quinta-feira, março 19, 2009

25 ANOS DE REDUÇÃO DE DANOS

Vou dividir o texto em 3 postes para facilitar a leitura. Eis, então, a parte I:

- E no final comentários sobre o texto.

Vinte e Cinco Anos de Redução de Danos: A experiência de Amsterdã (Tradução Fernanda G. Moreira)
Ernst Buning

Introdução:

Ao olhar para a história da redução de danos, levantam-se automaticamente as perguntas: “quem a desenvolveu? Onde? Quando? E por que?” Respondendo a estas perguntas: os primeiros a desenvolverem políticas de redução de danos foram especialistas, autoridades locais e representantes de usuários de drogas, em algumas cidades européias. Tudo começou nos anos 1970 em Amsterdã e Roterdã, na Holanda e ema algumas cidades britânicas, como Liverpool. Outras cidades européias como Zurique, na Suíça, Frankfurt, na Alemanha e Barcelona, na Espanha começaram mais tarde. Todas estas cidades enfrentavam problemas sérios com farmacodependentes, comunidades protestando, rede de atendimento inadequada e sensação de impotência e ineficácia da força policial. A redução de danos, com seu foco no pragmatismo, pareceu ser a estratégia mais lógica a ser seguida.
Muito frequentemente, acredita-se que a redução de danos seja uma abordagem “progressista” ou “liberal”. Indubitavelmente, existem aspectos progressivos e liberais em sua maneira de focar os direitos humanos dos usuários de drogas, e ao aceitar que algumas pessoas não estão prontas para interromper este uso. Mas ao mesmo tempo, a redução de danos é uma alternativa para gerenciar e controlar um problema social complexo que pode ser um peso para muitas comunidades. Com as estratégias da redução de danos, a comunidade está em contato com um grupo de pessoas que causam muitos problemas. Adotando atitudes de empatia, compreensão e não-exclusão, os primeiros passos são dados para reduzir o dano que os usuários de drogas causam ao seu ambiente. Fornecendo informações sobre o HIV e dando-lhes meios de proteger-se e a outros da contaminação, a comunidade conserva vidas e dinheiro. A redução de danos tem pouco a haver com a “esquerda” ou “direita”, “progressista” ou “conservador”. É uma estratégia muito prática para controlar um problema complexo. A melhor maneira de fazer isto é envolver as pessoas em questão, isto é, os usuários de droga. Isto só pode ser conseguido mostrando respeito e empatia. É simples assim.
Neste capítulo, eu me deterei em Amsterdã, pois esta é a cidade onde eu trabalhei nos últimos 25 anos, e testemunhei o nascimento da redução de danos e fui capacitado para executar uma série de intervenções neste sentido.
Atualmente, a redução de danos é completamente aceita como a principal abordagem dos problemas relacionados ao uso indevido de drogas em meu país. Algo que começou há 25 anos como um experimento, agora se tornou a principal corrente de pensamento. Quem pensaria isto, há 25 anos?

As Coisas Saíram Fora do Controle...

Nos anos 1970, o problema do uso indevido de drogas em Amsterdã cresceu consideravelmente e em 1978 as coisas saíram fora de controle. O que aconteceu? Quando a heroína foi inicialmente introduzida em Amsterdã em 1972, somente alguns hippies, que já usavam o ópio, experimentaram a heroína. Mas logo chegaram novos grupos de usuários de heroína, entre os quais, os jovens do Suriname. O Suriname é uma antiga colônia holandesa, que se tornou independente em 1975. No período de 1970 a 1975 muitas pessoas vieram para a Holanda, esperando um melhor futuro social e econômico do que no recém-independente Suriname. Naqueles dias, a Holanda enfrentou sua primeira crise econômica após a guerra. Nós também tivemos uma crise de energia por causa de um boicote de petróleo dos países árabes e o desemprego alcançou um nível muito elevado. Desnecessário dizer que os novos imigrantes do Suriname não foram recebidos com braços abertos. Eles enfrentaram problemas sérios, tais como o racismo, o desemprego e a falta de moradia. Alguns deles fizeram contato com membros da comunidade chinesa que, naqueles dias, eram responsáveis pelo tráfico de heroína. Um número substancial de jovens imigrantes do Suriname era recrutado para trabalhar como traficantes nas ruas e logo muitos deles ficaram dependentes de heroína. Em 1978, estimava-se haver cerca de dois mil dependentes de heroína originários do Suriname, sem qualquer contato com a rede de atendimento, envolvidos seriamente com a criminalidade, gerando grande apreensão pública na região central de Amsterdã.
Outro grupo que surgiu era formado por jovens das famílias de classe operária. Saíram cedo da escola e não conseguiam encontrar trabalho. Tinham uma visão muito negativa da vida, não confiavam no sistema e encontraram na “carreira” do heroinômano uma boa alternativa a ficar em casa fazendo nada.
Um terceiro grupo de heroinômanos era compostos pelos farmacodependentes que vieram de outras partes da Europa à “Meca” das drogas, Amstredã. Por causa de seu clima tolerante, se tornou internacionalmente famosa como a Meca das drogas e muitos dependentes químicos que se sentiam reprimidos e mal entendidos em seu próprio país, julgaram apropriado vir a Amsterdã.
Tudo isto junto, em 1978, havia aproximadamente dez mil dependentes de heroína em Amsterdã e somente muito poucas instituições para dar-lhes ajuda e suporte. A comunidade não aceitou mais por muito tempo o incômodo causado pelos dependentes químicos e começou a mobilizar e pressionar as autoridades locais. Em outras palavras: as coisas saíram fora de controle e era necessária alguma ação.

Agindo

O conselho da cidade de Amsterdã solicitou ajuda da Secretaria de Saúde Municipal local (GG&GD) para resolver a bagunça. Em sua missão, o GG&GD assume que é responsável pela saúde pública da população de Amsterdã e também por “assegurar a continuidade da vida pública em caso de grandes catástrofes”. Cuidar da situação descrita a respeito do uso problemático de drogas se encaixa na missão do GG&GD. Definindo as drogas como um problema de saúde pública, foi encontrada uma maneira de lidar com os problemas sociais, médicos e judiciais relacionados ao uso da droga em uma estrutura bem conhecida e estabelecida. A estratégia foi desenvolvida com os seguintes elementos:
. É preciso entrar em contato com todas as pessoas que usam drogas e causam problemas a si e/ou a outros.
. É preciso estudá-los para entender qual é o problema e que tipo de ajuda precisam.
. É preciso desenvolver um sistema de registro para acompanhar os pacientes.
. É preciso mapear todas as instituições de assistência e otimizar o seu uso.
Baseando-se nestes pontos simples, não foi tão difícil desenvolver ações concretas. Entrar em contato significa que nós tivemos que mudar nossa atitude: nós não poderíamos continuar por muito tempo esperando em nossos escritórios que os usuários de droga viessem do nosso jeito. Não, tivemos que sair para encontrá-los nos lugares que eles estavam. A fim de conhecer as necessidades do farmacodependentes, tivemos que mudar nossa atitude com relação ao tratamento oferecido a eles. Nós pensávamos que o tratamento voltado para a abstinência era a melhor opção, mas a maioria dos heroinômanos não achava o mesmo. A nossa oferta não seria aceita, então tivemos que mudar nosso jeito para encontrar as necessidades deles. Nossa oferta teve que se adequar à demanda. Finalmente, tivemos que otimizar nossa cooperação. Talvez esta tenha sido a parte mais difícil. Nós havíamos criado nossos próprios reinos e agora precisávamos otimizar nossa oferta. Desnecessário dizer que todas estas ações não foram feitas do dia para noite. No parágrafo: “estratégias de redução de danos”, três intervenções serão detalhadas: programas de redutores de dano nas ruas, terapia de substituição e troca de seringas.

Não Podemos Agir Sozinhos...

Quanto um problema de drogas sai fora de controle da forma como aconteceu em Amsterdã, é óbvio que nenhuma organização consegue dar conta agindo isoladamente. Havia os jogadores principais em Amsterdã, ié, a Secretaria de Saúde Municipal (GG&GD), o centro de Jellinek, algumas ONG menores e naturalmente a polícia e a prefeitura da cidade. A prefeitura da cidade organizou reuniões regulares onde todas as partes envolvidas se encontravam. Estas reuniões eram essenciais para firmar um consenso das intervenções a serem realizadas e estabelecer uma divisão de trabalho apropriada. Foi acordado uma tentativa de incluir clínicos gerais no projeto e –quando necessário – treinados. Aproximadamente duzentos dos quatrocentos clínicos gerais passaram a prescrever a metadona aos heroinômanos. Acordos foram feitos com as clínicas de metadona, os pacientes “difíceis” podiam sempre ser encaminhados do clínico geral para a clínica. Isto tirou muito do peso colocado nos ombros do clínico geral e ajudou-nos a envolver muitos deles no projeto. Um registro central, também foi criado a fim de impedir prescrição duplicada.
Era fácil cooperação entre as instituições? Absolutamente não. Existiam muitos pontos de vista diferentes, muitas diferenças ideológicas e em muitos dos casos, as instituições estavam receosas de perder dinheiro ou poder (ou ambos) ao se associar a outras instituições. Entretanto, todos perceberam que nenhum de nós teve a solução ideal e que dependíamos uns dos outros para controlar o problema, então se criou uma estratégia equilibrada. Porque afinal, todos queríamos o mesmo: reduzir os problemas relacionados ao uso de substância ilícitas.

