Palavras de Sukuzi, filosofo Zen, ao começar uma palestra na Europa:
God against man
Man against God
Man against nature
Nature against men
Nature against God
God against nature
Very funny religion
terça-feira, agosto 08, 2006
segunda-feira, agosto 07, 2006
Tao te king
A forma da grande vida segue totalmente o Tao.
O Tao age nas coisas invisíveis e inapreensivelmente.
Inapreensivelmente, invisivelmente nele estão as imagens!
Inapreensivelmente, invisivelmente nele estão todas as coisas!
Insondavelmente, obscura, nele está a semente!
Esta semente é a verdade. Nela está a crença.
Desde a origem até hoje não se pode prescindir de seu nome
para compreender o nascimento de todas as coisas.
E como posso saber que o nascimento de todas as coisas assim se deu?
Através dele.
Lao-Tsé.
O Tao age nas coisas invisíveis e inapreensivelmente.
Inapreensivelmente, invisivelmente nele estão as imagens!
Inapreensivelmente, invisivelmente nele estão todas as coisas!
Insondavelmente, obscura, nele está a semente!
Esta semente é a verdade. Nela está a crença.
Desde a origem até hoje não se pode prescindir de seu nome
para compreender o nascimento de todas as coisas.
E como posso saber que o nascimento de todas as coisas assim se deu?
Através dele.
Lao-Tsé.
quinta-feira, agosto 03, 2006
Introdução a Epistemologia Junguiana.

Como eu estou escrevendo um texto um pouco mais abrangente sobre o assunto, que de certo não ficará pronto este ano, tinha pensado em meus botões em fazer um pequeno resumo aqui para os interessados. Mas, me perguntei: quem se interessa por epistemologia? Em especial, em epistemologia e Jung. Sobre essas duvidas achei que o texto passaria pelo blog apenas como mais um dos textos que só servem para eu dar, quando muito, uma pequena revisada em alguns conhecimentos e fazer uma pequena ginástica nos meus dedos. Mas, como eu perguntei no ultimo post sobre a validade de um tal texto e um grande número incontido de fãs soltou fogos diante desta possibilidade, só me resta obedecer-lhes cegamente.
Modelo Científico Clássico e Jung
Ignoremos, a priori, o período grego e escolástico para não complicar muito as coisas, até porque já fiz um pequeno texto: “Epistemologia e os gregos” que, apesar de bem superficial há de fornecer o mínimo de informação sobre o assunto. Sabendo-se que epistemologia se refere à ciência da ciência – uma ciência dos conhecimentos validos -, ou, de maneira mais contemporânea, uma ciência dos conhecimentos provisórios, podemos prosseguir.
A ciência clássica, que teve seu grande expoente em Newton, foi especialmente influenciada por Descartes, além de teóricos positivistas e empiristas como: Locke, Berkley e Hume. O modelo cientifico clássico foi o modelo que era hegemônico enquanto Jung fazia sua formação, e começou sua ascensão quando “pela primeira vez Tomas de Aquino leu Aristóteles, diretamente do grego”. (Cardoso, 2002). Descartes foi especialmente influente no que se refere ao modelo de causalidade cientifico, ou seja, na procura das causas dos efeitos materiais.
Pode-se dizer que todo esse modelo foi baseado num culto a razão, onde “A razão conceituada segundo a cultura ocidental origina-se a partir da palavra latina ratio, derivação do verbo reor, que significa contar, reunir, medir, juntar, separar, calcular. Assim, a própria origem etimológica da razão denota um sentido de ordenar, pôr em um modo ordenado” (Bicalho, 1998: 31). Certamente para Descartes a razão deveria ter um valor explicito, pois para ele a validade do real derivava da alma, onde ele conceituava uma dicotomia entre res extensa e res cogito, ou, realidade da matéria e realidade do pensamento, não é por menos que a sua máxima foi o famoso: “Cogito, ergo sum”, “Penso, logo existo”.
Descartes havia então proposto leis fundamentais, que seriam: “principio da identidade, da não contradição, do terceiro excluído e da razão suficiente” (ibid: 33) ainda segundo Bicalho “O principio da identidade anuncia que ‘A é A’, ou ‘o que é, é’: afirmando que uma coisa só pode ser conhecida e pensada se for percebida por uma identidade. O principio da não contradição, cujo enunciado é ‘A é A e é impossível que seja, ao mesmo tempo e na mesma relação, não A’ (...) O principio do terceiro excluído enuncia que ‘Ou A é x ou é y e não há terceira possibilidade’, definindo como princípio a decisão de um dilema no formado ‘ou isto ou aquilo’, exigindo apenas uma das duas alternativas como verdadeiras. E, por fim, há o principio da razão suficiente, que afirma que tudo o que existe e tudo o que acontece tem uma razão (causa ou motivo) para existir e para acontecer, e que tal razão (causa ou motivo) pode ser conhecida pela nossa razão”. (ibid: 33, 34).
Emitida a razão, como essencial no ato de conhecer, uma grande mudança ainda seria alçada para o desenvolvimento da ciência clássica, em especial com Locke. Enquanto o modelo de Descartes ajudava a fundamentar uma ciência matemática, por exemplo, onde poder-se-ia alienar qualquer inteligência do mundo externo, foi com Locke que os fundamentos filosóficos da famosa extroversão ocidental se deram, a partir daí todo conhecimento tornara-se modelado pelo mundo, eis que temos a perola de Locke: “Nihil est in intelectu quod non antea fuerit in sensu” (Nada esta no intelecto que antes não tenha estado nos sentidos).
Vejamos onde Jung fica nesse balaio de gato, pois senão entraremos nas nuances desses pensamentos e nos perderemos no texto. Demos os contornos introdutórios ao pensar positivista, o qual moldou a ciência dita clássica, todavia, ainda seria mais interessante darmos uma pequena definição de positivismo e do posterior pensamento antipositivista. “O anti-positivista – é relativista, entendendo o mundo a partir dos indivíduos que o integram, só se podendo captar o significado de uma situação do ponto de vista do quadro de referência de seus participantes. Não existe qualquer conhecimento objetivo, podendo-se no máximo se chegar a um acordo inter-subjetivo” (Cardoso, 2002) enquanto “o positivista – procura explicar e predizer o que acontece no mundo, buscando regularidades e relacionamentos causais, através de pesquisas experimentais e da possibilidade de falsificação de hipóteses. Para ele, o conhecimento é acumulativo”. (ibid).
Sem duvidas Jung começou suas pesquisas influenciado por um modelo causalista e nomotético, tanto que fazia testes experimentais de associação de palavras a fim de comprovar as teses freudianas de inconsciência. Jung então diz em sua biografia: “Com as experiências de associações (1903), começou minha atividade científica propriamente dita. Considero-as como meu primeiro trabalho realizado na linha das ciências naturais. Foi então que comecei a exprimir meus pensamentos próprios. Depois dos Estudos Diagnósticos sobre as Associações (1903) apareceram duas publicações psiquiátricas: Psicologia da Demência Precoce (1907) e O conteúdo das Psicoses (1908). Em 1912 apareceu meu livro Metamorfose e Símbolos da Libido, que pôs fim à amizade que me ligava a Freud. Nesse momento – nolens volens – comecei a seguir o meu próprio caminho”. (Jung, 2005: 182).
Jung, deste modo, começou a analisar o conhecimento a partir de pesquisas experimentais e causais, sustentando especialmente sua tese de complexos inconscientes. Contudo, não demorou muito para Jung partir a outro caminho, um caminho próprio. Enquanto Freud, que foi uma influencia fundamental, permanecia nesse modelo cartesiano, a fim de encontrar as causas dos traumas – chegando, a partir daí, no complexo de Édipo -, Jung já observava outros aspectos da experiência, convencido de que, em certas situações a tentativa de encontrar causas nas ciências humanas só pode levar a metafísica ou à subordinação dos fatos a construção teórica.
Fenomenologia, Tipos Psicológicos e Autonomia da Alma.
“É uma tirania intolerável supor que existe apenas uma psicologia ou apenas um principio psicológico fundamental; isto é um preconceito pseudocientífico do homem comum. Fala-se sempre do homem e de sua ‘psicologia’. Também se fala da realidade como se existisse apenas esta única. Realidade é o que atua na alma humana, e não o que alguns acham que lá atue, fazendo generalizações pré-concebidas” Carl Gustav Jung (Tipos Psicológicos, 1920-21)
Podemos dizer que além da influencia freudiana na formação de Jung ele contava com outras influencias significativas como a de Pierre Janet, contudo, diferente de Freud e Janet, que tiravam suas conclusões através do estudo da neurose, Jung trabalhou um grande período na “área da psicose”, e, como Janet, adotava um método muito mais descritivo do que causal. Janet não procurava as causas, mas descrevia seus fenômenos criando assim a possibilidade de estabelecimento de modelos, quadros de patologia e divisões analíticas. Da mesma forma Jung seguiu por um caminho onde pudesse observar o fenômeno como se apresenta e não como pressupõe algum postulado abstrato ou personalista.
Ele então se valeu do empirismo, i.e, se ateve aos fatos e procurou utilizar o método fenomenológico para estudar a alma. Ele nos diz no ensaio “Mente e Terra” “Minha concepção da alma nada tem a ver com isto, porque é puramente fenomenológica... estou simplesmente tentando apreender cientificamente os fenômenos psíquicos elementares que subjazem em nossa crença nas almas” (Jung apud Cardoso, civilization in transition, 1978: 43) Para tal, cada caso passa a ser um caso e, antes de especularmos através de uma teoria devemos esperar que o fenômeno nos comunique quem ele é, o que ele é (redução eidética). Na interpretação dos sonhos, por exemplo, enquanto Freud se ateve as suas interpretações sexuais, como falar que uma chave entrando numa fechadura significa um ato sexual, Jung tentava não fugir do sonho, da observação do fenômeno que se mostra, tentando fazer uma hermenêutica, ou seja, um estabelecimento de contexto e da intencionalidade daquela imagem que se desvela. Então a própria interpretação do sonho só pode começar de maneira horizontal através da própria pessoa, ou seja, através de associações com sua própria vida para depois tornar-se mais complexa, social e histórica.

Contudo, não bastando a observação de um único fenômeno, pois ao mesmo tempo que há algo que nos torna singulares, assim como cada arvore é uma arvore, cada ser é um ser, há também um modelo básico que perpassa tanto a natureza como nossa psique. Desta forma, é um fato genérico e bem conhecido que todos os seres humanos tem um coração, ou um cérebro, apesar de cada coração e cada cérebro serem estruturas singulares, únicas. Jung observou que todos, de fato, não somos tabulas rasas no que se refere a psyché, mas possuímos estruturas básicas que se manifestam através de símbolos, de acordo com o contexto da época ou de nossa singularidade. Nessa perspectiva a própria ciência seria um modelo de interpretação e observação dos fenômenos, não podendo, no entanto, reivindicar para si o critério de validade única ou absoluta.
Através do estudo dos tipos psicológicos, Jung pode observar como diferentes indivíduos, com seus diferentes tipos psicológicos, tinham diferentes modos de relação com o mundo. Esse estudo abriu margem à multiplicidade de analises da psique humana, já que esta se viu em demasia complexa para que apenas uma escola pudesse compreendê-la em sua totalidade. Segundo Melo: “Epistemologicamente, C.G. Jung foi contrario a idéia de fundar uma escola hegemônica em psicologia (1981a; cf. Franz, 1980). Defendia a complexidade do psiquismo e a multiplicidade de facetas deste, descreveu a necessidade de convivência co-disciplinar psicológica entre Adler e Freud, tentando incluir em um só modelo as motivações humanas descritas pelos autores.” (Melo, 2002).
O problema dos tipos psicológicos foi um problema, em grande parte, epistemológico. Nenhum dos tipos, na verdade, pode reivindicar para si todo critério de verdade, pois incorreria, desta forma, a uma interpretação unilateral dos fenômenos, rechaçando apenas uma das possibilidades de se relacionar com o mundo, ou com a alma. Jung diz que “A idéia da uniformidade das psiques conscientes é uma quimera acadêmica que facilita a tarefa do professor diante de seus alunos, mas que desmoronou diante da realidade” (Jung, 1991)
Essa observação pode vir-a-ser a partir do momento em que a psique deixa de ser compreendida como um mero epifenomeno do mundo externo, do mundo “material” e passa a ter uma autonomia relativa e tanta validade quanto o mundo objetivo, senão mais. Na verdade “O imaginário humano possui uma historia, uma estrutura anterior que foi assim estruturada por todas as experiências vividas pelo homem”.(Melo, 2002). Jung então estudou os mitos e pode observar de que modo independente de época, local, contexto todas as civilizações apresentavam estruturas idênticas, ou seja, a base dos mitos é a mesma diferindo a partir daí na suas manifestações históricas e contextualizadas. Por exemplo, toda civilização possui heróis, possui um mito cosmogonico, etc., entre outros símbolos freqüentes podemos destacar o “puer aeternus” (eterno jovem), a sombra, animus e anima. Este estudo antropológico, contudo, não foi feito ao acaso, e sim a partir do momento que Jung percebeu que esses mitos se repetem na história e mito individuais de cada ser humano, aparecendo em símbolos dinâmicos e teleológicos, por exemplo, nos sonhos.
Os mitos são, portanto, não simplesmente uma explicação para o sentido do mundo, mas apresentam a própria alma humana manifestada através de símbolos (do chinês sym + bailen que significa a união de duas metades opostas de uma moeda). Desse modo o estudo da mitologia é também um estudo da própria natureza humana, da própria psicologia. Jung então dirá: "A psicologia analítica faz parte essencial das ciências da natureza; entretanto, está submetida mais do que qualquer outra aos preconceitos e condicionamentos pessoas do observador. É por isso que, a fim de evitar erros mais grosseiros, ela depende, no mais alto grau, da documentação e comparação históricas". (Jung, 2005: 177).
Quando falamos dos protótipos do herói, do mito cosmogonico e de outros falávamos do que Jung chamou de arquétipos e é ai que gostaríamos de mostrar que o arquétipo “é um elemento vazio e formal em si, nada mais sendo do que uma facultas praeformandi, uma possibilidade dada a priori da forma da sua representação. O que é herdado não são as idéias, mas as formas, as quais sob esse particular correspondem aos instintos igualmente determinados em sua forma. Provar a essência dos arquétipos em si é uma possibilidade tão remota quanto a de provar a dos instintos, enquanto os mesmos não são postos em ação in concreto.” (Jung, 2006: 91). Eles foram observados então de vasto material empírico e não tirados simplesmente de conclusão a partir de uma lógica personalista ou aritmética. Jung então explora os métodos a partir dos quais conhecemos os arquétipos e seu sentido: “Não há substitutivo ‘racional’ para o arquétipo, como também não há para o cerebelo ou os rins. Podemos examinar órgãos somáticos anatomicamente, histologicamente e embriologicamente. Isto corresponderia à descrição fenomenológica arquetípica e à apresentação da mesma em termos histórico-comparativos. O sentido de um órgão somático só pode ser obtido a partir do questionamento teleológico” (ibid: 162).
