quarta-feira, agosto 30, 2006

A viajem do trem à nova flor.


Quando o vento passa e soa com sua leve brisa,
Ameniza, o incontido desmembrar do trem
Mas não há vagão que não destrilhe,
Com o estilhaçar do armazém

E sobre os vinhos derrubados com vagar
Estão as flores, do inverno à primavera
Em todo sonho a gente sempre espera
Que o além vai nos ajudar,
Mesmo que também tenha o diabo,
Pronto para nos matar.

Em dias em que fulge o sol
Sempre há um excesso de chuva para compensar
O trem sempre vai, sempre vai passar

Mesmo quando a esperança afoga,
A gente reza, a gente roga
A gente faz, a gente preza
Por uma proeza que mais que depressa
Vá mostrar-se por trás da mascara
E rapidamente rejuntar

Os pedaços descarrilhados do trem embrigado
E dar nó, onde este, desfez-se em pó
Que vai mostrar a cor,
Para o que estava incolor
Ou fez-se daltônico por um momento,
E com ardor
Vai lutar por um cimento (mesmo que seja constrangedor)

E, assim, em linhas tortas
Em nós tão novos
Nasce aquela flor, alimentada com calor
Neste novo resplendor
Gerado pelo sangue quente, de um novo amor
Que esta por vir.

segunda-feira, agosto 28, 2006

Do 3 e 4 à Revolução


Gostaria apenas de começar um texto sobre a questão quadratura do circulo, ou, em outros termos, do 0 e do 4, para ampliar a discussão à questão do 3 e do 4, ou 3:4. A vontade de fazer essa exposição veio de um trecho de um texto dos situacionistas colocado no blog “Um grito de recusa e desejo”, de meu amigo A.Guerra (http://www.anarchia.blogspot.com/) onde eles citam a questão da quadratura do circulo.

Certamente o texto situacionista, ao fazer uma analogia à quadratura do circulo, se refere ao absurdo, mas, ao pensarmos em termos de tradições místicas, religiosas, a quadratura do círculo se torna algo bem diferente. Provavelmente os situs fizeram essa analogia pelo fato de ser uma tentativa de conscientização (quadrado) dentro de uma ordem pré-estabelecida (circulo). Mas, tentemos desvelar algo sobre essas representações geométricas ou numéricas, independente desse texto.

O circulo, segundo a tradição cabalística, sem o ponto no meio, se refere ao número 0, à origem de tudo, é o Ain Sof (Nada criador). Significa a inconsciência primeira, a potencialidade de tudo tornar-se. O circulo ainda nos leva à mandala, palavra derivada do sânscrito que significa, justamente, círculo. Esse termo tem derivação indiana e é relacionado a termos rituais. Do circulo inicial, o 0, começamos a entrar na criação, até chegarmos à dualidade, falemos, por exemplo, sobre a tradição judaica-cristã, no Gênesis (parte do Sefer Torá ou antigo testamento):

“(0a) – Jeová estava com as trevas iniciais. No Gênesis, as trevas (ou ‘escuridão’) estavam sob as águas, e era o deus do principio e da Terra sem forma e vazia. Essa etapa é ‘la terra était deser et vide: les tenebres (s´etendainent) sur l´Abisme et le souffle d´Elohim planait sur les eaux’: água da profundeza.

(0b) – A terra estava deserta e vazia: as trevas se estendiam sobre o abismo. Surge o sopro de Deus. (...) Elohim da instabilidade ao caos e produz, ou permite como nas cosmogonias em geral, a criação”. (Melo, 2002: 262-263).”

A partir desse caos inicial representado pela circularidade vazia, passamos a ter a representação geométrica do circulo com o ponto no meio (o 1) propiciando uma base, um ponto que, a partir daí, pode gerar a dualidade da vida, e sua materialidade, caracterizados pelo número 2[1]. No Gênesis ainda lemos: “No principio criou Deus os céus e a terra. E a terra era vã e vazia, e (havia) escuridão sobre a face do abismo, e o espírito de Deus se movia sobre a face das águas. E disse Deus: ‘Seja luz!’ E foi luz. E viu Deus a luz que (era) boa; e separou Deus entre a luz e a escuridão. E chamou Deus à luz, dia, e à escuridão, chamou noite: e foi tarde, e foi manhã, dia um”.

“E disse Deus: ‘Haja expansão no meio das águas e que separe entre águas e águas!’ E fez Deus a expansão; separou entre as águas debaixo da expansão e entre as águas de cima da expansão: E foi assim (...)”.

Bem, podemos observar, não só nessa descrição inicial do Gênesis, como em várias outras tradições, o inicio indiferenciado do cosmos que foi modelado pela força criadora, assim como na tradição científica essa criação se refere também a uma força, o colapso do espaço e tempo. A criação da dualidade vem logo a seguir, como observamos, como condição da consciência diferenciada, aqui já numa interpretação psicológica, pois, se temos em mente que as cosmogonias são projeções da alma e modelos arquetípicos, isso só demonstra que a vida humana passa pelas mesmas fases que a criação do universo. O bebe inicialmente é o inconsciente puro, o indiferenciado[2], vindo a tornar-se gradualmente sujeito dividido, entre consciente e inconsciente, ou entre extroversão e introversão. Da mesma forma que Deus separa as águas, a luz da escuridão, nos criamos uma consciência diferenciada para lidar com os aspectos sociais da vida, da cultura, e para tal diferenciamos um “mal” de um “bem”, um “em cima” de um “de baixo”, mesmo que as coisas não sejam de fato assim. É dessa forma que criamos uma moral social, condição necessária para, na psicanálise, estabelecermos uma estrutura neurótica ao invés de psicótica (aqui não entremos na terceira estrutura clinica, a saber: a perversão).

Bem, voltemos à questão do circulo, e durante o texto podemos continuar abordando aspectos psicológicos. Voltemos em especial aos aspectos referentes aos números 3 (pirâmide) e o 4 (quadrado). O número 3 se refere aos aspectos masculinos, e teve uma grande importância no mundo ocidental, referente ao cristianismo e seu dogma ternário (pai, filho e espírito santo), estes 3 aspectos, contudo, acabam por ignorar a condição terrena da vida, como observaram os alquimistas ocidentais ao falarem sobre o Axioma de Maria, onde Maria seria o quatro elemento do quaternário. Outro sistema de crenças que possui bases “masculinas”[3] é o Judaísmo, onde o próprio nome de D´us em hebraico é הוהי (iod, hê, vav, hê – IHVH). Este é o famoso tetragrama que, na verdade, só possui três letras, pois o hê se repete. Apartir daí voltamos ao número 3.

O ternário, contudo, na vida ocidental não se refere somente ao cristianismo. Na filosofia Hegel propôs seu sistema dialético que, como sabemos, já provinha de épocas mais arcaicas, como a Grécia antiga (e certamente, se formos fazer um estudo minucioso, poderemos perceber o pensamento dialética em sociedades mais antigas).

A questão do 3 e do 4 é uma questão discutida por muitas tradições como o “I Ching” na China, Pitágoras na Grécia e os alquimistas. A relação entre 3 e 4 é como uma relação “do ser incompleto com o completo correspondente portanto a uma portio sesquitertia, isto é, 3:4. Essa relação é conhecida na tradição alquímica ocidental como Axioma de Maria. No simbolismo onírico também desempenha papel considerável (Jung, 2006: 355-356).

O três, logo, significa a incompletude e a dicotomia, pois, sempre onde existe um triangulo inferior existe um superior[4], como atesta a alquimia. É a divisão do “ser” ou do “objeto” entre uma metade negativa e uma positiva, negando uma dessas metades ao obscuro, ao recalcado ou ao projetado. Na nossa história ocidental a parte negada foi, durante a maior parte de nossa história, a metade feminina, a parte material, a parte mundana, maternal, apesar de existir também a possibilidade, como nos atesta a história, da negação do principio masculino[5]. Essa negação do feminino pode ter tido várias influencias determinantes dentro da história, da economia, da sociologia, da psicologia e da antropologia (quanta separação) sendo projetada, pelo cristianismo dominante, de modo nefasto em diversas tradições, culturas, modos de vida que reverenciavam um outro modelo de vivencia, de organização, como o paganismo, o hermetismo, o gnosticismo, etc.

Em seu modelo patriarcal o cristianismo não pode aceitar a diferença e conviver com ela, queria a pura hegemonia e castrava as individualidades que poderiam surgir. Cabia perguntar a cristianismo onde estava o feminino, o número 4, assim como Sócrates pergunta a Timeu: “Um, dois, três –mas querido Timeu, onde fica o quatro?” (ibid: 231).

Já confeccionamos alguma coisa da questão do três e do quatro e ainda para validar historicamente a repetição desse tema poder-se-ia explorar uma infinidade de símbolos em torno desses números, assim como, por exemplo, os “quatro filhos de Hórus ou pelo quatro serafins de Ezequiel, ou ainda pelo nascimento dos quatro eons a Metra (uterus) fecundada pelo pneuma na gnose-Barbelo, ou então pela cruz formada pelo raio (= serpente) em Bohme[6], até a tetrameria da opus alchymicum em seus componentes (elementos, qualidades, graus, etc[7]). A quaternidade sempre constitui uma unidade” (ibid: 314). Ainda podemos acrescer a própria divisão da psique em 4 funções (sensação, intuição, pensamento e sentimento). Longe de nós fazer uma enciclopédia de símbolos. Temos que pensar no que pode resultar esse conhecimento em aspectos práticos, psíquica e materialmente.

Trata-se de uma conjunção dos opostos, o grande Opus. Assim como nossa psique ruma para o Si-mesmo, i.e, ruma para a conjunção da consciência com o inconsciente, para a nossa totalidade, nossa sociedade também ruma para um estado sem classes, sem a dualidade atual, onde um se sobrepõe ao outro. Não se trata entretanto de ignorar as diferenças, ao contrário, trata-se de aumentá-las. Aumentar as diferenças, a pluralidade, o respeito mutuo, o acolhimento (feminino-materno) é um dos passos de uma sociedade integrada, mas essa integração e diferenciação não é a diferenciação narcísica[8] da sociedade “pós-moderna” que mantém a diferença enquanto modo de alienação de uma mudança estrutural, a sedução do consumo e da diversidade como modos de propaganda de um modelo liberal e cool que seria o oposto de todo autoritarismo. Não. O aumento das diferenças deve vir a todo momento em conjunto com uma ligação com o social, com o Ethos do qual falava Heráclito; deve vir de um modelo comum propiciando um equilíbrio entre diferença e igualdade.

Jung nos diz sobre a questão da integração psíquica: “O modo pelo qual se obtém a harmonização de dados conscientes e inconscientes não pode ser indicado sob a forma de uma receita. Trata-se de um processo de vida irracional, que se expressa em determinados símbolos (...). Da união emergem novas situações ou estados de consciência. Designei por isso a união de opostos pelo termo ‘função transcendente’. A meta de uma psicoterapia que não se contenta apenas com a cura dos sintomas é a de conduzir a personalidade em direção à totalidade” (ibid, 282). Podemos a partir daí problematizar se as questões sociais não passam por um mesmo aspecto, por um aspecto dinâmico, vivo, onde revoluções, rupturas se dão a partir de momentos raízes e irracionais. Uma outra possibilidade estaria em pensarmos as rupturas como processos organizativos e racionais criados a partir da volição de uma determinada população que procura interesses específicos.

Para essa analise temos que considerar primeiramente que existem momentos que parecem ser grandemente influenciados por processos reprimidos no todo social, por exemplo, quando a classe operaria foi reprimida, massacrada, marginalizada, ela permaneceu ativa e ganhando força, foi um recalque falho do sistema social capitalista, ele não foi capaz de eliminar aquela parcela da população que, na verdade, foi o motor do próprio capitalismo no século XIX, XX. Essa população só era subliminarmente percebida, como algo que permanece no fundo da figura (classe burguesa) e assim pode ir ganhando território para reivindicar o seu espaço ou sua revolução. O mesmo acontece na psique onde“A autonomia do inconsciente começa onde se originam as emoções. Estas reações instintivas, involuntárias que perturbam a ordem racional da consciência com suas irrupções elementares. Os afetos não são ‘feitos’ através da vontade, mas acontecem” (ibid, 272).

