domingo, janeiro 23, 2011

O que conta o conto?

O ano é 1542. Cercado de natureza, mas uma natureza a espreita do terror.... do torpe Europeu que a rondava.. Sangue-sugas. Pestes. Pombos: levando as informações que poderiam dominar e controlar os fortes estranhos que habitavam aquelas terras. A medicina deplorável do homem branco procurava igualar-se a sabedoria dos curandeiros, já que os pobres coitados haviam renegado a casa das bruxas e produzido a perversa inquisição. Malleus maleficarum.

- Xiii. Silêncio. Não deixe que eles nos escutem – sussurrava Hanayunahama às cinzas de sua amada.

Um grito torpe, en(torpe)cente, urgia da caixa preta, das cinzas das cinzas. O curandeiro, Hanayunahama, não se fez por estúpido e logo colocou sua amada, vítima de horrenda fogueira na Europa narcotizada pela imbecilidade do dogma, num tipi e pediu para uma onça que soprasse em suas narinas os pós de sua amada.

Talvez por este artifício, nunca saberemos, dizem as estórias, contatadas até hoje em sua tribo, que o curandeiro não foi encontrado pelas longas florestas da América Central. Como Zapata, ele ainda ressurge nas lendas e mitos, contados pelos sábios anciões, que sempre repetiram que Hanayunahama está vivo no coração daquele que possa senti-lo.

- Bruxa!!! Bruxaa!!! – A multidão gritava afarofada! Cristãos cruéis recitavam num ritual satânico os mantras da caça às bruxas. “Omne bonum a Deo, omne malum ab homine”. A camponesa de cabelos vermelhos, acusada de bruxaria, feitiçaria, pois teria feito um terrível unguento a base de solanáceas alucinógenas que levariam ao contato do Mal supremo, o anjo decaído, doravante, o DIABO. Pois que foram com estas palavras: diabolum – aquilo que separa – que os cristãos perversos separaram o élan vital do corpo da temida bruxa e o transportaram para bem longe. Para o “Outro” mundo. O mundo da loucura, do instinto, do sensual: as Américas.

Os olhos de Hanayunahama queimavam após a aspiração nasal. É como se tivesse integrado uma parte poderosa da divindade que respirava pelas árvores, pelos cactos, rios ou montanhas. A queimada bruxa vivia e agora era uma proporção dentro do curandeiro. A natureza que permeia a natureza, como forma de outra natureza, aperfeiçoa a beleza do mundo.

Um portal azul. Alguns dizem que fruto da imaginação indígena, outros dizem que da realidade das coisas, o fato é que desde que o tal portal foi visto por um pequeno índio guerreiro nunca mais Hanayunahama foi visto. Um estranho jovem, com roupas esquisitíssimas, por vezes acometia a paisagem dos povos indígenas e não indígenas, levando uma sensação de estranheza e, por vezes, medo. 

sexta-feira, agosto 20, 2010

Da série: Alma em palavras

Ela pediu,
Quando fui a procurar,
Em cada canto daquele manicomio.

Ela pediu,
Quando fui a procurar,
Naquele obscuro, temível e tão belo sonho

Não sei se vou poder,
Nem com toda minha força de viver,
Satisfazer a doçura da sua cor,
Nas pinturas do amor

E em cada traço lançado ao papel,
Sinto a insuficiência das minhas mãos
De trazer, de alguma forma,
A mais singela semelhança
Daquele momento

Um só momento
Seu olho e meu olho
Sua emoção e minha emoção
Nosso sofrimento
Teu adeus

O carro partiu contigo.

segunda-feira, agosto 16, 2010

Imargens amorosas


Sua imagem ainda ronda meus devaneios.

Não se trata apenas de sombra,
Tampouco de seus beijos ou afagos,
Não se trata dos milênios de conversa
Tampouco do desejo e do desvairo

Você realmente mexeu comigo,
Mas não foi apenas você
Não foi a sua pessoa,
Tal como a minha,
Demasiadamente humana.

Foi muito mais inumano.
Foi o inumano em você que me tocou,
Além do toque, além do afago,
Além do beijo, além do sexo.

Foi um amor de comunhão,
Estupidamente emotivo,
Foi um amor de liberdade,
E meu ego perdeu-se nisso

Perdeu-se no apego
Pois há anos sonhava com você,
Naquele belo manicômio,
Correndo sem saber o porque

E, como nos sonhos,
Você fugiu

Por maior claridade que a razão possa dar
O tempo sempre foi anoitecido,
Anoitecendo,
Ou, também, amanhecendo

E sua imagem ainda ronda meus devaneios

Com o tempo,
Com o vento,

Laços inumanos são levados
Para outro canto, para não sei onde,
Mas sobra a certeza de que a liberdade,
A loucura, a estranheza mais bonita,
Jamais apagará do fogo da minha alma.

terça-feira, abril 27, 2010

Congresso Junguiano - RJ

Clickai: http://www.teoriaepraticajunguiana.com/page1.php

sábado, abril 17, 2010

AS-pirações

Luta ardente e louca,

E cada golfada que sobe na bouca

Tu aspiras outro remendo

Para meu coração em sofrimento


Felicidades tais, não tão humanas,

Maravilhas da hybris prometéica

Que ousamos um momento adotar


Lua Negra

Lua Azul


Deuses caem sobre os mortais

Que aspiram superar coisas tais

Pois que,

Tais coisas,

Deixariam os deuses a ver navios

Mais humanos que os homens


Insuflado pela alma louca,

Projetei-me além da felicidade pouca

E o preço tamanho senti

Quando Afrodite emergiu

Bem aqui


Do peito o sofrimento

Quebrada a ilusão do assentamento

Já que tudo, em fantasia

Iria focar-se

Na mais perfeita harmonia


Mas, dizem então,

Afogados pelo afeto

Que isso é cristão demais

Para o mundo de hoje em dia..