O ato de conhecer do ser humano está, logo, limitado existencialmente a certos padrões mesmo que possua uma infinidade de possibilidades de manifestação e, de fato, é isso que acontece. A psique humana é dinâmica, viva, e por tal a sua própria paralisação pode vir a se tornar uma neurose, pois o Eu não tem total autonomia sobre a psique total do ser humano e quando o ego se mantém de maneira unilateral ele correrá o risco de uma dissociação, pois ignora o inconsciente.
Freud já havia observado que o inconsciente continua ativo mesmo quando a psique consciente não o percebe, e pode, apesar deste desconhecimento consciente, continuar a influenciar nossas vidas de maneira como acontecia com as famosas histéricas de Salpêtrière. Todavia, Freud manteve-se preso ao próprio Eu e as suas internalizações ao analisar a psique além de criar uma eterna dicotomia homem natureza manifesta no seu sistema topológico: “Id x Superego”. Temos que ter a consciência inicialmente de que o homem é homús, isto é, terra fértil, ou seja, o homem provem da própria natureza e por tal está intrinsecamente ligado a ela. A natureza não é simplesmente degradação e desgraça, algo que no máximo temos que aprendera lidar, mas a natureza é também a eterna criação, a fonte do devir.
Bem, essa é uma introdução altamente capenga e que ainda foge do assunto algumas vezes, mas espero que possa ajudar a quem se interessar no assunto e se alguém quiser podemos discutir qualquer assunto ai. Beijos e abraços!
Bibliografia:
Bicalho, Pedro. O Cárcere da Razão: o aprisionamento de sambistas no universo cartesiano. 1998.
Cardoso, H. O que você deve saber para entender Jung – 1. Fundamentos do pensamento junguiano. 2002
Jung, C. G., Memórias, Sonhos e reflexões. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 2005 (2003). (1957-1960)
Jung, C. G., Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes. 2006
Jung, C. G., Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes. 1991 (1920-1)
Mello, E. Origem e Totalidade. 2002
segunda-feira, julho 31, 2006
Gnosticismo Contemporaneo
"Super-man está dentro de vos"
e do profeta:
"Não sou eu quem falo, mas é o Super-man que fala em mim"
e do profeta:
"Não sou eu quem falo, mas é o Super-man que fala em mim"
Conto alemão: Die Prinzessin auf dem Baum

O jovem que guradava seus porcos na floresta descobre uma árvore cujos galhos se perdem nas nuvens. "Como será o mundo se observares do alto de sua copa?" diz de si para consigo. Sobe então na árvore, o dia inteiro, sem alcançar os galhos. O sol se põe e ele precisa passar a noite em uma forquilha da árvore. No dia seguinte, continua a subir e ao meio-dia atinge a copa. Só no fim da tarde chega a uma aldeia construída dentro dos galhos. Lá moram camponeses que o alimentam e lhe dão abrigo para a noite. De manhã, continua a escalada. Lá pelo meio-dia chega a uma castelo onde mora uma donzela. Descobre então que a árvore termina nesse ponto. Ela é a filha de um rei, mantida presa por um mau feiticeiro. O jovem fica com a princesa e tem autorização para entrar em todos os aposentos do castelo, com exceçã de um só, cujo acesso a princesa lhe proibiu. A curiosidade porém foi mais forte. Ele abre a porta e encontra num quarto um corvo pregado na parede com três pregos. Um deles atravesa-lhes o pescoço e os outros dois as asas. O corvo queixa-se de sede e o jovem, movido pela compaixão, dá-lhe água para beber. A cada gole cai um prego e, no último, o corvo se liberta e sai voando pela janela. Quando a princesa fica sabendo, assusta-se muito e diz: "O corvo era o diabo que me enfeitiçou... Agora não demorará muito para vir buscar-me! De fato, numa bela manhã ela desapareceu.
O jovem põe-se à sua procura e encontra o lobo que lhe da alguns pêlos, com a ajuda dos quais o jovem poderia ser ajudado a qualquer momento. Do mesmo modo, encontra também um urso e um leão, que também lhe dão alguns pêlos. Além disso, o leão diz-lhe que a princesa está presa numa casa de caçadores, nos arredores. O jovem encontra a casa e a princesa, mas é informado de que a fuga é impossível, pois o caçador possui um cavalo branco de três pernas, o qual sabe tudo e avisaria infalivelmente o caçador. Apesar disso, o jovem tenta a fuga, porém em vão. O caçador o alcança, mas como o jovem já havia salvo a vida quando era corvo, o caçador resolve deixá-lo partir. Este último regressa com a princessa na garupa. O jovem entra de novo furtivamente na casa, no momento em que o caçador fora para a floresta, e convence a princesa a revelar-lhe o segredo mediante o qual o caçador conseguira aquele cavalo branco e inteligente. Ela o consegue de noite e o jovem que se escondera debaixo da cama descobre que mais ou menos uma hora de distancia dali mora uma bruxa que cria cavalos mágicos. Aquele que conseguir guardar os potros durante três dias, poderá escolher para si, como recompensa, um cavalo. Outrora ela possuía, além dos cavalos, doze cordeiros, a fim de com eles aplacar a fome dos doze lobos que moravam na floresta em torno do seu quintal e assim impedi-los de se precipitarem sobre alguém. Ela, porém, não lhes dera os cordeiros. Os lobos o teriam perseguido ao voltar montado no cavalo branco e, no momento de atravessar a divisa, teriam conseguido arrancar a perna do cavalo. Por isso, seu cavalo só tem três pernas.
Mais que depressa o jovem vai até a casa da bruxa e faz um trato com ela, sob a condição de dar-lhe não apenas o cavalo que ele mesmo escolheria, mas também os doze cordeiros. A bruxa concorda. Ela ordena ao potro que fuja. Para adormecer o jovem, lhe da água ardente. Ele bebe, adormece e os potros escapam. No primeiro dia, ele os recupera com a ajuda do lobo. No segundo dia, quem o ajuda é o urso e, no terceiro, o leão. Pode então escolher a sua recompensa. A filhinha da bruxa lhe revala qual é a montaria da mãe. Naturalmente trata-se do melhor cavalo, que também é branco. O jovem o pede para si. Mal sai da estrebaria, a bruxa fura os cascos do cavalo branco, sugando-lhe a medula dos ossos. Com a medula ela assa um bolo, que oferece ao jovem para viagem. O cavalo enfraquece a ponto de morrer, mas o jovem dá-lhe o bolo para que coma, e com isso o cavalo recobra sua força anterior. O jovem consegue sair incólume da floresta, depois de ter saciado os lobos com os doze cordeiros. Ele vai buscar a princesa e ambos saem montados. O cavalo branco de três pernas chama novamente o caçador que imediatamente persegue os dois, conseguindo alcançá-los rapidamente, porque o cavalo branco de quatro pernas não quer correr. Quando o caçador se aproxima dele, o cavalo branco de quatro pernas brada para o de três pernas: "Irmãzinha, derruba-o!" O feiticeiro é derrubado e pisoteado pelos dois cavalos. O jovem coloca então a princesa no cavalo branco de três pernas e ambos cavalgam para o reino de seu pai, onde celebram seu casamento. O cavalo branco de quatro pernas pede ao jovem que decapite os dois cavalos, porque senão cairia sobre ele uma desgraça. Ao fazê-lo, os cavalos transformam-se em um principe imponente e uma princesa maravilhosa que depois de algum tempo se mudam "para seu próprio reino". Eles tinham sido transformados outrora em cavalos pelo caçador.
domingo, julho 30, 2006
Destino ou acaso?
quarta-feira, julho 26, 2006
Fausto:
Duas almas, ah, moram em meu peito
Uma da outra quer se separar;
Uma, com forte paixão amorosa,
Ao mundo se aferra com força total;
Outra se levanta vigorosa do pó
Para as planícies dos grandes ancestrais.
Obs: A tradução da musica do "Les quatre barbus" que tava aqui agora ta no outro blog (ver seção links), em breve tento traduzir mais e melhorar. Também ta em fase de tradução porca o livro: "Epistemology et Psychologie" do Piaget, mas esse até o final do ano eu devo tar publicando no blog (não nesse) o 1 capitulo. Um texto que estou pensando em fazer também é sobre epistemologia junguiana, algo mais resumido, mas não sei se alguem se interessa por essas coisas. Outro texto que tinha prometido e não saiu foi o "Anarquismo e Tipos Psicológicos", o que não saiu até agora pela minha falta de leitura das teorias/autores anarquistas, o que dificulta um pouco, pois fica um pouco arbitrário/incerto eu ficar falando das teórias dos caras através de livros de terceiros. Contudo, se alguém tiver interesse eu posso até ver se adianto alguma coisa, uma base do pensamento pra desenvolver posteriormente.. Abraços!
Duas almas, ah, moram em meu peito
Uma da outra quer se separar;
Uma, com forte paixão amorosa,
Ao mundo se aferra com força total;
Outra se levanta vigorosa do pó
Para as planícies dos grandes ancestrais.
Obs: A tradução da musica do "Les quatre barbus" que tava aqui agora ta no outro blog (ver seção links), em breve tento traduzir mais e melhorar. Também ta em fase de tradução porca o livro: "Epistemology et Psychologie" do Piaget, mas esse até o final do ano eu devo tar publicando no blog (não nesse) o 1 capitulo. Um texto que estou pensando em fazer também é sobre epistemologia junguiana, algo mais resumido, mas não sei se alguem se interessa por essas coisas. Outro texto que tinha prometido e não saiu foi o "Anarquismo e Tipos Psicológicos", o que não saiu até agora pela minha falta de leitura das teorias/autores anarquistas, o que dificulta um pouco, pois fica um pouco arbitrário/incerto eu ficar falando das teórias dos caras através de livros de terceiros. Contudo, se alguém tiver interesse eu posso até ver se adianto alguma coisa, uma base do pensamento pra desenvolver posteriormente.. Abraços!
quinta-feira, julho 13, 2006
História

Pequena história para meus amigos leitores:
“Moisés disse certa vez a seu servo: eu não quero parar de caminhar, mesmo que tenha de viajar por oitenta anos até chegar ao lugar de encontro dos dois mares. Depois de alcançarem esse lugar, esqueceram o peixe que seguiu seu caminho por um canal até o mar. Depois de haverem passado por esse lugar, Moisés disse a seu servo: - Traze-nos o alimento do meio-dia, pois estamos cansados com esta viagem. O servo respondeu: - Vê o que me aconteceu! Quando acampávamos lá, junto à rocha, eu me esqueci do peixe. Só Satanás pode ter sido a causa desse esquecimento e falta de lembrança, e de um modo estranho (o peixe) seguiu o caminho para o mar. Então Moisés lhe disse: - É lá, portanto, o lugar que procuramos. E retrocederam pelo mesmo caminho que haviam seguido. Nele encontraram um dos nossos servos que havíamos dotado de graça e sabedoria. Moisés disse-lhe: - Devo seguir-te para que me ensines uma parte da sabedoria que aprendeste, para minha orientação? Mas o servo respondeu: - Não agüentarás ficar a meu lado; como suportarias pacientemente estar perto de coisas que não podes compreender? Moisés porém respondeu: - Se Deus quiser, verás que sou paciente, e não te desobedecerei em nada. O Outro retrucou: - Pois bem, se quiseres seguir-me, não poderás perguntar-me coisa alguma, até que eu, espontaneamente, te ofereça a explicação. E, assim, ambos seguiram até chegar a um barco no qual o Outro fez um furo. Moisés disse então: - Será que fizeste um furo para que a tripulação se afogue? Acho estranho o que fizeste. O Outro porém respondeu: - Eu já te dissera antes que não agüentarias ficar pacientemente a meu lado? Moisés respondeu: - Não me repreendas por tê-lo esquecido e não tornes tão difícil a ordem da obediência. Ao continuar, encontraram um jovem que o Outro matou. Moisés disse então: - Mataste um homem inocente, que não havia cometido nenhum assassinato. Na verdade cometeste uma ação injusta. Mas o Outro respondeu: - Já não te dissera antes que não agüentarias ficar pacientemente a meu lado? Ao que Moisés respondeu: - Se eu te perguntar mais alguma coisa, não precisas continuar a suportar-me em tua companhia. Aceita isso como desculpa. E continuaram até chegar a uma certa cidade onde pediram comida a seus habitantes; mas estes recusaram-se a hospedá-los. Lá encontraram um muro que ameaçava ruir; o Outro porém o escorou. Moisés disse-lhe: - Se quisesses poderias ser remunerado por esse trabalho. Mas o Outro respondeu: - Aqui vamos separar-nos. Antes porém quero revelar-te o significado das coisas que não pudeste suportar com paciência. Aquele barco pertencia a pessoas pobres, que trabalhavam no mar, e eu o inutilizei porque um rei pirata os perseguia, saqueando cada barco que encontrava. No que concerne ao jovem que matei, os seus pais são pessoas de fé e temíamos que os contaminasse com seus extravios e falta de fé; por isso desejávamos que o Senhor lhes desse em troca um filho melhor, mais piedoso e mais amoroso. Aquele muro pertence a dois jovens da cidade que são órgãos. Debaixo do muro está enterrado um tesouro que lhes caberá, e como seu pai era um homem honrado, é a vontade do teu Senhor que eles mesmos ao atingirem a maioridade retirem o tesouro pela graça do teu Senhor. Eu não agi portanto por capricho. Vê, esta é a explicação daquilo que não conseguiste suportar com paciência”.
segunda-feira, julho 10, 2006
Seine majestat das Ich
“Seine majestat das Ich”[1]
Resolvido escrever um “proto post” sobre um assunto que considero essencial, só me resta soltar vagas linhas enquanto alguns muros me impedem de alavancar algo melhor. O assunto é delicado, porém acredito que seja um assunto de suma importância tanto na vida cotidiana quanto teoricamente. O assunto que abordarei se refere em essência ao individualismo, a atomização e ao narcisismo contemporâneo, passando pela contra cultura, pela psicanálise e pelo meio anarquista chegando até o processo de individuação junguiano e ao único stirneriniano.
Na contemporaneidade, ou segundo alguns, pós-modernidade, existe um fenômeno genérico em jogo que perpassa e modela a nossa subjetividade, criando a partir daí, um modelo de conduta coletivo que propõe a mais pura individualidade e personalização, onde antigos valores como: “autonomia”, “felicidade”, “emancipação individual”, “heterogeneidade”, entre outros, tornaram-se os novos modeladores para a população, sendo agora taxados como essenciais e
atribuídores de status co.