Essa questão organizativa e de influencia foi abordada nesse blog no texto “Sociedade, Grupos e Movimentos Sociais” apesar de ser uma analise muito limitada. Acredito que não podemos olhar essa questão por apenas um foco pelo perigo de perdermos de vista a totalidade. É evidente, e isso historicamente, que existem revoltas, insurreições, revoluções que tiveram uma influencia consideravelmente maior do aspecto conjuntural do que organizativo, mas contudo, não podemos ignorar a importância fundamental da organização em quase todas revoluções, um exemplo seria a própria revolução espanhola de 1936. Sem a organização de nada adianta um momento histórico e psicológico propicio. A partir daí só podemos pensar que mesmo se acreditarmos que para vivermos em uma sociedade sem classes, sem propriedade, precisamos de um tipo de pessoa especifica (uma pessoa individuada) e de um tipo de conjuntura específico (gerado pelos problemas e antagonismos gerados pela organização e economia capitalista) só poderemos chegar a esse lugar com a organização voluntária, participativa da própria população, senão sempre incorreríamos na limitação das revoltas (por mais que elas possam causar uma mudança nas pessoas durante sua permanência).

Para terminar citemos uma passagem escrita por Jung sobre um estudo de mandalas sobre um caso de individuação que fala por si só: “A ‘quadrata figura’ que aparece como símbolo da lapis[9] no centro da mandala alquímica, cujo ponto central é Mercúrio recebe o nome de ‘mediador’, o que promove a paz entre os inimigos”.

[1] Os números pares são caracterizações do feminino e da matéria, representam a dualidade talvez pelo fato da vida surgir da mulher, o que pode ter sido, segundo Joseph Campbell, um dos motivos da satanização da mulher por tradições as quais buscavam um distanciamento da vida e do sofrimento, fatos intrínsecos à vida, como nos aponta o budismo. Antes do nascimento ou da queda do paraíso (momento primordial) tem-se a crença de que a existência era perfeita.

[2] - Segundo a tradição psicanalista o bebe começa sua vida em simbiose com a “Mãe” (função materna), sendo aos poucos separado dessa Mãe que representa, para ele, o Outro (termo lacaniano). O momento máximo dessa separação se da no complexo edipano, com a castração e a inserção do que os lacanianos chamam de “Nome-do-Pai” ou, em outros termos, a internalização da lei. Outras tradições da psicanálise consideram de maneira diferenciada esse momento, como os reichianos que, apesar de creditarem importância ao complexo edipano, crêem que existe uma necessidade de sublimação do amor edipano em uma criança de idade aproximada e não concordam, portanto, com a necessidade essencial do freudismo para a evitar a psicose, que é o recalque desse desejo, a separação do Id e a criação da lei social e do modelo ideal, o Super Eu.

[3] - Evidentemente aqui, como em todo o texto, não me refiro a um masculino biológico, mas sim a um fato psicológico; um conjunto de características que ahistoricamente determinam um modelo que se modifica historicamente. Longe de mim, portanto, propor características masculinas a homens e femininas a mulheres. Pelo contrário, creio que ambos possuem ambas as características, assim como colocam Jung e James Hillman.

[4] - Aqui podemos procurar a simbologia do número 6, que, como nos diz a tradição cabalista é caracterizado geometricamente por dois triângulos, um superior e outro inferior, representando o lado sagrado e profano do ser humano, a potencialidade de ser o sumo bem e o sumo mal.

[5] - Esse princípio masculino é chamado na psicologia junguiana de animus. O animus, ao que me parece, também foi “renegado” durante algumas fases da história, como no período matriarcal anterior. Dificilmente podemos, no entanto, observar sociedades que ignoram completamente características de um desses modelos (masculino e feminino, animus e anima), o que aconteceu e acontece freqüentemente é termos uma ênfase mais ou menos acentuada de um desses modelos.

[6] - No budismo os ‘grandes reis’, os locapala (os guardiões do mundo) constituem a quaternidade. V. Samyutta-Nikaya, I, p. 367.

[7] - “... mystica quasi distillatione, Deus aquam hanc primordialem in quatour partes ac regiones separavit et distinxit” (Como numa destilação, Deus separou e dividiu essa água primordial em quatro parte e domínios) (Sendivogius, Epístola XIII in: Bibli. Chem, curiosa II, p.496). Em Christianos (Berthelot, Alch. Grecs, VI, IX, 1, p. 393, e X, 1, p.394) o ‘ovo’, bem como a própria matéria, é constituído por quatro componentes. (O mesmo como citação de Xenócrates, op. cit., VI, XV, 8, p. 414.)

[8] - Para mais informações ler nesse blog o texto: “Seine majestat das Ich” (Sua majestade, o Eu).

[9] - Lapis nessa frase se refere a pedra, mais especificamente, à pedra filosofal. (nota minha).

Livros usados:

Jung, Os arquétipos e o inconsciente coletivo, ed.vozes: 2006.
Melo, Origem e totalidade, 2002.
material do centro de estudo de cabala.

quarta-feira, agosto 23, 2006

Novo Amor; o amor do novo.


É, amor, a vida é dura. Eu sei. Por quantos cantos mais caminharei? Em quantas galaxias mais viajarei? Só nos resta prosseguir a estrada, só nos resta subir a montanha do vale da morte. Por sobre abismos atravessar. A vida é dor, eu sei, Amor. Velhos sabios já diziam: é necessário o caos para dar luz a uma estrela cintilante; é necessário atravessar o abismso, mesmo sendo periogoso bambear e cair. Campos de neve, vejo bem. Meus sonhos me contam coisas inacreditaveis meu bem, e os seus também. É um mar de ondas que nos segue. Eu peço um barco, será que ele vem? Segure firma na escada da vida. Suba, sempre. Suba sempre. Segure firme. Te protegerei. Entre o choro e o risco há sempre algo sagrado. A vida sempre brilha, ela iradia Deus em cada canto, em cada raiar de dia. E novas manhãs trazem sempre novos frutos, e novos dias, mesmo que dolorosos, são sempre maravilhosos.

terça-feira, agosto 15, 2006

O Ar-condicionado.



O chão cinzento, algumas latinhas de refrigerante jogadas no chão. Ele olhava de maneira indireta e desfocada aqueles objetos. Chutava um, chutava outro. Andava pisando nos pisos quadriculados daquele asfalto comum das ruas do centro do Rio de Janeiro. Carioca, o nome do bairro. Carioca, era o que ele era. Sacou um cigarro do bolso, acendeu-o com seu isqueiro de um real. A fumaça cruzou seus óculos e vagou para o céu.

Caraca! Tenho que ver o Luis hoje. O cara ficou de me passar umas xerox´s que tenho que tirar pro trabalho.

- Renata! Cara! Como foi aquela festa? Me conta amiga! Falava gesticulando Rosa, com os braços afoitos e um sorriso sociável.

- Cara! Tu perdeu! Porra! Fiquei com o Tuninho, depois fomos pra um motel fodasso e, porra, foi foda..

João tira seus óculos escuros; abaixa o cigarro, como um sinal de continência, e olha para aquelas duas mulheres passando, como numa passarela. Olha para trás. O rebolado, o swing, as nádegas. Meu Deus! Pensa com o tesão. Da um suspiro e volta para seus pensamentos habituais: Xerox, trabalho, a porra do patrão. Olha para o relógio. “Ainda da tempo, ainda da tempo” reflete, chamando o tempo como seu advogado de defesa.

O relógio reflete o sol escaldante. Entre trinta e cinco e trinta e sete graus, acreditava ser essa a temperatura, e certamente não estava errado, o sol queimava a pele, mas, para aquele cidadão carioca, trabalhador e andarilho, aquilo era mais do que habitual. A espera do ônibus, que não tardaria a chegar, João fazia as contas de cabeça para ver a que preço ficariam as xerox´s.

Entra no ônibus. O motorista sai enquanto ele ainda está no primeiro degrau. Ele não se assusta, afinal, isso já é de praxe. Passa sem dizer bom dia para o motorista. Pega o dinheiro de sua carteira comprada no camelodromo da Uruguaiana; demora um pouco a achar as moedas certas para completar a passagem. Nisso, uma pequena fila se cria, mas nada muito anormal. O ônibus, ao ir de encontro a zona norte, se depara com uma blitz, ali por volta de Rio Comprido. Vários policiais com fuzis maiores que eles mesmos prenunciam uma guerra.

- E ai! Me conta tudo! Quero saber os detalhes! Como foi? Ele é bom de cama?

- Caralho! Tinha que ver. Mo pauzão. Achei que nem ia caber. Foi lindo.

As duas riam e riam, iam comprar uma comida no Giraffas, comeriam uma das opções dos pratos econômicos. Passam por diversos mendigos, garotos de rua e até mesmo uma pequena discussão entre camelôs, mas nem sequer reparam em nada disso. A conversa delas transbordara dentro daquele mundo particular. No final, o giraffas acaba por ficar caro, pois elas queriam economizar para comprar algumas roupas, e resolvem comer pasteis no chinês.

Um puta engarrafamento atrapalha a viajem, mas João nem se percebe do fato. Estava viajando demais para perceber essas pequenas sutilezas. Pensava em Sartre: “O homem está condenado a sua liberdade”, “O homem é essencialmente livre”: questionava-se abruptamente e entrava em conflitos aparentemente indissolúveis. Livre arbítrio e determinismo, eis do que se tratava sua reflexão. Olhou para o relógio. Da um suspiro. Merda, pensa, não vou conseguir chegar na hora e o patrão vai me dar um puta esporro.

Já tiradas as xerox´s, algumas horas depois, ele chega ao trabalho. De volta à pequena saletinha num escritório no centro da cidade. Entra na sala, com ar condicionado, do seu patrão. Olha aquele sujeito de 1,82 de altura, uns 85, 90kg, cabelos levemente grisalhos e com uma cara de que acabou de sair do inferno e lhe diz: “Chefe, já consegui trazer tudo”. Este lhe responde, com uma evidente falsa indiferença, como se responde a plebe: “Porra. Por que tanta demora? Ta ok.. ta ok... vai lá.. Ó só. O Renato não vai poder cobrir até as 21 horas, então tu fica ai, beleza?”. João olha pra baixo. Faz um olhar reflexivo, mas não pensa. Responde: “Ta bom” e sai. Demora ainda o bastante para ver seu patrão comendo um ovo, ainda cru, com casca e tudo.

Preso no serviço, como o gado às cercas, João vê da janela seu patrão sair em seu novo Vectra, com ar-condicionado, modelo novo. Começa então a pensar sobre luta de classes. Pensa sobre sua realidade. Começa a rir, apesar de não haver nada engraçado. Vê, pela janela, bonitas mulheres passando e olha seus peitos e bundas. Pensa em como seria bom estar fazendo sexo no ar condicionado essa hora, ah, ah, ah. Começa a cantar “Life is a lie” e esquece do tempo.

Ela vai para casa, após o dia de trabalho como secretária, e pensa no que gostaria de comprar no shopping. Lembra-se de que precisa pensar primeiro no que vai comer, pois já estava tarde e seu almoço tornara-se resumido a dois pasteis de queijo e um caldo de cana. Resolve ir comer espetinhos e, ademais, isso seria ótimo, pois ela estava sozinha em casa e não suportava a solidão, nem tão-pouco pensar demais consigo mesma. Na venda de espetinhos, Renata, ao menos, teria a possibilidade de conversar com algumas pessoas e, quem sabe, até tomar uma cervejinha. O seu grande dilema era que já havia perdido quase 60% da novela que passava na Globo e naquela altura ver os 40% da novela não poderia absorvê-la naquele mundo paralelo.

