos castelos medievais que hoje só vemos nos cinemas. O sol batia as portas do castelo, como que pedindo para entrar, o vento ressoava e levava alguns grãos de área ou alguns tijolos daquele castelo esplendido. O castelo aos poucos começou a falar – afinal, as crianças sempre crescem – e disse em tom afável:
- A vida no castelo é maravilhosa. Abençoados sejam aqueles que fortificaram os meus rizomas.
Rico sorriu. Cristina que ate então via tudo como maravilhoso, que montara aquele tonal com uma vagareza e perfeccionismo inigualáveis, agora começara a ver ressoar daquela fortaleza algo de obscuro, algo de terrível. Tentou se comunicar com rico, que sorria, mas uma afasia repentina não lhe permitia, chegou a um passo de um abismo que parecia sem fim, mas seu corpo ordenou-lhe a volta. Com aquela dificuldade incompreensível finalmente soltou as palavras presas na garganta:
- Rico! O castelo! É um monstro!
Rico começou a rir-se em demasiadamente. “Cristina”, disse ele, não se apoquente, pois tudo que pode ser feito, pode ser desfeito. Chutou o castelo. Os dois sorriram, deram um estalinho, em um gesto de carinho, e começaram a fazer um novo castelo.
Esse novo castelo, como é bom dizer, era maravilhoso e, diferente do outro, tinha mais entradas, mais saídas, mais janelas, e falava ainda mais. Cristina sabia que sua vida mudaria desde então, pois agora, seria aquilo que desejava ser. Sui generis. Original. Então depois de construir mais um castelo e derrubá-lo, despediu-se do seu herói, Rico, e viram-se como iguais.
- Adeus Rico! E sorriu-se.
- Adeus Cristina. Foi maravilhoso encontrá-la. Sempre soube que você conseguiria chegar ate mim.
E finalmente os sapatos disseram:
- Cristina, é hora de irmos. Enquanto falavam, obviamente, eles sorriam..

quarta-feira, fevereiro 15, 2006

A cerveja a previsão do tempo.


A cerveja a previsão do tempo.

Estabeleci um novo método de previsão de tempo. É bem simples. Aos que queiram saber a previsão do tempo, as localizações de nuvens próximas a sua localidade especifica, basta aplicar o método. Dessa forma você poderá saber se no dia seguinte choverá, terá muitas nuvens, poucas ou nenhuma, etc.

O Método:

Compre uma garrafa, lata, ou congêneros, desde que, tenha cerveja. Insira-a num recipiente, por exemplo, um copo; espere ate que a espuma tenha acalmado, neste momento, gire o copo de lado 180 graus e observe de que forma a espuma se manifesta. As espumas representam as nuvens do dia seguinte, a proporção de tempo é de aproximadamente 1-4 (1seg de espuma por 4 horas reais do dia seguinte), ou seja, se você ficar olhando as manifestações de nuvem durante 6 segundos você verá como o tempo irá se comportar no dia seguinte.

Em caso de duas previsões divergentes: Repita o procedimento. Caso de novamente oposto, isso significa um erro na aplicação do teste.

sexta-feira, fevereiro 10, 2006

Liçoes de Dom Juan.


Pequena parte do livro: Porta para o infinito de Carlos Castaneda.



Dialogo entre Dom Juan e Castaneda:

- Já lhe dei todas as informações necessárias. Agora cabo a você a responsabilidade de conseguir suficiente poder pessoal para fazer pender a balança.
- Você esta falando por metáforas – disse eu – Diga sinceramente. Diga exatamente o que devo fazer. Se já me disse, digamos que já esqueci.
Dom Juan riu-se e deitou-se, pondo os braços por baixo da cabeça.
- Você sabe exatamente do que precisa – disse ele.
Expliquei-lhe que às vezes achava que sabia, mas que a maior parte do tempo não tinha confiança em mim.
- Acho que você está misturando as coisas – prosseguiu ele. – A auto confiança do guerreiro não é a mesma que a do homem comum. Este busca a certeza aos olhos do espectador e chama a isso autoconfiança. O guerreiro busca a impecabilidade a seus próprios olhos e chama a isso humildade. O homem comum está agarrado a seus semelhantes, enquanto o guerreiro só se agarra a si mesmo. Talvez você esteja perseguindo uma quimera. Busca a autoconfiança do homem comum, enquanto devia estar atrás da humildade do guerreiro. A diferença entre os dois é notável. A confiança em si significa saber algo com certeza; a humildade significa ser impecável em suas ações e sentimentos.
- Estive tentando viver de acordo com suas sugestões – disse eu. – Posso não ser o melhor, mas sou o melhor de mim mesmo. Isso é ser impecável?
- Não. Tem de fazer mais que isso. Você tem de se esforçar ao maximo, o tempo todo.
- Mas isso é loucura, Dom Juan. Ninguém o consegue.
- Há muita coisa que você faz agora que lhe teria parecido loucura há 10 anos. Essas coisas em si não mudaram, mas sua concepção de si mesmo mudou; o que antes era impossível é hoje inteiramente possivel, e talvez que o sucesso total em se modificar seja apenas uma questão de tempo. Nesse assunto, o único caminho aberto a um guerreiro é agir persistentemente e sem reservas. Você já sabe o suficiente sobre o procedimento do guerreiro para agir de acordo, mas seus velhos hábitos e rotinas o atrapalham.