A esse fenômeno Gilles Lipovestky chama de sedução, que longe de significar, para ele, um fenômeno ideologicamente determinado que intencionalmente busca alienar, significa uma outra coisa, mas no momento citemos suas palavras: “A sedução nada tem a ver com a representação falsa e com a alienação das consciências; é ela que configura o nosso mundo e o remodela segundo um processo sistemático de personalização cuja obra consiste essencialmente em multiplicar e diversificar a oferta, em propor mais para que nós decidamos melhor, em substituir a coação uniforme pela livre escolha, a homogeneidade pela pluralidade, a austeridade pela realização dos desejos” (Lipovetsky, 1989: 19).
E Lipovestky vai além ao dizer: “Toda a vida das sociedades contemporâneas é doravante governada por uma nova estratégia que destrona o primado das relações de produção em proveito de uma apoteose das relações de sedução” (Lipovetsky, 1989: 17). A através da sedução que podemos ver esta sociedade atomizada, extremamente personalista à qual parece, num olhar mais superficial, derrubar todos os totens e “ismos” para dar lugar a uma pluralidade narcisista sem fim. A cartada da sedução é a “do seu bem-estar, da sua liberdade, do seu interesse próprio” (ibid) e é justamente isso que ela propõe gerar.
Só que mesmo que não queiramos dar uma importância supervalorizada aos processos econômicos e ideológicos, sem duvida eles são uma influencia que dificilmente pode ser negada. Não se trata de dizer: “os seres humanos são determinados pela economia”, “os seres humanos são determinados pelo pensamento dominante propagado por suas organizações”, nem de definir o ser humano como pura liberdade. O fato é que, mesmo que observemos com clareza o fenômeno que Lipovestky chama de sedução, onde a atomização e “heterogeneização” são estimuladas, não podemos negar que exista uma intencionalidade por trás de fenômeno. Essa intenção nos parece um elemento da intenção liberal que desmistifica o governo e a coletividade apoiando o individuo (in+dividuo, não divisível) sobre sua “particularidade”, ou melhor, sobre as leis do mercado e das grandes empresas multifacetadas onde supostamente se aceita tudo, qualquer individuo com sua liberdade, mas, por trás dessa aceitação incondicional, vê-se outra realidade, a realidade da exclusão por meio da impossibilidade de consumo dos mais pobres que são, em parte, levados a fazer de tudo para consumirem e pertencerem a alguma das categorias sociais existentes. Em meio a essa polimorfização dos grupos sociais, supostamente aceitando uns aos outros, existe uma luta intrínseca por poder, para vencerem uns aos outros, apoiados sobre o darwinismo social preponderante, a antiga teoria do aclamado Spencer.
Sem duvida o assassinato de Deus enquanto realidade psíquica e coletiva trouxe uma descentralização dos valores e um Eon de incertezas. A cultura contemporânea que passa a viver, não num “vazio de mitos”, mas sim em novos mitos, agora apoiados sobre a incerteza, a deusificação paralelamente do mercado e do homem único e material , logo, do culto ao corpo e ao dinheiro. Ao fazer a analítica dessa nova mentalidade também não podemos ficar presos a fatos “materiais” e esquecer-nos dos determinantes psicológicos deste novo paradigma.
Lembremos então das populares teorias da psicologia dos anos 60, como a de Carl Rogers que propunha a originalidade, a espontaneidade, uma valorização do corpo, dos sentimentos, da pessoa. Rogers diz: “Confio nos sentimentos, palavras, impulsos, fantasias que em mim emergem. Deste modo estou usando mais do que o eu consciente, estou esboçando algumas das capacidades do meu organismo total” (Rogers, 2002: 62). Rogers tentava criar a autonomia no sentido originário do termo: Auto (próprio) + Nomos (lei, regra), ou seja, o encontro da própria lei, regra, de cada um que, segundo sua crença, seriam essencialmente positivas².
Voltemos, para embolar o texto, a analise da cultura contemporânea para após voltarmos a pensar sobre as psicoterapias e analises. Na época contemporânea a divisão cartesiana criada por René Descartes (1596-1650) entre “res extensa” e “res cogito”, que fundamentava a época moderna, parece haver sido extinta. O corpo deixa de ser um maquinário o qual a alma, através da glândula pineal, se comunicaria. Ele deixa de ser “materialidade muda, em proveito da sua identificação com o ser-sujeito, com a pessoa” (Lipovetsky: 58). O corpo então passa a estar relacionado com nossa verdade natural, em busca de nossa integralidade, de nosso encontro conosco mesmo que passa a ser ultra-valorizado. “Enquanto pessoa, o corpo ganha dignidade; devemos respeitá-lo, quer dizer zelar permanentemente pelo seu bom funcionamento, lutar contra a sua obsolescência, combater os signos da sua degradação através de uma constante reciclagem cirúrgica, desportiva, dietética, etc.” (ibid).
Hoje a velhice, o aparecimento de rugas, a desjuventudização parecem ser um motivo de transtorno, pois o corpo bom tornou-se o corpo esbelto, saudável e que vive o máximo de tempo possível. Talvez um dos primeiros a enveredarem por estas sendas tenha sido Timothy Leary ao propor seu SMI²LE (Space Migration, Inteligence², Life Extension) onde acreditava num aumento paulatino da vida ao que esperava um dia pudesse ser possível à imortalidade (Robert Anton Wilson).
O corpo e o sexo passam a ser os novos avatares do liberalismo, seus meios de propaganda para mostrarem-se melhores que os outros sistemas, como permitissem a liberdade, como mostramos no individualismo. Mas o individuo a sua procura nada encontra. A cultura das sensações vai dar especial valor a imagem, ao corpo, ao visível, ao contrário do sentimento, como diz Costa sobre a cultura das sensações: “A cultura das sensações significa que a maioria das pessoas, sobretudo na vida urbana, está buscando cada vez mais no corpo as regras e o modelo, com os quais têm que se identificar” (Costa, entrevista para um jornal que esqueci qual é). Ignoram-se os modelos abstratos, como o sentimento, ou a profundidade do ser, sua singularidade, ou coisas do tipo. Nessa nova cultura, das sensações, ninguém mais quer “sacrificar a liberdade sexual, o dinheiro e a beleza por amor nenhum” (ibid) seja esse amor uma ideologia, parceira, ou religião.
Já citamos muito Lipovestky que, apesar de psicólogo social, tem uma gigantesca influencia psicanalista e é sobre ela que ele remonta as bases de suas constatações. Para acrescentarmos uma analise psicanalista a nossas visões, acrescentemos a analise da cultura contemporânea, pós-moderna ou das sensações sobre o viés de outro psicanalista (Jameson).
Para Jameson, a pós-modernidade enquanto cultura pode, em uma de suas características, ser classificada de esquizofrênica. Jameson, para tal, se baseou no modelo de esquizofrenia prescrito por Jacques Lacan que considerava “a esquizofrenia substancialmente como uma desordem de linguagem, associando-a toda uma teoria da aquisição da linguagem como o elo esquecido da concepção freudiana da formação do psiquismo adulto. Para tanto, ele nos deu uma versão lingüística do complexo de Édipo (...)”.
A comparação entre a experiência pós-moderna e a esquizofrenia vão estar relacionadas, em grande parte, em suas relações com a temporalidade. Novamente voltamos a teoria de Lacan, onde “a experiência da temporalidade humana (passado, presente, futuro), a persistência da identidade pessoal através de meses e anos – a própria sensação vivida e existencial do tempo – são também efeito de linguagem”. Se o esquizofrênico teve deficiências no domínio da fala e da linguagem, ele também terá problemas relacionados a temporalidade. O esquizofrênico vive no eterno presente e, de tal modo, não cria nenhuma identidade. Ele é ninguém, não tem o Nome-do-Pai. Isso nos faz lembrar o tempo mítico dos gregos, chamado de kairótico, onde existia a acausalidade, e um tempo imprevisível, um tempo não continuo que podemos fazer uma analogia do tempo como Jameson apresenta nas teorias Lacanianas.
O esquizofrênico, por um lado, “vivencia mais do que nós, e com nitidez, uma experiência muito mais intensa de um definido instante do mundo, pois nosso próprio presente é sempre parte de algum conjunto mais amplo de projetos, o que nos obriga a focalizar e a selecionar nossas percepções”. Uma das características fundamentais da esquizofrenia é “ultrapassar o sentido” onde “a materialidade das palavras se torna obsessiva, como ocorre quando crianças repetem sem cessar uma mesma palavra até seu sentido desaparecer e ela adquirir um fascínio ininteligível – um significa que perdeu seu significado se transforma com isso em imagem”.
A experiência na pós-modernidade é fundamentalmente presente, poderosamente vivida e “material”. O que interessa é a sensação causada no presente, pois falta identidade futura e pretensões ou planos ideológicos, a experiência está sem estrutura, ancorada no vazio, no deserto dos valores.
Essa visão ainda difere da do Lipovestky que procura ainda fazer outra analogia ou estudo sobre a c
ultura contemporânea, utilizando a psicanálise. Segundo Lipovetsky, o que vivemos é justamente uma época extremamente narcísica. Mas, para compreender o que é o narcisismo para psicanálise precisamos nos voltar a Freud. Segundo Freud: “O termo narcicismo provém da descrição clínica e foi escolhido por P.Nacke, em 1899, para designar o comportamento do indivíduo que trata o próprio corpo como normalmente só trataria um objeto sexual (...)” (Freud, 2004: 97) e prossegue após conceituá-lo como parte do desenvolvimento genérico do homem: “Nessa acepção, o narcisismo não seria uma perversão, mas um complemento libidinal do egoísmo próprio da pulsão de autoconservação, egoísmo que, em certa medida, corretamente pressupomos estar presente em todos os seres vivos” (ibid: 98). Assim Freud se refere ao narcisismo primário, ao narcisismo genérico, i.e, presente em todos os sujeitos humanos. Freud falou também de um narcisismo secundário que seria ao qual se refere a esta cultura contemporânea, que resultaria de um voltar-se para o Eu após já ter ido para o mundo, catexia-lo, enchê-lo de energia, provocando certo afastamento do mundo externo.
Ainda segundo Lipovetsky a psicanálise torna-se incitadora da verdade do Eu, pois ao falar de inconsciente e recalcamento, chama do sujeito a conhecer-se. “Onde era Isso, devo eu chegar” (Lipovestky, 1989: 52). “O narcisismo é uma resposta ao desafio do inconsciente: instado a redescobrir-se, o Eu precipita-se num trabalho de libertação interminável, de observação, de interpretação” (ibid). Haveria, portanto, um incitamento criado pela própria psicologia para este ato de conhecer-se, voltar-se para dentro, atomizar-se, se tornar único.
Dissemos até agora muitas coisas, mas falta questionar toda essa informação até aqui acumulada. Essa conclusão de Lipovestky, que tanto citamos, nos parece equivocada por trazer a visão do ser humano como tabula rasa, tal como Freud com seu positivismo e ateísmo quase o fez (quando não o fez considerou os conteúdos herdados como lixo). É exatamente por isso que quando Lipovetsky vê o ser humano voltado para dentro ele encontra o vazio, pois para ele o ser é só uma formação social determinada pelo meio externo, pelas pulsões e o famoso Complexo de Édipo.
Por tal vertente que Lipovestky segue ele só enxerga o vazio, o deserto, mas certamente não é isso que encontramos, por exemplo, ao olhar uma sociedade oriental, voltada para dentro, mas, ao contrário, encontramos justamente o vazio criativo, a incessante criação e transformação. Acrescentar-se-á que o interior e a singularidade não são um individualismo canhestro aos moldes de um Stirner, e para saber disso, é só observar desde as grandes visões, as alucinações de esquizofrênicos com ressonâncias históricas e coletivas até alguns grandes sonhos. Stirner propunha, como vocês encontrarão várias vezes neste blog, a tese do Einzige (Único), conceito sobre o qual defendia a tese do egoísmo radical, num solipsismo e personalização onde a única realidade era o Eu, e o avanço e crescimento do Eu se dava na medida que se apropriava das coisas e as utilizava.
Temos que tirar a carga que botamos sobre Rogers como grande influencia causal do fenômeno narcisico pós-moderno, já que isso só seria possível numa desvirtuação do humanismo. Rogers estava extremamente interessado na inter-relação dos seres e num modo especial de Cuidado, aqui buscado o termo vangloriado por Leonardo Boff. Aparentemente a teoria freudiana e seu pessimismo manifesto, sua desmistificação do mundo, a sua extroversão absoluta onde todo voltar-se para si era um voltar-se para o vazio e a megalomania, tem maior influencia nessa realidade contemporânea do que o humanismo ou o existencialismo.
Pensamos que se voltar para dentro, longe de promover o encontro com o vazio conduz a uma ligação com o mundo muito mais nítida do que ficar preso aos condicionamentos do mundo externo, vide um Gandhi, Jesus, Buda, grandes libertadores de seus tempos, acrescentemos ainda da contracultura os surrealistas e os dadaístas, cada qual com seus erros, mas com tentativas muito louváveis. Na procura por nosso Si-mesmo, por nossa singularidade, podemos ficar presos ao nosso pessoal, a tentar des-velar o nosso inconsciente como Freud mostrava através da interpretação dos sonhos, dos atos falhos, etc., mostrando conteúdos latentes, ou seja, recalcados aos quais não tínhamos acesso, mas que, contudo, continuavam a nos influenciar.
Uma grande mudança a qual nos mostra as possíveis falhas dessa limitação pessoal da psique, além da constatação empírica e fenomenológica, é o advento da física quântica onde “A noção de substancia dissolveu-se em probabilidades e ‘tendências para existir’. As conexões não-locais de partículas contradiziam a causalidade mecanicista” (Tarnas, 1991). Esta mudança de paradigma surgida no seio da física quântica abriu novos espaços a novas idéias, onde “A profunda interconexão dos fenômenos estimulava um novo pensamento holístico sobre o mundo, com muitas implicações sociais, morais e religiosas”. (ibid). Sobre o holismo citamos Melo “O termo holismo vem do grego holos: totalidade, refere-se a uma compreensão da realidade em função da totalidade integrada, cujas propriedades não podem ser reduzidas a unidades menores sem consideração desse entrelaçamento de elos que se interpenetram, mesmo que virtuais”.(Melo 2002). Uma grande mudança começou com as resultantes do paradoxo ERP(Einsein-Rosen-Podolsky) que “indicou que, se a mecânica quântica é verdadeira, algumas partículas estão em contato instantâneo, mesmo que elas se encontrem em extremidades opostas do universo” (Wilson, 1997). Esses três pesquisadores tentaram na verdade uma “reductio ad absurdum (redução ao absurdo) da teoria quântica” (ibid), contudo, acabaram por levar a física a estudos posteriores que puderam mostrar a possibilidade de partículas estabelecerem conexões mais rápidas que a velocidade da luz, ou seja, conexões não-locais.