Uma longa chuva começa a jorrar na cidade, com grandes raios. João, o revolucionário, chega em casa bem tarde. Não pensa muito em comida, depois de tudo terá muito tempo para comer. Senta no seu pequeno cubículo. Seu quartinho bagunçado por planos e papeis, papeis e mais papeis. Tudo girava em torno do seu motivo, de sua razão de viver, o assassinato de Lula, não o crustáceo, mas o presidente. As paredes do quarto pixadas, algumas garrafas de bebida vazia completavam a decoração. Havia na sala a mesinha, de um bambu antigo, e um som com entrada para fita e cd.

Tudo já estava certo. Sexta feira, dia 23, seria o momento. Lula nesse dia faria um comício para os trabalhadores de um sindicato que ficava próximo ao seu trabalho. João pensava minuciosamente as posições, tempo, posicionamento dos guardas, o ângulo em que poderia atirar, a iluminação. Calculava como um matemático. Na verdade João era muito inteligente, contudo, sempre fora um estranho no ninho. No seu colégio os garotos não se davam muito bem com ele, pois João era muito calado – e ainda somava-se que, além de estranho, possuía um cabelo estilo porco-espinho, o que não lhe rendia popularidade. Desde moleque sempre foi um pouco excêntrico, um pouco fora da lei, das normas. De um tempo para cá, todavia, ele estava ainda mais distante das pessoas, ainda mais voltado para si, só que na forma de planos vingativos, tempestuosos. Diria-se que sua timidez bonita, com aquele toque especial de ingenuidade, havia se transfigurado em perversão. Mas era apenas a opinião popular.

“Sim... sim... tudo bem... claro que eu vou boba!” Dizia ao telefone. Sua alegria manifesta era clara. Estava muito feliz por ter sido convidada para uma festa dos sindicatos, quando o próprio Lula, quem diria, estaria presente! Renata evidentemente não era PTista ou qualquer coisa do gênero, na verdade, ela nem se importava com política. Não que ela dissesse “política é coisa de gente doida” ou “política não importa para o povo”, ela simplesmente não dizia nada. O que lhe chamava atenção era a possibilidade de estar perto de alguém famoso.
Trinnnnn... Trinnnnn..

- “Alo”. Fala João, com uma voz um pouco rouca pelo sono e pelo stress.

- “Alo”. Diz a voz firme do outro lado.

- “Oi patrão” diz João, com um toque de raiva e com um Q de submissão.

- “João. Escute. Aquela sua sexta feira de descanso... você pode remarcá-la?” É obvio que a pergunta já pressupunha a resposta:

- “É claro patrão”.

- “Ok então. Depois a gente conversa”.

- “Ta bom”

- “Tchau”.

João então começara a refletir, pós-ódio, que a sexta feira referente era a do dia 23, dia em que marcara para assassinar o presidente. Por mais surpreendente que isso parecesse, para o João revolucionário, João trabalhador nunca havia desobedecido a uma regra do seu patrão e isso parecia conspirar contra seus planos. A primeira guerra seria, portanto, interna.

O dia anda. O tempo voa. Dia 22, 2:30 da manhã, João ainda estava acordado com um enorme conflito psicológico. Transgredir as regras bem estabelecidas da sociedade formal, a qual, já havia se acostumado, submetido, ou transgredir as regras de uma parcela de sua personalidade, deixando seus planos hiper-organizados de longa data a ver navios? No final, ele acaba por dormir em meio ao mar agitado... Durante a noite sonha que estivera num lugar muito escuro, numa noite um tanto sombria, até que raios começam a cair e um deles o acerta, transformando-o em pó, um pó dourado. Ele acorda suando, e de repente, fez-se o dia. Já são 7:30 da manhã. Na verdade, ele tem que sair correndo se quiser ir ao trabalho.

Ele começa a andar de lado a lado da sala. Fica afoito. O mundo roda a mil. Berra! Berra!!! Arranca os cabelos! Essas foram apenas algumas das sensações e atitudes de João. De fato, o que ele sentiu é indescritível. Uma duvida moral que ele não estava pronto para lidar. Começara a pensar que o assassinato de Lula, por mais desgraças que este cometera, de nada adiantaria e que, não obstante, não seria humano. Humano? Pergunta-se. Humano! Vem a resposta, de alguma parte de seu corpo a qual ele não consegue identificar. Não que se tratasse de um caso de esquizofrenia ou algo congênere, mas uma dissociação do Eu, que já a tempos se ensaiava tornara-se manifesta.

Renata, ansiosa pela festa que Lula estaria presente, resolve ligar a tv, pois já estava muito perto da hora da festa e essas horas ela ficava demasiadamente ansiosa. Na tv, eis que está passando um programa muito estranho, canhestro e démodé, no entanto ela resolve vê-lo. Trata-se de uma luta de titãs, algo como um desenho infantil. Ela não sabe identificar o nome, ou coisas assim, sem nexo. Um dos titãs tem a aparência semi-humana, como um poderoso monstro com dois braços, boca, nariz, duas pernas, etc., e o outro é algo como um grande robô, bem protegido sobre seus metais, imperfurável, dir-se-ia, até ele ser perfurado pelas garras da fera. A luta titânica que se passava acabara por derrubar aqueles dois gigantes e no chão, nisso um espírito apareceu, enquanto os dois se preparavam para re-começar a luta. Ela desliga a TV, já está cansada de baboseira...

Ele treme! Treme! Parece que terá uma convulsão e começa a chorar...

- Oi amiga. Eu estou saindo de casa já! Diz Renata, abrindo a porta enquanto fala em seu celular.

- Vou sair... Eu vou matar aquele filho da puta! Diz João para si mesmo e bate a porta com toda força.

Já na rua João vê o sol cintilante, como brilhando para ofuscar o seu dia de gloria. Aquela luz quererá dizê-lo alguma coisa? Ele passa acelerado, faz sinal, mas o ônibus não para. Era evidente! O destino conspirava contra ele. Ele começa a blasfemar contra Deus. Maldito! Por que essa provação? Tu nem sequer existes! Tu és um vilão! Tu és um tirano! A mudança de tratamento muda, mas ele nem sequer se da conta, agora utilizava somente a segunda pessoa do singular.

Entra no ônibus. Engole a saliva. Passa pela roleta. Começa a rezar. Paulatinamente João vai se acalmando, mas ao invés de seus pensamentos retornarem ao normal eles cessam. Ele já não pensa em nada. Neste instante ele desce do ônibus, havia chegado no local da festa, os seguranças lhe pedem o convite, ele os mostra. Entra.

- O convite senhorita.

- Aqui está.

- Obrigado. Pode entrar.

Então ela entra, com seu vestido vermelho e seu salto alto, com suas nádegas malhadas e sua cocha torneada, sorrindo, como se algo excepcional estivesse ocorrendo. Ela muda o ar solene que poderia devir em ocasiões como essa. Alguns homens olham admirados para aquela bela forma que, por mais que se pareça superficial, ainda possui um brilho oculto que atravessa o ar.

Renata se senta numa cadeira e toma um gole de vinho, servido com quitutes por um garçom. Logo após, vê João. Acha-o atraente e fixa o olhar nele. Ela se sente estranha na verdade, pois, sentia algo muito forte o qual não conseguia identificar e, o que era para ser só tesão, transforma-se num sentimento singular ou, ao menos, invulgar.

João não vê nada. Seus olhos grudados nos dois lados daquela festa anunciam seu nervosismo, ele soa como um maratonista. Sente um medo profundo, está frio, gelado. Pensa compulsivamente: “Vou matá-lo, vou matá-lo”. Suas mãos tremem, ele come dois salgados. Sua visão se desfoca. Ele solta uma leve risada. Uma velho senhor senta ao seu lado. Ele teme que o senhor seja da policia.

- Olá. Diz o velho senhor barbudo.

- Oi. Diz a voz rouca, grogue, dissimulada de João.

- Da onde você vem? Pergunta o senhor, com um leve sorriso ameno no rosto.

- Como assim? Que diabos afinal o senhor quer saber?

- Bem, me desculpe, eu nem ao menos me apresentei. Chamo-me Thiago. Venho do norte, estou na casa de minha irmã, vim passar uns tempos aqui e vim no lugar dela, para tomar um vinho e comer uns bolinhos, he he he. Você entende, não?

- Ora senhor! Não vê que me importuna? Diz João, já totalmente fora de si. O velho, com efeito, deixará-o mais confuso do que já estava.

- Bem, não me leve a mal. Mas o jovem me parece perdido, não sabe de onde vem e nem para onde vai. Para que está aqui? Bem. Calo-me, pois vejo que não sou bem visto, he he he. Irei tomar um vinho, pois ganho mais assim. Boa sorte meu jovem. Fique com a fé.

Algo na conversa parece ter mexido com João. Ele estava tonto. Começa a se perguntar o que está fazendo naquele local estranho, grotesco. Assusta-se bruscamente na possibilidade de matar o Lula! Assusta-o somente o fato de ter pensado nisso! Será que o velho estaria dizendo algo importante? Começa a ponderar cada questão, minuciosamente. Ele olha para os dois lados, procura saber se não está sendo vigiado. Vê Renata o olhando, não compreende. Assusta-se. Ela vem na direção dele. “Que diabos, que diabos!” Pensa João, “Será que ela já sabe tudo?? Será que a policia me descobriu?”.

Ela veio andando, lentamente, e a cada passo que dava, uma fumaça branca saia do chão. Seus olhos brilhavam como a de uma felina. O batimento cardíaco de João aumentara violentamente, o tempo torna-se lerdo, muito lerdo! Ela não pensava em nada. João tremia. Renata então começava a sorrir. Ele temia sorrisos. Abriu a boca, aproximadamente uns 3 centímetros, deixando-o boquiaberto; a sua espinha estava congelada, ele, apesar de tudo, não desviava o olhar, para ele se tratava de uma guerra, para ela, de um sonho.

Ela chega perto dele. Ela o beija. Ele chora.

O sol se põe com toda força. Lula sai andando entre a população sindical que, por mais que o odeie, e todo seu partido, no momento sorri para a celebridade que ali se encontra. Fotógrafos tiram fotos, seguranças o protegem. Lula caminha para um palanque, onde começa um discurso emotivo sobre algo que, evidentemente, pouco lhe importa.

Renata segura João com um abraço, abraça-o forte, João chora muito. O tempo se fecha e começa a chover, a chuva torna-se, com o tempo, tão forte, que o discurso de Lula se torna impossível naquele local aberto. Ele vai embora, com toda sua imprensa.

- Eu ia fazê-lo, eu ia fazê-lo, diz arrependido, não por gostar de Lula, continuava a não gostá-lo, via-o, com muito realismo, como um ladrão, um usurpador, um mentiroso, vendido, entre outros adjetivos veneráveis.

- Não importa mais, não importa mais, agora estou contigo.

- E o que faremos agora?

- O que você acha que faremos?

- Eu não posso voltar para o trabalho, eu não posso voltar para aquela vida, só me resta desbravar novos caminhos, mesmo que várias barreiras me impeçam.

- Vou contigo onde você for!

Correram então e roubaram, sorrateiramente, o carro de Lula, após deixarem desmaiadas suas sentinelas, as que protegiam a carruagem. Pisaram levemente no pedal, de modo a não deixar vestígios e, quando a primeira sentinela ameaçou olhar, plan, eles já não estavam lá. Como ninjas haviam feito já um pequeno trabalho social.

João sabia que, desde aquele momento, não poderia mais travar um passo para trás, não poderia mais se subordinar e viver a vida de outros, não poderia mais servir como um escravo. Tomou as rédeas do cavalo. Voou. Eles, João e Renata, trataram de desenvolver diversas potencialidades que lhe eram inerentes e estavam latentes para sobreviverem, ou melhor, viverem e, com tal força, que seria pouco compreensível ao mais ávido economicista que crê que se é moldado pela economia e processos de produção atuais. Não. Eles não eram a antítese necessária do próprio sistema. Eles não eram a escoria social. Eles não eram adaptados aquele estado de coisas. Eles eram singulares. Únicos. Como que por um segundo portais de outro mundo tivessem sido abertos, e, nesses portais, eles não temeram entrar.