Me resta a solidão

De não pertencer a nenhum dos universos


...deve ser isso que Jung dizia..

domingo, abril 11, 2010

Psicopompica naturalis

A iminência da ausência do tempo emergiu de um trovão almático que sussurrou a berros brandos o que tivera de existir: ritos proféticos aliciando a realidade para cumprir teus intentos. Porventura, demasiadamente senil, cactos não-naturais de mentes degenerescentes inibiram o canto de racionalidade torta e o fizeram o brotar de forma torta.

Tortura doravante existência, que murmura a situação cardilosa. Foi através de substâncias não autorizadas pela ANVISA que o jovem depassou o portal dos tempos. Quem diria ele? Cardilosamente persistia, num túnel tal, vermelho amarelado, e surfando em ventos calorosos. Sentidos cruzavam como informações verbais daquela máquina almática.

Certo que certorosos trovões de existência, outrora, duvidosa, agora faziam emergir saraivadas de caos osmótico e vomitezes sacro-e-santas, para usar o dialeto verbal.

Por pura magnifisciência, o douto jugo da experiência fizeste em pranto, aquele que outrora duvidara do algiz do que brotava!

E a ponte des-fez Verbo para torna-se Vida.

domingo, março 21, 2010

Santimento

Devaneio sempre e tanto,

Infame que sou,

Em qualquer canto,

Que só a Razão,

Filha de Apolo e Atená,

Me faria parar de delirar.

Espero que, mesmo que em espanto,

Seja sapiente em seu pranto

Para me abraçar ao me ver chorar

Pois que o Sentido, seja o que for,

É mais único do que poderíamos imaginar.

E nem a morte, nem o sexo,

Um dia irão o determinar.

Aqui-agora, Ali-Adiante,

O-que-passou...

O que me importa o que o sábio falou?

Sou mais eu não sendo quem sou.

... são tantas palavras e tantos gestos,

São tantos gritos e tantos murmúrios,

São tantas gentes, são tantos corpos...

O som, o cheiro, o calor,

A voz, o tempero, o sabor..

O amor,

Pra mim mais forte que qualquer intelectualidade,

Travestida em seu rubor.

segunda-feira, março 15, 2010

Equilibrista

A verdadeira morte, é o sentimento de solidão,
Cair num abismo e ninguem segurar tua mão
Cada equina um demonio
Não muito razoável,
Não escolher seu destino,
E cair num desavario..

Pedras rolando,
Açoite do medo
Quem se é,
Quando se perde o poder,
Para um Outro
Que só se vê a sombra?

segunda-feira, dezembro 21, 2009

Novo blog pronto

Em constrção blog: www.enteogenico.blogspot.com

Bons links,
Inté.
Fernando Beserra.

segunda-feira, novembro 16, 2009

Novo Blog

Pessoal,

Tenho escrito ultimamente no blog: istikhara no domínio delíriocoletivo, que é um domínio criado por discordianos que, para quem não sabe, é uma espécie de religião em forma de piada e uma piada em forma de religião, etc, etc.

Enfim, o fato é que tenho publicado uma história das drogas neste blog, no entanto, penso que o perfil que desejo aos meus textos não se enquadra bem - exatamete pela tal falta de enquadramento - que propõe tal domínio. Não que alguem tenha me cobrado alguma coisa. Sou eu mesmo que pretendo criar um blog que assunte centralmente sobre a questão das substâncias psicoativas, isto é, drogas e abre um campo de debate acerca do movimento antiproibicionista mais ou menos embrionário no Brasil.

Pretende criar um blog que traga os debates internacionais e nacionais sobre a temática e também que possa trazer texto de relevância para o tema sem focar-se excessivamente ou simplesmente na temática de uma droga, p.ex, a maconha.

Procuro pessoas interessadas em escrever neste temática / viés para que não seja um trabalho solitário e possamos no futuro criar redes interessantes com outros blogs, alguns com já uma grande relevância na internet e talvez em um espaço mais amplo.

Por enquanto é só.

Quem quiser entrar em contato,
fernandoacrata@hotmail.com = msn
fernando.beserra@hotmail.com = outro email

Ou pode entrar em contato por via deste blog mesmo.

Um abraço.

segunda-feira, outubro 12, 2009

História das Drogas

Resumidamente, não tenho publicado aqui os últimos posts sobre história das drogas, já que os tenho publicado no blog que passei no último post, i.é, www.istikhara.deliriocoletivo.org

terça-feira, setembro 22, 2009

Novos Blogs

Depois do fim da rica produção dos "diálogos casuais" que resultou em um único aperiódico "Colapso", um novo blog vem a somar-se aos ainda vivos.

Infelizmente não é uma produção coletiva. A única que participo, que é a do Tudismocroned, não tem me atraido o suficientemente. Talvez pela falta de produções Parrachianas, do fim precoce do PIPA e da ausência dos encontros que agradavam....