A Ameaça Está Aqui Dentro

Exatamente quando nós pensávamos que o problema estava controlado, surgiu um problema novo: a AIDS. Sem ser notada, já tinha se instalado em Amsterdã, sendo transmitida de uma pessoa para outra por meio das agulhas e seringas contaminadas e do sexo desprotegido. Inicialmente nós pensávamos que “naturalmente” Amsterdã seria poupada da epidemia de HIV. Nós tínhamos uma rede de atendimento tão boa, tínhamos contatado mais de 80% dos farmacodependentes, as agulhas e seringas estavam livremente disponíveis, assim por que nós deveríamos nos preocupar? Bem, estávamos errados! Os primeiros estudos realizados em 1986 mostraram uma prevalência do HIV entre as prostitutas dependentes era da ordem de 30%. Nós ficamos chocados e levou algum tempo para nos darmos conta das conseqüências. Mas, uma vez conscientizados, pusemos muitos de nossos conflitos ideológicos de lado e começamos a trabalhar duramente. Expandimos a troca de seringas, realizamos campanhas intensivas de informação sobre sexo seguro e técnicas mais seguras de injeção e disponibilizamos preservativos em todos os lugares onde os usuários de drogas poderiam ser encontrados. Infelizmente, para muitos farmacodependentes, estas ações vieram tarde e estes morreram de AIDS antes que uma medicação eficaz estivesse disponível. Felizmente, outros passaram a usar o sistema a seu favor, permaneceram soronegativos e assim sobreviveram.


DROGAS EM AMSTERDÃ
Coffeeshops

Todos que estiveram em Amsterdã, viram nossos coffeeshops. Estes são bares onde a cannabis pode ser comprada e usada. O consumidor pode comprar até cinco gramas por vez. O varejista tem um menu com uma visão geral dos vários produtos e uma descrição dos efeitos. Ele tem que seguir determinadas normas e regras a fim de manter sua licença:
. Proibida a venda de drogas pesadas (cocaína e heroína).
. Proibida a venda aos menores de 18 anos.
. Proibida a propaganda.
. Não incomodar a vizinhança.
A policia verifica regularmente os coffeeshops para ver se trabalham de acordo com o regulamento. Caso contrário, o lugar é fechado.
Por que nós temos estes coffeeshops? É porque nós pensamos que é legal ficar “chapado”? Naturalmente não. Nós temos estes coffeeshops porque acreditamos que é apropriado separar o mercado das drogas pesadas do mercado das drogas leves[1]. Isto significa que as pessoas que querem usar a cannabis podem fazê-lo em um ambiente relativamente seguro. Não haverá ninguém “empurrando”, querendo que o usuário de cannabis troque por drogas mais pesadas e não haverá ninguém vendendo mercadorias roubadas e nenhuma possibilidade de inaugurar uma ficha criminal se a policia chegar. O interessante é que a existência dos coffeeshops na Holanda não trouxe um consumo mais elevado de cannabis do que nos países ao redor. O consumo regular de cannabis no EUA é duas vezes mais elevado que na Holanda. Isto prova que a disponibilidade das drogas é somente um fator para que as pessoas tomem a decisão de usar drogas ou não. A Holanda tem sido criticada por ter coffeeshops, mas, ao mesmo tempo, muitos outros países têm uma política similar para as drogas leves. Em numerosos países, a polícia é condescendente para usuários individuais de cannabis, pois se percebeu que seria muito custoso para o sistema judiciário se todos os usuários de droga leve fossem presos e processados.
Em 2003, a cannabis foi disponibilizada para o uso terapêutico na Holanda. Os médicos agora podem prescrevê-la, por exemplo, para aliviar os efeitos colaterais da quimioterapia ou da farmacoterapia para a AIDS ou para o alívio dos sintomas da Esclerose Múltipla. Com uma prescrição médica, os pacientes podem obtê-la na farmácia. A cannabis necessária para este tipo de tratamento é cultivada em dois centros na Holanda sob a supervisão estrita do Ministério da Saúde Holandês.

Cavalgando o Dragão.

Embora a epidemia de AIDS tenha golpeado Amsterdã duramente, poderia mesmo ter sido muito pior se nós não tivéssemos assim muitos dependentes que “cavalgam o dragão” mais do que injetavam. O que aconteceu? Esta é uma antiga história da cultura surinamesa. Nesta cultura, pôr uma agulha em seu braço é um grande tabu. Assim os jovens imigrantes do Suriname entraram em contato com a comunidade chinesa e foram introduzidos à heroína, pediram aos chineses alternativas para injetar drogas. Os chineses ensinaram-lhes o método de cavalgar o dragão: a heroína é posta sobre um pedaço de papel-aluminio. Um isqueiro é preso sob a folha e aceso. O papel esquenta e a heroína começa a soltar fumaça. A folha é presa parcialmente em um ângulo de modo que a heroína escorra para a parte inferior do papel. O fumo (o drgão) é inalado por meio de um tubo. O usuário segue a fumaça e assim “cavalga o dragão”. Na língua holandesa, esta forma de fumar é chamada chinesing. Devido ao fato de muitos traficantes de rua cavalgarem o dragão, esta maneira de consumir drogas virou moda e logo muitos dependentes de heroína que eram holandeses nativos e também “turistas das drogas” começaram a imitar o comportamento dos traficantes de rua e trocaram o hábito de injetar pelo fumo da heroína. No fim dos anos 1980, estima-se que uns 60% dos heroinômanos estavam fumando. Também por causa da ameaça do HIV, o número dos usuários da forma injetável caiu consideravelmente.

Cocaína

Quando nós fizemos as primeiras saídas do projeto “Metadona de Ônibus” em 1979, revelou-se que 50% de nossos clientes usavam cocaína regularmente. Isto significa que a cocaína faz parte da cena das drogas pesadas há muito tempo. Muitos dependentes de drogas pesadas seguiriam programas de metadona reduzindo o uso da heroína, mas continuavam o uso de cocaína. No fim dos anos 1980, foi introduzido o hábito de fumar a pasta-base da cocaína. Inicialmente feito em grupo, com cachimbos d´água cheios de rum, o uso logo passou a ser individual. Muitos usariam o método de “seguir o dragão”. Pegariam a cocaína e misturá-la-iam com o bicarbonato de sódio e um pouco d´água. Então a aqueceriam e a nova substância seria posta sobre a folha de alumínio e fumada. Isto era “crack avant la lettre”. Ainda hoje, a cocaína é usada desta maneira por um grupo de dependentes de drogas pesadas. Em Amsterdã, os dependentes de drogas pesadas sempre foram usuários de múltiplas drogas. A heroína era a droga principal, que começou tudo, mas a cocaína e os benzodiazepínicos sempre tiveram um papel muito importante.

Exemplos de Intervenções de Redução de Danos: Redutores de Danos nas Ruas, Metadona e Troca de Seringa.

Se Eles Não Vem a Você....

Muitos usuários de drogas não estão interessados nos serviços tradicionais de tratamento orientado para abstinência. Estes vêem este tipo de serviço como paternalista, forçando-os a fazer coisas que não estão prontos para fazer. Se isto é verdadeiro ou não, não é importante. Importante é que esta é a imagem dos serviços tradicionais. Assim, se os usuários de drogas não vierem a nós, nós temos que ir a eles. Em Amsterdã nós fizemos isto de muitas maneiras diferentes. A primeira é o bem conhecido “Trabalho de Esquina”. Os trabalhadores (redutores de dano) que são próximos do ambientes das drogas, por causa do seu estilo de vida ou por causa de sua própria história de uso drogas, vão aos lugares de uso de drogas. De um lado, eles são parte disto, no entanto, de outro lado, representam o sistema estabelecido e dão forma a uma ponte. Fornecem intervenção em crises, dão informação e suporte e encaminham os farmacodependentes às instituições de atendimento. A segunda maneira em que nós fizemos o contato foi nas delegacias de polícia. A polícia de Amsterdã procurou o GG&GD com um pedido. Existiam muitos problemas com os dependentes de heroína presos que teriam sintomas de síndrome de abstinência, tais como vômitos, pela interrupção abrupta do uso de heroína. Para a polícia era muito difícil lidar com eles e queriam que um médico do GG&GD examinasse todos os dependentes de heroína presos. Este programa começou em 1977. Atualmente entre 1.500 e 2.000 dependentes de heroína presos foram examinados, receberam medicação, tal como a metadona, para minimizar os sintomas da síndrome de abstinência, foram feitos encaminhamentos e – quando necessário – um assistente social foi encarregado de cuidar de problemas sociais mais imediatos. Aproximadamente 50% das pessoas vistas na delegacia de polícia não estavam em contato com a rede de atendimento regular. Este programa gerou oportunidades excelentes de “vender” as instituições de atendimento. Uma terceira maneira de estabelecer contato com os dependentes de heroína era nos hospitais. Os hospitais gerais enfrentavam grandes problemas com os farmacodependentes em suas divisões. Freqüentemente, a equipe médica não sabia o que fazer. Deveriam agradáveis? Deveriam ajudar um dependente a mudar o hábito? Deveriam confrontá-lo? Uma equipe de enfermeiras do GG&GD foi recrutada para ver todos os pacientes dependentes de drogas em todos os hospitais gerais de Amsterdã. Estas enfermeiras falariam com os pacientes e com as equipes médicas. A primeira prioridade era o tratamento adequado da condição médica pela qual o paciente foi admitido. Isto exigiria alguma disciplina do paciente e alguma paciente da equipe médica. Somente depois que a condição médica tinha sido tratada, a questão do uso indevido de droga seria abordada. Enquanto isso, o paciente receberia a metadona a fim de tratar a síndrome de abstinência. Esta também se mostrou uma maneira muito eficaz de contatar novos farmacodependentes e motivá-los para aderir à rede de atendimento.
[1] - Eu uso o adjetivo leve para designar os derivados da cannabis como o haxixe e a maconha. Apesar de estas serem menos danosas que as drogas “pesadas”, ainda assim são drogas e quando usadas com muita freqüência podem causar sérios problemas ao usuário.

terça-feira, fevereiro 17, 2009

Hipótese Etiológica V.1; RD 2.3


Um velho sábio uma vez me contou uma estória, sobre um rapaz, pois que o sábio queria ser ouvido, e fazer-me ouvir, a estória daquele jovem, tão parecido conosco, da vida moderna. E disse assim:


Era uma vez Ricardo, aos seus 16 anos já começara a apresentar sintomas de depressão, não saia de casa para nada, concentrava suas forças, embora não quisesse, em auto-depreciações aparentemente injustificadas. Já nessa época bebia bastante. Aos 17 começou o uso de cocaína, e em pouco tempo, em conjunção com a explosão do crack nas bocas de fumo da sua cidade, resolveu experimentar o dito cujo, como se fizesse o antigo ditado presentificar-se: “A situação faz o ladrão”.