Tornar-se único, em alternativos campos, exige independência, insubordinação, força, auto-estima e parece que foi isso que eles desenvolveram.Viram o dragão surgir com toda força, viram-no com suas cascas duras, viram-no obstruindo seus destinos. Isso já era o bastante para matarem-no, com uma lança encravada no peito. E, depois de um bom tempo, tornaram-se lendas. Surgiam e desapareciam rapidamente, de estranhos ninhos, de estranhas colméias, trazendo o mel, doce.

Hoje só se pode citar, como diz um velho andarilho, uma frase do antigo João, que foi um grande herói de seu tempo. Ele costumava dizer, lembra o velho: “Não precisamos de ar-condicionado!”.

terça-feira, agosto 08, 2006

Zen

Palavras de Sukuzi, filosofo Zen, ao começar uma palestra na Europa:

God against man
Man against God
Man against nature
Nature against men
Nature against God
God against nature
Very funny religion

segunda-feira, agosto 07, 2006

Tao te king

A forma da grande vida segue totalmente o Tao.
O Tao age nas coisas invisíveis e inapreensivelmente.
Inapreensivelmente, invisivelmente nele estão as imagens!
Inapreensivelmente, invisivelmente nele estão todas as coisas!
Insondavelmente, obscura, nele está a semente!
Esta semente é a verdade. Nela está a crença.
Desde a origem até hoje não se pode prescindir de seu nome
para compreender o nascimento de todas as coisas.
E como posso saber que o nascimento de todas as coisas assim se deu?
Através dele.

Lao-Tsé.

quinta-feira, agosto 03, 2006

Introdução a Epistemologia Junguiana.





Como eu estou escrevendo um texto um pouco mais abrangente sobre o assunto, que de certo não ficará pronto este ano, tinha pensado em meus botões em fazer um pequeno resumo aqui para os interessados. Mas, me perguntei: quem se interessa por epistemologia? Em especial, em epistemologia e Jung. Sobre essas duvidas achei que o texto passaria pelo blog apenas como mais um dos textos que só servem para eu dar, quando muito, uma pequena revisada em alguns conhecimentos e fazer uma pequena ginástica nos meus dedos. Mas, como eu perguntei no ultimo post sobre a validade de um tal texto e um grande número incontido de fãs soltou fogos diante desta possibilidade, só me resta obedecer-lhes cegamente.

Modelo Científico Clássico e Jung

Ignoremos, a priori, o período grego e escolástico para não complicar muito as coisas, até porque já fiz um pequeno texto: “Epistemologia e os gregos” que, apesar de bem superficial há de fornecer o mínimo de informação sobre o assunto. Sabendo-se que epistemologia se refere à ciência da ciência – uma ciência dos conhecimentos validos -, ou, de maneira mais contemporânea, uma ciência dos conhecimentos provisórios, podemos prosseguir.
A ciência clássica, que teve seu grande expoente em Newton, foi especialmente influenciada por Descartes, além de teóricos positivistas e empiristas como: Locke, Berkley e Hume. O modelo cientifico clássico foi o modelo que era hegemônico enquanto Jung fazia sua formação, e começou sua ascensão quando “pela primeira vez Tomas de Aquino leu Aristóteles, diretamente do grego”. (Cardoso, 2002). Descartes foi especialmente influente no que se refere ao modelo de causalidade cientifico, ou seja, na procura das causas dos efeitos materiais.
Pode-se dizer que todo esse modelo foi baseado num culto a razão, onde “A razão conceituada segundo a cultura ocidental origina-se a partir da palavra latina ratio, derivação do verbo reor, que significa contar, reunir, medir, juntar, separar, calcular. Assim, a própria origem etimológica da razão denota um sentido de ordenar, pôr em um modo ordenado” (Bicalho, 1998: 31). Certamente para Descartes a razão deveria ter um valor explicito, pois para ele a validade do real derivava da alma, onde ele conceituava uma dicotomia entre res extensa e res cogito, ou, realidade da matéria e realidade do pensamento, não é por menos que a sua máxima foi o famoso: “Cogito, ergo sum”, “Penso, logo existo”.
Descartes havia então proposto leis fundamentais, que seriam: “principio da identidade, da não contradição, do terceiro excluído e da razão suficiente” (ibid: 33) ainda segundo Bicalho “O principio da identidade anuncia que ‘A é A’, ou ‘o que é, é’: afirmando que uma coisa só pode ser conhecida e pensada se for percebida por uma identidade. O principio da não contradição, cujo enunciado é ‘A é A e é impossível que seja, ao mesmo tempo e na mesma relação, não A’ (...) O principio do terceiro excluído enuncia que ‘Ou A é x ou é y e não há terceira possibilidade’, definindo como princípio a decisão de um dilema no formado ‘ou isto ou aquilo’, exigindo apenas uma das duas alternativas como verdadeiras. E, por fim, há o principio da razão suficiente, que afirma que tudo o que existe e tudo o que acontece tem uma razão (causa ou motivo) para existir e para acontecer, e que tal razão (causa ou motivo) pode ser conhecida pela nossa razão”. (ibid: 33, 34).
Emitida a razão, como essencial no ato de conhecer, uma grande mudança ainda seria alçada para o desenvolvimento da ciência clássica, em especial com Locke. Enquanto o modelo de Descartes ajudava a fundamentar uma ciência matemática, por exemplo, onde poder-se-ia alienar qualquer inteligência do mundo externo, foi com Locke que os fundamentos filosóficos da famosa extroversão ocidental se deram, a partir daí todo conhecimento tornara-se modelado pelo mundo, eis que temos a perola de Locke: “Nihil est in intelectu quod non antea fuerit in sensu” (Nada esta no intelecto que antes não tenha estado nos sentidos).
Vejamos onde Jung fica nesse balaio de gato, pois senão entraremos nas nuances desses pensamentos e nos perderemos no texto. Demos os contornos introdutórios ao pensar positivista, o qual moldou a ciência dita clássica, todavia, ainda seria mais interessante darmos uma pequena definição de positivismo e do posterior pensamento antipositivista. “O anti-positivista – é relativista, entendendo o mundo a partir dos indivíduos que o integram, só se podendo captar o significado de uma situação do ponto de vista do quadro de referência de seus participantes. Não existe qualquer conhecimento objetivo, podendo-se no máximo se chegar a um acordo inter-subjetivo” (Cardoso, 2002) enquanto “o positivista – procura explicar e predizer o que acontece no mundo, buscando regularidades e relacionamentos causais, através de pesquisas experimentais e da possibilidade de falsificação de hipóteses. Para ele, o conhecimento é acumulativo”. (ibid).
Sem duvidas Jung começou suas pesquisas influenciado por um modelo causalista e nomotético, tanto que fazia testes experimentais de associação de palavras a fim de comprovar as teses freudianas de inconsciência. Jung então diz em sua biografia: “Com as experiências de associações (1903), começou minha atividade científica propriamente dita. Considero-as como meu primeiro trabalho realizado na linha das ciências naturais. Foi então que comecei a exprimir meus pensamentos próprios. Depois dos Estudos Diagnósticos sobre as Associações (1903) apareceram duas publicações psiquiátricas: Psicologia da Demência Precoce (1907) e O conteúdo das Psicoses (1908). Em 1912 apareceu meu livro Metamorfose e Símbolos da Libido, que pôs fim à amizade que me ligava a Freud. Nesse momento – nolens volens – comecei a seguir o meu próprio caminho”. (Jung, 2005: 182).
Jung, deste modo, começou a analisar o conhecimento a partir de pesquisas experimentais e causais, sustentando especialmente sua tese de complexos inconscientes. Contudo, não demorou muito para Jung partir a outro caminho, um caminho próprio. Enquanto Freud, que foi uma influencia fundamental, permanecia nesse modelo cartesiano, a fim de encontrar as causas dos traumas – chegando, a partir daí, no complexo de Édipo -, Jung já observava outros aspectos da experiência, convencido de que, em certas situações a tentativa de encontrar causas nas ciências humanas só pode levar a metafísica ou à subordinação dos fatos a construção teórica.

Fenomenologia, Tipos Psicológicos e Autonomia da Alma.

“É uma tirania intolerável supor que existe apenas uma psicologia ou apenas um principio psicológico fundamental; isto é um preconceito pseudocientífico do homem comum. Fala-se sempre do homem e de sua ‘psicologia’. Também se fala da realidade como se existisse apenas esta única. Realidade é o que atua na alma humana, e não o que alguns acham que lá atue, fazendo generalizações pré-concebidas” Carl Gustav Jung (Tipos Psicológicos, 1920-21)