E varias paginas a frente:

- Você ainda não compareceu a seu compromisso – acrescentou.
Eu lhe disse que não me sentia digno e que talvez fosse melhor voltar para casa e voltar ali quando me sentisse mais forte.
- Você esta dizendo besteira – retrucou ele – Um guerreiro aceita seu destino, seja qual for, e o aceita na mais total humildade. Aceita com humildade aquilo que ele é, não como fonte de pesar, mas como um desafio vivo. É preciso tempo para cada um de nos compreender esse ponto e vivê-lo plenamente. Eu, por exemplo, detestava a simples menção da palavra humildade. Sou índio e nos índios sempre fomos humildes e nunca fizemos outra coisa senão curvar a cabeça. Pensei que a humildade não fazia parte da vida de um guerreiro. Mas estava enganado! Hoje sei que a humildade de um guerreiro não é a humildade de um mendigo. O guerreiro não curva a cabeça para ninguém, mas ao mesmo tempo não permite que pessoa alguma curve a cabeça para ele. O mendigo, ao contrario, prostra-se de joelhos por qualquer coisa e lambe as botas de quem quer que ele considere seu superior; mas, ao mesmo tempo, exige que alguém que lhe seja inferior lhe lamba as botas. Foi por isso que lhe disse antes que eu não sabia como se sentiam os mestres. Só conheço a humildade do guerreiro, e isso nunca permitirá que eu seja mestre de alguém.

quarta-feira, fevereiro 08, 2006

O Guarda-Roupas



Parado.
Observa continuamente
Qualquer movimento suspeito,
Vive sempre a espreita
De um terrivel sujeito

Mascarado.
Segue tua regra matinal,
Ficar bem em frente ao sinal
sobre a mancha caotica
dos andarilhos do caos

Personalizado.
Com seu cacetete
Aplica as leis como tais
Mostra-se rigido e fulgaz
E deixa brilhar o destintivo

Mortal.
Demonstra o poder,
Que lhe deram direito-dever
Proteger ou matar a populaçao
Entre o bem e o mal in-fraçao