Antes de prosseguir, na parte final de nosso texto, é interessante não definir, mas ao menos introduzir o leitor ao inconsciente coletivo, o qual abordaremos. O inconsciente coletivo é uma hipótese de Carl Gustav Jung e, segundo ele: “Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e no entanto desaparecem da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade” (Jung, 2006: 53). Aqui ainda poderíamos falar muito, pois mesmo essa palavra hereditário pode ser contestada por posteriores estudos de Jung, mas não entraremos muito a fundo aí para não complicar demais o texto.
O que nós parece é que a realidade empírica é modelada e restringida tanto por nossas categorias perceptivas como já observava Kant como pelos arquétipos do inconsciente coletivo, como observava Jung. Se não temos acesso direto a realidade exterior isso significa uma influencia constante de nosso modo de perceber sobre a realidade. Mesmo que existam disposições típicas do inconsciente inatas na constituição do homem, que modelem a realidade a partir de nossas vivencias, não podemos negar as influencias externas, como não a negamos desde o inicio desse texto, no qual apontamos a intencionalidade liberal por trás dos fenômenos narcísicos.
Isso significa que desde crianças nossa mente começa a ser influenciada pela mídia, pela família e pela propaganda da sociedade de consumo, um dos grandes avatares modernos, como também nos lembra o mito do rei Midas, que já expomos no texto sobre futebol. Dessa forma a projeção da crianças e seus arquétipos sobre o mundo externo modifica-se graças a vivencia – que eu chamaria de patológica – da sociedade de consumo sobre a criança.
Para finalizar esta parte, apenas gostaríamos de apontar a dupla possibilidade ao se voltar para dentro, ao se procurar nosso Si-mesmo. Se em uma direção existe uma possibilidade real de acontecer o que acontece hoje, este narcisismo desenfreado ao qual observa Lipovetsky, em outra podemos ver que o encontrar-se a si mesmo é o ato mais fundamental da vida, de uma vivencia autentica (lembrando Rogers). Viver autenticamente não é estar preso ao Ego, pois para a ausência de patologia psíquica é necessária a criatividade constante e só podemos ter esta criatividade quando estamos acessando nossa espontaneidade, intuição, nosso inconsciente, pessoal e supra-pessoal. Nesse instante estamos lidando também com desejos coletivos, algum surrealista um dia falou que no dia em que todos sonharmos com a revolução ela seria feita. É uma grande verdade. Marie-Louise Von Franz nos fala no livro “O Homem e Seus Símbolos” sobre o aspecto social do Self, e para tal conhecimento é necessário um conhecimento do inconsciente, uma vivencia dele. Ela nos diz então: “Quando uma pessoa tenta obedecer o inconsciente fica muitas vezes, como vimos, impossibilitada de fazer o que quer. E vai estar igualmente incapacitada de fazer o que as outras pessoas qerem que ela faça. Acontece muitas vezes que precisará separar-se do seu grupo – família, parceiro ou outras relações pessias – para poder encontrar-se. É por isso que se diz que atendendo ao inconsciente as pessoas tornam-se anti-sociais e egocêntricas. Como regra geral isso não é verdade absoluta, pois há um fator pouco conhecido que intervém nesta atitude: o aspecto coletivo (ou, podemos mesmo dizer, social) do self” (Jung, 2001: 220). E prossegue: “De um ponto de vista prático este fator se manifesta no fato de que um indivíduo, acompanhando seus sonhos durante determinado tempo, vai descobrir que eles dizem respeito ao seu relacionamento com as outras pessoas” (ibid).
Pensando agora em contracultura e anarquismo, temos que ter a noção de que a realidade é primeiramente psíquica. Se quisermos uma sociedade melhor temos primeiramente olhar ao homem como ele é, sem aquele otimismo, ao qual Malatesta observou, aquele “belo otimismo kropotkiniano que eu chamei de ‘providencialismo ateu’ a descer das nuvens e a ter em as coisas tal qual elas são, bem diferentes daquilo que gostaríamos que fossem”.
A contracultura ao observar o condicionamento psíquico ao qual estamos expostos então foi uma grande mãe ao anarquismo, pois nos doa uma observação mais do que fundamental, mas a contracultura cometeu também erros inegáveis. Os punks, por exemplo, ao se afastarem da sociedade (seja anarco-punks, sejam os modernos freegans) não só se botam a margem da elite, mas se botam a margem de toda sociedade dessa forma impedindo seu próprio acesso ao popular, a povo, aos menos favorecidos e se torna um movimento estéril e preso a brigas internas de um modo a parte, particular. Tal perigo também ronda, como citamos no texto: “convergência anarquista”, no anarquismo ontológico de H.Bey.
Para um fortalecimento do anarquismo trata-se primeiro de atacar as instituições internalizadas e cristalizadas no corpo de cada um de nós, para alcançarmos não o vazio, não o egoísmo, mas uma ligação muito mais verdadeira com o coletivo, uma ligação que mesmo com ela não abandonaremos nossa singularidade e nosso eu. Trata-se de des-cobrir os meios de derrubar essas regras ideologicamente determinadas, como já observava Wilhelm Reich ao falar das couraças e alguns gnosticos ao falarem de sistase. Se nós falta ainda mecanismos de dissolver toda essa estrutura interna do ser, sem duvida não podemos ficar parados esperando que tal caia do céu - mesmo que rezemos e influenciemos tal queda -. Temos que continuar fazendo o possível, mesmo dentro de nossas limitações, para que o anarquismo a liberdade continuem vivas, na cabeça de cada um, algumas vezes rompendo as barreiras de concretos formadas na psique da maioria (independente de classe econômica).
Bibliografia:
Freud, Sigmund. Obras Completas volume I, Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente. Imago, 2004.
Jung, C. G., Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes. 2006
Lipovetsky, Gilles. A Era do Vazio, Ed. Gallimard, 1989.
Mello, E. Mergulhando no mar sem fundo. 2002,
Rogers, Carl. Grupos de Encontro. Martins Fonte. 2002.
Tarnas, R. A Epopéia do Pensamento Ocidental. 1991
Wilson, R. O Gatilho Cósmico. 1997
[1] - (Sua majestade, o Eu).
2 – Rogers, ao contrario de que muitos pensam, não adotava a crença de que as pessoas deveriam mostrar-se somente boas, mas sim se mostrarem totais, tal como elas são. Dessa maneira seria possível o crescimento.
Resolvido escrever um “proto post” sobre um assunto que considero essencial, só me resta soltar vagas linhas enquanto alguns muros me impedem de alavancar algo melhor. O assunto é delicado, porém acredito que seja um assunto de suma importância tanto na vida cotidiana quanto teoricamente. O assunto que abordarei se refere em essência ao individualismo, a atomização e ao narcisismo contemporâneo, passando pela contra cultura, pela psicanálise e pelo meio anarquista chegando até o processo de individuação junguiano e ao único stirneriniano.
Na contemporaneidade, ou segundo alguns, pós-modernidade, existe um fenômeno genérico em jogo que perpassa e modela a nossa subjetividade, criando a partir daí, um modelo de conduta coletivo que propõe a mais pura individualidade e personalização, onde antigos valores como: “autonomia”, “felicidade”, “emancipação individual”, “heterogeneidade”, entre outros, tornaram-se os novos modeladores para a população, sendo agora taxados como essenciais e
atribuídores de status co.A esse fenômeno Gilles Lipovestky chama de sedução, que longe de significar, para ele, um fenômeno ideologicamente determinado que intencionalmente busca alienar, significa uma outra coisa, mas no momento citemos suas palavras: “A sedução nada tem a ver com a representação falsa e com a alienação das consciências; é ela que configura o nosso mundo e o remodela segundo um processo sistemático de personalização cuja obra consiste essencialmente em multiplicar e diversificar a oferta, em propor mais para que nós decidamos melhor, em substituir a coação uniforme pela livre escolha, a homogeneidade pela pluralidade, a austeridade pela realização dos desejos” (Lipovetsky, 1989: 19).
E Lipovestky vai além ao dizer: “Toda a vida das sociedades contemporâneas é doravante governada por uma nova estratégia que destrona o primado das relações de produção em proveito de uma apoteose das relações de sedução” (Lipovetsky, 1989: 17). A através da sedução que podemos ver esta sociedade atomizada, extremamente personalista à qual parece, num olhar mais superficial, derrubar todos os totens e “ismos” para dar lugar a uma pluralidade narcisista sem fim. A cartada da sedução é a “do seu bem-estar, da sua liberdade, do seu interesse próprio” (ibid) e é justamente isso que ela propõe gerar.
Só que mesmo que não queiramos dar uma importância supervalorizada aos processos econômicos e ideológicos, sem duvida eles são uma influencia que dificilmente pode ser negada. Não se trata de dizer: “os seres humanos são determinados pela economia”, “os seres humanos são determinados pelo pensamento dominante propagado por suas organizações”, nem de definir o ser humano como pura liberdade. O fato é que, mesmo que observemos com clareza o fenômeno que Lipovestky chama de sedução, onde a atomização e “heterogeneização” são estimuladas, não podemos negar que exista uma intencionalidade por trás de fenômeno. Essa intenção nos parece um elemento da intenção liberal que desmistifica o governo e a coletividade apoiando o individuo (in+dividuo, não divisível) sobre sua “particularidade”, ou melhor, sobre as leis do mercado e das grandes empresas multifacetadas onde supostamente se aceita tudo, qualquer individuo com sua liberdade, mas, por trás dessa aceitação incondicional, vê-se outra realidade, a realidade da exclusão por meio da impossibilidade de consumo dos mais pobres que são, em parte, levados a fazer de tudo para consumirem e pertencerem a alguma das categorias sociais existentes. Em meio a essa polimorfização dos grupos sociais, supostamente aceitando uns aos outros, existe uma luta intrínseca por poder, para vencerem uns aos outros, apoiados sobre o darwinismo social preponderante, a antiga teoria do aclamado Spencer.
Sem duvida o assassinato de Deus enquanto realidade psíquica e coletiva trouxe uma descentralização dos valores e um Eon de incertezas. A cultura contemporânea que passa a viver, não num “vazio de mitos”, mas sim em novos mitos, agora apoiados sobre a incerteza, a deusificação paralelamente do mercado e do homem único e material , logo, do culto ao corpo e ao dinheiro. Ao fazer a analítica dessa nova mentalidade também não podemos ficar presos a fatos “materiais” e esquecer-nos dos determinantes psicológicos deste novo paradigma.
Lembremos então das populares teorias da psicologia dos anos 60, como a de Carl Rogers que propunha a originalidade, a espontaneidade, uma valorização do corpo, dos sentimentos, da pessoa. Rogers diz: “Confio nos sentimentos, palavras, impulsos, fantasias que em mim emergem. Deste modo estou usando mais do que o eu consciente, estou esboçando algumas das capacidades do meu organismo total” (Rogers, 2002: 62). Rogers tentava criar a autonomia no sentido originário do termo: Auto (próprio) + Nomos (lei, regra), ou seja, o encontro da própria lei, regra, de cada um que, segundo sua crença, seriam essencialmente positivas².

Voltemos, para embolar o texto, a analise da cultura contemporânea para após voltarmos a pensar sobre as psicoterapias e analises. Na época contemporânea a divisão cartesiana criada por René Descartes (1596-1650) entre “res extensa” e “res cogito”, que fundamentava a época moderna, parece haver sido extinta. O corpo deixa de ser um maquinário o qual a alma, através da glândula pineal, se comunicaria. Ele deixa de ser “materialidade muda, em proveito da sua identificação com o ser-sujeito, com a pessoa” (Lipovetsky: 58). O corpo então passa a estar relacionado com nossa verdade natural, em busca de nossa integralidade, de nosso encontro conosco mesmo que passa a ser ultra-valorizado. “Enquanto pessoa, o corpo ganha dignidade; devemos respeitá-lo, quer dizer zelar permanentemente pelo seu bom funcionamento, lutar contra a sua obsolescência, combater os signos da sua degradação através de uma constante reciclagem cirúrgica, desportiva, dietética, etc.” (ibid).
Hoje a velhice, o aparecimento de rugas, a desjuventudização parecem ser um motivo de transtorno, pois o corpo bom tornou-se o corpo esbelto, saudável e que vive o máximo de tempo possível. Talvez um dos primeiros a enveredarem por estas sendas tenha sido Timothy Leary ao propor seu SMI²LE (Space Migration, Inteligence², Life Extension) onde acreditava num aumento paulatino da vida ao que esperava um dia pudesse ser possível à imortalidade (Robert Anton Wilson).
O corpo e o sexo passam a ser os novos avatares do liberalismo, seus meios de propaganda para mostrarem-se melhores que os outros sistemas, como permitissem a liberdade, como mostramos no individualismo. Mas o individuo a sua procura nada encontra. A cultura das sensações vai dar especial valor a imagem, ao corpo, ao visível, ao contrário do sentimento, como diz Costa sobre a cultura das sensações: “A cultura das sensações significa que a maioria das pessoas, sobretudo na vida urbana, está buscando cada vez mais no corpo as regras e o modelo, com os quais têm que se identificar” (Costa, entrevista para um jornal que esqueci qual é). Ignoram-se os modelos abstratos, como o sentimento, ou a profundidade do ser, sua singularidade, ou coisas do tipo. Nessa nova cultura, das sensações, ninguém mais quer “sacrificar a liberdade sexual, o dinheiro e a beleza por amor nenhum” (ibid) seja esse amor uma ideologia, parceira, ou religião.
Já citamos muito Lipovestky que, apesar de psicólogo social, tem uma gigantesca influencia psicanalista e é sobre ela que ele remonta as bases de suas constatações. Para acrescentarmos uma analise psicanalista a nossas visões, acrescentemos a analise da cultura contemporânea, pós-moderna ou das sensações sobre o viés de outro psicanalista (Jameson).
Para Jameson, a pós-modernidade enquanto cultura pode, em uma de suas características, ser classificada de esquizofrênica. Jameson, para tal, se baseou no modelo de esquizofrenia prescrito por Jacques Lacan que considerava “a esquizofrenia substancialmente como uma desordem de linguagem, associando-a toda uma teoria da aquisição da linguagem como o elo esquecido da concepção freudiana da formação do psiquismo adulto. Para tanto, ele nos deu uma versão lingüística do complexo de Édipo (...)”.