Ao subir a boca de fumo de um morro popular da Zona Sul, ainda com sua linguagem entrecortada pelos dois mundos, pediu:


- Vê uma pedra de 15, por favor. (Evidentemente seguida de muitas mais)


Ricardo após vender um bocado de coisas de sua casa e ainda sem coragem para cometer outros furtos, resolve, após uma desconstelação temporária de sua não tão pomposa heroicidade, tratar sua já nítida dependência. Após algumas semanas de tratamento, novamente no morro, pede ao vendedor da boca:


- Vê um pó de 10, por favor. (Seguido de alguns mais).


Quando a depressão batia forte, Ricardo ia ao Centro de Atenção onde fazia tratamento pedir ao psiquiatra que lhe atendia:


- Vê um prozac de 20 e um tofranil de 25, por favor. A minha acabou. (Ainda faria vários pedidos deste).

Após o termino do tratamento, sem dúvidas um sucesso, o jovem rapaz saiu pela porta da frente, de peito estufado. Aspirou o ar, como se este fosse puro, e tossiu. Atravessou a rua e quase foi atropelado; do outro lado da calçada olhou com medo e compaixão para garotos jogados pela rua baforando a “pedra” que deixara para trás. Chegando em casa se deparou com o terror da ausência de dinheiro numa sociedade de consumo.


Foi para o mercado e não pensou duas vezes:


- Balconista! Me vê uma Pepsi cola de 3 e um M&M de 5.


Assim contou-me o velho sábio.

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Questões de realidade


Em primeiro lugar, não gostaria de gerar expectativas sobre este post, pois ele foi feito com menos rigor que o de praxe. Feito o adendo, vamos ao post propriamente dito.

Podemos dizer, sem muito medo de errar, que a fenomenologia foi um grande avanço para livrar-nos de uma saraivada de pré-conceitos sobre a questão da realidade e sobre a vida das pessoas. A redução eidética, isto é, o movimento do fenomenologo de suspender os juizos prévios sobre um fenômeno (phainomenon) permite que o fenômeno se mostre, se desvele (alethéia) em sua radicalidade na relação com seu observador. O ser humano como sujeito de possibilidades, dá sentido àquilo que aparece e se coloca, mesmo antes de sua reflexão, em relação. Uma relação pré-reflexiva. Em outros cantos, Doutos do saber, intelectuais ou não, tentaram reduzir a realidade a um fragmento que em pouco tempo mofava, como se a realidade pudesse ser reduzida a questões químicas, psicológicas, empíricas ou racionais. É nesta desestratificação, neste movimento de colocar em movimento, que a fenomenologia nos é tão cara. E o mais interessante é que ela nos coloca em devir sem deixar de perder o próprio fenômeno, como acontecia com as infindáveis discussões medievais.

Isso, e uma série de saberes contemporâneos, nos dão margem a pensar a complexidade da realidade. Em última análise, lembrando Edgar Morin, a complexidade não é apenas um conjunto quantitativo gigantesco de relações que se estabelecem num determinado fenômeno, mas também a própria incerteza que aparece na relação com o observado. Quer dizer, a complexidade é a impossibilidade do princípio de identidade se impor de uma vez por todas. Se “A” é “A”, “A” também pode ser “B”, “C” ou “D” e isso simultaneamente. Uma árvore pode ser ao mesmo tempo objeto de estudo de um biólogo, uma sombra para um sol escaldante e uma ligação com a mãe natureza e, ainda assim, ser uma árvore.

No entanto, o que talvez os fenomenologos não percebam, é que estar no mundo é já se colocar em algum mundo. Se pensarmos a realidade como uma única realidade então incorremos no erro de subjugar outras formas de estar no mundo a erros. A forma indutiva não é a salvação da Verdade. Em última análise, não é mais que uma interpretação dizer que existe per si um caminho “as coisas mesmas”. Este caminho é parte de uma fantasia mais ou menos importante para o pensamento ocidental e se quisermos de fato colocar a questão da realidade em devir é fundamental que pensemos as múltiplas possibilidades de realidade.

Quando alguém entra em um estado alterado de consciência, o que podemos dizer? Podemos pensar: esta pessoa está alucinando (se ela vê, ouve, sente algo que contém as propriedades de uma senso-percepção padrão e que não tem estímulo perceptível as outras pessoas), esta pessoa está delirando (se possui pensamentos persistentes e não adaptados a uma determinada cultura, sendo impermeáveis à argumentação lógica), esta pessoa tem uma ilusão (percebe de forma errônea determinada estimulação que existe no mundo consensual), ou ainda que esta pessoa está adaptada a uma determinada cultura que crê neste tipo de coisa e, por conseguinte, é uma pessoa normal enganada, é um possível iluminado, ou é um esquizofrênico em potencial.

Claro que poderíamos multiplicar este quadro infindávelmente, mas também não se trata disso. O encontro com outras realidades que não a realidade padrão, que Robert Anton Wilson chama de “Túnel Realidade do Consenso” é normalmente pensado como um erro de percepção, erro de juízo, ou qualquer outro tipo de julgamento equivocado. Isso se deve a esta reflexão de que a realidade deva ser isto ou aquilo outro, uma limitação que se por um lado faz parte de nossas possibilidades organísmicas (nosso padrão orgânico/genético) por outro faz parte da uma longa aprendizagem social que inclusive molda e permite um determinado caminho do desenvolvimento biológico, cognitivo, perceptivo...

Se é possível encontrar elementos isomórficos num determinado mosaico fenomenal, por exemplo, numa tomografia computadorizada de cérebros de “esquizofrênicos” em crise, não significa que as realidades existenciais sejam compartilhadas. Da mesma forma não é porque a dependência de drogas geralmente passe pela alteração da via dopaminérgica (aumento do neurotransmissor dopamina passando pela via meso-límibica, passando pelo núcleo accumbens até o córtex pré-frontal) que a dependência seja formada sempre numa mesma e única configuração de real. Ou mesmo que a mudança nestas regiões cerebrais resulte inevitavelmente numa dependência.

Com isto não quero dizer que a realidade seja psicológica, bioquímica ou outro reducionismo qualquer. Pretendo, em primeiro lugar, lembrar da frase de Paul Éluard: "Existem outros mundos, mas estão neste” para sustentar a idéia de um monismo poli-realista. As realidades, como túneis realidade, são ao mesmo tempo diferenciadas e inter-relacionadas. Uma pessoa que vê algo não-padrão e que não percebe seu corpo na realidade consensual pode morrer para “nossa” realidade assim mesmo se tomar um tiro. Evidente que este modo de pensar/sentir não passa de uma fantasia, por outro lado, assim como nossos amigos Sufis ao falar do Alam-al Mithal, esta realidade está longe de ser inócua. Colocar-se em uma fantasia ou ser colocado nela é estar em um mundo com seus riscos, prazeres, liberdades, deveres, etc. O que não podemos dizer é exatamente do que se tratam estes outros mundos. Neste caso, o primeiro momento, é mais justo que nos coloquemos como os fenomenologos – isto se não podemos nos colocar como experimentadores – e perguntar a esta outra realidade, a este sujeito que se coloca ai, como é esta outra realidade, como é esta experiência e não dizer de pré-mão o que seria o que ali ocorre singularmente.

Jung em seu artigo “O real e o Supra-real” de 1933 dizia que não conhece nada a respeito de um supra-real na medida em que tudo o que age, tenha sido visto ou não, é real. Todo pensamento, fantasia, imaginação é realidade, pois se fosse irrealidade nada saberíamos sobre. E prossegue dizendo que este assunto só se complica quando impomos uma limitação unilateral na idéia de realidade, e re-lembra a frase reducionista – sem dar nome aos bois – de Locke: Nihil est in intellectu quod non antea fuerit in sensu (não existe nada no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos). O pensamento expresso por Jung é a base de uma realidade ampliada (em relação a realidade positivista e materialista), porém, esta realidade monista é ainda formada por sub-tipos de realidade que são vistos por uma minoria de pessoas, as vezes uma ou duas, o que justifica pensarmos sobre as diferenças radicais entre realidades que se engendram dentro desta realidade mais ampla.

O máximo que talvez pudéssemos fazer é perceber se existem certos padrões nesta descensus ad ínferos (decida aos infernos), nem que seja a presença de uma sensação de viajem, de uma vivência anímica de encontro com uma alteridade. Os padrões arquetípicos neste caso nos ajudam a nomear estas singularidades, como ao falar da descida ao que não é possível denominar complexo do Eu (ego) e lembrar os mitos de Hermes ou as vivências em Zagreu (1º Dioniso). Como falar da diferença entre os túneis realidade sofridos de uma “bad trip” e dos encontros com os Jardins do Éden.

A pergunta que se impõe seria: Quais as possíveis finalidades da alteração do estado de consciência? O que há de importante em não limitar as realidades alternativas a meros erros? Elas produzem algo de benéfico? Produzem que tipo de sentido? Estas realidades podem contribuir de alguma forma para o encontro da singularidade de cada um? Qual a relação entre diferentes realidades e o estado onírico? E a idéia de inconsciente? Como se produzem estes estados neuroquimicamente, há correlação entre todos eles?