de segundos mortais,
escolho tua vida,
nao abra os portais,
para tua despedida

pois eu sou a lei

segunda-feira, janeiro 30, 2006

Convergência Anarquista
– da dialética e da contextualização contemporânea


O caminho para o anarquismo não pode se prender a apenas um aspecto seja ele material ou psíquico, caso queira uma mudança real e duradoura. Através deste texto tentarei abrir margem a discussões que procurem a integração de diferentes modos de pensamento, pratica e teoria entre o chamado anarquismo histórico e o que poderíamos chamar de anarquismo ontológico¹ (“kairotico”²) para criar uma sinergia dentro do anarquismo que possa estar compromissado tanto com diferentes tipos psicológicos, como diferentes realidades empíricas.
Primeiramente creio fazer necessário uma contextualização do anarquismo nos tempos modernos, sem a perca do que constitui o anarquismo como anarquismo, a saber, o fim do estado, do governo, como nos diz a etimologia an (não, sem) e archos (governador). Neste ponto, o anarquismo clássico ou histórico é fundamental, pois pode constituir uma meta razoavelmente estruturada, um objetivo delimitado em bases objetivas, lógicas e causais utilizando-se das idéias de igualdade, autogestão, solidariedade e liberdade. Saindo tanto dos ditames do liberalismo - da ditadura do capital, que necessariamente é dominadora - como da ditadura vermelha, castradora e autoritária por si só.
Após alguns sucessos e fracassos dentro da historia, devemos pensar os motivos que levaram o anarquismo a não se concretizar como segmento autônomo, perdendo espaço em algumas oportunidades revolucionarias a idéias totalitárias, como o comunismo autoritário ou o capitalismo de estado. Não deixando de ignorar os motivos históricos objetivos, tal como os ataques externos na guerra civil espanhola e os ataques comunistas aos exércitos makhnovistas, temos, sobretudo, que adentrar a influencia psicológica que resultou, em muitos lugares, numa mudança radical da postura anarquista e anti-autoritária para a organização vertical e hierárquica.
Acredito que o próprio ser humano e a humanidade em geral no seu cotidiano é culpada pelas atrocidades cometidas pelo autoritarismo e pelas condutas egocêntricas dos indivíduos que, “representando” a ideologia burguesa ou a ideologia proletária, cometeram as maiores barbáries, sem ética ou consciência. É necessário que busquemos a parte da culpa que é nossa por direito. Penso que os movimentos revolucionários do século XIX e XX foram muito importantes historicamente, mas que seria importante, através de suas experiências e dos nossos conhecimentos atuais, podermos re-significar nosso modelo de pensamento. Temos que caminhar rumo a uma alma mais autônoma que possibilite uma maior compreensão acerca do que fazemos, sentimos e pensamos, para não sermos dominados por nossos complexos inconscientes e bárbaros. É necessário que conheçamos esses complexos, pois, é através da energia que eles nos usurpam, que poderemos ter energia o bastante para dissolver a necessidade de um ente paternalista como o estado e como as autoridades, sejam elas eclesiásticas ou patronais.
Exatamente por termos que conhecer o ser humano, tal como ele é, que devemos abandonar a compreensão de John Locke, da tabula rasa, que pensa o ser humano como um objeto do meio social, onde nascendo sem nenhuma influencia inata, passa a ser total produto do meio; tal como, também não nos parece interessante a posição humanista, e de Rousseau, – que influenciou muitos anarquistas, como Kropotkin – que pensa o ser humano como essencialmente bom, onde seria apenas corrompido pelo meio. Esse ignorar nosso próprio lado “maléfico”, ou possivelmente maléfico, torna-se um problema, pois a repressão tanto social, quanto psíquica, nunca resolveu nenhum problema, apenas o agrava, não deixando de ser uma auto-renuncia de nos mesmos. Reprimindo um lado da nossa personalidade, ao invés de conhecê-lo e modificá-lo, ou vivenciá-lo, tornamo-lo ainda mais forte, permitindo que ele passe a possuir uma certa autonomia sobre nos mesmos. Na psicologia chamamos esse fenômeno, que não aceitamos, de Sombra; a sombra pode inclusive ser projetada sobre os outros, de modo que impede-nos de um relacionamento autentico, ou, de conhecer nossa própria sombra, pois sempre é o outro o culpado dos nossos problemas, como cita Von Franz no livro: “O homem e seus símbolos”: “A sombra só se torna hostil quando é ignorada ou incompreendida”.