A comparação entre a experiência pós-moderna e a esquizofrenia vão estar relacionadas, em grande parte, em suas relações com a temporalidade. Novamente voltamos a teoria de Lacan, onde “a experiência da temporalidade humana (passado, presente, futuro), a persistência da identidade pessoal através de meses e anos – a própria sensação vivida e existencial do tempo – são também efeito de linguagem”. Se o esquizofrênico teve deficiências no domínio da fala e da linguagem, ele também terá problemas relacionados a temporalidade. O esquizofrênico vive no eterno presente e, de tal modo, não cria nenhuma identidade. Ele é ninguém, não tem o Nome-do-Pai. Isso nos faz lembrar o tempo mítico dos gregos, chamado de kairótico, onde existia a acausalidade, e um tempo imprevisível, um tempo não continuo que podemos fazer uma analogia do tempo como Jameson apresenta nas teorias Lacanianas.
O esquizofrênico, por um lado, “vivencia mais do que nós, e com nitidez, uma experiência muito mais intensa de um definido instante do mundo, pois nosso próprio presente é sempre parte de algum conjunto mais amplo de projetos, o que nos obriga a focalizar e a selecionar nossas percepções”. Uma das características fundamentais da esquizofrenia é “ultrapassar o sentido” onde “a materialidade das palavras se torna obsessiva, como ocorre quando crianças repetem sem cessar uma mesma palavra até seu sentido desaparecer e ela adquirir um fascínio ininteligível – um significa que perdeu seu significado se transforma com isso em imagem”.
A experiência na pós-modernidade é fundamentalmente presente, poderosamente vivida e “material”. O que interessa é a sensação causada no presente, pois falta identidade futura e pretensões ou planos ideológicos, a experiência está sem estrutura, ancorada no vazio, no deserto dos valores.
Essa visão ainda difere da do Lipovestky que procura ainda fazer outra analogia ou estudo sobre a c
ultura contemporânea, utilizando a psicanálise. Segundo Lipovetsky, o que vivemos é justamente uma época extremamente narcísica. Mas, para compreender o que é o narcisismo para psicanálise precisamos nos voltar a Freud. Segundo Freud: “O termo narcicismo provém da descrição clínica e foi escolhido por P.Nacke, em 1899, para designar o comportamento do indivíduo que trata o próprio corpo como normalmente só trataria um objeto sexual (...)” (Freud, 2004: 97) e prossegue após conceituá-lo como parte do desenvolvimento genérico do homem: “Nessa acepção, o narcisismo não seria uma perversão, mas um complemento libidinal do egoísmo próprio da pulsão de autoconservação, egoísmo que, em certa medida, corretamente pressupomos estar presente em todos os seres vivos” (ibid: 98). Assim Freud se refere ao narcisismo primário, ao narcisismo genérico, i.e, presente em todos os sujeitos humanos. Freud falou também de um narcisismo secundário que seria ao qual se refere a esta cultura contemporânea, que resultaria de um voltar-se para o Eu após já ter ido para o mundo, catexia-lo, enchê-lo de energia, provocando certo afastamento do mundo externo.Ainda segundo Lipovetsky a psicanálise torna-se incitadora da verdade do Eu, pois ao falar de inconsciente e recalcamento, chama do sujeito a conhecer-se. “Onde era Isso, devo eu chegar” (Lipovestky, 1989: 52). “O narcisismo é uma resposta ao desafio do inconsciente: instado a redescobrir-se, o Eu precipita-se num trabalho de libertação interminável, de observação, de interpretação” (ibid). Haveria, portanto, um incitamento criado pela própria psicologia para este ato de conhecer-se, voltar-se para dentro, atomizar-se, se tornar único.
Dissemos até agora muitas coisas, mas falta questionar toda essa informação até aqui acumulada. Essa conclusão de Lipovestky, que tanto citamos, nos parece equivocada por trazer a visão do ser humano como tabula rasa, tal como Freud com seu positivismo e ateísmo quase o fez (quando não o fez considerou os conteúdos herdados como lixo). É exatamente por isso que quando Lipovetsky vê o ser humano voltado para dentro ele encontra o vazio, pois para ele o ser é só uma formação social determinada pelo meio externo, pelas pulsões e o famoso Complexo de Édipo.
Por tal vertente que Lipovestky segue ele só enxerga o vazio, o deserto, mas certamente não é isso que encontramos, por exemplo, ao olhar uma sociedade oriental, voltada para dentro, mas, ao contrário, encontramos justamente o vazio criativo, a incessante criação e transformação. Acrescentar-se-á que o interior e a singularidade não são um individualismo canhestro aos moldes de um Stirner, e para saber disso, é só observar desde as grandes visões, as alucinações de esquizofrênicos com ressonâncias históricas e coletivas até alguns grandes sonhos. Stirner propunha, como vocês encontrarão várias vezes neste blog, a tese do Einzige (Único), conceito sobre o qual defendia a tese do egoísmo radical, num solipsismo e personalização onde a única realidade era o Eu, e o avanço e crescimento do Eu se dava na medida que se apropriava das coisas e as utilizava.
Temos que tirar a carga que botamos sobre Rogers como grande influencia causal do fenômeno narcisico pós-moderno, já que isso só seria possível numa desvirtuação do humanismo. Rogers estava extremamente interessado na inter-relação dos seres e num modo especial de Cuidado, aqui buscado o termo vangloriado por Leonardo Boff. Aparentemente a teoria freudiana e seu pessimismo manifesto, sua desmistificação do mundo, a sua extroversão absoluta onde todo voltar-se para si era um voltar-se para o vazio e a megalomania, tem maior influencia nessa realidade contemporânea do que o humanismo ou o existencialismo.
Pensamos que se voltar para dentro, longe de promover o encontro com o vazio conduz a uma ligação com o mundo muito mais nítida do que ficar preso aos condicionamentos do mundo externo, vide um Gandhi, Jesus, Buda, grandes libertadores de seus tempos, acrescentemos ainda da contracultura os surrealistas e os dadaístas, cada qual com seus erros, mas com tentativas muito louváveis. Na procura por nosso Si-mesmo, por nossa singularidade, podemos ficar presos ao nosso pessoal, a tentar des-velar o nosso inconsciente como Freud mostrava através da interpretação dos sonhos, dos atos falhos, etc., mostrando conteúdos latentes, ou seja, recalcados aos quais não tínhamos acesso, mas que, contudo, continuavam a nos influenciar.
Uma grande mudança a qual nos mostra as possíveis falhas dessa limitação pessoal da psique, além da constatação empírica e fenomenológica, é o advento da física quântica onde “A noção de substancia dissolveu-se em probabilidades e ‘tendências para existir’. As conexões não-locais de partículas contradiziam a causalidade mecanicista” (Tarnas, 1991). Esta mudança de paradigma surgida no seio da física quântica abriu novos espaços a novas idéias, onde “A profunda interconexão dos fenômenos estimulava um novo pensamento holístico sobre o mundo, com muitas implicações sociais, morais e religiosas”. (ibid). Sobre o holismo citamos Melo “O termo holismo vem do grego holos: totalidade, refere-se a uma compreensão da realidade em função da totalidade integrada, cujas propriedades não podem ser reduzidas a unidades menores sem consideração desse entrelaçamento de elos que se interpenetram, mesmo que virtuais”.(Melo 2002). Uma grande mudança começou com as resultantes do paradoxo ERP(Einsein-Rosen-Podolsky) que “indicou que, se a mecânica quântica é verdadeira, algumas partículas estão em contato instantâneo, mesmo que elas se encontrem em extremidades opostas do universo” (Wilson, 1997). Esses três pesquisadores tentaram na verdade uma “reductio ad absurdum (redução ao absurdo) da teoria quântica” (ibid), contudo, acabaram por levar a física a estudos posteriores que puderam mostrar a possibilidade de partículas estabelecerem conexões mais rápidas que a velocidade da luz, ou seja, conexões não-locais.
Antes de prosseguir, na parte final de nosso texto, é interessante não definir, mas ao menos introduzir o leitor ao inconsciente coletivo, o qual abordaremos. O inconsciente coletivo é uma hipótese de Carl Gustav Jung e, segundo ele: “Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e no entanto desaparecem da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade” (Jung, 2006: 53). Aqui ainda poderíamos falar muito, pois mesmo essa palavra hereditário pode ser contestada por posteriores estudos de Jung, mas não entraremos muito a fundo aí para não complicar demais o texto.
O que nós parece é que a realidade empírica é modelada e restringida tanto por nossas categorias perceptivas como já observava Kant como pelos arquétipos do inconsciente coletivo, como observava Jung. Se não temos acesso direto a realidade exterior isso significa uma influencia constante de nosso modo de perceber sobre a realidade. Mesmo que existam disposições típicas do inconsciente inatas na constituição do homem, que modelem a realidade a partir de nossas vivencias, não podemos negar as influencias externas, como não a negamos desde o inicio desse texto, no qual apontamos a intencionalidade liberal por trás dos fenômenos narcísicos.
Isso significa que desde crianças nossa mente começa a ser influenciada pela mídia, pela família e pela propaganda da sociedade de consumo, um dos grandes avatares modernos, como também nos lembra o mito do rei Midas, que já expomos no texto sobre futebol. Dessa forma a projeção da crianças e seus arquétipos sobre o mundo externo modifica-se graças a vivencia – que eu chamaria de patológica – da sociedade de consumo sobre a criança.Para finalizar esta parte, apenas gostaríamos de apontar a dupla possibilidade ao se voltar para dentro, ao se procurar nosso Si-mesmo. Se em uma direção existe uma possibilidade real de acontecer o que acontece hoje, este narcisismo desenfreado ao qual observa Lipovetsky, em outra podemos ver que o encontrar-se a si mesmo é o ato mais fundamental da vida, de uma vivencia autentica (lembrando Rogers). Viver autenticamente não é estar preso ao Ego, pois para a ausência de patologia psíquica é necessária a criatividade constante e só podemos ter esta criatividade quando estamos acessando nossa espontaneidade, intuição, nosso inconsciente, pessoal e supra-pessoal. Nesse instante estamos lidando também com desejos coletivos, algum surrealista um dia falou que no dia em que todos sonharmos com a revolução ela seria feita. É uma grande verdade. Marie-Louise Von Franz nos fala no livro “O Homem e Seus Símbolos” sobre o aspecto social do Self, e para tal conhecimento é necessário um conhecimento do inconsciente, uma vivencia dele. Ela nos diz então: “Quando uma pessoa tenta obedecer o inconsciente fica muitas vezes, como vimos, impossibilitada de fazer o que quer. E vai estar igualmente incapacitada de fazer o que as outras pessoas qerem que ela faça. Acontece muitas vezes que precisará separar-se do seu grupo – família, parceiro ou outras relações pessias – para poder encontrar-se. É por isso que se diz que atendendo ao inconsciente as pessoas tornam-se anti-sociais e egocêntricas. Como regra geral isso não é verdade absoluta, pois há um fator pouco conhecido que intervém nesta atitude: o aspecto coletivo (ou, podemos mesmo dizer, social) do self” (Jung, 2001: 220). E prossegue: “De um ponto de vista prático este fator se manifesta no fato de que um indivíduo, acompanhando seus sonhos durante determinado tempo, vai descobrir que eles dizem respeito ao seu relacionamento com as outras pessoas” (ibid).
Pensando agora em contracultura e anarquismo, temos que ter a noção de que a realidade é primeiramente psíquica. Se quisermos uma sociedade melhor temos primeiramente olhar ao homem como ele é, sem aquele otimismo, ao qual Malatesta observou, aquele “belo otimismo kropotkiniano que eu chamei de ‘providencialismo ateu’ a descer das nuvens e a ter em as coisas tal qual elas são, bem diferentes daquilo que gostaríamos que fossem”.
A contracultura ao observar o condicionamento psíquico ao qual estamos expostos então foi uma grande mãe ao anarquismo, pois nos doa uma observação mais do que fundamental, mas a contracultura cometeu também erros inegáveis. Os punks, por exemplo, ao se afastarem da sociedade (seja anarco-punks, sejam os modernos freegans) não só se botam a margem da elite, mas se botam a margem de toda sociedade dessa forma impedindo seu próprio acesso ao popular, a povo, aos menos favorecidos e se torna um movimento estéril e preso a brigas internas de um modo a parte, particular. Tal perigo também ronda, como citamos no texto: “convergência anarquista”, no anarquismo ontológico de H.Bey.
Para um fortalecimento do anarquismo trata-se primeiro de atacar as instituições internalizadas e cristalizadas no corpo de cada um de nós, para alcançarmos não o vazio, não o egoísmo, mas uma ligação muito mais verdadeira com o coletivo, uma ligação que mesmo com ela não abandonaremos nossa singularidade e nosso eu. Trata-se de des-cobrir os meios de derrubar essas regras ideologicamente determinadas, como já observava Wilhelm Reich ao falar das couraças e alguns gnosticos ao falarem de sistase. Se nós falta ainda mecanismos de dissolver toda essa estrutura interna do ser, sem duvida não podemos ficar parados esperando que tal caia do céu - mesmo que rezemos e influenciemos tal queda -. Temos que continuar fazendo o possível, mesmo dentro de nossas limitações, para que o anarquismo a liberdade continuem vivas, na cabeça de cada um, algumas vezes rompendo as barreiras de concretos formadas na psique da maioria (independente de classe econômica).
Bibliografia:
Freud, Sigmund. Obras Completas volume I, Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente. Imago, 2004.
Jung, C. G., Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes. 2006
Lipovetsky, Gilles. A Era do Vazio, Ed. Gallimard, 1989.
Mello, E. Mergulhando no mar sem fundo. 2002,
Rogers, Carl. Grupos de Encontro. Martins Fonte. 2002.
Tarnas, R. A Epopéia do Pensamento Ocidental. 1991
Wilson, R. O Gatilho Cósmico. 1997
[1] - (Sua majestade, o Eu).
2 – Rogers, ao contrario de que muitos pensam, não adotava a crença de que as pessoas deveriam mostrar-se somente boas, mas sim se mostrarem totais, tal como elas são. Dessa maneira seria possível o crescimento.
quarta-feira, junho 28, 2006
Madrugadas

É madrugada no Rio de Janeiro, por volta das 2:30 da manhã, o relógio da esquina de uma das ruas desertas do centro do Rj marca 17 graus centígrados. Prédios comerciais com as luzes apagadas, ruas calmas, com alguns mendigos aqui ou lá dormindo pelas calçadas, só se escuta o barulho do vento.