... De qualquer forma me agradou o projeto "Delírio Coletivo" e apareço um pouco tarde, o que é bom para evitar o excesso da luz do dia, neste estabelecimento da rede de encontros e trans-formações surreais, discordianas, parrachianas, enfim, um conjunção de "anomalias" em relação aos padrões de normalidade estreitos e caracinzas.

Não sei se conseguirei hoje, com o espírito mais solar da minha atual escrita, me aproximar demasiadamente destes padrões não-padrões, no entanto, como me agrada esta rede começei as escrivinhações no blog: www.istikhara.deliriocoletivo.org para tentar fundamentar práticas e modos de compreensão alternativos aos tuneis-realidade do consensuais, mesmo que dentro de minha limitada estranheza (para alguns, evidentemnete) atual.

Não espero, evidente, como uma zona temporaria que este projeto dure demasiadamente, portanto, permanecerei com este blog e com o outro, sendo este blog um centro ou uma memória que, diferente dos pós-modernos de plantão, no momento não me interessa desfazer.

Um abraço para meus queridos e queridas,
E o delicioso chavão para vocês...
Ligue-se, sintonize-se, caia fora!

terça-feira, setembro 01, 2009

Duas questão sobre Drogas



Uma professora, com altos curriculos na área da dependência química, teve a coragem de falar que A) "não existe programa de redução de danos com crack" e B) "não existem pessoas que trabalhem com dependência que sejam a favor da legalização das drogas"...

Ou estas colocações são frutos da ignorância, o que penso ser pouco provavel, ou são intencionalmente apresentadas através de uma ideologia barata, isto é, na tentativa de produção de discursos de direita, proibicionistas.
Para refutar os 2 argumentos em um mesmo livro isso seria fácil: basta ler um dos melhores livros brasileiros sobe o assunto, que surge dos pesquisadores e trabalhadores na área da farmacodependência da UNIFESP: "Panorama atual de drogas e dependências" organizado pelo Dartiu Xavier da Silveira e pela Fernanda Moreira, livro que já citei neste blog...

Segue uma pequena parte do artigo "Estratégia de Redução de Danos entre Usuários de Crack" de Andrea Domanico e Edward MacRae

Uso de Maconha como Forma de Tratamento de Usuários de Crack:

"Em várias regiões onde predomina o uso de opiáceos, tem considerável sucesso o recurso a tratamentos de substituição. Nesses, os dependentes de heroína ou morfina são incentivados a diminuírem o uso dessas substâncias, utilizando em seu lugar outro opicáceo, como a metadona, também causadora de dependência, mas considerada menos danosa. Até agora pouco se tem feito nesse sentido com dependentes de cocaina. Assim, é interessante examinar um projeto pioneiro desenvolvido entre usuários de crack buscando tratamento no Programa de Orientação e Atendimento a Dependentes na Universidade Federal de São Paulo (PROAD/UNIFESP). Nesse estudo foram acompanhados 24 indivíduos do sexo masculino por 12 meses "que referiam nas primeiras consultas que vinham usando maconha como uma forma de atenuar os sintomas de abstinência do crack". Alegavam que a cannabis trazia uma redução da ansiedade assim como mudanças subjetivas e concretas em seus comportamentos. Após fazerem espontaneamente esse tipo de relato ao clínico, os pacientes deixavam de receber qualquer medicação para sintomas de abstinência. Ao final do tempo, 70% desses usuários reportaram ter deixado de usar crack e, após um aumento inicial, a própria frequência do uso da maconha tendia a diminuir.

Devido à natureza ilícita do uso da cannabis, projetos de substituição encontram grande resistência por parte das autoridades de saúde e de médicos em geral, tornando-se de dificil execução e replicação, o que é lamentável tendo em vista as dificuldades apresentadas pelo tratamento clínico da dependência de crack e a necessidade de novas maneiras de abordá-lo. Mais uma vez evidencia-se o aspecto contraproducente da atual política proibicionista que se tenta implementar em relação ao consumo de certas drogas".

Outros modos de redução de danos citadas: Cinema na Rua - experiência em Salvador ; O uso de filtro - experiência de Santos ; Cachimbos Individuais - Juiz de Fora ;

E sobre "Algumas sugestões para reduzir danos decorrentes do uso da cannabis" dentro do artigo "Redução de Danos para o Uso da Cannabis" de Edward MacRae, temos escrito:

a - Reconhecendo que os piores danos do uso da cannabis advêm do seu status ilícito, defender a legalização e regulamentação da disponibilidade dessa substância e seus derivados e, possivelmente, dos psicoativos em geral. Ajudaria-se, assim, a evitar o desenvolvimento de estruturas criminosas e violentas associadas ao tráfico e a assegurar um controle de qualidade. Valeria também reconhecer a importância de usos formais e ritualísticos de enteógenos como modelo de redução de danos.

b - Enquanto ainda predominam políticas proibicionistas, buscar parecerias com faculdades de direito para constituir grupos de defesa jurídica para usuários presos pela polícia, e procurar contatos com órgãos de defensoria pública, chamando sua atenção para problemas específicos dos usuários de drogas em sua relação com a lei.

c - Fomentar a disseminação e a discussão em torno dos saberes eruditos e leigos existentes a respeito dos psicoativos. Para tanto serviriam publicações dos mais diversos tipos, a criação de sites na Internet e a constituição de grupos de discussão para usuários.

d - Apontar que, embora relativamente inócuo, o uso da cannabis não deixa de apresentar seus perigos, assim com o de outras drogas, lícitas ou ilícitas, sendo indicada a busca de estratégias para reduzir seus danos.