Se quisermos fugir do autoritarismo, precisamos sobretudo, fugir da própria ideologia ou dos condicionamentos que moldam nossa consciência, estabelecendo determinados padrões de conduta e percepção aos quais nos captamos, seja da realidade “sensível” ou da realidade psíquica. Esta “consciência coletiva”, produto da ideologia dominante, que se passa, por exemplo, através da mídia, não permite que entendamos a nos mesmos. Somos alienados de nossos conteúdos mais próprios, tanto pessoais como coletivos. Somos alienados, e nos alienamos, justamente por nos adaptarmos totalmente ao meio, aos objetos, deixando de ser uma individualidade para ser passividade.
Essa consciência coletiva, que se cria, é chamada no misticismo de egrégora. Na física os fenômenos onde as partículas saem da virtualidade (potencialidade ou potentia) e se estabelecem em um ponto especifico, no espaço-tempo, saindo da superposição coerente (a própria virtualidade, o caos) é chamado de colapso da função de onda³. Fazendo uma analogia, poderíamos dizer que no momento onde a idéia sai do “caos”, onde tudo ainda é indiferenciado e inconsciente, e se torna uma idéia consciente (“colapso da função de onda”), ela vai desde ai ser influenciada pelos padrões ideológicos preponderantes em nossa sociedade e, dessa forma, há um impedimento de que novas idéias subversivas sejam adotadas. Não há repressão propriamente dita, existe antes uma diminuição da capacidade de criação, de criatividade. É necessário que, em certo momento, possamos deixar qualquer tipo de regra e norma para criar e também para chegarmos ao nosso si-mesmo, pois “tat twain asi” (isto é você), em outras palavras, chegar ao que somos (não como fossemos sempre os mesmos por trás da forma, mas a nossa singularidade que é móvel, por ser uma complementaridade entre consciência e inconsciência). Para tal, temos que abandonar nossos pré-conceitos e a unilateralidade de nossa percepção, seja ela racional (pensamento e sentimento) ou “irracional” (intuição e sensação), e chegar ao que os hindus chamavam de tapas, que é uma espécie de estado de “auto-incubação”, onde introverte-se, não para ter contato com o pensamento, mas com a imaginação, e através dela podem surgir os símbolos que nos permitem integrar e congruir aspectos opostos de nossa psique.
A transmutação do ser e da cosmovisao dominante são imperativos essenciais para o anarquismo dar conta da realidade a qual visa estar construindo, não necessitando que suas revoluções sejam temporárias e o sucesso se estabeleça apenas em exercer “sua” vontade de potencia, mas que também não fique apenas no lado paternalista representado por Zeus, ou maternalista representado por Demeter, que foi na mitologia grega uma “protetora das criaturas jovens e indefesas”. Justamente esta transmutação do ser da ao individuo a possibilidade de estabelecer para si uma ética que possa estar, até mesmo, em contraponto a sociedade, quando assim for necessário, chegando a sua própria Vontade, ou a seu próprio ser, que jaz no seu mais intimo e profundo inconsciente.
Era exatamente no ponto da união de opostos (conjuctio oppositorum) ao qual eu gostaria de chegar. Se por um lado o anarquismo histórico sofreu criticas ao seu altruísmo, por Nietzsche - pela sua coletividade homogênea, que em alguns momentos históricos foi próxima a do marxismo - e aproximou-se de um altruísmo que em alguns momentos foi similar ao cristão; por outro o anarquismo ontológico corre o perigo de perder o próprio amor e responsabilidade social e ser dominado pela necessidade de poder, desligando-se de qualquer pretensão de melhoria social, ignorando a realidade coletiva na qual está inserido, perpetuando um individualismo pouco produtivo (ou pela sua própria introversão característica, abstrair-se totalmente da realidade objetiva).
Precisamos então unir ao anarquismo histórico a potencia (palavra distinta de poder) e a imaginação, e ao anarquismo ontológico a necessidade da coletividade, do altruísmo e da modificação social e econômica. Juntando a racionalidade a irracionalidade, teremos a chance de não ignorar o inconsciente coletivo tal como, também, não ignoraremos a realidade do cotidiano que se mostra e se desvela (alethéia) no mundo e em nossas relações. Necessário é, portanto, viver o anarquismo no cotidiano, se mutando, procurando nossa própria singularidade (e nesse ponto, as zonas autônomas temporárias de Bey podem ser um grande avanço), e também se organizando para manter a lógica, a estratégia e uma autodisciplina para que possamos ter bons resultados intersubjetivos de modificação do cotidiano, começando e incluindo, obviamente, a nos mesmos.