Num hospital psiquiátrico, localizado numa esquina, tudo se parece como todo resto do centro, luzes apagadas, o silencio domina a noite, se não fosse a exceção de um jovem andando por aqueles corredores. As luzes piscam, sobre o clima cinzento. Das sombras aparece um vulto. O jovem olha sobre as fumaças de sua percepção e vê surgir uma mulher linda, com cabelos negros como a noite, compridos, 1,70 de altura aproximadamente, perto dos 23 anos, seios médios, magra, mas para o jovem, apesar dele ter reparado muito bem tais atributos, aquilo não era o essencial naquele momento, o fato era: ela corria como uma louca atrás dele com uma faca!
A perseguição se iniciara perto ainda da entrada, onde havia uma escada de cerca de 17 degraus, o lugar escuro possibilitava que a qualquer momento o jovem esbarrasse numa das quinquilharias largadas pelo chão e caísse condenando-se ao esfaqueamento. Ele olha pra trás, suando, e vê a mulher ainda seguindo-o, frenética. Os olhos dela brilhavam, como o olho de um animal, havia algo de lindo e algo de terrível.
A perseguição chega a um local onde o jovem vê finalmente uma luz. Uma sala de computadores, com uma luz 60 watts acessa, ao canto da sala, deixando uma fraca iluminação sobre aquele antro de escuridão e caos. Ele observa bem, procura fazer uma ressonância do local; uma alma viva, reza por uma alma viva para lhe ajudar. Não vê ninguém.
O jovem olha para trás e parece que seu destino já estava traçado, desde eternidades indecifráveis. A sua esquerda a sala de computação, a sua direita uma parede, as suas costas uma escada com cerca de 17 degraus e a sua frente à linda jovem com uma faca na mão e um olhar de gato. Ele vai à direção dela. Ele a beija. Ela segura sua mão e ambos descem a escada, de 17 degraus, abrem a porta e saem para a rua.
Um olhar entre-penetrante. Olham o relógio frio da madrugada estranha: 3:20, avisa ele. Soltam leves sorrisos um para o outro. Um carro aparece. Eram os amigos dela. Ela sobe no carro. Ele vai embora.
No fundo o jovem sabia, que ela com ele, se parecia.
Futebol, simbolismo e copa do mundo!

Mediante a copa do mundo em faze de realização, resolvi escrever um pequeno esboço sobre o simbolismo e alguns aspectos relacionados ao futebol. Ainda mais, por estarmos num país que ainda, andando por pernas tortas para descobrir sua identidade e cultura, louva a dança do futebol. Que possamos fazer essas pernas tortas dar dribles de Garrincha, e não cair no chão, é o meu desejo para nossa história.
Não acredito que possamos dizer simplesmente que o futebol é “bom” ou “ruim” para a sociedade na qual vivemos, tal como um título brasileiro na copa do mundo seria para o Brasil. Isso seria um reducionismo exacerbado e não nos faria questionar. Certamente, o que podemos dizer, é que o futebol faz parte da cultura brasileira e da nossa população, e que certamente há uma identificação profunda do heróico trabalhador brasileiro, que passa seus dias trabalhando para ganhar um salário mínimo com o heróico jogador da seleção com seus salários milionários.
O futebol certamente é um esporte que apresenta uma série de mitos e símbolos, e em especial numa cultura emotiva e “dionisíaca” como a brasileira um jogo pode chegar a tornar-se uma espécie de ritual. Começando a abordar estes mitos, é de destaque, sem duvidas, a presença do mito do herói nas partidas de futebol. Parece-me haver, ao menos, dois heróis fundamentais numa partida: o time como um todo, e algum herói escolhido pela coletividade, ou seja, pela torcida. A figura do herói é marcada pela passagem de desafios intensos em sua vida, como acontece com todos os heróis clássicos e para tal é exigido sacrifício, esforço, determinação e alcançar, ao menos, os limites do ser humano. Uma pergunta fica: “Qual seria hoje o herói individual da seleção brasileira?”. Parecia-me o Ronaldinho Gaúcho, mas hoje tenho minhas duvidas se esta projeção ainda é valida.. Outro exemplo interessante é o do Ronaldo que, quando estava jogando bem, era louvado como herói, mas bastou esta projeção arquetípica ser desfeita para transformar-se em vilão.. e, novamente, aos poucos, faz desgarrando-se da raiva do torcedor.
O mais interessante no futebol é seu aspecto instintivo, sua ligação com a corporalidade, em especial com a parte da metade inferior do corpo: “as pernas, o quadril, os pés” que sempre significaram a ligação com os instintos, tendo inclusive, devido sua proximidade, relações com os órgãos sexuais. Esta parte da corporalidade sempre foi reprimida pela cultura ocidental (eu diria, como Byington, que todo arquétipo matriarcal foi reprimido), que louva o racional, “as luzes iluministas”, e esqueceu-se do aspecto irracional humano, a espontaneidade, e também a energia à qual nos leva ao nosso si-mesmo. Um exemplo canhestro foi vivido por mim, ao escutar uma pessoa dizer sobre um torcedor vestido de índio: “que absurdo esses torcedores! Querem levar o pior de nossa cultura! Nosso lado animal!”. Não é sem causa que precisamos de um Nietzsche para tentar equilibrar e compensar nossa típica unilateralidade.
A partir daí começa-se uma série de ligações simbólicas com o feminino. A própria corporalidade, emoção exacerbada, espontaneidade são características da anima. Um grande numero de estádios, quase todos na verdade, possuem uma forma oval, próxima a um circulo, e muito similares as mandalas (ou círculos sagrados). Estes círculos, além de representarem a totalidade e a tentativa de reintegração da psique, eram usados para delimitar um espaço ritual e realmente parece que uma partida pode ser um ritual. A bola é mais um exemplo de circularidade presente no futebol, onde todos os jogadores disputam-na para serem os heróis da partida e garantirem a vitória de suas equipes.
Outro aspecto marcante é a semelhança do futebol e das torcidas com os antigos coliseu romanos, só que sem a matança deliberada. As regras do futebol, nesse sentido, parecem tentar estabelecer um dialogo através da punição entre os dois duelistas, lembrando uma guerra de titãs. O futebol, sobre esse viés, poderia ser então um melhor modo de lidar com nossa guerra, ao invés de sair matando todo mundo =P..
Talvez o futebol seja além de um modo de “acalmar” e “passivizar” o povo também uma expressão autentica onde a torcida faz também parte do espetáculo ritualístico e re-integra-se a uma consciência coletiva (ou egrégora) podendo servir de ponte a um desenvolvimento ou uma dissolução do inconsciente coletivo num afloramento emocional e perca da identidade, o que nos lembra muito aliás, os rituais dionisíacos, os ditirambos.
Po! Aqui tem muito pano pra manga... Certamente tem aspectos positivos e negativos num jogo de futebol ou numa copa do mundo... Por um lado existe até mesmo traços positivos na identificação com figuras heróicas o que leva a pessoa a tentar criar seu mito pessoal, mas por outro, na cultura capitalista, toda expressão autentica da alma humana é tragada pelos ditames do capital, e sacralidade corre sempre o risco de ser possuída por esse mito do Rei da Frigia, o Rei Midas que transformava tudo que tocava em ouro.. No inicio ficava muito feliz, mas não tardou a ver que aquilo transformara-se em uma maldição..
Midas e o ouro
Rei da Frígia, famoso por sua irreflexão; o único a saber que ele tinha orelhas de burro era seu barbeiro, a quem ele ameaçara de morte se o revelasse a alguém; não agüentando guardar o segredo, o barbeiro abriu um buraco no chão e gritou para dentro dele que o rei Midas tinha orelhas de burro; no lugar cresceram juncos que, agitados pelo vento, repetiam essa frase, logo ouvida por todos; segundo outra tradição, Midas pediu a Dionísio que lhe concedesse o dom de transformar em ouro tudo que tocasse; mas não pôde mais alimentar-se, pois toda a comida que tocava transformava-se em ouro; para se purificar, banhou-se nas águas do rio Pactolo, cujo fundo ficou coberto de pepitas de ouro.
Fechemos com a frase do Dada Maravilha: "O Gol é o Orgasmo do Futebol!".. salve ele! =)
base para o texto tirada daqui: http://cidadedofutebol.uol.com.br/site/vip/materias/vermaterias.aspx?idm=832
segunda-feira, junho 26, 2006
O Arma-Zen.

Armazem, de estranha roupagem,
não te mostras por fora,
constantemente, me pergunto, quem dentro de ti mora?
só fico perplexo ao observar,
o mar de luz, e o mar de trevas!
que dentro de ti está.
Mil garrafas de vinho enfileiradas,
algumas abertas, outras trancadas
esperando o tempo certo para se abrir
enquanto nos corredores,
se escuta o vazio dos passos.
Um xerife observa os corredores,
e reprime a ansia do malandro de roubar,
uma mulher, da vinho a credores
em sua enorme ansia de amar.
O armazem certamente é um lugar estranho,
indeciso, contido e tacanho
Que escondes nestas tuas fileiras de gris?
Cemitério de cimento ou movimentos de uma atriz?
segunda-feira, junho 19, 2006
Ética em Aristóteles, Ethos e Ética na modernidade.

A palavra ética etimologicamente provém do grego ethos – εθος que significa “morada, casa”, ou ainda, morada do ser humano (Veríssimo). Boff ainda aponta, seguindo essa linha de raciocínio, o significado: “toca do animal” provindo da palavra grega ethos. Ampliando suas significações podemos dizer que ethos é o “conjunto de princípios que regem, transculturalmente, o comportamento humano para que seja realmente humano no sentido de ser consciente, livre e responsável” (Boff, 1999: 195). De fato, o ethos não significa um a priori no ser humano e sim uma construção através da práxis, dos atos praticados por este. Veríssimo então conceitua que ethos é um costume, habito não natural, mas adquirido, sendo portanto “Comportamento que resulta de um constante repetir-se dos mesmos atos. (...) O ethos, nesse caso, denota uma constância no agir (hábito) que se contrapõe ao impulso do desejo (impulso natural)” (Erbolato apud Veríssimo).
Ethos, portanto, significa o cuidado com a totalidade (holos) do nosso planeta e nossas relações, com nossa casa (oikos) não permitindo que ela seja destruída. Estar na ética a partir desse prisma significa, citando um alquimista alienado em seu contexto, compreender a frase “Quod natura reliquit imperfectum, ars percifit” (O que a natureza deixa imperfeito, a arte aperfeiçoa).
Retomando a cultura do cuidado e “construindo uma casa que todos nela possam caber” (Boff, 1999: 27), possibilitando um desenvolvimento sustentável estamos retomando esse significado essencial da ética para com o planeta. Também a ética está intimamente ligada ao nosso contato com outros seres humanos, trazendo o zelo e a atenção pelo outro. Como dizia Marin Heidegger (1889-1976): “Do ponto de vista existencial, o cuidado se acha a priori, antes de toda atitude e situação do ser humano, o que sempre significa dizer que ele se acha em toda atitude e situação de fato” (Heidegger apud Boff: 34), ou seja, o cuidado é um modo essencial do ser e não uma conseqüência. É um modo ontológico. Esse modo de cuidado já havia sido observado antes de Heidegger embora com um ponto de vista evolutivo por Darwin (1809- 1882) e antes desse pelo anarquista e geógrafo Peter Kropotkin (1842- 1912) conforme observa George Woodcock (história das idéias e movimentos anarquistas v.1).
A ética teve uma força muito grande entre os antigos gregos, não é por menos que o termo ethos proveio de Heráclito de Efeso (filosofo pré-socrático). Aristóteles, por exemplo, dava excessiva responsabilidade ao homem ao afirmar: “O homem é um animal político” (zoon politikos) reforçando além de sua postura animal que o “homem é um animal racional” e está intimamente ligado ao destino da Polis (cidade). O bem que o homem procura é o bem comum.
Aristóteles afirmava que existia uma variação incrível de “bens”, mas que, todavia, o bem supremo, ou per si, era a felicidade. Aristóteles em Ética e Nicômaco I,2 diz: “Existe, no entanto, no que fazemos, um fim, um bem, uma realização que desejamos não em vista de algo que lhe seja hierarquicamente mais importante. E sim, o fim último, a finalidade máxima, uma realização desejada que possui o maior valor para nós, ou seja, para todos os seres humanos. E que, a partir dela, todo o que seja desejado seja em função dela” (Aristóteles apud Veríssimo) e afirma este sumo bem (summum bonum) “A felicidade, a consideramos a mais desejável de todas as coisas, sem contá-la como um bem entre outros. (...) A felicidade é, portanto, algo absoluto e auto-suficiente, sendo também a finalidade da ação” (ibid: I, 7).
Fatalmente em nossa época, hoje chamada pós-moderna ou de capitalismo tardio, entendemos felicidade como algo relacionado ao Eu, em especial as sensações. Vivemos em uma época individualista onde: “A indiferença pura designa a apoteose do temporário e do sincretismo individualista” (Lipovetsky, 1983: 39). Nesta época o conceito de felicidade se prolifera de maneira polimorfa, numa atomização sem fim, parece haver uma especial ênfase na felicidade através do consumo, onde “Ser feliz” é “Ter objetos”, ter carros, imóveis, mulheres ou homens-objeto, em suma, coisas não-vivas que são associadas através da sedução da mídia a “modos de ser” , como consumindo um cigarro a pessoa passa a “ser” radical, ser um grande esportista, e outros paradoxos análogos.
O paradigma vivenciado hoje nos parece um individualismo radical como de Max Stirner, o pensador alemão que pensou a tese do “Einzige” (único) que cresce e se expande a medida em que possui. O único movimenta-se a medida em que utiliza as coisas ao seu propósito, ou seja, tomando-as como sua propriedade privada. De tal modo a única realidade valida para ele, tal como a única felicidade, seria a felicidade de sua volição, de sua vontade.
A felicidade em Aristóteles, a qual falamos, passa a distancia desta felicidade “hedonista” à qual nos reportamos na “pós-modernidade”. A felicidade para Aristóteles é “um bem desejável em si mesmo em que não requisita nada mais” (Veríssimo), o homem para Aristóteles “nasceu para a cidadania” (Aristóteles apud Verissimo), e logo visa o bem comum.
Aristóteles já atentava que o senso comum (aquele ao qual não reflete) já não compreendia o sentido da felicidade, pois achava que esta se fazia no sucesso e na vida bem regrada (i. e). Ele então observa que: “(..) uma vida dedicada aos prazeres torna os homens ‘semelhantes aos escravos’ e é uma existência digna de animais” (ibid, I, 5), e ainda acrescenta que o senso comum muitas vezes vê a felicidade como riqueza, onde: “a vida dedicada a ganhar dinheiro é vivida sob compulsão” (ibid) e nas pessoas bem situadas socialmente a felicidade centra-se sobre suas honras e por tal, não alcançariam a felicidade, pois: “A honra depende mais de quem a confere do que de quem a recebe, enquanto o bem supremo nos parece ser algo (...) que dificilmente pode ser arrebatado” (ibid, I, 4).