Por ai vai.

segunda-feira, fevereiro 09, 2009

"O destino nos persegue como um louco com uma navalha na mão"

Coruja, Coruja,
Venha me ajudar,
Coruja, Coruja,
Filha de Atená

E dos biscoitos chineses, sempre eles:

Reze pelo que deseja, faça o necessário.

quinta-feira, outubro 16, 2008

Comunidade e Mosaico de Estranhezas




O termo comunidade é daquelas palavras que dificilmente fazem brotar qualquer neutralidade ou imparcialidade. Os adeptos do positivismo sempre tiveram “um pé atrás” (ou os dois) diante não só deste termo, como também da idéia que conceberam de comunidade. Isso porque, nos primórdios, o paradigma positivista aparece em contraposição ao modelo medieval, pelo menos parcialmente, na medida em que vários pontos, inclusive no religioso, existem convergências significativas. Essa contraposição, em termos sociais, pode ser observada, por exemplo, no abandono do modelo de “guildas” onde existia algo próximo a uma lei interna que geria o mosaico, ou sistema, se preferirem o termo fisicalista.


Na individualização construída que se radicaliza na revolução francesa não havia mais espaço para a idéia de comunidade enquanto homogeneização total (ou quase) de sujeitos em sub-estruturas grupais que se afastavam da unidade de alta complexidade composta, dentre outros, pelo Estado. Logo, a individualização promovida foi uma individualização que por um lado afasta os sujeitos concretos da antiga idéia de comunidade, como lugar dos comuns, mais radicalmente como lugar dos iguais e por outro lado, com o fenômeno da nacionalização unifica esses sujeitos sob a égide de uma lei única, que iguala esses sujeitos a partir dessa cisão.


Já do “outro lado do muro”, no prenuncio do auge individualista os primeiros socialistas resgatam antigas “utopias”, romanceadas pelo ardor da paixão (pathos) e fantasiadas através do arquétipo do paraíso, que foi constelado, por exemplo, no Éden pelos cristãos. Para alguns destes primeiros socialistas a socialização radical proposta era a fundação de uma comunidade global – ou situacional e localizada para alguns, como os Anabatistas e outros “proto-comunistas” – onde haveria homogeneidade de pensamentos, bens materiais (ou ao menos o fim da propriedade privada), objetivos e visões de mundo. As pessoas seriam boas por excelência (o mito roussauniano se propagou de tal modo que aparece com força mesmo na emergente psiquiatria ou nos casebres-fazendas religiosas que visavam o tratamento dos desvairados e desatinados).


Na observação cotidiana de uma comunidade, sejamos francos, não é isso que vemos ou ouvimos. Comunidade não se trata nem de uma soma de sujeitos (que aqui o princípio gestáltico tome potencia! “o todo é maior que a soma das partes”), nem tampouco de uma igualdade absoluta e indiscutível de (in)existências. Temos, portanto, que compreender comunidade de um outro modo, onde seja possível uma superação das dicotomias “individual x coletivo”, “singularidade x homogeneidade”. Uma comunidade só pode ser definida a partir da uma ligação sentimental/afetiva entre seus membros, de um continuum espaço-temporal – o que nos remete a questão do território - e de uma simbólica de diferença a partir da unidade, ou seja, mosaico de isomorfos não-triviais. Em conseqüência a comunidade é lócus privilegiado de desenvolvimento das potencialidades humanas, da individuação, pois é nesta ligação estreita entre as dimensões singulares e genéricas que a dialética pode desestratificar conduções estereotipadas, isto é, temos aqui o funcionamento da própria “função transcendente” (cf. Jung, Natureza da Psique).


Clareando a idéia da comunidade como mosaico, devemos considerar que mosaico é um termo utilizado como substituto da noção de sistema, já que “sistema” esteve associado intimamente a física newtoniana e ao positivismo, sendo mais claro, a certeza estabelecida através da trajetória (a verdade revelada pela sucessão causal espaço-temporal). Nessa perspectiva sistema é o conjunto de elementos não havendo qualquer noção de totalidade. Então, mosaico permite atentar para o que é comum, para a “comunidade”, ao mesmo tempo que para a diferença, sendo cada parte do mosaico isomórfica ao todo, quer dizer, de forma semelhante (não igual). Mas não apenas isomórfica, mas isomórfica não-trivial, considerando aqui a abertura e o fechamento do mosaico, quando dizemos que ele é “não-trivial” queremos dizer que cada parte do mosaico é relativamente fechada e relativamente aberta (assim como o todo do mosaico, já que ambos tem ismorfismo), por conseguinte, há abertura e modificação do mosaico sem necessariamente consideramos causas ou efeitos (aqui considerando mais de um tipo de temporalidade, tempo-continuidade, tempo-circularidade), ou seja, o mosaico não é definido a priori nem se limita a si mesmo (A não é necessariamente/exatamente A, e pode ser ao mesmo tempo B – alteração do princípio de identidade de Descartes e do princípio de não-contradição aristotélico), sendo, por outro lado, claramente definível. Assim, sabemos que é uma coisa é uma coisa, mas essa coisa sempre rompe o seu próprio estatuto. Então, um grupo nunca se resume a suas relações dadas (está em trans-formação), apesar de percebemos claramente sua coesão e unidade (de alta complexidade).


Cada projeto comunitário, cada ação na comunidade, da comunidade deve passar pelo sujeito concreto e, logo, passará por sua dimensão ético/estética/religiosa, por uma imbricação de sentidos, desejos, etc. Cada sujeito num grupo ou numa comunidade está presente, alterando o mosaico, mas ao tempo pode possuir uma dissonância e essa dissonância faz parte de toda fundação complexa (inserção da incerteza e das bifurcação nos mosaicos, toda totalidade é não-toda – faltante, inacabada, apesar de formar um todo), onde não existe previsibilidade, pois o mosaico não se comporta linearmente, nem mesmo aleatoriamente, mas de forma, como diz Morin, semi-aleatória.


Feitas essas considerações, podemos tentar superar, de alguma forma, o antigo pensamento de comunidade, onde o povo, a população, os membros do mosaico eram considerados “massas disformes” e logo deveriam ser conduzidas por um salvador da pátria, aquele que “sabendo do real do sistema” conduzi-lo-ia ao progresso. Ora, a população não é massa disforme, nem responde apenas a apelos materiais, restando a burguesia as sutilezas psicológicas, mas cada pessoa dentro da população contem o todo daquele mosaico (princípio hologramático, Ued Maluf, por outro lado, re-formula seu nome, por considerá-lo fisicalista), sem se limitar a ele (possibilidade de criação, não porém ex nihilo).


Concluímos que através de outra percepção de comunidade é possível pensá-la como lugar fundamental da individuação e que alterações no território simbólico (psicoide) engendram mudanças, usando um termo pouco interessante, mas clarificador, psico-fisicas. Logo, é vital em qualquer ação psíquica, política, social, sentir as territorialidades, as comunidades que se formam, que se des-formam, que se trans-formam e atravessam cada sujeito concreto e cada mosaico social. O mais-que-óbvio, que as vezes não é tão óbvio assim, que o texto discute é a superação da dicotomia sujeito-objeto, sujeito-comunidade, pois é na comunidade que o sujeito se individua e no sujeito que a comunidade faz o mesmo.
(Pitura - Paul Klee - Cidade de Sonhos)

sábado, agosto 09, 2008



Ave Deus dos Mares!

Ave Queridos peixareiros que peixearam 08/08/08, louvados sejam!

Ave Todos nós que, doravante, somos peixes graudos!

The parrachian´s way

It´s ok!

terça-feira, julho 15, 2008

Tem alguem ainda aí? Alou??

Eco
Eco
Eco

E Narciso encanto, decantado. Mas, quiçá, Narciso desencanto, rio sujo, poluído, merda marrom.

Blog-vivo, calado. Deserto vazio ou cheio?

Nunca imaginei que a vida pudesse ser dura assim. Nunca sentira na pele a queimadura que o capital nos faz sentir.

Medo, desespero. Anuncio de ónibus: teatro da vida real.

Blog falante, através de dedos calados, dias quentes, pensamentos abafados.

Quando me enveredei por este caminho? Posso continuar?

Só um idiota revela seus sentimentos em público.

Eco
Eco
Eco

Todos se resolvem, diz a fantasia. O diabo está sempre a espreita: conheço bem o fascista que ronda minha alma. Se esconde no hipocampus - come um belo filé de badejo à belle-manière. Mais c´est tout ou c´est rien. Ou o caminho do meio ainda é um resistência?

domingo, abril 20, 2008

Endereços.

Para quem pegou o COLAPSO e entrou neste site, vai um aviso. O endereço no aperiódico está errado, então aqui vão os endereços de onde surgiu o Colapso:

- http://dedoscruzados.blogspot.com - aqui é o endereço antigo, onde estão 99% dos textos.

- http://dialogoscasuais.thunderweb.com.br - este é o endereço novo, mas por enquanto ainda está bem vazio. Mas em breve o pessoal estará publicando nele e, se conseguirmos, levaremos os textos antigos para cá.

É isso.. abraços pessoar.

terça-feira, abril 15, 2008

Da impessoalidade


Continuando o processo dos posts pessoais, demasiadamente pessoais... Só me resta falar: "da impossibilidade da pessoalidade e da impossibilidade da impessoalidade".



Como é duro ser fraco
E no final sentir que há algo quebrado
Lá dentro, no interior.

Como quisera ter podido ser valente
Mesmo que de cabeça quente
Cuspindo fogo e ardendo brasa.

Quisera eu ter músculos verbais tão potentes
Pra não ser atropelado por essa gente
Que esmaga mesmo sem ter um trator.

Não que queira imputar-lhes culpa
Não, de forma alguma.
Culpado sou eu de aceitar tudo em candura

Mas o destino é cruel em ventos tais,
Quem mata menos às vezes é quem mata mais.
E se peço a minha gente de dentro,
Já não tão branda,
Uma outra dança..

... É certamente na esperança
De poder dançar melhor
De poder estar melhor
De poder ser melhor
De poder poder,
Assumir o posto que me clama.