¹ - Dentro do anarquismo ontológico, termo cunhado por Hakim Bey, eu considero também as antigas vertentes gnosticas antiautoritárias.
Por Anarquismo Ontológico, entendo um anarquismo que vai lidar com o “discurso do ser anarquista”, ou seja, com a tentativa de resgate da essência anárquica dentro do individuo, seja uma essência metafísica ou psicológica (que não necessite do estado como repressor da singularidade). Um exemplo de pratica do anarquismo ontológico contemporâneo seria o chamado Terrorismo Poético, que Hackim Bey entende como ”ações não-violentas em larga escala que podem ter um impacto psicológico comparável ao poder de um ato terrorista - com a diferença de que o ato é de mudança de consciência (...)”. O anarquismo ontológico vai estar voltado, sobretudo, para o momento presente ao invés de idealizar uma sociedade futura, como cita Bey: “Dizer ‘só serei livre quando todos os seres humanos (ou todas as criaturas sensíveis) forem livres’, é simplesmente enfurnar-se numa espécie de estupor de nirvana, abdicar da nossa própria humanidade, definirmo-nos como fracassados”. E, como citei no inicio, este modo de anarquismo vai lidar com a psique, onde “O ataque é feito às estruturas de controle, essencialmente às idéias”.

² - Kairotico se refere ao tempo mítico (ou não-linear, pode ser representado através do circulo, ver também o tempo do matemático Kurt Godel) o qual os gregos diferiam do tempo cronológico, ou seja, histórico. Dessa forma a divisão entre anarquismo histórico e kairotico se justifica enquanto unidades distintas dentro do campo do anarquismo.

³ - http://pub14.bravenet.com/faq/show.php?usernum=1175349607&catid=4851#q9 (aqui encontra-se uma luz sobre o conceito de superposição coerente.

sexta-feira, janeiro 27, 2006

Coisas

Dois trecos de palavras coisadas:

Confronto

O andar meio descarrilhado,
O ouvido sujo, a menta abastada,
Circunlóquio de palavras, que não dizem nada.

A confusão, que caminho?
Eu sei.
Outros dias no radio escutarei pelo que passei
Toca. No meu ouvido. Toca.

Conta o conto que entorta,
Ainda mais,
A minha cabeça,
Meu violão,
Que entoa idéias sem tanta maestria,
Mas o que fazer?
Sei que amo você

Ah, se o tempo, e se o espaço,
Se dividissem por acaso
Eu me tornaria dois
Só para evitar a repartição
Reflexo da partição, desse treco original.

Não existe tal coisa,
A qual?
Só se for num momento sublime.

Quero mudar para lá
Onde a cachoeira só cai
Em uma direção
Que prazer! Que beleza!
Não preciso de erudição,
Nem de estética, nem de poética,
Lá tudo cai, em uma só,
Direção.

--

Vontade

Minha vontade era ficar a todo instante,
Ou só, ou em sua companhia
Não me importa tanto os Outros,
- ou finjo de maneira lunática que não importam -

Luto ainda que desesperadamente,
Para ter algum contato,
Tenho medo da loucura, da solidão e da agonia,
Se eu me prender em mim mesmo,
E não conseguir sair?
E se ficar cercado de demônios,
Que não me permitam progredir?

Maldito papo neurótico,
Mas o que fazer?
Tenho vontade de chorar,
Vontade de não ser,
Apenas, e apenas, em alguns momentos,
Incertos.

Tenho vontades, as vezes, de fugir,
Mas não existe nenhum caminho a seguir,
Estou parado dentro de minha mente,
E aqui não existe espaço,
Ou qualquer coisa congruente
So os conflitos momentâneos,
Que me deixam olhando de um lado para o outro,
Dessa rua escura,
Esperando o momento do confronto.

E por isso, por esse ato desgraçado,
Que prefiro viver abarrotado
De momentos, e não de pensamentos.
Mas minha extroversão primitiva e bárbara,
E tão temível quanto, minhas idéias e meus prantos,
Absurdos e injustificados.

quarta-feira, janeiro 25, 2006

O ovo e a galinha


Quem veio antes : O ovo ou a galinha?

Fui comer um ovo cozido e eis que esta pergunta passa pela minha cabeça, então formulei algumas respostas:

A – O ovo: Porque de acordo com a evolução biológica de Darwin, o ovo da galinha viria de outro animal que estaria antes da galinha na cadeia da evolução.

B – Os dois sempre existiram: Porque os dois já existiam enquanto idéia. “Universalis sum ante rem” (universais existem antes da coisa).

C – A galinha: Porque ovo não foi feito da galinha, por isso, ate a galinha nascer efetivamente como espécie distinta o ovo não pode ser considerado um “ovo de galinha” e apenas um ovo, como mais tantos, o que não quer dizer nada.

D – Nao da pra saber: Porque não podemos comprovar se existe ou não galinha dentro do ovo enquanto existe ovo, portanto, de acordo com as experiências do “Gato de Schrödinger”, podemos dizer que a galinha existe e não existe ao mesmo tempo.

E – Todos as alternativas anteriores: Opinião discordiana.

quarta-feira, janeiro 18, 2006

1 ANO!


Este dia é pra ser registrado na história!!! hehe!!

Afinal de contas faz um ano que estou do lado do maravilhoso escritor deste blog!!

E vim aqui pra que todos que por aqui passam que eu AMOAMOAMO muitoooooo esta persona de codinome FernandoR.

Fê esta foi mais uma pequena invasão pra dizer o quanto Te AMO e o quão especial é você pra mim.