e - Reduzir o sensacionalismo em torno do tema, chamando atenção para aspectos mais amplos do uso de psicoativos lícitos e ilícitos, deixando de enfocar exclusivamente a cannabis. Paralelamente é importante desmitologizar a figura do "traficante", já que sua representação atual como uma poderosa ameaça à ordem social instituída o torno um modelo extremamente atraente para aqueles que se sentem excluídos de seus benefícios, além de dificultar abordagens mais eficazes para os diversos problemas que o uso de drogas apresenta de fato para a saúde física, psíquica e social da população.

f - Incentivar discussões entre intrageracionais sobre o tema de maneira isenta de preconceitos. Para tanto se podem incentivar debates nas escolas, famílias, grupo de jovens, etc., sobre a questão, deixando aflorar novas perspectivas e sugestões.

g - Evitar posturas de censura, tanto em discussões familiares quanto públicas sobre o tema e buscar incentivar o desenvolvimento de normas, regras de conduta e rituais sociais relacionados aos métodos de aquisição e consumo, à seleção do meio físico e social para o uso, às atividades empreendidas sob o efeito da substância e às formas de evitar efeitos indesejados.

h - Promover uma melhoria na estruturação da vida do usuário, combatendo sua marginalização econômica, social e cultural. Tendo em vista a estrutura essencialmente desigual e pouco democrática da nossa sociedade, isso pode parecer irrealista por ser demasiadamente ambicioso, mas a instituição de programas, oficiais ou não, de redução de danos e a criação de grupos de usuários são passos iniciais que podem ser tomados nesta direção.

i - Promover serviços de atendimento psicológico e social especializados, para aqueles que apresentam dificuldades em estabelecer uma relação controlada da substância. Estes poderiam visar ao deslocamento do lugar ocupado pela droga na vida do usuário, de maneira a retirar a sua centralidade e a dimiuir sua carga simbólica e afetiva.

MacRae ainda dá algumas dicas, que extrapolam a finalidade do questionamento da professorinha, no entanto, já que falamos de redução de danos com a cannabis, nada mais justo...

Evitar reter o fumo no pulmão mais que alguns segundos. Isto basta para absorver grande parte do THC, o resto do tempo representando uma exposição desnecessária aos componentes cancerígenos do fumo como o alcatrão.



Evitar a presença de fungos que possam afetar o sistema respiratório (pode-se sugerir deixar a cannabis ao sol ou aquecê-la no forno brando), assim como produtos químicos, como amônia, que podem vir misturados com a droga (nesse caso recomenda-se deixar o produto imerso na água durante algumas horas e depois secá-lo ao ar livre ou em forno brando). Igualmente, ao enrolar baseados, seria recomendável usar papel fino, desprovido ao máximo de corantes e outros produtos químicos, sendo também importante evitar “maricas” e cachimbos de plástico ou outros materiais que possam soltar vapores tóxicos ao serem aquecidos.



Evitar um fumo demasiadamente quente, deixando de fumar pontas, utilizando cachimbos de água, ou, mais simplesmente, improvisando um cachimbo com a mão (prendendo o baseado entre os dedos, fazendo um oco com a mão fechada e aspirando através dele).



Não usar filtros de cigarro em baseados, já que eles podem reter muito o THC e aumentam a absorção de tóxicos como o alcatrão. Atualmente já existem na Europa vaporizadores e outros produtos que permitem inalar os vapores de THC sem levar a cannabis à combustão.


Um abraço queridos e queridas e até a próxima!
(e no próximo capítulo: bate papo sobre a história das drogas)

sexta-feira, agosto 21, 2009

Nós, os drogados



Queridos e queridas, vou tentar este final de semana colocar um texto sobre o tema “história das drogas” que escrevi há algum tempo, com alguns aprimoramentos, aqui no blog.

Sobre o tema “Drogas”, hoje (21/08) ocorre na Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) o início da “Comissão Sobre Drogas” que discutira o tema (confira em: http://oglobo.globo.com/blogs/sobredrogas/posts/2009/08/14/comissao-sobre-drogas-tera-juristas-banqueiros-celebridades-214260.asp ), no entanto, acho infeliz que o dialogo sobre o assunto se dê em portas fechadas, sem proximidade a ativistas da legalização e de trabalhadores da saúde mental (CAPS ad).

De qualquer forma a Comissão procurará re-ver as leis atuais, pensando nas alternativas como a descriminalização, fim da punição ao porte de pequenas quantidades de maconha e, o que eu achei mais interessante, a possibilidade do usuário de maconha ter sua plantação caseira sem ser punido. Ou seja, estas medidas podem ter efeitos muito positivos para contornar a atual hipocrisia vivida na nossa legislação e política, assim como, permitir um duro golpe no crime organizado.

Ademais, um projeto para a legalização da cannabis para consumo pessoal está sendo produzido pelo bloco de esquerda em Portugal ( http://www.stopthedrugwar.org/ ou aqui: http://www.psicotropicus.org/publicacoes ) que desde o início do século XXI já avançou muito na superação das legislações proibicionistas que resultaram em fracassos terríveis do ponto de vista humano e social.