-> A pintura é do renomado artista Frei Nando, ou como é vulgarmente conhecido, FernandoR.

quinta-feira, abril 03, 2008

Diletantismo e Reducionismo

Tenho uma confissão, queridas/os não-leitores: tenho uma paixão pelo diletantismo. Uma paixão pela paixão: amadora ou não, um interesse pela ampliação do interesse, pela complexidade quantitativa e qualitativa.

As pessoas hoje parecem ter repulsa à explosão de territorialidades polimorfas. Não queridos, vocês devem ser especialistas, depois de 30 anos de trabalhos com uma abordagem, com uma linha reconhecida dentro de uma ciência estabelecida, ai você tem um bom curriculum vitae para mostrar a todos, para conseguir mais um emprego. Não queira trabalhar em diversas áreas, não queira misturar teorias, não queira ser artista.... Não queira ficar numa corda bamba.

Tudo bem definido: ou A ou B. Arroz ou Camarão. E eu, e todo o conjunto de estranhos seres, que fazem toda uma bagunça intelectual - e também sentimental - arrastando, numa liberdade pitoresca, todo armazem de cimento do conhecimento, transformando-o num caos de possibilidades, territorilizando-se in situ, cada vez com uma cara diferente? Monstros, artistas, gozos, arquétipos, política, música, loucura.

A esses, o gosto amargo de um não-reconhecimento, de um distanciamento. O que importa deixa de ser criar, alterar, transmutar... o que vale é a monotonia de um cerceamento... monocausalidade, linearidade, previsibilidade, solaridade, masculinidade (mesmo nas mulheres)....

E os sonhos foram deixados de lado... Onde está, onde está, onde está aquela estranheza estrelar a deriva por entre luas e tortas?

sexta-feira, janeiro 25, 2008

Alma e Espírito

Primeiro post de 2008. É um texto do livro Psicologia Arquetípica de James Hillman (pgs. 51-53)... espero que goztem =)

Alma e Espírito
James Hillman (livro citado, capítulo 6)

Se imaginar é uma atividade inata da anima mundi, então a fantasia está sempre acontecendo e não está sujeita a uma epoché fenomenológica (Husserl: separar ou colocar em evidência no sentido de mover-se diretamente para o evento em si). Mais ainda, se a fantasia está sempre acontecendo, então epoché é uma fantasia em si: de isolamento, de objetividade, e de uma consciência que pode ser verdadeiramente mobilizada pelos fenômenos como eles são. A psicologia arquetípica sustenta, contudo, que não podemos nunca ser puramente fenomenológicos ou verdadeiramente objetivos. Nunca es está além do subjetivismo dado pelos dominantes das estruturas de fantasia inerentes à alma. Estes controlam as perspectivas subjetivas e as organizam em “instâncias”, de tal modo que a única objetividade que pode se tornar mais próxima resulta do olho subjetivo voltado para si mesmo, observando seu modo de olhar, examinando sua própria perspectiva com relação aos sujeitos arquetípicos, os quais estão neste momento direcionando nosso modo de ser no mundo dos fenômenos. A psicologia, como uma ciência objetiva, será sempre impossível, uma vez que se reconhece que a objetividade em si é um gênero poético (semelhante ao “escritor-como-espelho” do naturalismo francês), um modo de construir o mundo, de tal forma que as coisas aparecem puramente como coisas (sem face, animação, ou interioridade), sujeitas à vontade, separadas umas das outras, mudas, sem sentido ou paixão.

Há uma posição que é particularmente obstinada em prender-se à fantasia de que a fantasia está sempre acontecendo, e essa é a instância do espírito. Aparece como objetividade científica, metafísica ou como teologia. E quando a psicologia arquetípica criticou essas abordagens foi como parte de uma estratégia mais ampla para distinguir os métodos e a retórica da alma daqueles do espírito, de tal forma que a alma não seja mais obrigada a abrir mão do seu estilo para preencher as obrigações requeridas por uma perspectiva espiritual, quer seja filosófica, científica ou religiosa. Pra que a psicologia seja possível é precisa que se mantenha a diferença entre alma e espírito (Hillman, 1976; 1975ª, pp. 67-70; 1977a).

Algumas vezes a posição do espírito com sua retórica de ordem, número, conhecimento, permanência e lógica autodefensiva foi discutida como “senex” e saturnina (Vitale, 1973; Hillman 1975d); outras vezes, por causa da sua retórica de claridade e observação independente, foi discutida como apolínea (Hillman, 1972c); em outras ocasiões, devido à sua retórica de unidade, fundamentalidade, identidade, foi denominada “monoteísta”; e em outros contextos ainda, de “heróica” e também de “puer” (1967b).

Ao reconhecer que a perspectiva do espírito deve situar-se em posição superior (como a alma situa-se em posição inferior) e deve falar em termos transcendentes, fundamentais e puros, a psicologia arquetípica concebe como sua tarefa imaginar a linguagem espiritual da “verdade”, da “fé”, da “lei”, e assim por diante, como uma retórica do espírito, mesmo que o espírito seja obrigado, por essa mesma retórica, a tomar sua posição verdadeira e fielmente, isto é, literalmente.

Mais ainda, a diferença entre alma e espírito protege a terapia psicológica de ser confundida com disciplinas espirituais – orientais ou ocidentais – e dá ainda uma outra razão para a psicologia arquetípica evitar empréstimos de técnicas de meditação e/ou condicionamentos operantes, os quais conceituam eventos psíquicos em termos espirituais.

sexta-feira, dezembro 21, 2007

Cachos de antigos amores nos marca-dores

Cacho(s)-eira, na beira
D lemb-ranços o(dios)os
Quem, em desdem, massacra?
Com sua an(gelo)ical forma de deMOONio

O tempo passa e, assim, talvez
Tal vez possa ser excrescida
Numa me-móira guarda(dor)a e esquece(dor)a

Então, queridos amigos
No final
C guimos em frente
Apesar, por pesar, devagar
A cantar; a encantar
Muitas gentes...

... mesmo depois da FOGue(ira).

sexta-feira, novembro 16, 2007

Meio Assujeitado


Depois de tanto tempo esse blog intacto, continuará meio intacto, meio escrito...


Sujeito meio assujeitado,
Meio gente, meio gado
Correu mesmo estando parado
Como se fosse um condenado

Os relógios pararam meio dia
Um escuso senhor comeu o ovo
Fortalecendo toda ecolalia

Sujeito meio assujeitado,
Meio gente, meio gado
Correu feito um abestado
Como se fosse um iluminado

As certezas proliferam-se,
Como ervas daninhas do cemitério
Corroendo por dentro todo mistério

Ah! Senhor, se pudesse algo fazer!
Para reascender teu coração

As TV´s, o carro do som,
Você não ouviu as cores do seu sonho
Você deixou os mitos para trás!
Seu José, seu João
Dona Maria!

Alcatraz!
Peça ajuda
Vê-se escuta
O som do trovão
As favas o bom
Leia tua mão
Faça revolução!

domingo, outubro 21, 2007

DETENÇÕES E TRATAMENTOS AGRESSIVOS NA HISTÓRIA DA LOUCURA

Esse texto é parte de minha monografia de conclusão de Estágio no Juliano Moreira. O texto é copyleft, citem a vontade, mas utilizando as fontes... Boa leitura.

Na história da loucura podemos ver uma série de absurdos que foram realizados com pessoas que muitas vezes nem sequer tinham direito a defesa. A importância de revisarmos essa história para embasarmos nosso trabalho parece vir da necessidade de sempre darmos um passo atrás antes de projetar nossas sombras[1] numa população propicia para essa projeção, quer dizer, uma população que mesmo nos tempos atuais de reforma psiquiátrica ainda continua a margem, sendo mesmo insultada e ridicularizada em diversos locais pela população dita sã. James Hillman, psicólogo pós-junguiano, nos coloca uma consideração fundamental:
O primeiro é a máxima hipocrática: primum nihil nocere. Antes de mais nada, acima de tudo, primeiro, não faça mal, não prejudique nada. Antes de qualquer ação, ou plano de ação, antes de mais nada, considere o lado ruim antes do bom. Considere os riscos ao invés dos benefícios. Os gastos de pesquisa devem abordar os piores cenários possíveis e entender na íntegra a noção de “fazer mal” (Hillman apud Bernard, 1995i).

Na época cristã e medieval onde a compreensão sobre a loucura continha normalmente relação com a demonologia, encontramos no próprio malleus malificarum, obra visceral de caça as bruxas dos inquisidores Kramer e Sprenger, alguns pontos da terapêutica da loucura. Encontramos desde terapêuticas mais amenas até atos de violência imoderada, mas é importante considerar que: “para esses autores, o demônio aloja-se na cabeça de sua vítima e ali exerce controle, provocando a loucura e comportamentos de possessão e obsessão” (Tommasi, 2005, p.61).

Dentre as terapêuticas de Kramer e Sprender podemos lembrar que: “Um homem possuído por um demônio pode ser aliviado pelo poder da música, como foi Saul, pela harpa de David ou pelo poder de uma erva, ou pelo de qualquer outra substância material em que exista alguma virtude natural” (Kramer et Sprender apud Tommasi, p.61), mas ao mesmo tempo se após diversas orações, sessões, jejuns, privações se “o demônio não se retira, o endemoniado deve ser queimado vivo. Acreditava-se que dessa maneira o demônio também seria queimado” (Tommasi, p.62). Nessa época “a medida terapêutica usual era a fogueira” (op. cit). É possível acreditar, como Szasz, que neste momento: “as racionalizações teológicas e explicações mágicas serviram como fundamentos para a queima na fogueira, de milhares de doentes mentais” (Szasz et al apud Tommasi, p.63). Ou, ao menos, o que a época moderna chamou de doença mental.
Podemos ainda considerar que:

(...) na maior parte das cidades da Europa existiu, ao longo de toda a Idade Média e da Renascença, um lugar de detenção reservado aos insanos: é o caso do Châtelet de Melun ou da famosa Torre dos Loucos de Caen; são as inúmeras Narrturmer da Alemanha, tal como as portas de Lubeck ou o Jungpfer de Hamburgo” (Foucault, 2001, p.10).