Dias e dias enfim
Tornam-se eternidade em mim
E nesta realidade pensada
Nada existe e tudo pode existir.
1 segundo é um ano
1 segundo é um século
1 dia é um segundo
O tempo não é
O tempo não pára.

O que foi então senão vida?
O que é a vida senão história?
O que é história senão vida?
O que é nossa história sem nós?
O que somos nós sem você?

Talvez não sejamos
Talves estejamos sendo
Sendo alegria
Sendo amizade
Sendo inovação
Sendo carinho
Sendo compreensão
Sendo diálogo
Sendo crescimento

Sendo AMOR
Sendo União
Sendo você
Sendo eu
Sendo nós dois
Sendo vida
Sendo história
Sendo Eternidade.


E mais uma vez lhe digo TE AMO
Estou te amando
E espero te amar num tempo nosso, que nós construímos continuamente.

Ass: Lidi Lidi

quinta-feira, janeiro 12, 2006

E quando..


e quando nenhuma palavra pode falar o que voce sente? e quando voce nao sabe expressar ou acha impossivel expressar um sentimento ruin... e quando vc quer falar muito mas nao consegue nem pensar... e quando voce nao tem vontade de estar onde esta... e quando voce nao sabe onde quer estar.. e quando voce acha que qualquer coisa seria ruin... e quando.... e quando lagrimas escorrem por seu rosto e voce nem sequer sabe o motivo.. e quando.. e quando..

sábado, janeiro 07, 2006

Silésio





Uma poesia de Silésio poetizando a relatividade de Deus exposta por Eckhart:





Sei que sem mim Deus não pode viver um instante,
Se eu perecer, deverá necessariamente entregar o espírito.

Sem mim Deus não pode criar um verme sequer:
Se com ele eu não o compartilhar, destruição será seu fim.

Sou grande como Deus, pequeno ele é como eu:
Não pode estar acima de mim e nem eu abaixo dele!

Deus é fogo em mim e eu sou dele a claridade:
Não estamos nos totalmente unidos no âmago?

Deus me ama acima dele e eu acima de mim o amo,
Tanto lhe dou eu quanto ele de si me dá!

Deus é Deus e homem para mim, eu lhe sou homem e Deus.
Sacio-lhe a sede e ele me ajuda nas precisões.

Deus se adapta a nos, é para nos o que dele queremos;
Mas, ai de nos, se não nos tornarmos para ele o que devemos.

Deus é o que é, eu sou o que sou:
Conhecendo bem um, conhecerás a ele e a mim.

Não existo fora de Deus, nem Deus fora de mim,
Sou dele brilho e luz e ele é meu ornamento.

Sou o ramo no Filho que Deus planta e nutre,
O fruto que de mim brota é Deus, o Espírito Santo.

Sou criatura e filho de Deus e ele é meu filho e por sua vez:
Como pode acontecer, porém, que ambos sejamos as duas coisas?

Sol devo ser e devo com meus raios
Pintar o mar sem cor de toda a divindade.

sexta-feira, janeiro 06, 2006

Ainda Leary

Aqui se trata da candidatura de Timothy Leary a governador da california: (entrevistado por reporteres).

- Qual será sua plataforma?

- O estado da Califórnia ddeve ser dirigido como uma corporação bem-sucedida. Ao invés de extorquir impostos dos cidadãos, um estado bem governado deve distribuir os lucros. Qualquer um suficientemente inteligente para viver na California deveria receber dividendos.

Entreguei a eles um programa político de três paginas, contendo os planos para a eliminação de impostos, das frivolidades burocráticas, e para conversão das escolas do segundo grau, faculdades e penitenciárias em instituições lucrativas. A votação eletrônica direta substituiria a eleição de representantes, resultando na descentralização e aumentando a autonomia local.

- Você sabe que poderá virar a cabeça de muita gente com essas idéias? - perguntou um dos operadores de câmera.

Rosemary disse:

- É disso que tenho medo.


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Após Timothy Leary foi preso e fugiu de uma Colonia Penal na California. Seus planos e trajetos de fuga são traçados reduzidamente no "flashbacks" e existe um livro que ele explica tudo detalhadamente, mas esqueci o nome do livro...
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Então fiquem com o famoso : "Turn On, Turn In, Drop Out" ou "Ligar-se, Sintonizar-se, Libertar-se" :

"Ligar-se significava voltar-se para dentro a fim de ativar os equipamentos neurais e genéticos. Tornar-se sensível aos muitos e diferentees níveis de consciência e aos botões específicos que os acionam. As drogas representavam uma maneira de conseguir isso."