Nota: Acerca do título me inspirei em Craig McClure:


“Gostaria de apresentar três observações que tenho feito quanto à resposta ao HIV no que se relaciona ao uso de drogas e à redução de danos.Todas são baseadas no medo. Minha primeira observação é como continuamos a falar de pessoas que usam drogas como “o outro”. Empregamos os termos “usuários de drogas” e “pessoas que usam drogas” como se alguns de nós não usássemos drogas. Mas, cá entre nós, quem não usa alguma droga que altera o humor, a consciência da dor, ou nosso estado físico ou emocional? Um alucinógeno, um estimulante, um comprimido de ecstasy, um tranqüilizante. Até os últimos três presidentes dos Estados Unidos admitiram ter usado algumas delas. Uma cerveja, um copo de vinho, uma dose de uísque. Um cigarro. Uma xícara de café ou de chá. Um remédio para dor, um antidepressivo, um valium, uma pílula de dormir.Somos todos pessoas que usam drogas e a nossa recusa em admitir isso é a expressão do medo de que “nós” seremos transformados ou vistos com um “deles”. Enquanto continuarmos definindo o usuário de drogas como “o outro” e definindo a droga em si como o problema, estaremos presos nos nossos mal conduzidos e danosos programas e políticas”.
obs2: Na foto Tim Leary, J. Lennon, et al.

quarta-feira, julho 29, 2009

Ellen West - Revolucionária!

Ellen West fora diagnosticada como Melancolica por Kraepelin. Ellen West teve que cessar o relacionamento com seu marido porque o analista dela assim o quis, contra a sua vontade. Ellen West terminou dois noivados por desejos paternos.

Diante de tamanha ordenação, em seu desordenamento tentou matar-se algumas vezes.

Em consulta, ainda em portas abertas, com Bleuler e Binswanger, foi rotulada Esquizofrenica (psicose esquizofrenica progressiva).

Eis então que para seu primeiro analista Ellen West fora histérica, para seu segundo fora Obsessiva Compulsiva com oscilações maníaco-depressiva, para Kraepelin melacolica, um outro psiquiatra encontrou neurastenia. Finalmente para um dos papas da psiquiatria existencial, num de seus piores momentos, Ellen West era esquizofrenica.

Talvez a menina tenha tentado se matar por ser leitora de Goethe.

As suas palavras, no entanto, são significativas:

Ela estava amarrada...

...por correntes de ferro da vida ordinária, da convenção, da propriedade, do conforto, da gratidão, da consideração e do amor. Sim, são estas coisas que me amarram, que me impedem de experimentar um renascimento tempestuoso, uma absorção completa no mundo da luta e sacrifício pelos quais minha alma suspira. Deus do céu. o medo está me deixando louca! Um medo que é quase sempre uma certeza! A consciência de que afinal eu vou perder tudo; toda a coragem, toda a capacidade de revoltar-me, toda a vontade de agir; que ele - meu pequeno mundo - me fará mole; mole, pusilânime e miserável como eles mesmos são.

Ellen West sucidou-se logo após sair da internação.

E ainda suas palavras ecoam, por nossa tragicômica vida torporosa!

terça-feira, junho 16, 2009

Introdução a Antipsiquiatria: PARTE II



SOBRE OS TRATAMENTOS: PARTE II

“Não é talvez excessivamente absurdo afirmar que, com muita freqüência, é quando as pessoas começam a ficar mentalmente sadias que elas entram no hospital psiquiátrico” David Cooper


Considerando as considerações expostas no 1º post, identificamos que a estratégia básica do modelo hegemônico em psiquiatria só pode ser praticada a partir da uma pseudo-relação (sujeito-objeto), onde é essencialmente o psiquiatra que formula a verdade da loucura, a verdade do louco e, consequentemente, os tratamentos que permitirão a normalização, a adaptação do louco a atual sociedade. Portanto, a psiquiatria reforça, fortalece o status quo, a sociedade capitalista, a padronização das relações pessoais, em suma, toda a gama de comportamentos considerados aceitáveis num determinado contexto histórico. A neutralidade se situa como uma fantasia historicamente engendrada e alienante, na medida em que o sentido ideológico é camuflado, obscurecendo o sentido da práxis efetiva no mundo.

Ronald Laing questiona essa adaptação e a simulação de neutralidade sustentada pelo modelo positivista psiquiátrico. Não é natural a atitude de Pinel que ao “libertar os loucos”, acaba por prendê-los novamente, ou exclusivamente e institui o tratamento moral. Na invenção da psiquiatria não são questionados os efeitos histórico-sociais na emergência da loucura, ela é tomada como uma entidade per se, ahistórica e pouco influenciável em sua origem pelas relações humanas e sociais. Laing, Cooper e outros começarão a questionar justamente esta produção social, e vão considerar as patologias, se é que podemos dizer assim, da própria sociedade. Sob este viés a adaptação a uma sociedade louca seria a maior das loucuras.

Mais do que a loucura como produto de determinadas produções sociais (p.ex, intraestrutura econômica determinando a psique[1]), os antipsiquiatras vão começar a destacar como essencial na emergência do split sujeito-meio circundante, na produção de um território existencial alheio ao mundo do consenso, a influência de tipos específicos de relação interpessoal que atravessam grande parte do tecido social. Nesse viés, a loucura seria uma espécie de defesa contra a mais radical alienação, aquele onde o sujeito deixa de ser-para-si e passa a ser-para-o-outro, passa a ser uma extensão objetal para aquele olhar que, diante a insegurança ontológica do sujeito com sofrimento mental, pode significar uma perda de si. A perda de si e de sua auto-nomia produzem no sujeito uma noção de irrealidade, reforçada pelo medo de perder-se no outro. Laing vai fazer essas considerações especialmente num estudo fenomenológico da loucura, ainda na década de 50, chamado de “O Eu Dividido”, onde tipifica estes modos de perigo da perda-de-si, como, por exemplo, a absorção, a petrificação, a despersonalização e a implosão.