As semelhanças do senso comum da época de Aristóteles com a nossa obviamente são inúmeras. Na cultura onde o narcisismo impera a todo o momento se inclina a compulsão, na ávida necessidade de possuir. Para Aristóteles, contudo, era a virtude (arete) que nos levava à felicidade. Aqui temos ainda que tentar desvelar o que Aristóteles queria dizer com virtude. Ele nos diz: “O sucesso e o fracasso na vida não dependem dos favores da fortuna, mas a vida humana, como dissemos, também deve contar com eles; na realidade são nossas atividades conformes à virtude que nos levam à felicidade, e as atividades contrárias nos levam à situação oposta” (ibid: I, 10).
Ao homem, através da razão, é possível agir com virtude, pois para atingir o bem comum “ele tem que agir com razão. Então tem que ser uma racionalidade que integre pensamento + vontade (de realizar o bem através da ação)” (Reale apud Veríssimo) e finalmente “Dessa forma o bem do homem como excelência nada mais é do que a virtude, pois a virtude é a melhor e mais completa excelência, o mais completo bem” (ibid). Ampliando o sentido de virtude encontraremos ainda a outra forma de apresentá-la, ela é “uma mediania entre os extremos que são a falta e o excesso” (Veríssimo). Ela rompe com os extremos, com as atitude unilaterais às quais podemos tomar, pois, como diria Nietzsche somos o “humano, demasiado humano”. A virtude nos parece como o lugar onde “O sujeito, ao romper com a repetição inerente aos complexos infantis, ruma para o livre arbítrio” (Melo, 2002).
Sabemos que esta posição de mediania que caracteriza a virtude “(..)não é um ponto matemático” (Aristóteles apud Veríssimo, II, 6) pois pertence a práxis, a prática e não simplesmente a abstrações, por tal, a virtude é em essência uma sabedoria prática. Para alcançar a virtude é preciso “o desenvolvimento da moderação (mediania) entre o medo e a violência incontida” onde “O desenvolvimento se dá pelo exercício” (ibid). Segundo Aristóteles “É possível errar de muitos modos (...), mas só há uma maneira de acertar. Por isso, errar é fácil e acertar é difícil – fácil errar a mira, difícil acertar o alvo. Pelas mesmas razões, o excesso e a falta são características do vício, e a mediania a virtude: Pois os homens são bons de um modo só, e maus de muitos modos”. (ibid: II, 6).
Conclui-se que se, por um lado, a felicidade e a ética são tomados por um modelo sustentado pelo egoísmo e pela cobiça des-medida, por outro, a ética Aristotélica é a busca por um bem comum, por um bem que resultará uma melhoria social, à Polis. É o encontro com a mediania que só pode ser encontrada através da práxis, saindo dos extremos que seriam compulsivos e estariam no âmbito da falta de liberdade. Concluir-se-á, logo, que o ethos é uma busca por, com-paixão, cuidar de nosso planeta e dos seres humanos que nele habitam.
"Quando batemos com uma mão de encontro à outra ouvimos um som. Qual é o som produzido por uma só?” (Introdução ao Zen-Budismo: 37. Sukuzi).
Bibliografia:
Boff, Leonardo; Saber Cuidar, ética do humano - compaixão pela terra. Ed. Vozes, 1999.
Lipovetsky, Gilles; A Era do Vazio. Ed. Gallimard, 1983.
Melo, Elizabeth; Mergulhando Num Mar Sem Fundo, 2002.
Veríssimo, Luis; Introdução ao estudo da ética
Veríssimo, Luis; Aristóteles – Ética e Nicômaco
terça-feira, junho 13, 2006
Voila le monde moderne!

Onde atingiu aquele raio? O chão evapora como a água vaporizada pelo calor, os valores se desintegram e o eclipse se torna reluzente. Marilyn Manson grita que o único Deus bom é um Deus morto. A grama seca, os mares param, todos observam qual o próximo movimento. Será o Homem o único Deus? O grande valor agora será o vazio de valores? Ou o faça o que tu queres do Mr. Crowley irá retumbar por uma era de Ubermanche.
As brumas de Avalon se abrem paulatinamente após a morte de Deus. A natureza passa a andar com suas próprias pernas, Maturana retoma seu antigo nome: “Gaia”. Os animais passam a ter uma memória coletiva, os campos morfogenéticos são abertos por nossa ressonância mórfica, Sheldrake resgata a totalidade – holos do mundo. A luz infinita cabalística retorna de sua tumba. Cantos pagãos são cantados a luz do dia: “Bom dia”, falam entre irmãos, nos gramados em frente a prédios de 50 metros de altura.
Do outro lado da rua acontecem protestos ávidos de óleo disel. Os tecnocratas do século XIX e XX dizem que a opus da scientia, o summum bonum da humanidade, ainda não morreu. Contudo, um pequeno viajante, grande observador, diz em praça publica: “As maquinas morreram!”, mas o solitário só foi escutado pelas moscas e pelas formigas, que alias, ficaram escandalizadas. A razão psicoide moderna, diz o menino, é a do animal racional, “zoon politikos” como diria o antigo Aristóteles. Todavia, quando diz isso, os tecnocratas meio confusos, meio felizes e meio irritados, resolvem dar algumas pílulas medicinais para o garoto e gritam estupefatos: “Ave medicamentos”. A loucura precede o hospício.
Já no hospital psiquiátrico, chamam-no de pirado e doente, mas com termos humanizados. Ele então põe no chão alguns de seus livros, para que após possa dar uma folheada. Enquanto senta para meditar com as pernas cruzadas (dhyana) lembra-se dos princípios do budismo: “’Então, qual é o principio último do budismo’, perguntou o monge ‘É o cipreste do pátio” respondeu Joshu’”. Olha então de entreolho para seus livros e vê lado a lado obra de Freud, Buda, cibernética, Cristo, Tarot´s, livros de auto-ajuda e manuais de mecânica. Numa discussão sobre o caso do menino, os psicólogos energéticos dizem:
“Invariavelmente falta a ele o ‘Nome do Pai’”, “Sim” concorda o outro doutor: “O menino está fora-da-lei, é um problema da foraclusão (o termo provindo do francês cai muito bem) do Nome do Pai”. O garoto, escutando de sobressalto o dialogo, dos senhores doutores, faz uma observação, em Francês, para não passar longe da revolução positivista: “Les machines êtes morte”. Por sorte os psiquiatras e psicólogos não escutaram a blasfêmia.
Um novo deus caminha por entre as florestas, por entre as cidades, por entre Avalon, e cruza os cidadãos com raios abomináveis. Não é o capital, do senhor Marx. É o consumo extremo tomado como paradigma de uma nova era. Os valores são agora inseridos através de propagandas que aguçam o complexo repitiliano dos seres, produzindo seretonina através de “propagandas sintéticas” (LSTV – Louvada seja a televisão). A sexdução do consumo generalizado. A coisificação absoluta, seja criada através da alienação da vida enquanto todo, ou através da inter-relação sujeito-objeto.
Meu pai! Onde vamos parar? – pergunta o bêbado na porta do bar.
- Eu não sei! Eu não sei! Responde o discordiano iluminado.
- Parem o mundo que eu quero descer – grita o poeta atormentado.
E todos confusos seguem por entre os gados.
segunda-feira, junho 12, 2006
Análise, Psicoterapia e Psicosintese.
Como alguém pode ficar preso a analise para encher-se de demonios? Já não basta os demonios que temos que aturar em nossa existência? As terapia, analises, psicosinteses deveriam existir para nos trazer mais felicidade e não nos encher de neuras. O que me adianta ter uma suposta consciencia de meus determinantes se isto irá gerar um sem número de angustias não passiveis de síntese? O que me adianta ser um angustiado supostamente curado?
sábado, junho 10, 2006
Olhos

Fecham-se os portais,
Do oceano azul celeste
É demasiado tarde,
As flores perderam seu lilas.
O açogueiro corta a carne,
Separa as tripas, o coração e os rins
Os animais ficam histéricos
Preocupados com seus fins.
Cada carne é uma carne,
Umas são macias e outras duras
O açogueiro imprime em seu rosto
As marcas do prazer e diz:
Somos deliciosamente desnecessários
A pergunta ressoa neurótica:
Será possível nadar novamente?
Ou continuaremos molhando os pés

Para não morrermos ininterruptamente?
O sonho de criança não foi perdido,
Diz o filosofo carcumido
Mas por traz de sua carcaça mal cheirosa
Brilha voluptuosamente aquela rosa
Não mais aquela rosa da separação,
A rosa pálida
Mas sim a rosa bela,
Vermelha, branca e verde
Linda, mas não mais incendiaria.
terça-feira, junho 06, 2006
Escavando

Entorpecido pelo não-entorpecimento,
Mas sem cimento, deixo o eclipse passar
Aguento as contas, mas nem tanto assim..
Eu não consigo deixar, totalmente
O chorinho me levar..
Como o peixe nada, eu ando,
Como a gavião voa, eu flutuo.
E sigo andando pela estrada de tijolos,
Cavando meus buracos esotéricos
E observando que: ainda há vida no cemitério!
Demonio maldito que abençoo,
as vezes, me enterra
numa chuva acida de duvidas aereas
meu amigo, eu te amo!
mas deixe-me acentar um pouco,
sobre este meu jeitinho de topeira!
O bixo da foto é um ORICTÉROPO e tem "focinho de porco, orelhas de mula e cava tocas de baixo da terra como uma topeira! Por isso, é também chamado porco-da-terra pelos sul-africanos". Ele "Tem hábitos solitários e noturnos: dorme durante o dia em sua toca e, à noite, sai à procura de alimento. Não corre com rapidez e isso o torna um animal cauteloso e tímido". Mais informações: http://www.saudeanimal.com.br/curio11.htm
segunda-feira, junho 05, 2006
Sobre o 1o Ato do Comite Pró Voto Nulo.

Saímos todos as ruas, neste 3 de junho, para mostrar as caras a população. As 10 da manhã lá estávamos, na praça Saens Pena, zona norte do Rio de Janeiro, com cartazes, faixas, megafone, panfletos, corpos e almas. Já no caminho a praça Saens Pena ouvimos a voz popular se manifestar da boca de uma senhora: “É isso mesmo! Vamos votar nulo! Nenhum deles presta!”. Não. Não precisávamos de muito esforço, parecia que já estava no ar tudo aquilo que almejávamos falar.
Ao chegar a praça Saens Pena, de fato, vimos que aquele prelúdio do ato demonstrara-o em sua totalidade. A população, em grande peso, saudou-nos. Estava clara a desilusão da população na política partidária, estava clara a insatisfação com a roubalheira obsessiva da classe política – ou, dever-se-ia dizer, classe parasita? -. Distribuímos panfletos, marcamos um ponto para colocar nossos murais, de aproximadamente 1,5 metro cada, onde ficavam sempre algumas pessoas para conversar diretamente com a população, enquanto esta, poderia ver através das várias reportagens coladas no mural, a degeneração que se tornou, ou melhor, sempre foi, a política brasileira.
Todo o tempo o clima manteve-se excelente. Fomos calorosamente recebidos e raras foram as vezes que ouvimos pessoas defenderem os políticos. O ato mostrou-nos, com efeito, que a confiança deve ser retomada. Existe uma luz no fim do túnel! A população, aos poucos, parece sair de sua passividade e dizer: “Não. Já basta!”. Esperamos, e lutamos com afinco para isso, que esta “Basta!” seja muito mais do que mero protesto. Que este “Basta!” que todo gritamos a céu aberto, seja por uma política além do voto, que seja por um novo modelo de organização, por uma vida mais justa, humana e digna para todos os seres humanos.
Poesia aos olhos de Maria
Nós pedimos com insistência:
Não digam nunca: isso é natural!
Diante dos acontecimentos de cada dia.
Numa época em que reina a confusão.
Em que corre o sangue,
Em que se ordena a desordem,
Em que o arbitrário tem força de lei,
Em que a humanidade se desumaniza,
Não digam nunca: isto é natural!
Bertold Brecht
sexta-feira, junho 02, 2006
Relato de um Despejo e a Glória dos poderosos
Texto Escrito por Tyler Durden (http://www.1936.blogger.com.br/)
Sete Horas da noite, terça-feira; às pressas somos avisados sobre uma ordem de despejo já emitida pela justiça, de um prédio ocupado no bairro da Glória, Rio de Janeiro. Partimos para o local pela primeira vez e somos apresentados aos moradores e a ocupação, tentando passar nossa solidariedade ao difícil momento que estes enfrentavam.
Na assembléia é fácil perceber que o clima é tenso e a quantidade de apoios, serve no mínimo para injetar ânimo nos presentes para a difícil batalha que se seguiria.
A palavra de ordem é RESISTIR. E não poderia ser diferente, são as casas e as vidas de seres humanos que estão em jogo, não há neste momento como esperar um suposto "fortalecimento da democracia", esta para nós já se mostrou frágil há muito tempo. A ocupação não tem um nome específico, foi feita "espontaneamente" pelos seus ocupantes, o que comprova que mesmo sem a presença do estado ou de líderes iluminados, os oprimidos conseguem tomar para si o que assim lhes diz respeito. Nos apresentamos rápidamente e tentamos compreender da melhor forma possível o contexto da ação de despejo, para organizar uma ação de apoio. O prédio, como muitos outros espalhados pelo mar da especulação imobiliária, permaneceu abandonado por vários anos, sem cumprir nenhum tipo de função social. A estória é confusa, mas pelo que sabemos a suposta proprietária era na verdade uma grileira profissional que alugava os apartamentos para os moradores e reivindicava sua propriedade, os moradores tentaram até realizar uma compra do imóvel, mas sem sucesso. Segundo documentos dos próprios, o verdadeiro dono é o já extinto INPS, conforme o registro imobiliário confirma sem maiores dúvidas. Os moradores (a esmagadora maioria composta de trabalhadores e donas de casa) no entanto, reformaram o prédio, fizeram diversas melhorias, alheios às obscenidades do poder público.
Não há tempo para maiores conversas políticas, a situação urge uma saída prática. Na assembléia tentamos passar nossa experiência com a ação direta, dando exemplos práticos de como os moradores podem reagir. Estes já estão convencidos de que não há mais saída jurídica, e devido às circunstâncias críticas só há uma saída: a luta.
Alguns conselhos e sugestões são dados, mais só a realidade objetivamente poderia ensinar-lhes os caminhos dificultosos da luta de classes em sua versão mais transparente, como confirmariam os próximos acontecimentos.