A experiência padrão, no entanto, na Renascença foi a “Nau do Loucos” onde estes eram enviados a terras distantes e fizeram parte de todo imaginário renascentista, inclusive na própria pintura. A saída para o mar, para uma terra distante, estava toda carregada de simbolismo, muito além da mera utilidade social e limpeza da desrazão. Ainda nesta época, segundo Foucault (2001, p.11): “Acontecia de alguns loucos serem chicoteados publicamente, e que no decorrer de uma espécie de jogo eles fossem a seguir perseguidos numa corrida simulada e escorraçados da cidade a bastonadas. Outro dos signos de que a partida dos loucos se inscrevia entre os exílios rituais”.

A loucura na era clássica sai da imensidão do mar, da paradoxal relação prisão-liberdade na nau dos loucos e encontra seu lugar nos grandes hospitais, “O classicismo inventou o internamento, um pouco como a Idade Média a segregação dos leprosos; o vazio deixado por estes foi ocupado por novas personagens no mundo europeu: são os ‘internos’ ” (op. cit, p.53). Esse grande internamento não se dava pelo saber médico, saber este que só pronunciaria a “verdade” da loucura no final do século XVIII e inicio do século XIX com Pinel e Tuke. Na verdade essas casas de internação tinham intenções político-religiosas de repressão, “O internamento, esse fato maciço cujos indícios são encontrados em toda Europa do século XVII, é assunto de ‘polícia’” (op. cit, p.63). Quer dizer “O internamento seria assim a eliminação espontânea dos ‘a-sociais’” (op. cit, 79).

É importante considerar que no contexto do desatino, o louco era muito alem do que conhecemos pelas psicoses, mas eram considerados loucos muitas vezes os libertinos, os que viviam uma sexualidade considerada profana (ex: homossexuais), desempregados, bêbados, alquimistas, praticantes de magia, profanação, etc. Ainda na era clássica os loucos eram mostrados em grades para o público que os visitava como se eles fossem monstros, animais, apontando o dedo e refletindo sobre o que não se deve ser. Os guardiões de Bicêtre, por exemplo, eram conhecidos por fazerem os ditos loucos dançarem e fazerem acrobacias por meio de chibatadas (Tommasi, 2005).

O próprio corpo humano foi utilizado como medicamento, onde o corpo humano também é considerado, até pleno século XVIII, como um dos remédios privilegiados da loucura. Dentre esses remédios, diz Foucault (2001, p.303): “Os cabelos dos homens são bons para eliminar os vapores, se queimados e dados para que o doente aspire a fumaça... A urina do homem recém-expelida... é boa para os vapores histéricos”. O mais estranho para a mentalidade atual, no entanto, pode ser considerado os remédios das convulsões:

Mas são as convulsões, desde o espasmo histérico até a epilepsia, que atraem com a maior obstinação os remédios humanos – especialmente os que podem ser extraídos do crânio, parte mais preciosa do homem. Existe na convulsão uma violência que só pode ser combatida através da violência, e essa é a razão pela qual durante tanto tempo se utilizaram os crânios dos enforcados, mortos por mãos humanas e cujos cadáveres não tivessem sido sepultados em terra santa. (...) É também contra as convulsões que se utiliza sangue humano ainda quente, desde que não se abusasse dessa terapêutica cujo excesso podia levar à mania (op. cit).

As condições dos loucos na época clássica eram tão horríveis como as do inicio da era moderna, até o famoso gesto de Pinel e Tuke libertando os loucos das grades e amarras. Não que este gesto tenha dado fim as condições inumanas e ao cárcere dos “loucos”, mas certamente foi um avanço diante de tão horrenda situação. Deportes (apud Foucault, 2001, p. 148-49) nos dá um exemplo de como eram essas condições:

O infeliz que por mobília tinha apenas esse catre coberto de palha, vendo-se exprimido contra a muralha, na cabeça, nos pés ou no corpo, não podia gozar do sono sem ser molhado pela água que vertia dessa montanha de pedra. Em Salpêtrière, continua, a habitação é mais funesta e freqüentemente mais mortal. É que no inverno, quando das cheias do Sena, os cômodos situados ao nível dos esgotos, tornavam-se não apenas bem mais insalubres, como, além disso, refúgio para uma multidão de grandes ratos que à noite se jogavam sobre os infelizes ali presos, roendo-os onde podiam; encontraram-se muitas loucas, com os pés, as mãos e o rosto dilacerados pelas mordidas, muitas vezes perigosas, muitas das quais morriam. (...) Em Bethtleem a fim de conter um louco considerado furioso: ficava amarrado a uma longa corrente que atravessava a muralha, permitindo assim ao guardião dirigi-lo, mantê-lo na coleira, por assim dizer, do exterior; em seu pescoço havia sido colocado um anel de ferro ligado a um outro anel por uma curta corrente; este segundo anel deslizava ao longo de uma grossa barra de ferro vertical fixada em suas extremidades ao chão e ao teto de sua cela. Quando se começou a reforma Betheleem, encontrou-se um homem que durante doze anos vivera nessa cela submetido a esse sistema coercitivo.

Nas épocas mais contemporâneas, se o louco não era mais tratado como uma besta animal, isso não significa que o tratamento violento tenha se extinguido, mas tomou novas formas, um exemplo disso foi Ugo Cerletti que admitia a incompatibilidade da esquizofrenia e da epilepsia, incompatibilidade que ainda hoje até certo ponto é admitida, então ele sempre se perguntou de que forma gerar crises convulsivas em esquizofrênicos. Cerletti visitou certa vez um matadouro de porcos em Roma e observou que os porcos submetidos a choques elétricos antes de serem abatidos tinham crises convulsivas. “Foi uma iluminação as avessas! Cerletti concluiu que se poderia também provocar no homem uma convulsão, por corrente transcerebral, sem matá-lo” (Silveira, 2001, p. 11), assim em 1928 surgia o eletrochoque. “’Não, outra vez! É horrível!’ foram as primeiras palavras pronunciadas pela primeira vítima do eletrochoque” (op. cit).

Lembremos também as memoráveis súplícas de Antonin Artaud, internado no hospital de Rodez na França, para que parassem de lhe dar eletrochoques: Eis uma carta escrita por Artaud ao seu psiquiatra, em 1945:

O eletrochoque me desespera, apaga minha memória, entorpece meu pensamento e meu coração, faz de mim um ausente que se sabe ausente e se vê durante semanas em busca de seu ser, como um morto ao lado de um vivo que não é mais ele, que exige sua volta e no qual ele não pode mais entrar. Na última série, fiquei durante os meses de agosto e setembro na impossibilidade absoluta de trabalhar, de pensar e de me sentir ser...[i] (op. cit, p.12).

Outro tratamento que precedeu o eletrochoque foi o coma insulínico ou choque hipoglicêmico (método de Sakel), nesse tratamento a eficácia dependia de 30 a 40 horas de coma. “Tanto o coma insulínico quanto o eletrochoque provocam profunda regressão fisiológica e psicológica, apagando naqueles que são submetidos a esse tipo de tratamento as funções psíquicas superiores. Essa desmontagem da estrutura psíquica seria seguida, segundo seus adeptos, de uma reconstrução sadia” (op.cit).

Citemos Silveira (2001, p.12):

A perda de memória, em graus variados, em ambos os tratamentos de choque, poderá ser recuperada. E é precisamente nessa perda de memória, decorrente de possíveis ligeiras lesões cerebrais, que residiria a eficácia desse tratamento, isto é, o esquecimento dos acontecimentos que provocaram a psicose. E se durante a reconstrução da estrutura psíquica voltar a recordação dos acontecimentos motivadores dos distúrbios psíquicos?
Essa suposição é precisamente a mais aceita pelos adeptos dos tratamentos de choque. Valeria a pena esquecer os conteúdos nucleares das psicoses, ou antes, seria preferível trazê-los à tona, confrontá-los, tentar interpretá-los, metabolizando-os e mesmo transformando-os?

Chegamos finalmente a uma das mais complicadas invenções modernas, a lobotomia. Ela surgiu como método terapêutico em 1936, sendo criada por Egas Moniz, e seccionava fibras nervosas que ligavam os lobos frontais a partes subjacentes do cérebro. “A psicocirurgia é definida por W.Freeman como operação cirúrgica sobre o cérebro intacto, tendo por objetivo obter alívio para sintomas mentais” (op.cit). Para Moniz para curarmos pacientes com idéias fixas e comportamentos repetitivos temos que: “destruir arranjos mais ou menos fixos das conexões celulares que existem no cérebro, e particularmente aquelas que se relacionam com os lobos frontais” (Moniz apud Silveira, 2001, p. 12).

Depois da psicocirurgia os pacientes se tornavam dóceis e autômatos, além de ficarem muito prejudicadas as faculdades de abstração e imaginação, suas produções pueris e decadentes. Já as famílias e a dinâmica do hospital iam muito bem, gozando da tranqüila calmaria. (Silveira, 2001).

A explicação ética da época era de uma doçura incomensurável: “Em editorial – ‘A ética da leucotomia’ – publicado no British Medical Journal, em 1952, em defesa da psicocirurgia, pode-se ler este espantoso argumento: ‘Se a alma pode sobreviver à morte, certamente poderá sobreviver a leucotomia’” (op. cit, p.13).

Mediante tão brutais acontecimentos, de uma lógica da violência que até certo ponto foi derrubada por Nise da Silveira no Brasil, acreditamos na importância de relatar essa história dos tratamentos agressivos na loucura para podermos olhar de frente todas as atrocidades que já foram cometidas com esse público, para que não voltemos a incorrer nos mesmos erros. Mediante a ênfase dada por Silveira nesses fatos, nessa necessidade de modificação da psiquiatria de sua época, acreditamos ser vital o conhecimento dessa história justamente para clarearmos nossas condutas, não sendo iludidos nem mesmo por supostos saberes científicos que, mesmo em toda sua cientificidade, muitas vezes incorrem nos mais absurdos e deletérios enganos, talvez não no nível biológico, farmacológico, material, mas uma falta muito mais grave, uma falta de humanidade.