"Sintonizar-se significava interagir harmoniosamente com o mundo externo: exteriorizar, materializar, expressar as novas prespectivas internas."

"Libertar-se sugeria um processo ativo, seletivo e suave de separação de compromissos involuntários ou inconscientes. Libertar-se significava auto-confiança, descoberta da singularidade individual, compromisso com a mobilidade, escolha e mudança."

quarta-feira, dezembro 21, 2005

Timothy Leary is back.



Bem, já que leio o Flashbacks do Timothy Leary, nada mais justo que transcrever partes interessantes do livro no blog, ai vai uma entrevista de emprego dele com McClelland de Harvard após Timothy ter escrito os livros “The interpersonal diagnosis of personality” e “existencial transaction”


Expliquei que existencial significava que a psicologia deveria trabalhar com pessoas em situações de vida reais, como o trabalho de campo de um naturalista observando o comportamento a partir de pontos estratégicos. Disse-lhes que deveríamos tratar as pessoas da maneira como são na realidade, e não impor a elas um modelo medico, ou qualquer outro modelo que seja.
McClelland acendeu um charuto italiano trançado e fez um gesto para que eu continuasse.
- Por transaction – disse eu -, quero dizer que os psicólogos não devem permanecer a parte de seus temas. Devem se envolver e se engajar nos eventos que estudam e entrar em cada experimento preparados para mudar, tanto quanto as pessoas que eles pesquisam, ou mais.
McClelland levantou uma sobrancelha e perguntou:
- O próprio cientista deveria mudar?
Pegou meu trabalho e o folheou com atenção. Servi mais vinho e fiquei imaginando se um dia ainda poderia viver de psicologia.
McClelland tirou os óculos e olhou para mim com um olhar ainda mais grave:
- O que você esta sugerindo neste livro é uma drástica mudança no papel dos cientistas, professores e terapeutas. Em vez de processarmos temas, estudantes e pacientes utilizando padrões uniformes e reconhecidos, deveríamos assumir uma abordagem igualitária ou de intercambio de informações. Não é isso?
- É isso que eu tenho em mente.
- Presumo que você espera que alguma organização educacional de reputação incontentável o contrate para implantar projetos de pesquisa práticos, que demandarão que a própria instituição mude.
- É isso mesmo – admiti.
Conclui que já estava na hora de pegar meu trabalho, montar na bicicleta de Susan e pedalar de volta para casa.
McClelland nos serviu mais vinho. Acendeu outro charuto e disse:
- Certo, acho que estou em condições de lhe oferecer um emprego em Harvard.
- Serio?
- Estou intrigado – respondeu o professor McClelland – Não há duvida de que o que você esta defendendo será o futuro da psicologia americana. Você não esta sozinho, há diversos figurões de nossa área – como Benjamin Spock, Carl Rogers, Abraham Maslow, Harry Stack Sullivan, Milton Gloaming – insistindo em que devemos enfatizar o potencial interno e o crescimento pessoal por meio da autoconfiança; assim, os pacientes não ficariam dependentes de médicos e dogmas autoritários. Você esta falando de estratégias inovadoras. Você é exatamente o que precisamos para sacudir as coisas em Harvard.



Pois é, parece que algumas coisas retrocederam de lá pra cá.. Hoje o predomínio na psicologia da escola Lacaniana volta ao núcleo familiar e abandona novamente a sociedade, voltamos ao período feudal onde a família ainda era o grande núcleo fundamental enquanto do outro lado da briga esta a ciência clássica e seus condicionamentos adaptativos a sociedade de consumo... A pergunta fica no ar, precisamos de um novo Boom na psicologia?

sexta-feira, dezembro 16, 2005

Reflexao.


Não, a ciência não vai nos salvar. A evolução e o progresso não vão nos salvar. O mundo pode acabar. Não, a ciência não vai nos salvar.. e o tempo nublado la fora chora, a velha senhora que trabalha doze horas por dia para dar uma comida de segunda a seus filhos e então enchê-los de novela numa televisão 14 polegadas tambem chora, em uma sala suja que não pode varrer, pois ficou o dia inteiro trabalhando para outros. As lagrimas se transformam em decepção. Decepção pela pretensa neutralidade da ciência, decepção pela apatia e pelo tempo nublado, pelos sonhos não vivenciados, pelos sonhos sublimados, pelos sonhos catexiados em uma constante repressão. Exista, por favor, RESISTA, so mais um segundo, comigo, segure minha mão, eu sei que você pode! Eu sei! Agora! AGORA!