Então, neste primeiro momento, muito influenciado pela psicanálise e pelo existencialismo de Sartre, Laing ainda se vale mais abertamente dos rótulos: esquizofrênico, esquizofrenia, psicose, psicopatia/psicopata e o diferenciado “esquizóide”. Em Psiquiatria e Anti-psiquiatria Cooper faz a ressalva de que apesar de ter utilizado tais termos, considera que os mesmos devem ser superados[2]. No livro citado, Laing trabalha em cima de uma visão de que “o esquizofrênico” procuraria devido a uma fragilidade (insegurança ontológica) formada na infância (ontogenéticamente), se afastar das relações com os outros por estas se tornarem inviáveis. Cita casos onde pessoas que posteriormente receberiam o diagnóstico de “esquizofrenia” teriam sido tratadas como objeto, como “inexistentes” dentro de sua própria casa por seus familiares (mesmo quando há um zelo excessivo, o sujeito é um apêndice, uma extensão). Decorre desta forma de relação muitas dificuldades de auto-reconhecimento como sujeito autônomo, se não pode ser visto em sua diferença, ser reconhecido no olhar do outro, acaba acometido por sensações de irrealidade, na procura de sua identidade. Procura fazer tudo para agradar, repete comportamentos, e muitas vezes é aquela pessoa ideal, onde esse = percipi (ser é ser percebido), no entanto, seu verdadeiro Self encontra-se interiorizado, e tudo o que desvela, mostra de si, é uma fachada resultante de uma disjunção “Self” – “Falso Self”. Protege seu verdadeiro Self no mais profundo, mas esta defesa é desde sempre falha, na medida em que a) o falso-self progressivamente aumenta sua autonomia; b) uma enorme angustia é vivida na crescente sensação de irrealidade; c) toda realidade que é escondida se torna, através de uma constante, quiçá obsessiva, consciência de si, uma grande culpa e medo, culpa por não ser quem aparenta ser (sente-se cada vez mais tenebroso, na medida em que aumenta a raiva/ ódio), e teme que o olhar do outro atravesse sua couraça, isto é, sua persona e revele o irrevelável. Daí decorre uma série de fugas do outro. O self quer se ver descoberto, mas esta descoberta é tremendamente angustiante e o caminho muitas vezes é de reforço do falso-self, num caminho cíclico de auto-perpetuação da angustia até o aparecimento dos chamados sintomas prodrômicos ou a crise psicótica.

Como podem ver os esquemas lainguianos da década de 50 ainda permanecem com algumas categorias que serão re-vistas posteriormente. O termo anti-psiquiatria nasce em 67 quando Cooper escreve: “Psiquiatria e Anti-psiquiatria”, momento onde ele e também Laing estavam desenvolvendo métodos de terapia alternativos trabalhando tanto com os pacientes como seus familiares, daí nasce uma experiência bem interessante, a chamada vila 61. Essa experiência é influenciada pela comunidade terapêutica de Maxwell Jones que começara na Inglaterra numa tentativa de re-formular o espaço asilar (consagrado como experiência em 1959). De acordo com Paulo Amarante, citado por Ana Paula Gujor[3] em sua dissertação de mestrado, a comunidade terapêutica se caracterizava como “um processo de reformas institucionais, predominantemente restritas ao hospital psiquiátrico, e marcadas pela adoção de medidas administrativas democráticas, participativas e coletivas, objetivando a transformação da dinâmica institucional asilar”. A vila 61, embora em seu início tenha sido influenciada pelas dinâmicas da comunidade terapêutica, já se vale de um modelo teórico relacional e existencial. Nesta experiência original a suposição básica é que a esquizofrenia não é em si uma doença, uma patologia do sujeito, mas que a questão está na relação entre os membros de uma família e, de forma mais ampla, entre os membros de uma determinada comunidade. Cooper nos diz que: “A esquizofrenia, se é que significa alguma coisa, constitui m modo mais ou menos característico de comportamento grupal perturbado. Não existem esquizofrênicos”. Neste caso o sujeito que apresenta os assim nomeados sintomas psicóticos seria muito mais o bode expiatório do que um doente.

A vila 61 foi fundada em 1962 e Cooper manteve-se em sua direção até 1966. Ela foi fundada dentro de um grande hospital de “doenças mentais” ao noroeste de Londres. De acordo com Cooper: “A tarefa que escolhi (...) consiste em desenvolver uma unidade especificamente orientada no sentido do problema dos jovens, que recentemente ganharam o rótulo de ‘esquizofrenia’, na qual a abordagem se basearia numa compreensão da esquizofrenia, não como entidade mórbida, porém, como certo conjunto mais ou menos especificável de padrões de interação pessoal, ou seja, da esquizofrenia não como acontecendo em uma pessoa, mas, ao invés, como algo entre pessoas. Iríamos tentar, de fato, prescindir do que Don Jackson descreveu como ‘essa maldição da psiquiatria moderna, o paciente identificado’”. Os métodos de trabalho, portanto, focavam-se em A) trabalhos de grupo orientados não analiticamente ; B) terapia familiar ; C) grupo entre os funcionários, colocando em questão a irracionalidade institucional entre os próprios técnicos, isto é, aonde ainda estes sustentariam antigos estereótipos do imaginário social, como a idéia de que o “esquizofrênico” é violento, perturbado, contagioso, etc. Muitas vezes a violência do dito esquizofrênico se manifesta quando o mesmo é exposto a uma violência real (p.ex, a camisa de força), e repressões não passiveis de explicação clara, desde a repressão física, até a química.