Lembremos, para o fechamento do capítulo, o poema de Beta (apud Silveira, 2001, p.13):
Os médicos dão muito remédio
E as enfermeiras para não terem trabalho
Só ficam gritando
Vou dar choque
Vou dar amarra
Ser louco é uma barra.
Beta










[1] - É importante que definamos o conceito de sombra. Por sombra entendemos tudo aquilo que é recusado pela pessoa e mantém-se inconsciente, quer dizer, abaixo do limiar da consciência. Desse modo a sombra não necessariamente fala de algo negativo, ela apenas fala do recusado, seja algo que seria extremamente benéfico para o sujeito ou não. Segundo Von Franz: “A sombra não é o todo da personalidade inconsciente: representa qualidades e atributos desconhecidos ou pouco conhecidos do ego – aspectos que pertencem sobretudo à esfera pessoal e que poderia também ser conscientes. Sob certos ângulos a sombra pode, igualmente, consistir de fatores coletivos que brotam de uma fonte situada fora da vida pessoa do indivíduo” (Jung, 2001, p.168).
[i] - Artaud, A. Ouvres Completes XI, p. 13. Gallimard, Paris, 1974.

sexta-feira, setembro 14, 2007

É amigos..


sábado, agosto 25, 2007

Fotograspirante

Que me importam os vultos? Os vultos dizem muito mais do que uma clareira numa noite de verão... versão acabada da neblina, tonteia as vistas dos visores. Só um idiota pode ser engolido por seus olhos. Aquele que de fato vê se esforça por nublar o mundo, acaba por chacoalhar as pedras. Os sonhos de verdade estão nas mãos.

Depois do estilete verbal de Von Darsê, as pessoas fecharam os olhos e abriram as bocas, línguas se entrelaçaram e massas viraram moças, maças fizeram-se em rostos e vermelhas frutas. Quantos cantos não saíram daquele lago aberto ao fechado. Mãos manearam os arquetes e fizeram salgadas comidas: está é a santidade da massa, fazer comida com. Aqueceram-se junto ao fogo, pois é o fogo que queimou a tristeza e a melancolia. E.T.ernidade.

Fraternos irmãos, se aconchegou de suas palavras Gagaya Mana. Que hoje seja um dia e não mais outro, que hoje seja uma noite e não mais outra. Vocês me escutam com as mãos e eu lhe falo com a pele: não queridos concubinatos, o concúbito não é de se fazer de paisagens! Um pintor que se rende a iluminação não passa de um holofote! Imbecil, não consegue criar! Imbecil, não consegue concertar! Imbecil, não consegue construir!

Os meus pés dançam e minha mente morreu para dar lugar a minha alma. A alma não sabe da linguagem, o automatismo da linguagem se contrabalanceia pela fluidez da língua. Não, amados, chega de fotógrafos! Roubam nossa almas as fotografias, roubam todo poder do deus do momento, Jihoku-Uhuban. Uhuban nos deu(s) a luz e a volúpia de tal forma que a forma se perdeu, meu corpo agora é corpo. O circulo, a reta, o hexágono são todos possibilidades. Ninguém nasceu para se perder em fotografias, ninguém nasceu para ser gravador de vozes, ninguém nasceu para repetir, ninguém nasceu para olhar no espelho. Idiotas, ainda não aprenderam o valor que o fogo tem! Idiotas, ainda não tomaram uma ducha de luar! Idiotas, não viram que a aurora era feita com corpos e salivas? Idiotas, não sabem ainda construir!

Meu ódio é de um amor tremendo, e assim me aniquilo, não de palavras, nem de imagens, não de sentimentos, nem de pensamentos. As respostas foram feitas para quem não sabe formular perguntas. Nada é tão visível quanto um neblina. A turvidão é mais reta do que o claridão. Aloha irmãos, toquem pois vossos corpos e estejam a espreita do matagal, pois é do mato que surge o que tem valia. O sapo pula e águia voa, mas ainda nossos espelhos não aprenderam a falar.

terça-feira, julho 10, 2007

Da árvore da montanha

Os olhos de Zaratustra tinham visto um mancebo que evitava a sua presença. E, uma tarde, ao atravessar sozinho as montanhas que rodeiam a cidade denominada Vaca Malhada, encontrou esse mancebo sentado ao pé da árvore, dirigindo ao vale um olhar fatigado. Zaratustra agarrou a árvore a que o mancebo se encontrava e disse:
“Se eu quisesse sacudir essa árvore com as minhas mãos não poderia; mas o vento que não vemos açoita-a e dobra-a como lhe apraz. Também a nós mãos invisíveis nos açoitam e dobram rudemente”.
A tais palavras, o mancebo ergue-se assustado, dizendo: “Ouço Zaratustra, e positivamente estava a pensar nele”.
“Porque te assustas? O que sucede à arvore sucede ao homem.
Quanto mais se quer erguer para o alto e para a luz, mais vigorosamente enterra as suas raízes para baixo, para o tenebroso e profundo: o mal”.
“Sim; para o mal!”, exclamou o mancebo. “Como é possível teres descoberto minha alma?” Zaratustra sorriu e disse: “Há almas que nunca se descobrirão, a não ser que se principie por inventá-las”.
“Sim; para o mal!”, exclamou outra vez o mancebo.
“Dizias a verdade, Zaratustra. Já não tenho confiança em mim desde que quero subir às alturas, e já nada tem confiança em mim. A que se deve isto?
Eu me transforma muito depressa: o meu hoje contradiz o meu ontem. Com freqüência salto degraus quando subo, coisa que os degraus me não perdoam.
Quando chego em cima, sempre me encontro só. Ninguém me fala; o frio da solidão faz-me tiritar. Que é que quero, então, nas alturas?
O meu desprezo e o meu desejo crescem a par; quanto mais me elevo mais desprezo o que se eleva. Que é que quer ele nas alturas?
Como me envergonho da minha ascensão e das minhas quedas! Como me rio de tanto anelar! Como odeio o que voa! Como me sinto cansado nas alturas!”
O mancebo calou-se. Zaratustra olhou atentamente para a àrvore a cujo pé se encontravam e falou assim:
“Esta árvore está solitária na montanha. Cresce muito sobranceira aos homens e aos animais.
E se quisesse falar ninguém haveria que a pudesse compreender, de tanto que cresceu.
Agora espera, e continua esperando. Que esperará, então? Habita perto demais das nuvens: acaso esperará o primeiro raio?”
Quando Zaratustra acabava de dizer isto, o mancebo exclamou com gestos veementes:
“É verdade, Zaratustra: dizes bem. Eu ansiei por minha queda ao querer chegar às alturas, e tu eras o raio que esperava. Olha: que sou eu, desde que tu nos apareceste? A inveja aniquilou-me!” Assim falou o mancebo, e chorou amargamente. Zaratustra cingiu-lhe a cintura com o braço e levou-o consigo. Depois de andarem juntos durante algum tempo, Zaratustra começou a falar assim:
“Tenho o coração dilacerado. Melhor do que as tuas palavras, dizem-me os teus olhos todo o perigo que corres.
Assim não és livre, ainda procuras a liberdade. As tuas buscas fizeram-se insone e inquieto de maneira excessiva.
Quere escalar a altura livre; a tua alma está sedenta de estrelas; mas também os teus maus instintos têm sede de liberdade.
Os teus cães selvagens querem ser livres; ladram de prazer no seu covil quando o teu espírito tende a abrir todas as prisões.
Para mim, és ainda um preso que sonha com a liberdade. Aí, a alma de presos assim torna-se prudente, mas também astuta e má.
O que libertou o seu espírito necessita ainda purificar-se. Ainda lhe restam muitos vestígios de prisão e de lodo: é preciso, todavia, que a sua vida se purifique.
Sim; conheço o teu perigo: mas por meu amor e minha esperança aconselho a não afastares para longe de ti o teu amor e a tua esperança!
Ainda te conheces nobre, assim como nobre te reconhecem os outros, que te guardam rancor e te olho com maus olhos. Fica sabendo que um nobre é para todos um obstáculo no seu caminho.
Também para os bons um nobre é um obstáculo no seu caminho, e se lhe chamam bom é tão-somente para o pôr de lado.
O nobre quer criar alguma coisa nova e uma nova virtude. O bom deseja o velho e que o velho se conserve.
O perigo do nobre, contudo, não é tornar-se bom, mas insolente, zombeteiro e destruidor.
Ah, eu conheci nobres que perderam a sua mais elevada esperança. E depois caluniaram todas as elevadas esperanças.
Desde então têm vivido abertamente com minguadas aspirações, e dificilmente traçam metas para mais de um dia.
“O espírito é também voluptuosidade” – diziam. E então se quebram as asas do seu espírito; arrasta-se agora de um lado para o outro, maculando tudo quanto consome.
Noutro tempo pensavam fazer-se heróis; agora são folgazões. O herói é para eles aflição e espanto.
Mas por meu amor e minha esperança te aconselho: não expulses para longe de ti o herói que há na tua alma! Santifica a tua mais elevada esperança!”
Assim falou Zaratustra.

quinta-feira, junho 21, 2007

Galerinha esperta, aqui ta sem post por enquanto, mas estou escrevendo para um outro blog também, esse aqui, que é meu particular, não vai parar ou falecer, no entanto... quem quiser ler os textos do outro blog deixo aqui o link, em franca exposição: http://dedoscruzados.blogspot.com

Esse blog tem sido feito com meus amigos Guerra e Mr.Durdem. Enjoy.

domingo, junho 10, 2007

Desterritorialização


Um sopro de vida. Toquei meus lábios aos dela. Sol passageiro, vento frio. Corri estando no mesmo lugar e fiz movimentos repetitivos. Seria possível algum prazer? Armários esvaziavam seus bolsos ao meu lado, lado a lado, percebi que eu também era um deles, um dos mais firmes, de pesadas amarras. Por Deus! Nunca me vi tão só.