Podemos dizer que além da influencia freudiana na formação de Jung ele contava com outras influencias significativas como a de Pierre Janet, contudo, diferente de Freud e Janet, que tiravam suas conclusões através do estudo da neurose, Jung trabalhou um grande período na “área da psicose”, e, como Janet, adotava um método muito mais descritivo do que causal. Janet não procurava as causas, mas descrevia seus fenômenos criando assim a possibilidade de estabelecimento de modelos, quadros de patologia e divisões analíticas. Da mesma forma Jung seguiu por um caminho onde pudesse observar o fenômeno como se apresenta e não como pressupõe algum postulado abstrato ou personalista.
Ele então se valeu do empirismo, i.e, se ateve aos fatos e procurou utilizar o método fenomenológico para estudar a alma. Ele nos diz no ensaio “Mente e Terra” “Minha concepção da alma nada tem a ver com isto, porque é puramente fenomenológica... estou simplesmente tentando apreender cientificamente os fenômenos psíquicos elementares que subjazem em nossa crença nas almas” (Jung apud Cardoso, civilization in transition, 1978: 43) Para tal, cada caso passa a ser um caso e, antes de especularmos através de uma teoria devemos esperar que o fenômeno nos comunique quem ele é, o que ele é (redução eidética). Na interpretação dos sonhos, por exemplo, enquanto Freud se ateve as suas interpretações sexuais, como falar que uma chave entrando numa fechadura significa um ato sexual, Jung tentava não fugir do sonho, da observação do fenômeno que se mostra, tentando fazer uma hermenêutica, ou seja, um estabelecimento de contexto e da intencionalidade daquela imagem que se desvela. Então a própria interpretação do sonho só pode começar de maneira horizontal através da própria pessoa, ou seja, através de associações com sua própria vida para depois tornar-se mais complexa, social e histórica.
Contudo, não bastando a observação de um único fenômeno, pois ao mesmo tempo que há algo que nos torna singulares, assim como cada arvore é uma arvore, cada ser é um ser, há também um modelo básico que perpassa tanto a natureza como nossa psique. Desta forma, é um fato genérico e bem conhecido que todos os seres humanos tem um coração, ou um cérebro, apesar de cada coração e cada cérebro serem estruturas singulares, únicas. Jung observou que todos, de fato, não somos tabulas rasas no que se refere a psyché, mas possuímos estruturas básicas que se manifestam através de símbolos, de acordo com o contexto da época ou de nossa singularidade. Nessa perspectiva a própria ciência seria um modelo de interpretação e observação dos fenômenos, não podendo, no entanto, reivindicar para si o critério de validade única ou absoluta.
Através do estudo dos tipos psicológicos, Jung pode observar como diferentes indivíduos, com seus diferentes tipos psicológicos, tinham diferentes modos de relação com o mundo. Esse estudo abriu margem à multiplicidade de analises da psique humana, já que esta se viu em demasia complexa para que apenas uma escola pudesse compreendê-la em sua totalidade. Segundo Melo: “Epistemologicamente, C.G. Jung foi contrario a idéia de fundar uma escola hegemônica em psicologia (1981a; cf. Franz, 1980). Defendia a complexidade do psiquismo e a multiplicidade de facetas deste, descreveu a necessidade de convivência co-disciplinar psicológica entre Adler e Freud, tentando incluir em um só modelo as motivações humanas descritas pelos autores.” (Melo, 2002).
O problema dos tipos psicológicos foi um problema, em grande parte, epistemológico. Nenhum dos tipos, na verdade, pode reivindicar para si todo critério de verdade, pois incorreria, desta forma, a uma interpretação unilateral dos fenômenos, rechaçando apenas uma das possibilidades de se relacionar com o mundo, ou com a alma. Jung diz que “A idéia da uniformidade das psiques conscientes é uma quimera acadêmica que facilita a tarefa do professor diante de seus alunos, mas que desmoronou diante da realidade” (Jung, 1991)
Essa observação pode vir-a-ser a partir do momento em que a psique deixa de ser compreendida como um mero epifenomeno do mundo externo, do mundo “material” e passa a ter uma autonomia relativa e tanta validade quanto o mundo objetivo, senão mais. Na verdade “O imaginário humano possui uma historia, uma estrutura anterior que foi assim estruturada por todas as experiências vividas pelo homem”.(Melo, 2002). Jung então estudou os mitos e pode observar de que modo independente de época, local, contexto todas as civilizações apresentavam estruturas idênticas, ou seja, a base dos mitos é a mesma diferindo a partir daí na suas manifestações históricas e contextualizadas. Por exemplo, toda civilização possui heróis, possui um mito cosmogonico, etc., entre outros símbolos freqüentes podemos destacar o “puer aeternus” (eterno jovem), a sombra, animus e anima. Este estudo antropológico, contudo, não foi feito ao acaso, e sim a partir do momento que Jung percebeu que esses mitos se repetem na história e mito individuais de cada ser humano, aparecendo em símbolos dinâmicos e teleológicos, por exemplo, nos sonhos.
Os mitos são, portanto, não simplesmente uma explicação para o sentido do mundo, mas apresentam a própria alma humana manifestada através de símbolos (do chinês sym + bailen que significa a união de duas metades opostas de uma moeda). Desse modo o estudo da mitologia é também um estudo da própria natureza humana, da própria psicologia. Jung então dirá: "A psicologia analítica faz parte essencial das ciências da natureza; entretanto, está submetida mais do que qualquer outra aos preconceitos e condicionamentos pessoas do observador. É por isso que, a fim de evitar erros mais grosseiros, ela depende, no mais alto grau, da documentação e comparação históricas". (Jung, 2005: 177).
Quando falamos dos protótipos do herói, do mito cosmogonico e de outros falávamos do que Jung chamou de arquétipos e é ai que gostaríamos de mostrar que o arquétipo “é um elemento vazio e formal em si, nada mais sendo do que uma facultas praeformandi, uma possibilidade dada a priori da forma da sua representação. O que é herdado não são as idéias, mas as formas, as quais sob esse particular correspondem aos instintos igualmente determinados em sua forma. Provar a essência dos arquétipos em si é uma possibilidade tão remota quanto a de provar a dos instintos, enquanto os mesmos não são postos em ação in concreto.” (Jung, 2006: 91). Eles foram observados então de vasto material empírico e não tirados simplesmente de conclusão a partir de uma lógica personalista ou aritmética. Jung então explora os métodos a partir dos quais conhecemos os arquétipos e seu sentido: “Não há substitutivo ‘racional’ para o arquétipo, como também não há para o cerebelo ou os rins. Podemos examinar órgãos somáticos anatomicamente, histologicamente e embriologicamente. Isto corresponderia à descrição fenomenológica arquetípica e à apresentação da mesma em termos histórico-comparativos. O sentido de um órgão somático só pode ser obtido a partir do questionamento teleológico” (ibid: 162).
O ato de conhecer do ser humano está, logo, limitado existencialmente a certos padrões mesmo que possua uma infinidade de possibilidades de manifestação e, de fato, é isso que acontece. A psique humana é dinâmica, viva, e por tal a sua própria paralisação pode vir a se tornar uma neurose, pois o Eu não tem total autonomia sobre a psique total do ser humano e quando o ego se mantém de maneira unilateral ele correrá o risco de uma dissociação, pois ignora o inconsciente.
Freud já havia observado que o inconsciente continua ativo mesmo quando a psique consciente não o percebe, e pode, apesar deste desconhecimento consciente, continuar a influenciar nossas vidas de maneira como acontecia com as famosas histéricas de Salpêtrière. Todavia, Freud manteve-se preso ao próprio Eu e as suas internalizações ao analisar a psique além de criar uma eterna dicotomia homem natureza manifesta no seu sistema topológico: “Id x Superego”. Temos que ter a consciência inicialmente de que o homem é homús, isto é, terra fértil, ou seja, o homem provem da própria natureza e por tal está intrinsecamente ligado a ela. A natureza não é simplesmente degradação e desgraça, algo que no máximo temos que aprendera lidar, mas a natureza é também a eterna criação, a fonte do devir.
Bem, essa é uma introdução altamente capenga e que ainda foge do assunto algumas vezes, mas espero que possa ajudar a quem se interessar no assunto e se alguém quiser podemos discutir qualquer assunto ai. Beijos e abraços!

Bibliografia:

Bicalho, Pedro. O Cárcere da Razão: o aprisionamento de sambistas no universo cartesiano. 1998.
Cardoso, H. O que você deve saber para entender Jung – 1. Fundamentos do pensamento junguiano. 2002
Jung, C. G., Memórias, Sonhos e reflexões. Rio de Janeiro. Nova Fronteira. 2005 (2003). (1957-1960)
Jung, C. G., Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes. 2006
Jung, C. G., Tipos Psicológicos. Petrópolis: Vozes. 1991 (1920-1)
Mello, E. Origem e Totalidade. 2002

segunda-feira, julho 31, 2006

Gnosticismo Contemporaneo

"Super-man está dentro de vos"

e do profeta:
"Não sou eu quem falo, mas é o Super-man que fala em mim"

Conto alemão: Die Prinzessin auf dem Baum


O jovem que guradava seus porcos na floresta descobre uma árvore cujos galhos se perdem nas nuvens. "Como será o mundo se observares do alto de sua copa?" diz de si para consigo. Sobe então na árvore, o dia inteiro, sem alcançar os galhos. O sol se põe e ele precisa passar a noite em uma forquilha da árvore. No dia seguinte, continua a subir e ao meio-dia atinge a copa. Só no fim da tarde chega a uma aldeia construída dentro dos galhos. Lá moram camponeses que o alimentam e lhe dão abrigo para a noite. De manhã, continua a escalada. Lá pelo meio-dia chega a uma castelo onde mora uma donzela. Descobre então que a árvore termina nesse ponto. Ela é a filha de um rei, mantida presa por um mau feiticeiro. O jovem fica com a princesa e tem autorização para entrar em todos os aposentos do castelo, com exceçã de um só, cujo acesso a princesa lhe proibiu. A curiosidade porém foi mais forte. Ele abre a porta e encontra num quarto um corvo pregado na parede com três pregos. Um deles atravesa-lhes o pescoço e os outros dois as asas. O corvo queixa-se de sede e o jovem, movido pela compaixão, dá-lhe água para beber. A cada gole cai um prego e, no último, o corvo se liberta e sai voando pela janela. Quando a princesa fica sabendo, assusta-se muito e diz: "O corvo era o diabo que me enfeitiçou... Agora não demorará muito para vir buscar-me! De fato, numa bela manhã ela desapareceu.

O jovem põe-se à sua procura e encontra o lobo que lhe da alguns pêlos, com a ajuda dos quais o jovem poderia ser ajudado a qualquer momento. Do mesmo modo, encontra também um urso e um leão, que também lhe dão alguns pêlos. Além disso, o leão diz-lhe que a princesa está presa numa casa de caçadores, nos arredores. O jovem encontra a casa e a princesa, mas é informado de que a fuga é impossível, pois o caçador possui um cavalo branco de três pernas, o qual sabe tudo e avisaria infalivelmente o caçador. Apesar disso, o jovem tenta a fuga, porém em vão. O caçador o alcança, mas como o jovem já havia salvo a vida quando era corvo, o caçador resolve deixá-lo partir. Este último regressa com a princessa na garupa. O jovem entra de novo furtivamente na casa, no momento em que o caçador fora para a floresta, e convence a princesa a revelar-lhe o segredo mediante o qual o caçador conseguira aquele cavalo branco e inteligente. Ela o consegue de noite e o jovem que se escondera debaixo da cama descobre que mais ou menos uma hora de distancia dali mora uma bruxa que cria cavalos mágicos. Aquele que conseguir guardar os potros durante três dias, poderá escolher para si, como recompensa, um cavalo. Outrora ela possuía, além dos cavalos, doze cordeiros, a fim de com eles aplacar a fome dos doze lobos que moravam na floresta em torno do seu quintal e assim impedi-los de se precipitarem sobre alguém. Ela, porém, não lhes dera os cordeiros. Os lobos o teriam perseguido ao voltar montado no cavalo branco e, no momento de atravessar a divisa, teriam conseguido arrancar a perna do cavalo. Por isso, seu cavalo só tem três pernas.

Mais que depressa o jovem vai até a casa da bruxa e faz um trato com ela, sob a condição de dar-lhe não apenas o cavalo que ele mesmo escolheria, mas também os doze cordeiros. A bruxa concorda. Ela ordena ao potro que fuja. Para adormecer o jovem, lhe da água ardente. Ele bebe, adormece e os potros escapam. No primeiro dia, ele os recupera com a ajuda do lobo. No segundo dia, quem o ajuda é o urso e, no terceiro, o leão. Pode então escolher a sua recompensa. A filhinha da bruxa lhe revala qual é a montaria da mãe. Naturalmente trata-se do melhor cavalo, que também é branco. O jovem o pede para si. Mal sai da estrebaria, a bruxa fura os cascos do cavalo branco, sugando-lhe a medula dos ossos. Com a medula ela assa um bolo, que oferece ao jovem para viagem. O cavalo enfraquece a ponto de morrer, mas o jovem dá-lhe o bolo para que coma, e com isso o cavalo recobra sua força anterior. O jovem consegue sair incólume da floresta, depois de ter saciado os lobos com os doze cordeiros. Ele vai buscar a princesa e ambos saem montados. O cavalo branco de três pernas chama novamente o caçador que imediatamente persegue os dois, conseguindo alcançá-los rapidamente, porque o cavalo branco de quatro pernas não quer correr. Quando o caçador se aproxima dele, o cavalo branco de quatro pernas brada para o de três pernas: "Irmãzinha, derruba-o!" O feiticeiro é derrubado e pisoteado pelos dois cavalos. O jovem coloca então a princesa no cavalo branco de três pernas e ambos cavalgam para o reino de seu pai, onde celebram seu casamento. O cavalo branco de quatro pernas pede ao jovem que decapite os dois cavalos, porque senão cairia sobre ele uma desgraça. Ao fazê-lo, os cavalos transformam-se em um principe imponente e uma princesa maravilhosa que depois de algum tempo se mudam "para seu próprio reino". Eles tinham sido transformados outrora em cavalos pelo caçador.

domingo, julho 30, 2006

Destino ou acaso?



Fim
Sangue escorrendo
Um surdo estampido
Alguém gritando
E a mão se levanta
Reação errada
Emboscado no beco
Caminho errado
Desde o começo
vamos
Vamos embora?
começo

Poesia de Felipe Liro;

quarta-feira, julho 26, 2006

Fausto:

Duas almas, ah, moram em meu peito
Uma da outra quer se separar;
Uma, com forte paixão amorosa,
Ao mundo se aferra com força total;
Outra se levanta vigorosa do pó
Para as planícies dos grandes ancestrais.