Outro foco importante nesta experiência é o valor dado a autonomia. Acreditava-se que se deixado livre para escolher o “doente mental” ficaria o dia inteiro, e todo dia, deitado na cama e não faria absolutamente nada. Cooper organiza a vila 61 dando uma autonomia até então nunca vista para os pacientes, onde poderiam levantar a hora que quisessem de suas camas, e tivessem uma liberdade ampliada de ações. O resultado da ação causou tanto grandes tensões, inclusive entre vários enfermeiros, como também desfez alguns mitos, na medida em que muitos passaram a arrumar suas camas, fazer muitas coisas com maior autonomia, embora, acordassem mais tarde. Não seguiam a risca o “esperado” pelo desejo dos outros e, por outro lado, alcançavam crescentes “graus” de autonomia. Se esse tipo de rebeldia (não fazer o esperado) é característico, isso se deve, em parte, a forma como o serviço se organiza; muitos dos pacientes, se seguirmos o modelo existencial de Laing, eram extremamente obedientes e adaptados aos desejos dos pais ou sociais sobre eles antes de seus “surtos”. Teríamos a imagem da falta de autonomia que continua no hospital psiquiátrico, até de forma radicalizada; doravante toda a vida do sujeito é ordenada por outros, fortalecendo ou produzindo o que Goofman em “Manicômios, Prisões e Conventos” chama de “mortificação do eu”. Existe um tipo de sofrimento, alienação que mais do que tendo sua causa em suas relações familiares ou com a sociedade mais ampla, se funda na própria instituição asilar, o que foi chamado de neurose institucional e posteriormente de “o duplo da doença” por Basaglia na experiência da psiquiatria democrática italiana. Podemos concluir que a instituição manicomial radicaliza o tipo de situação agenciadora do surto e do “fracasso” do sujeito dentro de sua família. Então nessa rebeldia, apesar de seus aparentes “sintomas negativos” como “embotamento afetivo” se trata, em alguns casos, de clara insubmissão e um movimento de saúde, uma ultrapassagem da condição alienada e submissa anterior.

Se levarmos adiante esta idéia, o terapeuta deve estar ao lado da pessoa em sofrimento mental, mais do que ordenando sua experiência, lhe dando todas as formas prontas para resolução de problemas, o que implicaria em adaptação ao molde do terapeuta ou de um âmbito mais ou menos geral da sociedade. Em determinado momento Laing e Cooper comparam a experiência do louco com a desintegração, o desmembramento pelo qual passavam os xamãs, muito embora, os xamãs tivessem uma forma mais adequada de lidar com tal experiência. Se em nossa sociedade não encontramos mais as fórmulas para lidar com estas experiências, cabe ao terapeuta acompanhá-las e situar-se com sua presença, e com sua compreensão para facilitar que a viagem que o “louco” começou suceda da melhor forma possível. Cooper nos diz que “A experiência psicótica, contando com orientação correta, é capaz de conduzir a um estado humano mais avançado, porém, muito freqüentemente, é convertida pela experiência psiquiátrica num estado de paralisia e de estultificação da pessoa”. Se a experiência da loucura se compara a catábasis[4], deve haver uma anábasis (subida ou saída do Hades). O ditado Zen diz: “Aquele que perdeu sua vida a encontrará”, mas em alguns casos, a perda acomete o sujeito de uma tal forma que o mesmo não encontra forças em si mesmo para reagir ao dilaceramento e não consegue re-estruturar-se e, ainda pior, acaba encontrando ao invés de um curandeiro um psiquiatra que o encherá de psicofármacos para obnubilar a experiência, um psicólogo que lidará com ele como se fosse de sua “estrutura” a psicose enquanto uma realidade factual. Não se quer ignorar com isso todos os fatores que podem favorecer uma experiência de sofrimento atroz, mas re-lembrar a base existencialista: além de tudo que fizeram com você, importa o que você faz com tudo isso que fizeram de você. E quais são os instrumentos atuais para lidar com tal experiência de forma mais promissora?

Situamo-nos aqui no lugar da atenção ao outro, ao ponto de Laing nos contar que acredita que o terapeuta ideal é aquele que age como um mestre zen. A não-ação, wu wei, em alguns momentos é um respeito ao silêncio e ao tempo do outro, uma forma de relação não diretiva. A posição é de criação de um espaço de continência, de cuidado, onde “o caminho que se pode falar não é o caminho”. São belas as palavras de Laing ao nos dizer que compreensão, mais do que a dupla análise interpretativa (redução histórica + consideração da situação presente) é amor. Acerca da não ação, citemos Laing em “Sobre Loucos e Sãos”:

“Estou convencido, porém, de que alguns experimentam estados mentais extremamente desagradáveis. Essencialmente, a única maneira que essas pessoas têm para sair deles é conquistar a capacidade de olhar, ou seja, simplesmente prestar atenção ao que acontece, sem fazer qualquer coisa. Chame de Zen, Chan, Satipathana, não importa. Se eles conseguem, de uma maneira ou de outra, abandonar-se sem sobrepor seus caprichos, então de todo este caos parece começar a surgir uma migalha de ordem”.