Desejei por um minuto uma contração genital mecânica, tensão e descarga. Imaginei-me um computador. Fantasiei. O céu é muito azul pela manhã, mas está frio. Frio em torno de tantos armários, mas ninguém pode ver o que há dentro desses estranhos objetos. Por favor, não me julgue esta manhã. Tribunais e cárceres privados. O olhar dela é como uma lança atravessando um pequeno coelho. Sinto a desproporção de forças, meus olhos tremem, meu coração bate forte. Simpático, não é o moço da esquina, armários não são simpáticos, o sistema nervoso sim, agudo em medo.

Esconda-se, é o grito do fraco. Não é tarde demais, é o grito do esperançoso. Olhei ao meu lado e não havia café da manhã grátis. Não comi nada, sou um armário e isso me enerva profundamente. Meus fuzis queimam sem queimar, minhas paredes se tornaram quentes para evitar qualquer abertura. Minha sombra me espreita, mas deixo-a calada, pois o sol que em mim bate gera a escuridão projetada no chão rasteiro.

Meu metal derrete, já estou descendo ao chão. Talvez eu vaze por um bueiro qualquer e bóie junto com excrementos e outras imundices. Seria grato. Talvez eu possa ser comido por um rato que servirá de experimentos de laboratório. Seria ótimo ser dessecado. Será que satisfaria minha pulsão exibicionista? Estranhos sentimentos. Não sou mais um armário. Mostro-me ao mundo desesperadamente. Quando me tornei a história de uma história?

Afasta por favor! Esse olhar de repulsa, esse olhar julgador, essa cara de espanto. Trago a superfície os restos do esgoto. Sinto-me culpado. Talvez se eu tivesse ficado lá, talvez se eu ainda fosse um armário... Estranhas pessoas me olham, de jaleco branco, óculos e caras curiosas. Sou metal, não sou mais rato. Encaro-os. Solto raios, tremam! Chuva acida, desejo a morte. Morram! Sob a égide da lua meu metal se transforma em prata. Brilho, mas não sou artista. Talvez apenas um metaleiro. Um prateado para servir comida a sacerdotisas.

Após a chuva brilha um arco-iris. Ainda não tão brilhante. É um arco-iris de cores, de culpas, é um arco-íris que se forma da chuva necessária. Eu amo o arco-iris. Ele brilha para mim, e eu brilho para ele. Quisera eu vê-lo unido a lua numa orquestra, mas não me sinto harmônico. Não sou tão forte para ser um deus. Canto de alguma forma, pedindo o perdão da natureza. Não me deixe só. Sob o lastro de tragédias e maravilhas, vejo uma estrada. Caminho.

quinta-feira, junho 07, 2007

Ensaio sobre a Morte: Da defesa a libertação

Estou a muito tempo sem publicar nada, mas a maioria dos leitores desse blog, como me conhecem ou fora da Internet, ou por contatos de MSN e/ou orkut sabem que isso se deve a minha recente paternidade, alem de compromissos de estágio, faculdade, etc. Voltei a escrever neste pequeno texto, em linhas diretas e sem citações ou leitura de livros, algo um pouco mais informal. Não que eu não venha escrevendo, na verdade aquele artigo que publiquei aqui: “Para além do positivismo...” está agora mais que dobrado de tamanho e bem melhor em qualidade, mas só o publicarei pronto posteriormente. No momento voltemo-nos ao nosso tema, que achei interessante publicar mais para criar um referencial de debate e poder desenferrujar o blog - e meus dedos.

Vivemos numa época onde a morte é muitas vezes tratada de forma imprópria, ou seja, é tratada não com pessoas singulares, com suas metas e mitos individuais, mas é tratada como estatística. Nossos hospitais procuram ampliar a vida de qualquer maneira, como se essa fosse a verdadeira questão a ser colocada: concertar a máquina humana para ampliar sua durabilidade, proteger o computador de possíveis interferências que prejudiquem seu funcionamento adaptado ao mundo do trabalho, da família, em suma, da sociedade.

Qual é o sentido da vida? Esta seria uma pergunta coletiva, que se perde em respostas de livros de auto-ajuda, que só afastam a pessoa dela mesma, mas quando voltamo-nos a nossa própria história a “Coisa” se desvela: “Qual é o sentido da minha vida?”. Para mim, um jovem tocando a vida adulta, é difícil imaginar algum sentido mais profundo, uma contemplação e re-significação do que se passou em totalidade, no entanto, a pergunta sobre a morte pode gerar ares diversos. A morte se insinua na vida.

Já dizia Sartre que a morte é um ato singular, afinal, ninguém pode morrer por mim. Se eu morro pela religião, pela política, pela família, pela ideologia ou por uma nação, qualquer um pode morrer por mim, qualquer um poderia sacrificar sua vida em nome dos mesmos ideais, no entanto, quando lido com a morte, com meu estado de morrer, estou eu e minha negação, meu não-ser, frente-a-frente.

Se a vida é constituída de reversibilidade, isto é, se toda causa gera sempre o mesmo efeito – se voltando no tempo da resposta voltássemos sempre ao mesmo estimulo – saberíamos quando, como e talvez mesmo onde morrer, já que observando as diversas experiências alheias estaríamos mais ou menos precavidos quanto às possibilidades e probabilidades reais da morte, todavia, a coisa não é tão simples. Existe um tempo único, irreversível, um tempo acausal, não determinista, onde o “destino” pode ocorrer. Podemos estar num determinado momento numa grama extensa, sem nenhuma culpa, e sermos espancados pelos erros alheios, podemos ser atropelados por um motorista bêbado que disputava um pega. Existe algo de incontrolável, inconstruivel na vida e é esse tempo que nos coloca como abertura de possibilidade de sentido, mas não possibilidade de dominar a vida.

Deveríamos abandonar de vez o projeto gengiskaniano de poder-sobre para nos doarmos ao poder enquanto potencia, enquanto possibilidade de possibilidade. Dessa forma a morte ao ser um estado próprio em potencial é presentificada, e ao se presentificar ela nos coloca em relação ao mistério. Viver é entrar em contato com o sagrado. Se podemos morrer a qualquer hora deveríamos viver a vida com plenitude. Aqui abrimos as portas as escolhas, mas ao escolher sempre perdemos, escolher é decisão, de-cisão. Cindimos e perdemos nosso desejo de onipotência infantil: não podemos ser tudo, mas precisamos ser nos mesmos. Poderíamos entrar em outros conceitos existenciais como a responsabilidade, mas voltemos com a morte.

A morte nos faz tremer e certamente isso é relativamente cultural e relativamente arquetípico, já que sempre criamos rituais para lidarmos com a morte, existe uma necessidade de agüentarmos, suportarmos ela, além do fato da morte ser algo irrefreável, ontológico, por ser assim dizer. Poderíamos sobre um ponto de vista racional, como o da psicanálise, falar que os rituais e explicações alem da morte são mecanismos de defesa. Protegemos a nos mesmos da morte, do medo de morrer, dessa forma criamos rituais e religiões que embasem paraísos e vidas além da morte. Essa explicação é valiosa, no entanto, unilateral. Poderíamos dizer, então, que toda criação teórica é uma forma de defesa, uma forma de defesa contra a angustia da relação que envolve o “inferno que é o outro” ou uma tentativa teleológica de completar a Falta primordial que sentimos no rompimento da relação simbiótica com o Outro, a função materna.

Muito justo. No entanto, teríamos também que considerar mesmo qualquer modo de abertura de possibilidades como defesa, no final, os modos de defesa do ego poderiam ser ampliados a quase todos os tipos de fenômeno reduzindo a vida humana a uma procura de evitar a dor. Este princípio racional e causal é insuficiente para toda explicação, em primeiro lugar porque ignora o social, as flexões culturais que podem levar a um tipo de comportamento, seja religioso, seja de formação teórica, teológica em relação a morte ou a outros fenômenos. Em última análise, a partir do referencial causal, poderíamos dizer que generalizar o mecanismo de defesa é uma defesa contra aspectos irracionais da vida.

Dito isto podemos também abrir outras portas de observação dos modos de lidar com o morrer. Os modos de atribuição de sentido a vida, na relação com a visão da morte, abrem portas tanto de comportamentos diferentes e próprios (singulares), como pode ser um encontro do sentido da vida que estava latente, um sentido que faz a pessoa encontrar sua totalidade. Da mesma forma o próprio stress, por exemplo, considerado prejudicial pode ser algo que abra novas portas, como um atleta stressado que vence uma corrida por causa da pressão exercida sobre ele, de certa forma ultrapassando seus próprios limites.

Além do que, a partir de um referencial finalista, poderíamos questionar: “Qual o sentido de reduzirmos todos esses comportamentos a mero fator defensivo?”, “Aonde queremos chegar com isso?”. O referencial do sentido pode tanto se tornar unilateral, dogmático, como permitir suportar situações insuportáveis, é como disse Nietzsche: “Quem tem um porque viver pode suportar quase qualquer como”, o sentido pode ultrapassar barreiras biológicas e sociais. Se é fato que dificilmente escaparemos aos condicionamentos da vida coletiva, de ser um decadant, por outro podemos tentar nos aventurar. A morte é o que permite essa aventura, sem a morte, num sentido de perda total da consciência, do ego e do desligamento dos laços que mantinham a unidade corpórea e seu funcionamento, nunca poderíamos estar em devir.

Num paralelo cosmológico, é necessário sair do pré-universo quântico, onde não existia tempo nem espaço, para conhecer polaridades, vida e morte, eu e outro, matéria e anti-matéria, a morte pode ser, portanto, um retorno, um voltar-se a nossa origem e a nossa totalidade. Sem a morte não há vida.