Continuamos afirmando como loucos que a pobreza, a fome a miséria são produtos do desejo do miserável e do faminto de se esfomear e se degradar, continuamos afirmando que tudo isso é vontade do iluminado -obscuramente iluminado -e apontamos os dedos até as nossas tripas para jogar a culpa nos outros e moralizar-nos, ó pai, somos tão normais e medianos! Estes outros, - a escoria - é feiúra e degradação! Não existe relação econômica mais, não existe relação social mais, não existe mais nada! Mais nada! Tudo é produto da infância do mundo, quando tudo se determinou, lá onde - ai sim - existia mudança... Não mais... A ciência não vai nos salvar. Vamos para o labirinto dos encantamentos, vamos forjar nossa cientificidade e amem, pasmem, olharão cabisbaixos nossos netos, pois o mundo não existe mais porque a ciência... a ciência não nos salvou.

segunda-feira, dezembro 12, 2005

De quem é esse escrito?

Por trás dessa infância do individuo temos a promessa de uma imagem da infância filogenética- uma imagem do desenvolvimento da raça humana, do qual o desenvolvimento do individuo é, de fato, uma recapitulação abreviada, influenciada pelas circunstancias fortuitas da vida. Podemos calcular como é apropriada a asserção de Nietzsche de que, nos sonhos, “acha-se em ação uma relíquia primitiva da humanidade que agora já mal podemos alcançar por via direta”; e podemos esperar que a analise dos sonhos nos conduza a um conhecimento da herança arcaica do homem, daquilo que lhe é psiquicamente inato.
























Não amigos, isto não é uma escritura do doutor Jung e sim de nosso amigo barbudo, não Marx, mas sim Sigmund Freud. =)

quinta-feira, dezembro 01, 2005

Série de 3 poesia: "do buraco a vida"




Buraco

A existência existe,
Bem aqui, bem aqui
Mas onde estou para conferir?
Tudo parece estar lançado no vácuo
E só as pequenas-grandes dores
A pequena-grande depressão consegue me ver,

Me escute, tin tin,
Bate o coração, mas a vida
Será que bate? Anda? Rebate?

Buraco negro abissal, tão pequeno e,
Descomunal, pois o desconheço,
Não vem idéias, não vem vida,
Não vem símbolo, não vem sentido,
Não vem tesão,
Bate, bate coração

E se bater faça nascer de novo pequenas flores,
Nos pequenos gestos, nos pequenos trejeitos,
Nos grandes momentos da vida
Tire de mim o que trava minha vida,
Quero morder de novo,
Abocanhar a existência


Buraco II

Os sonhos vão pela barca,
Seguindo a maré e as tempestades
E o fulcro entre o eu e o outro se insinua
No bater do sol e da agonia

Aos poucos a distancia aumenta aos poucos
A terra já bem pouco vista
O choro e os cantos melancólicos
Fazem chover pregos e solstícios
É a escatologia do apocalipse,
Eis um momento inesquecível

Toda luta pro viver parece agora em vão,
O conhecimento, a realidade, a ilusão.
No olhar ao horizonte agora vago
O transtorno que não tem sentido
Só a tristeza momentânea e mórbida
Entre intempéries mentais me mordo
Em qual Eon estará a salvação?
A luta entre eu e eu
Estou entre o inferno e a maldição

Me sinto aqui neste fogo,
Espetacularmente solipsista,
Entre marés de ódio e altruístas
Sento na praia e vejo o barco vagar
Para nunca...
Nunca mais ele voltar.


Ser-Só

E num canto vazio <--> o pó, as teias de aranha e o sol,
Brilhando em
Todo seu...............e
Resplendor <---> a dor, e as barreiras que evitam a vida, evitam a cor e os delírios do Éden, e os santos caídos na desgraça.
O espaço sideral, sideros, estelar, Nuit nos olha e vem me encantar, com seu brilho e toda sua imensidão, sou Nuit num universo de estrelas, nesta linda e sacro-santa constelação,
Estou
E agora,
Brilho e vivo,
...............................Morro,
................................Sofro,
.................................Adoro,
..................................Desejo,
...................................Existo,
....................................Junto, num <--
Atavismo amorfo
Que,
Me revela
Quem sou........................... um triste alegre ente, lotado de nous.