Obs: A tradução da musica do "Les quatre barbus" que tava aqui agora ta no outro blog (ver seção links), em breve tento traduzir mais e melhorar. Também ta em fase de tradução porca o livro: "Epistemology et Psychologie" do Piaget, mas esse até o final do ano eu devo tar publicando no blog (não nesse) o 1 capitulo. Um texto que estou pensando em fazer também é sobre epistemologia junguiana, algo mais resumido, mas não sei se alguem se interessa por essas coisas. Outro texto que tinha prometido e não saiu foi o "Anarquismo e Tipos Psicológicos", o que não saiu até agora pela minha falta de leitura das teorias/autores anarquistas, o que dificulta um pouco, pois fica um pouco arbitrário/incerto eu ficar falando das teórias dos caras através de livros de terceiros. Contudo, se alguém tiver interesse eu posso até ver se adianto alguma coisa, uma base do pensamento pra desenvolver posteriormente.. Abraços!

quinta-feira, julho 13, 2006

História


Pequena história para meus amigos leitores:

“Moisés disse certa vez a seu servo: eu não quero parar de caminhar, mesmo que tenha de viajar por oitenta anos até chegar ao lugar de encontro dos dois mares. Depois de alcançarem esse lugar, esqueceram o peixe que seguiu seu caminho por um canal até o mar. Depois de haverem passado por esse lugar, Moisés disse a seu servo: - Traze-nos o alimento do meio-dia, pois estamos cansados com esta viagem. O servo respondeu: - Vê o que me aconteceu! Quando acampávamos lá, junto à rocha, eu me esqueci do peixe. Só Satanás pode ter sido a causa desse esquecimento e falta de lembrança, e de um modo estranho (o peixe) seguiu o caminho para o mar. Então Moisés lhe disse: - É lá, portanto, o lugar que procuramos. E retrocederam pelo mesmo caminho que haviam seguido. Nele encontraram um dos nossos servos que havíamos dotado de graça e sabedoria. Moisés disse-lhe: - Devo seguir-te para que me ensines uma parte da sabedoria que aprendeste, para minha orientação? Mas o servo respondeu: - Não agüentarás ficar a meu lado; como suportarias pacientemente estar perto de coisas que não podes compreender? Moisés porém respondeu: - Se Deus quiser, verás que sou paciente, e não te desobedecerei em nada. O Outro retrucou: - Pois bem, se quiseres seguir-me, não poderás perguntar-me coisa alguma, até que eu, espontaneamente, te ofereça a explicação. E, assim, ambos seguiram até chegar a um barco no qual o Outro fez um furo. Moisés disse então: - Será que fizeste um furo para que a tripulação se afogue? Acho estranho o que fizeste. O Outro porém respondeu: - Eu já te dissera antes que não agüentarias ficar pacientemente a meu lado? Moisés respondeu: - Não me repreendas por tê-lo esquecido e não tornes tão difícil a ordem da obediência. Ao continuar, encontraram um jovem que o Outro matou. Moisés disse então: - Mataste um homem inocente, que não havia cometido nenhum assassinato. Na verdade cometeste uma ação injusta. Mas o Outro respondeu: - Já não te dissera antes que não agüentarias ficar pacientemente a meu lado? Ao que Moisés respondeu: - Se eu te perguntar mais alguma coisa, não precisas continuar a suportar-me em tua companhia. Aceita isso como desculpa. E continuaram até chegar a uma certa cidade onde pediram comida a seus habitantes; mas estes recusaram-se a hospedá-los. Lá encontraram um muro que ameaçava ruir; o Outro porém o escorou. Moisés disse-lhe: - Se quisesses poderias ser remunerado por esse trabalho. Mas o Outro respondeu: - Aqui vamos separar-nos. Antes porém quero revelar-te o significado das coisas que não pudeste suportar com paciência. Aquele barco pertencia a pessoas pobres, que trabalhavam no mar, e eu o inutilizei porque um rei pirata os perseguia, saqueando cada barco que encontrava. No que concerne ao jovem que matei, os seus pais são pessoas de fé e temíamos que os contaminasse com seus extravios e falta de fé; por isso desejávamos que o Senhor lhes desse em troca um filho melhor, mais piedoso e mais amoroso. Aquele muro pertence a dois jovens da cidade que são órgãos. Debaixo do muro está enterrado um tesouro que lhes caberá, e como seu pai era um homem honrado, é a vontade do teu Senhor que eles mesmos ao atingirem a maioridade retirem o tesouro pela graça do teu Senhor. Eu não agi portanto por capricho. Vê, esta é a explicação daquilo que não conseguiste suportar com paciência”.

segunda-feira, julho 10, 2006

Seine majestat das Ich

“Seine majestat das Ich”[1]

Resolvido escrever um “proto post” sobre um assunto que considero essencial, só me resta soltar vagas linhas enquanto alguns muros me impedem de alavancar algo melhor. O assunto é delicado, porém acredito que seja um assunto de suma importância tanto na vida cotidiana quanto teoricamente. O assunto que abordarei se refere em essência ao individualismo, a atomização e ao narcisismo contemporâneo, passando pela contra cultura, pela psicanálise e pelo meio anarquista chegando até o processo de individuação junguiano e ao único stirneriniano.

Na contemporaneidade, ou segundo alguns, pós-modernidade, existe um fenômeno genérico em jogo que perpassa e modela a nossa subjetividade, criando a partir daí, um modelo de conduta coletivo que propõe a mais pura individualidade e personalização, onde antigos valores como: “autonomia”, “felicidade”, “emancipação individual”, “heterogeneidade”, entre outros, tornaram-se os novos modeladores para a população, sendo agora taxados como essenciais e atribuídores de status co.

A esse fenômeno Gilles Lipovestky chama de sedução, que longe de significar, para ele, um fenômeno ideologicamente determinado que intencionalmente busca alienar, significa uma outra coisa, mas no momento citemos suas palavras: “A sedução nada tem a ver com a representação falsa e com a alienação das consciências; é ela que configura o nosso mundo e o remodela segundo um processo sistemático de personalização cuja obra consiste essencialmente em multiplicar e diversificar a oferta, em propor mais para que nós decidamos melhor, em substituir a coação uniforme pela livre escolha, a homogeneidade pela pluralidade, a austeridade pela realização dos desejos” (Lipovetsky, 1989: 19).

E Lipovestky vai além ao dizer: “Toda a vida das sociedades contemporâneas é doravante governada por uma nova estratégia que destrona o primado das relações de produção em proveito de uma apoteose das relações de sedução” (Lipovetsky, 1989: 17). A através da sedução que podemos ver esta sociedade atomizada, extremamente personalista à qual parece, num olhar mais superficial, derrubar todos os totens e “ismos” para dar lugar a uma pluralidade narcisista sem fim. A cartada da sedução é a “do seu bem-estar, da sua liberdade, do seu interesse próprio” (ibid) e é justamente isso que ela propõe gerar.

Só que mesmo que não queiramos dar uma importância supervalorizada aos processos econômicos e ideológicos, sem duvida eles são uma influencia que dificilmente pode ser negada. Não se trata de dizer: “os seres humanos são determinados pela economia”, “os seres humanos são determinados pelo pensamento dominante propagado por suas organizações”, nem de definir o ser humano como pura liberdade. O fato é que, mesmo que observemos com clareza o fenômeno que Lipovestky chama de sedução, onde a atomização e “heterogeneização” são estimuladas, não podemos negar que exista uma intencionalidade por trás de fenômeno. Essa intenção nos parece um elemento da intenção liberal que desmistifica o governo e a coletividade apoiando o individuo (in+dividuo, não divisível) sobre sua “particularidade”, ou melhor, sobre as leis do mercado e das grandes empresas multifacetadas onde supostamente se aceita tudo, qualquer individuo com sua liberdade, mas, por trás dessa aceitação incondicional, vê-se outra realidade, a realidade da exclusão por meio da impossibilidade de consumo dos mais pobres que são, em parte, levados a fazer de tudo para consumirem e pertencerem a alguma das categorias sociais existentes. Em meio a essa polimorfização dos grupos sociais, supostamente aceitando uns aos outros, existe uma luta intrínseca por poder, para vencerem uns aos outros, apoiados sobre o darwinismo social preponderante, a antiga teoria do aclamado Spencer.

Sem duvida o assassinato de Deus enquanto realidade psíquica e coletiva trouxe uma descentralização dos valores e um Eon de incertezas. A cultura contemporânea que passa a viver, não num “vazio de mitos”, mas sim em novos mitos, agora apoiados sobre a incerteza, a deusificação paralelamente do mercado e do homem único e material , logo, do culto ao corpo e ao dinheiro. Ao fazer a analítica dessa nova mentalidade também não podemos ficar presos a fatos “materiais” e esquecer-nos dos determinantes psicológicos deste novo paradigma.

Lembremos então das populares teorias da psicologia dos anos 60, como a de Carl Rogers que propunha a originalidade, a espontaneidade, uma valorização do corpo, dos sentimentos, da pessoa. Rogers diz: “Confio nos sentimentos, palavras, impulsos, fantasias que em mim emergem. Deste modo estou usando mais do que o eu consciente, estou esboçando algumas das capacidades do meu organismo total” (Rogers, 2002: 62). Rogers tentava criar a autonomia no sentido originário do termo: Auto (próprio) + Nomos (lei, regra), ou seja, o encontro da própria lei, regra, de cada um que, segundo sua crença, seriam essencialmente positivas².

Voltemos, para embolar o texto, a analise da cultura contemporânea para após voltarmos a pensar sobre as psicoterapias e analises. Na época contemporânea a divisão cartesiana criada por René Descartes (1596-1650) entre “res extensa” e “res cogito”, que fundamentava a época moderna, parece haver sido extinta. O corpo deixa de ser um maquinário o qual a alma, através da glândula pineal, se comunicaria. Ele deixa de ser “materialidade muda, em proveito da sua identificação com o ser-sujeito, com a pessoa” (Lipovetsky: 58). O corpo então passa a estar relacionado com nossa verdade natural, em busca de nossa integralidade, de nosso encontro conosco mesmo que passa a ser ultra-valorizado. “Enquanto pessoa, o corpo ganha dignidade; devemos respeitá-lo, quer dizer zelar permanentemente pelo seu bom funcionamento, lutar contra a sua obsolescência, combater os signos da sua degradação através de uma constante reciclagem cirúrgica, desportiva, dietética, etc.” (ibid).

Hoje a velhice, o aparecimento de rugas, a desjuventudização parecem ser um motivo de transtorno, pois o corpo bom tornou-se o corpo esbelto, saudável e que vive o máximo de tempo possível. Talvez um dos primeiros a enveredarem por estas sendas tenha sido Timothy Leary ao propor seu SMI²LE (Space Migration, Inteligence², Life Extension) onde acreditava num aumento paulatino da vida ao que esperava um dia pudesse ser possível à imortalidade (Robert Anton Wilson).

O corpo e o sexo passam a ser os novos avatares do liberalismo, seus meios de propaganda para mostrarem-se melhores que os outros sistemas, como permitissem a liberdade, como mostramos no individualismo. Mas o individuo a sua procura nada encontra. A cultura das sensações vai dar especial valor a imagem, ao corpo, ao visível, ao contrário do sentimento, como diz Costa sobre a cultura das sensações: “A cultura das sensações significa que a maioria das pessoas, sobretudo na vida urbana, está buscando cada vez mais no corpo as regras e o modelo, com os quais têm que se identificar” (Costa, entrevista para um jornal que esqueci qual é). Ignoram-se os modelos abstratos, como o sentimento, ou a profundidade do ser, sua singularidade, ou coisas do tipo. Nessa nova cultura, das sensações, ninguém mais quer “sacrificar a liberdade sexual, o dinheiro e a beleza por amor nenhum” (ibid) seja esse amor uma ideologia, parceira, ou religião.

Já citamos muito Lipovestky que, apesar de psicólogo social, tem uma gigantesca influencia psicanalista e é sobre ela que ele remonta as bases de suas constatações. Para acrescentarmos uma analise psicanalista a nossas visões, acrescentemos a analise da cultura contemporânea, pós-moderna ou das sensações sobre o viés de outro psicanalista (Jameson).