Às seis e meia da manhã, a polícia militar chegava com seus dois micro-ônibus e quarenta minutos depois, efetivamente começava a ação de despejo.
Os portões do prédio foram acorrentados e soldados pelos moradores, para dificultar a ação dos invasores. Os apoios estavam em número numérico reduzido, devido a dificuldade em se criar uma estrutura de solidariedade em tão pouco tempo. Os advogados(um da ocupação e do grupo de apoio) tentaram negociar, mas em ações como esta, a política do governo mostra sua face mais determinada. Sem possibilidades de negociação, sem poder financeiro e alijados da cidadania do capital, as dificuldades se avolumavam categoricamente. Ao questionarmos o ato violento e arbitrário a uma das oficiais de justiça, esta se limitou a responder que "justiça é justiça e deve ser cumprida".
Justiça segundo a definição do dicionário: "é a virtude moral que leva a dar a cada um aquilo que é seu, ou aquilo a que fez jus". Como assim? Que justiça é esta? Expulsar 60 famílias e crianças de um prédio há anos abandonado é justo? Sob que lógica? A da propriedade privada? A do capital?
Nossa insatisfação e nossos argumentos incomodaram a ponto de sermos ameaçados de prisão por uma das oficiais de justiça que conduzia a operação sob a alegação de atrapalhar a operação. Fomos então, expulsos pelos policiais para longe de um dos portões de acesso ao prédio; onde um trabalhador (por ironia) contratado pelos agentes da repressão, tentava quebrar uma das correntes que salvaguardava o prédio da ação violenta do Estado. Os moradores se organizaram muito bem, apesar do pouco tempo que dispunham, portões estavam tão bem fechados, que foi preciso mobilizar outras forças do Estado (Bombeiros) para invadir o prédio. A única câmera que não era da polícia militar foi impedida de filmar a ação mais proximamente.
A polícia "estudava" formas de agir, em determinado momento, invadiram a casa ao lado da ocupação(sem mandado judicial "diga-se de passagem" configurando invasão de domicílio) para entrar no prédio, causando pânico e provocando a retirada da moradora pela maca dos bombeiros, pois esta passava mal devido ao estresse nervoso. Do lado de fora, um policial usava spray de pimenta indiscriminadamente, mesmo tendo ciência da presença de crianças no local. Um membro do conselho tutelar dizia que estava presente para salvaguardar as crianças, confrontado com a pergunta de para onde elas iriam se houvesse despejo, este se limitou a gaguejar hipocritamente, dizendo que "não sabia".
Ninguém "sabe de nada" no estado Brasileiro, sabem apenas incentivar as pessoas a enfeitar as ruas em épocas de copa do mundo em troca de prêmios e alusões cínicas de um patriotismo que serve apenas ao interesse dos poderosos.
Ao conseguirem abrir o portão, não sabíamos exatamente o quê se passava dentro do prédio, o som das crianças chorando e dos gritos resumiam muito bem a política social do Estado quanto à reforma urbana: combate-se a pobreza e a desigualdade social oprimindo os pobres e defendendo ferozmente a propriedade privada. No caso da prefeitura, esta não poupou recursos para a operação, Polícia Militar, Tropa de Choque, Bombeiros, Conselho Tutelar, Justiça Federal e até mesmo a Comlurb estava presente, para ajudar a ¿varrer¿ os indesejáveis. Para se ter idéia da disposição com a qual a prefeitura tratava o caso, contamos um efetivo de no mínimo 70 policiais, armados com metralhadoras, granadas de efeito moral, escopetas e spray de pimenta, sentíamos a verdadeira sensação de estar no meio de uma guerra civil. E realmente estávamos; esta era uma guerra mais cínica e demagógica é verdade, uma demonstração aberta e explícita da guerra entre classes.
Em poucos minutos o local tornava-se palco de um verdadeiro espetáculo midiático, a mídia burguesa, representada por diversas redes de televisão, jornal e rádio chegavam ávidas por um bom pedaço de notícia, que recheassem seus noticiários de violência. Com o despejo consumado, alguns moradores recusavam-se a dar entrevistas para a mídia, já que esta foi chamada para noticiar o caso há anos atrás e nunca apareceu.
Os repórteres eram nitidamente mal intencionados, e tentavam sempre induzir os moradores entrevistados por meio de perguntas tendenciosas a legitimar o despejo. Muitos deles acompanhavam a ação da polícia tão próximos, que às vezes os confundíamos com agentes da secretaria de segurança, devido a "afinidade" clara entre o primeiro(O Estado) e o terceiro poder(mídia).
Por volta das 10:30, os ocupantes começavam a retirar seus pertences para não haver mais violência. Muitos se perguntavam: Para onde vamos agora? Para onde vamos? Infelizmente para esta pergunta o Estado não tinha resposta. A lei já fora cumprida. A suposta ¿justiça¿ foi feita e o resto não importava aos agentes do poder. Um prazo de 24h ou 48h foi negado e a presença do corregedor da câmara obviamente uma ação de caráter político para abastecer as câmeras de tv com mais lixo demagógico, apenas sacramentou a ação odiosa da prefeitura.
Tentamos na medida de nossas forças, providenciar locais para que estes se abrigassem e estabelecermos contatos para futuras ações de solidariedade.
Uma bandeira amarela numa das fardas dos policiais, me fez lembrar a copa do mundo e as ruas enfeitadas pelos habitantes das urbes brasileiras e o apelo cínico da mídia ao patriotismo. Unir especuladores imobiliários e sem-teto, burgueses e assalariados, opressores e oprimidos sob uma única bandeira é uma tentativa de mascarar os conflitos inevitáveis da desigualdade capitalista, mas a ação do poder público apenas reforçou nossa tese, de que este poder é um poder privado, que defende interesses particulares.
Onde estavam os partidos políticos, os políticos profissionais, as ONGs milionárias? Talvez escrevendo algum artigo acadêmico ou alguma tese que confirme que o voto "consciente" é o caminho para mudanças sociais e que a democracia representativa é a saída para problemas como estes. Porém, acontecimentos como estes, apenas servem para reforçar em nossos corações que "não haverá paz para os opressores enquanto não houver justiça para os oprimidos". Não uma justiça fictícia restrita a retóricas acadêmicas e a salões, mas uma justiça real. Uma justiça revolucionária.
Sete Horas da noite, terça-feira; às pressas somos avisados sobre uma ordem de despejo já emitida pela justiça, de um prédio ocupado no bairro da Glória, Rio de Janeiro. Partimos para o local pela primeira vez e somos apresentados aos moradores e a ocupação, tentando passar nossa solidariedade ao difícil momento que estes enfrentavam.
Na assembléia é fácil perceber que o clima é tenso e a quantidade de apoios, serve no mínimo para injetar ânimo nos presentes para a difícil batalha que se seguiria.
A palavra de ordem é RESISTIR. E não poderia ser diferente, são as casas e as vidas de seres humanos que estão em jogo, não há neste momento como esperar um suposto "fortalecimento da democracia", esta para nós já se mostrou frágil há muito tempo. A ocupação não tem um nome específico, foi feita "espontaneamente" pelos seus ocupantes, o que comprova que mesmo sem a presença do estado ou de líderes iluminados, os oprimidos conseguem tomar para si o que assim lhes diz respeito. Nos apresentamos rápidamente e tentamos compreender da melhor forma possível o contexto da ação de despejo, para organizar uma ação de apoio. O prédio, como muitos outros espalhados pelo mar da especulação imobiliária, permaneceu abandonado por vários anos, sem cumprir nenhum tipo de função social. A estória é confusa, mas pelo que sabemos a suposta proprietária era na verdade uma grileira profissional que alugava os apartamentos para os moradores e reivindicava sua propriedade, os moradores tentaram até realizar uma compra do imóvel, mas sem sucesso. Segundo documentos dos próprios, o verdadeiro dono é o já extinto INPS, conforme o registro imobiliário confirma sem maiores dúvidas. Os moradores (a esmagadora maioria composta de trabalhadores e donas de casa) no entanto, reformaram o prédio, fizeram diversas melhorias, alheios às obscenidades do poder público.
Não há tempo para maiores conversas políticas, a situação urge uma saída prática. Na assembléia tentamos passar nossa experiência com a ação direta, dando exemplos práticos de como os moradores podem reagir. Estes já estão convencidos de que não há mais saída jurídica, e devido às circunstâncias críticas só há uma saída: a luta.
Alguns conselhos e sugestões são dados, mais só a realidade objetivamente poderia ensinar-lhes os caminhos dificultosos da luta de classes em sua versão mais transparente, como confirmariam os próximos acontecimentos.
Às seis e meia da manhã, a polícia militar chegava com seus dois micro-ônibus e quarenta minutos depois, efetivamente começava a ação de despejo.
Os portões do prédio foram acorrentados e soldados pelos moradores, para dificultar a ação dos invasores. Os apoios estavam em número numérico reduzido, devido a dificuldade em se criar uma estrutura de solidariedade em tão pouco tempo. Os advogados(um da ocupação e do grupo de apoio) tentaram negociar, mas em ações como esta, a política do governo mostra sua face mais determinada. Sem possibilidades de negociação, sem poder financeiro e alijados da cidadania do capital, as dificuldades se avolumavam categoricamente. Ao questionarmos o ato violento e arbitrário a uma das oficiais de justiça, esta se limitou a responder que "justiça é justiça e deve ser cumprida".
Justiça segundo a definição do dicionário: "é a virtude moral que leva a dar a cada um aquilo que é seu, ou aquilo a que fez jus". Como assim? Que justiça é esta? Expulsar 60 famílias e crianças de um prédio há anos abandonado é justo? Sob que lógica? A da propriedade privada? A do capital?
Nossa insatisfação e nossos argumentos incomodaram a ponto de sermos ameaçados de prisão por uma das oficiais de justiça que conduzia a operação sob a alegação de atrapalhar a operação. Fomos então, expulsos pelos policiais para longe de um dos portões de acesso ao prédio; onde um trabalhador (por ironia) contratado pelos agentes da repressão, tentava quebrar uma das correntes que salvaguardava o prédio da ação violenta do Estado. Os moradores se organizaram muito bem, apesar do pouco tempo que dispunham, portões estavam tão bem fechados, que foi preciso mobilizar outras forças do Estado (Bombeiros) para invadir o prédio. A única câmera que não era da polícia militar foi impedida de filmar a ação mais proximamente.
A polícia "estudava" formas de agir, em determinado momento, invadiram a casa ao lado da ocupação(sem mandado judicial "diga-se de passagem" configurando invasão de domicílio) para entrar no prédio, causando pânico e provocando a retirada da moradora pela maca dos bombeiros, pois esta passava mal devido ao estresse nervoso. Do lado de fora, um policial usava spray de pimenta indiscriminadamente, mesmo tendo ciência da presença de crianças no local. Um membro do conselho tutelar dizia que estava presente para salvaguardar as crianças, confrontado com a pergunta de para onde elas iriam se houvesse despejo, este se limitou a gaguejar hipocritamente, dizendo que "não sabia".
Ninguém "sabe de nada" no estado Brasileiro, sabem apenas incentivar as pessoas a enfeitar as ruas em épocas de copa do mundo em troca de prêmios e alusões cínicas de um patriotismo que serve apenas ao interesse dos poderosos.
Ao conseguirem abrir o portão, não sabíamos exatamente o quê se passava dentro do prédio, o som das crianças chorando e dos gritos resumiam muito bem a política social do Estado quanto à reforma urbana: combate-se a pobreza e a desigualdade social oprimindo os pobres e defendendo ferozmente a propriedade privada. No caso da prefeitura, esta não poupou recursos para a operação, Polícia Militar, Tropa de Choque, Bombeiros, Conselho Tutelar, Justiça Federal e até mesmo a Comlurb estava presente, para ajudar a ¿varrer¿ os indesejáveis. Para se ter idéia da disposição com a qual a prefeitura tratava o caso, contamos um efetivo de no mínimo 70 policiais, armados com metralhadoras, granadas de efeito moral, escopetas e spray de pimenta, sentíamos a verdadeira sensação de estar no meio de uma guerra civil. E realmente estávamos; esta era uma guerra mais cínica e demagógica é verdade, uma demonstração aberta e explícita da guerra entre classes.
Em poucos minutos o local tornava-se palco de um verdadeiro espetáculo midiático, a mídia burguesa, representada por diversas redes de televisão, jornal e rádio chegavam ávidas por um bom pedaço de notícia, que recheassem seus noticiários de violência. Com o despejo consumado, alguns moradores recusavam-se a dar entrevistas para a mídia, já que esta foi chamada para noticiar o caso há anos atrás e nunca apareceu.
Os repórteres eram nitidamente mal intencionados, e tentavam sempre induzir os moradores entrevistados por meio de perguntas tendenciosas a legitimar o despejo. Muitos deles acompanhavam a ação da polícia tão próximos, que às vezes os confundíamos com agentes da secretaria de segurança, devido a "afinidade" clara entre o primeiro(O Estado) e o terceiro poder(mídia).
Por volta das 10:30, os ocupantes começavam a retirar seus pertences para não haver mais violência. Muitos se perguntavam: Para onde vamos agora? Para onde vamos? Infelizmente para esta pergunta o Estado não tinha resposta. A lei já fora cumprida. A suposta ¿justiça¿ foi feita e o resto não importava aos agentes do poder. Um prazo de 24h ou 48h foi negado e a presença do corregedor da câmara obviamente uma ação de caráter político para abastecer as câmeras de tv com mais lixo demagógico, apenas sacramentou a ação odiosa da prefeitura.
Tentamos na medida de nossas forças, providenciar locais para que estes se abrigassem e estabelecermos contatos para futuras ações de solidariedade.
Uma bandeira amarela numa das fardas dos policiais, me fez lembrar a copa do mundo e as ruas enfeitadas pelos habitantes das urbes brasileiras e o apelo cínico da mídia ao patriotismo. Unir especuladores imobiliários e sem-teto, burgueses e assalariados, opressores e oprimidos sob uma única bandeira é uma tentativa de mascarar os conflitos inevitáveis da desigualdade capitalista, mas a ação do poder público apenas reforçou nossa tese, de que este poder é um poder privado, que defende interesses particulares.
Onde estavam os partidos políticos, os políticos profissionais, as ONGs milionárias? Talvez escrevendo algum artigo acadêmico ou alguma tese que confirme que o voto "consciente" é o caminho para mudanças sociais e que a democracia representativa é a saída para problemas como estes. Porém, acontecimentos como estes, apenas servem para reforçar em nossos corações que "não haverá paz para os opressores enquanto não houver justiça para os oprimidos". Não uma justiça fictícia restrita a retóricas acadêmicas e a salões, mas uma justiça real. Uma justiça revolucionária.
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