Para Jameson, a pós-modernidade enquanto cultura pode, em uma de suas características, ser classificada de esquizofrênica. Jameson, para tal, se baseou no modelo de esquizofrenia prescrito por Jacques Lacan que considerava “a esquizofrenia substancialmente como uma desordem de linguagem, associando-a toda uma teoria da aquisição da linguagem como o elo esquecido da concepção freudiana da formação do psiquismo adulto. Para tanto, ele nos deu uma versão lingüística do complexo de Édipo (...)”.

A comparação entre a experiência pós-moderna e a esquizofrenia vão estar relacionadas, em grande parte, em suas relações com a temporalidade. Novamente voltamos a teoria de Lacan, onde “a experiência da temporalidade humana (passado, presente, futuro), a persistência da identidade pessoal através de meses e anos – a própria sensação vivida e existencial do tempo – são também efeito de linguagem”. Se o esquizofrênico teve deficiências no domínio da fala e da linguagem, ele também terá problemas relacionados a temporalidade. O esquizofrênico vive no eterno presente e, de tal modo, não cria nenhuma identidade. Ele é ninguém, não tem o Nome-do-Pai. Isso nos faz lembrar o tempo mítico dos gregos, chamado de kairótico, onde existia a acausalidade, e um tempo imprevisível, um tempo não continuo que podemos fazer uma analogia do tempo como Jameson apresenta nas teorias Lacanianas.

O esquizofrênico, por um lado, “vivencia mais do que nós, e com nitidez, uma experiência muito mais intensa de um definido instante do mundo, pois nosso próprio presente é sempre parte de algum conjunto mais amplo de projetos, o que nos obriga a focalizar e a selecionar nossas percepções”. Uma das características fundamentais da esquizofrenia é “ultrapassar o sentido” onde “a materialidade das palavras se torna obsessiva, como ocorre quando crianças repetem sem cessar uma mesma palavra até seu sentido desaparecer e ela adquirir um fascínio ininteligível – um significa que perdeu seu significado se transforma com isso em imagem”.

A experiência na pós-modernidade é fundamentalmente presente, poderosamente vivida e “material”. O que interessa é a sensação causada no presente, pois falta identidade futura e pretensões ou planos ideológicos, a experiência está sem estrutura, ancorada no vazio, no deserto dos valores.

Essa visão ainda difere da do Lipovestky que procura ainda fazer outra analogia ou estudo sobre a cultura contemporânea, utilizando a psicanálise. Segundo Lipovetsky, o que vivemos é justamente uma época extremamente narcísica. Mas, para compreender o que é o narcisismo para psicanálise precisamos nos voltar a Freud. Segundo Freud: “O termo narcicismo provém da descrição clínica e foi escolhido por P.Nacke, em 1899, para designar o comportamento do indivíduo que trata o próprio corpo como normalmente só trataria um objeto sexual (...)” (Freud, 2004: 97) e prossegue após conceituá-lo como parte do desenvolvimento genérico do homem: “Nessa acepção, o narcisismo não seria uma perversão, mas um complemento libidinal do egoísmo próprio da pulsão de autoconservação, egoísmo que, em certa medida, corretamente pressupomos estar presente em todos os seres vivos” (ibid: 98). Assim Freud se refere ao narcisismo primário, ao narcisismo genérico, i.e, presente em todos os sujeitos humanos. Freud falou também de um narcisismo secundário que seria ao qual se refere a esta cultura contemporânea, que resultaria de um voltar-se para o Eu após já ter ido para o mundo, catexia-lo, enchê-lo de energia, provocando certo afastamento do mundo externo.

Ainda segundo Lipovetsky a psicanálise torna-se incitadora da verdade do Eu, pois ao falar de inconsciente e recalcamento, chama do sujeito a conhecer-se. “Onde era Isso, devo eu chegar” (Lipovestky, 1989: 52). “O narcisismo é uma resposta ao desafio do inconsciente: instado a redescobrir-se, o Eu precipita-se num trabalho de libertação interminável, de observação, de interpretação” (ibid). Haveria, portanto, um incitamento criado pela própria psicologia para este ato de conhecer-se, voltar-se para dentro, atomizar-se, se tornar único.

Dissemos até agora muitas coisas, mas falta questionar toda essa informação até aqui acumulada. Essa conclusão de Lipovestky, que tanto citamos, nos parece equivocada por trazer a visão do ser humano como tabula rasa, tal como Freud com seu positivismo e ateísmo quase o fez (quando não o fez considerou os conteúdos herdados como lixo). É exatamente por isso que quando Lipovetsky vê o ser humano voltado para dentro ele encontra o vazio, pois para ele o ser é só uma formação social determinada pelo meio externo, pelas pulsões e o famoso Complexo de Édipo.

Por tal vertente que Lipovestky segue ele só enxerga o vazio, o deserto, mas certamente não é isso que encontramos, por exemplo, ao olhar uma sociedade oriental, voltada para dentro, mas, ao contrário, encontramos justamente o vazio criativo, a incessante criação e transformação. Acrescentar-se-á que o interior e a singularidade não são um individualismo canhestro aos moldes de um Stirner, e para saber disso, é só observar desde as grandes visões, as alucinações de esquizofrênicos com ressonâncias históricas e coletivas até alguns grandes sonhos. Stirner propunha, como vocês encontrarão várias vezes neste blog, a tese do Einzige (Único), conceito sobre o qual defendia a tese do egoísmo radical, num solipsismo e personalização onde a única realidade era o Eu, e o avanço e crescimento do Eu se dava na medida que se apropriava das coisas e as utilizava.

Temos que tirar a carga que botamos sobre Rogers como grande influencia causal do fenômeno narcisico pós-moderno, já que isso só seria possível numa desvirtuação do humanismo. Rogers estava extremamente interessado na inter-relação dos seres e num modo especial de Cuidado, aqui buscado o termo vangloriado por Leonardo Boff. Aparentemente a teoria freudiana e seu pessimismo manifesto, sua desmistificação do mundo, a sua extroversão absoluta onde todo voltar-se para si era um voltar-se para o vazio e a megalomania, tem maior influencia nessa realidade contemporânea do que o humanismo ou o existencialismo.

Pensamos que se voltar para dentro, longe de promover o encontro com o vazio conduz a uma ligação com o mundo muito mais nítida do que ficar preso aos condicionamentos do mundo externo, vide um Gandhi, Jesus, Buda, grandes libertadores de seus tempos, acrescentemos ainda da contracultura os surrealistas e os dadaístas, cada qual com seus erros, mas com tentativas muito louváveis. Na procura por nosso Si-mesmo, por nossa singularidade, podemos ficar presos ao nosso pessoal, a tentar des-velar o nosso inconsciente como Freud mostrava através da interpretação dos sonhos, dos atos falhos, etc., mostrando conteúdos latentes, ou seja, recalcados aos quais não tínhamos acesso, mas que, contudo, continuavam a nos influenciar.

Uma grande mudança a qual nos mostra as possíveis falhas dessa limitação pessoal da psique, além da constatação empírica e fenomenológica, é o advento da física quântica onde “A noção de substancia dissolveu-se em probabilidades e ‘tendências para existir’. As conexões não-locais de partículas contradiziam a causalidade mecanicista” (Tarnas, 1991). Esta mudança de paradigma surgida no seio da física quântica abriu novos espaços a novas idéias, onde “A profunda interconexão dos fenômenos estimulava um novo pensamento holístico sobre o mundo, com muitas implicações sociais, morais e religiosas”. (ibid). Sobre o holismo citamos Melo “O termo holismo vem do grego holos: totalidade, refere-se a uma compreensão da realidade em função da totalidade integrada, cujas propriedades não podem ser reduzidas a unidades menores sem consideração desse entrelaçamento de elos que se interpenetram, mesmo que virtuais”.(Melo 2002). Uma grande mudança começou com as resultantes do paradoxo ERP(Einsein-Rosen-Podolsky) que “indicou que, se a mecânica quântica é verdadeira, algumas partículas estão em contato instantâneo, mesmo que elas se encontrem em extremidades opostas do universo” (Wilson, 1997). Esses três pesquisadores tentaram na verdade uma “reductio ad absurdum (redução ao absurdo) da teoria quântica” (ibid), contudo, acabaram por levar a física a estudos posteriores que puderam mostrar a possibilidade de partículas estabelecerem conexões mais rápidas que a velocidade da luz, ou seja, conexões não-locais.

Antes de prosseguir, na parte final de nosso texto, é interessante não definir, mas ao menos introduzir o leitor ao inconsciente coletivo, o qual abordaremos. O inconsciente coletivo é uma hipótese de Carl Gustav Jung e, segundo ele: “Enquanto o inconsciente pessoal é constituído essencialmente de conteúdos que já foram conscientes e no entanto desaparecem da consciência por terem sido esquecidos ou reprimidos, os conteúdos do inconsciente coletivo nunca estiveram na consciência e portanto não foram adquiridos individualmente, mas devem sua existência apenas à hereditariedade” (Jung, 2006: 53). Aqui ainda poderíamos falar muito, pois mesmo essa palavra hereditário pode ser contestada por posteriores estudos de Jung, mas não entraremos muito a fundo aí para não complicar demais o texto.

O que nós parece é que a realidade empírica é modelada e restringida tanto por nossas categorias perceptivas como já observava Kant como pelos arquétipos do inconsciente coletivo, como observava Jung. Se não temos acesso direto a realidade exterior isso significa uma influencia constante de nosso modo de perceber sobre a realidade. Mesmo que existam disposições típicas do inconsciente inatas na constituição do homem, que modelem a realidade a partir de nossas vivencias, não podemos negar as influencias externas, como não a negamos desde o inicio desse texto, no qual apontamos a intencionalidade liberal por trás dos fenômenos narcísicos.

Isso significa que desde crianças nossa mente começa a ser influenciada pela mídia, pela família e pela propaganda da sociedade de consumo, um dos grandes avatares modernos, como também nos lembra o mito do rei Midas, que já expomos no texto sobre futebol. Dessa forma a projeção da crianças e seus arquétipos sobre o mundo externo modifica-se graças a vivencia – que eu chamaria de patológica – da sociedade de consumo sobre a criança.

Para finalizar esta parte, apenas gostaríamos de apontar a dupla possibilidade ao se voltar para dentro, ao se procurar nosso Si-mesmo. Se em uma direção existe uma possibilidade real de acontecer o que acontece hoje, este narcisismo desenfreado ao qual observa Lipovetsky, em outra podemos ver que o encontrar-se a si mesmo é o ato mais fundamental da vida, de uma vivencia autentica (lembrando Rogers). Viver autenticamente não é estar preso ao Ego, pois para a ausência de patologia psíquica é necessária a criatividade constante e só podemos ter esta criatividade quando estamos acessando nossa espontaneidade, intuição, nosso inconsciente, pessoal e supra-pessoal. Nesse instante estamos lidando também com desejos coletivos, algum surrealista um dia falou que no dia em que todos sonharmos com a revolução ela seria feita. É uma grande verdade. Marie-Louise Von Franz nos fala no livro “O Homem e Seus Símbolos” sobre o aspecto social do Self, e para tal conhecimento é necessário um conhecimento do inconsciente, uma vivencia dele. Ela nos diz então: “Quando uma pessoa tenta obedecer o inconsciente fica muitas vezes, como vimos, impossibilitada de fazer o que quer. E vai estar igualmente incapacitada de fazer o que as outras pessoas qerem que ela faça. Acontece muitas vezes que precisará separar-se do seu grupo – família, parceiro ou outras relações pessias – para poder encontrar-se. É por isso que se diz que atendendo ao inconsciente as pessoas tornam-se anti-sociais e egocêntricas. Como regra geral isso não é verdade absoluta, pois há um fator pouco conhecido que intervém nesta atitude: o aspecto coletivo (ou, podemos mesmo dizer, social) do self” (Jung, 2001: 220). E prossegue: “De um ponto de vista prático este fator se manifesta no fato de que um indivíduo, acompanhando seus sonhos durante determinado tempo, vai descobrir que eles dizem respeito ao seu relacionamento com as outras pessoas” (ibid).

Pensando agora em contracultura e anarquismo, temos que ter a noção de que a realidade é primeiramente psíquica. Se quisermos uma sociedade melhor temos primeiramente olhar ao homem como ele é, sem aquele otimismo, ao qual Malatesta observou, aquele “belo otimismo kropotkiniano que eu chamei de ‘providencialismo ateu’ a descer das nuvens e a ter em as coisas tal qual elas são, bem diferentes daquilo que gostaríamos que fossem”.

A contracultura ao observar o condicionamento psíquico ao qual estamos expostos então foi uma grande mãe ao anarquismo, pois nos doa uma observação mais do que fundamental, mas a contracultura cometeu também erros inegáveis. Os punks, por exemplo, ao se afastarem da sociedade (seja anarco-punks, sejam os modernos freegans) não só se botam a margem da elite, mas se botam a margem de toda sociedade dessa forma impedindo seu próprio acesso ao popular, a povo, aos menos favorecidos e se torna um movimento estéril e preso a brigas internas de um modo a parte, particular. Tal perigo também ronda, como citamos no texto: “convergência anarquista”, no anarquismo ontológico de H.Bey.

Para um fortalecimento do anarquismo trata-se primeiro de atacar as instituições internalizadas e cristalizadas no corpo de cada um de nós, para alcançarmos não o vazio, não o egoísmo, mas uma ligação muito mais verdadeira com o coletivo, uma ligação que mesmo com ela não abandonaremos nossa singularidade e nosso eu. Trata-se de des-cobrir os meios de derrubar essas regras ideologicamente determinadas, como já observava Wilhelm Reich ao falar das couraças e alguns gnosticos ao falarem de sistase. Se nós falta ainda mecanismos de dissolver toda essa estrutura interna do ser, sem duvida não podemos ficar parados esperando que tal caia do céu - mesmo que rezemos e influenciemos tal queda -. Temos que continuar fazendo o possível, mesmo dentro de nossas limitações, para que o anarquismo a liberdade continuem vivas, na cabeça de cada um, algumas vezes rompendo as barreiras de concretos formadas na psique da maioria (independente de classe econômica).

Bibliografia:

Freud, Sigmund. Obras Completas volume I, Escritos sobre a Psicologia do Inconsciente. Imago, 2004.
Jung, C. G., Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Petrópolis: Vozes. 2006
Lipovetsky, Gilles. A Era do Vazio, Ed. Gallimard, 1989.
Mello, E. Mergulhando no mar sem fundo. 2002,
Rogers, Carl. Grupos de Encontro. Martins Fonte. 2002.
Tarnas, R. A Epopéia do Pensamento Ocidental. 1991
Wilson, R. O Gatilho Cósmico. 1997

[1] - (Sua majestade, o Eu).
2 – Rogers, ao contrario de que muitos pensam, não adotava a crença de que as pessoas deveriam mostrar-se somente boas, mas sim se mostrarem totais, tal como elas são. Dessa maneira seria possível o crescimento.

quarta-feira, junho 28, 2006

Madrugadas


É madrugada no Rio de Janeiro, por volta das 2:30 da manhã, o relógio da esquina de uma das ruas desertas do centro do Rj marca 17 graus centígrados. Prédios comerciais com as luzes apagadas, ruas calmas, com alguns mendigos aqui ou lá dormindo pelas calçadas, só se escuta o barulho do vento.

Num hospital psiquiátrico, localizado numa esquina, tudo se parece como todo resto do centro, luzes apagadas, o silencio domina a noite, se não fosse a exceção de um jovem andando por aqueles corredores. As luzes piscam, sobre o clima cinzento. Das sombras aparece um vulto. O jovem olha sobre as fumaças de sua percepção e vê surgir uma mulher linda, com cabelos negros como a noite, compridos, 1,70 de altura aproximadamente, perto dos 23 anos, seios médios, magra, mas para o jovem, apesar dele ter reparado muito bem tais atributos, aquilo não era o essencial naquele momento, o fato era: ela corria como uma louca atrás dele com uma faca!

A perseguição se iniciara perto ainda da entrada, onde havia uma escada de cerca de 17 degraus, o lugar escuro possibilitava que a qualquer momento o jovem esbarrasse numa das quinquilharias largadas pelo chão e caísse condenando-se ao esfaqueamento. Ele olha pra trás, suando, e vê a mulher ainda seguindo-o, frenética. Os olhos dela brilhavam, como o olho de um animal, havia algo de lindo e algo de terrível.

A perseguição chega a um local onde o jovem vê finalmente uma luz. Uma sala de computadores, com uma luz 60 watts acessa, ao canto da sala, deixando uma fraca iluminação sobre aquele antro de escuridão e caos. Ele observa bem, procura fazer uma ressonância do local; uma alma viva, reza por uma alma viva para lhe ajudar. Não vê ninguém.

O jovem olha para trás e parece que seu destino já estava traçado, desde eternidades indecifráveis. A sua esquerda a sala de computação, a sua direita uma parede, as suas costas uma escada com cerca de 17 degraus e a sua frente à linda jovem com uma faca na mão e um olhar de gato. Ele vai à direção dela. Ele a beija. Ela segura sua mão e ambos descem a escada, de 17 degraus, abrem a porta e saem para a rua.

Um olhar entre-penetrante. Olham o relógio frio da madrugada estranha: 3:20, avisa ele. Soltam leves sorrisos um para o outro. Um carro aparece. Eram os amigos dela. Ela sobe no carro. Ele vai embora.

No fundo o jovem sabia, que ela com ele, se parecia.

Futebol, simbolismo e copa do mundo!


Mediante a copa do mundo em faze de realização, resolvi escrever um pequeno esboço sobre o simbolismo e alguns aspectos relacionados ao futebol. Ainda mais, por estarmos num país que ainda, andando por pernas tortas para descobrir sua identidade e cultura, louva a dança do futebol. Que possamos fazer essas pernas tortas dar dribles de Garrincha, e não cair no chão, é o meu desejo para nossa história.

Não acredito que possamos dizer simplesmente que o futebol é “bom” ou “ruim” para a sociedade na qual vivemos, tal como um título brasileiro na copa do mundo seria para o Brasil. Isso seria um reducionismo exacerbado e não nos faria questionar. Certamente, o que podemos dizer, é que o futebol faz parte da cultura brasileira e da nossa população, e que certamente há uma identificação profunda do heróico trabalhador brasileiro, que passa seus dias trabalhando para ganhar um salário mínimo com o heróico jogador da seleção com seus salários milionários.

O futebol certamente é um esporte que apresenta uma série de mitos e símbolos, e em especial numa cultura emotiva e “dionisíaca” como a brasileira um jogo pode chegar a tornar-se uma espécie de ritual. Começando a abordar estes mitos, é de destaque, sem duvidas, a presença do mito do herói nas partidas de futebol. Parece-me haver, ao menos, dois heróis fundamentais numa partida: o time como um todo, e algum herói escolhido pela coletividade, ou seja, pela torcida. A figura do herói é marcada pela passagem de desafios intensos em sua vida, como acontece com todos os heróis clássicos e para tal é exigido sacrifício, esforço, determinação e alcançar, ao menos, os limites do ser humano. Uma pergunta fica: “Qual seria hoje o herói individual da seleção brasileira?”. Parecia-me o Ronaldinho Gaúcho, mas hoje tenho minhas duvidas se esta projeção ainda é valida.. Outro exemplo interessante é o do Ronaldo que, quando estava jogando bem, era louvado como herói, mas bastou esta projeção arquetípica ser desfeita para transformar-se em vilão.. e, novamente, aos poucos, faz desgarrando-se da raiva do torcedor.

O mais interessante no futebol é seu aspecto instintivo, sua ligação com a corporalidade, em especial com a parte da metade inferior do corpo: “as pernas, o quadril, os pés” que sempre significaram a ligação com os instintos, tendo inclusive, devido sua proximidade, relações com os órgãos sexuais. Esta parte da corporalidade sempre foi reprimida pela cultura ocidental (eu diria, como Byington, que todo arquétipo matriarcal foi reprimido), que louva o racional, “as luzes iluministas”, e esqueceu-se do aspecto irracional humano, a espontaneidade, e também a energia à qual nos leva ao nosso si-mesmo. Um exemplo canhestro foi vivido por mim, ao escutar uma pessoa dizer sobre um torcedor vestido de índio: “que absurdo esses torcedores! Querem levar o pior de nossa cultura! Nosso lado animal!”. Não é sem causa que precisamos de um Nietzsche para tentar equilibrar e compensar nossa típica unilateralidade.

A partir daí começa-se uma série de ligações simbólicas com o feminino. A própria corporalidade, emoção exacerbada, espontaneidade são características da anima. Um grande numero de estádios, quase todos na verdade, possuem uma forma oval, próxima a um circulo, e muito similares as mandalas (ou círculos sagrados). Estes círculos, além de representarem a totalidade e a tentativa de reintegração da psique, eram usados para delimitar um espaço ritual e realmente parece que uma partida pode ser um ritual. A bola é mais um exemplo de circularidade presente no futebol, onde todos os jogadores disputam-na para serem os heróis da partida e garantirem a vitória de suas equipes.

Outro aspecto marcante é a semelhança do futebol e das torcidas com os antigos coliseu romanos, só que sem a matança deliberada. As regras do futebol, nesse sentido, parecem tentar estabelecer um dialogo através da punição entre os dois duelistas, lembrando uma guerra de titãs. O futebol, sobre esse viés, poderia ser então um melhor modo de lidar com nossa guerra, ao invés de sair matando todo mundo =P..

Talvez o futebol seja além de um modo de “acalmar” e “passivizar” o povo também uma expressão autentica onde a torcida faz também parte do espetáculo ritualístico e re-integra-se a uma consciência coletiva (ou egrégora) podendo servir de ponte a um desenvolvimento ou uma dissolução do inconsciente coletivo num afloramento emocional e perca da identidade, o que nos lembra muito aliás, os rituais dionisíacos, os ditirambos.

Po! Aqui tem muito pano pra manga... Certamente tem aspectos positivos e negativos num jogo de futebol ou numa copa do mundo... Por um lado existe até mesmo traços positivos na identificação com figuras heróicas o que leva a pessoa a tentar criar seu mito pessoal, mas por outro, na cultura capitalista, toda expressão autentica da alma humana é tragada pelos ditames do capital, e sacralidade corre sempre o risco de ser possuída por esse mito do Rei da Frigia, o Rei Midas que transformava tudo que tocava em ouro.. No inicio ficava muito feliz, mas não tardou a ver que aquilo transformara-se em uma maldição..

Midas e o ouro

Rei da Frígia, famoso por sua irreflexão; o único a saber que ele tinha orelhas de burro era seu barbeiro, a quem ele ameaçara de morte se o revelasse a alguém; não agüentando guardar o segredo, o barbeiro abriu um buraco no chão e gritou para dentro dele que o rei Midas tinha orelhas de burro; no lugar cresceram juncos que, agitados pelo vento, repetiam essa frase, logo ouvida por todos; segundo outra tradição, Midas pediu a Dionísio que lhe concedesse o dom de transformar em ouro tudo que tocasse; mas não pôde mais alimentar-se, pois toda a comida que tocava transformava-se em ouro; para se purificar, banhou-se nas águas do rio Pactolo, cujo fundo ficou coberto de pepitas de ouro.


Fechemos com a frase do Dada Maravilha: "O Gol é o Orgasmo do Futebol!".. salve ele! =)

base para o texto tirada daqui: http://cidadedofutebol.uol.com.br/site/vip/materias/vermaterias.aspx?idm=832