Para finalizar, lembremos que David Cooper nos fala acerca da necessidade de novos modelos arquitetônicos - políticos no atendimento, em sua época fundamentalmente baseados no isolamento e no âmbito asilar-hospitalar, e que os espaços de tratamentos caminhem em direção a comunidade, o que será radicalizado e efetivado com a psiquiatria democrática de Franco Basaglia a experiência italiana, que tanto influenciou a orientação da saúde mental brasileira. Caso o aspirante a escrivinhão aqui não morra na praia, a experiência da psiquiatria italiana será um dos assuntos futuros aqui no Blog.

Inté 2 pessoar!





[1] - Essa modalidade de teleologia é considerada fruto da razão analítica na leitura da Sartre feita por Laing e Cooper, na medida em que o positivismo e sua razão produzem esse tipo de esterilização do conhecimento, tomando totalizações como totalidades, desistoricizando, por conseguinte, a história (a relativização dos aboslutos). Contrapõem-se a esta leitura fatalista a concepção da razão dialética.

[3] - Gujor, Ana Paula. Os Centros de Atenção Psicossocial: Um estudo sobre a transformação do modelo assistencial em saúde mental, 2003.


[4] - Descida ao Hades no mundo Grego, aliás, a passagem de nível da Terra o Hades é feita através, p.ex, de Hermes, um psicopompo, um atravessador de dimensões, daí, hermenêutica. A hermenêutica também influenciou, até onde me é dado saber, as formulações anti-psiquiatricas.

terça-feira, junho 02, 2009

Introdução à Anti-Psiquiatria



Introdução à Anti-Psiquiatria


PARTE I:

A anti-psiquiatria começa a se formar no final dos anos 50, é nomeada como tal por Cooper em 1967, época em que foram produzidas muitas mutações sociais, muitas das quais continuaram nos estranhos, belos e turbulentos anos 70. Uma delas é a reviravolta sobre o saber psiquiátrico, inicialmente com o escocês Ronald Laing (1927 – 1989), Aaron Esterson e o sul africano David Cooper (1931-1986). Uma questão fundamental para estes autores é a violência cometida pelo saber psiquiátrico e pelas suas práticas no “tratamento” do assim designado “doente mental”.

A crítica epistemológica inicial é de que não seria possível a passagem do modelo de ciências naturais para a relação entre pessoas da forma como aconteceu na formação da psiquiatria, o que só poderia produzir confusão metodológica. Para tentar sustentar o rigor do saber científico clássico, seria necessário lidar com uma relação sujeito-objeto (S-O), ou S vis-à-vis O, onde ambos encontrar-se-iam de forma passiva, quer dizer, o sujeito conhecedor colocaria entre parêntesis sua pessoalidade e o objeto seria inerentemente passivo (uma planta, uma molécula, etc.). Nas ciências humanas, entretanto, isso não é possível nem sequer na separação pineliniana que procurou separar os “doentes mentais” de outras pessoas internadas no século XVIII, período onde se construiu o que Foucault (História da Loucura na Idade Clássica) chama de “A Grande Internação”, onde eram internados todos os tipos de “problemáticos”, passando por alcoólatras, “loucos”, “vagabundos”, “mendigos”, ladrões, magistas, etc, num mesmo espaço de confinamento a partir da condenação moral. Na separação aristotélica das categorias inventadas continuam a existir pessoas ao invés de apenas categorias; é de suma importância lembrar que se existe uma natureza humana o que caracteriza esta natureza é ser justamente possibilidade de possibilidade, ou seja, diante do fenômeno classificatório naturalista é perdida esta condição humana. Hegel chamava o ato lógico de negação e ultrapassagem em um sistema dialético de Aufhebung, o que Sartre posteriormente traduziu para o francês como depassér e foi traduzido para o português como depassagem. Considerando esta situação humana é impossível de uma vez por todas a previsibilidade total de sistemas altamente complexos, assim, em “ciências do homem” não é viável o projeto de Francis Bacon de dominação/manipulação plena do objeto.

Então para a psiquiatria fundar a loucura, tomando a esquizofrenia como loucura prototípica, como entidade nosológica ela deveria propor não apenas uma classificação descritiva dos sintomas (sinais, signos), mas também descobrir uma explicação causal para tal patologia, na medida em que é do fundamento da noção de doença sua atribuição causal. No entanto, não foi possível encontrar, até hoje, uma causa definitiva para a esquizofrenia, embora muito se hipotetize. A abstração do sujeito do seu meio social, como forma de procurar a essência da loucura é outro erro nos fundamentos do conhecimento, na medida em que o sujeito está necessariamente, pré-reflexivamente, no mundo, ou seja, a relação paciente – tratador é eminentemente S-O vis-à-vis S-O, em outras palavras, a relação entre dois sujeitos.

A relação entre dois sujeitos implica pelo menos: o que eu experiencio de mim, o que experiencio que o outro experiencia, o que experiencio que o outro experiencia que eu experiencio e o mesmo vale para o outro sujeito, o qual só tenho acesso a experiência a partir da sua objetivação, isto é, na sua saída de si para o mundo. Neste momento ao objetivar-se o paciente se torna, a partir da racionalidade analítica, objeto de meu olhar que procura a verificação e a falseabilidade de hipóteses e trato o sujeito, com sua totalização[1], como totalidade e ao fazer isso engendro uma desistorização do outro, alienando-o de seu potencial humano. Assim vai se constituindo por meio de uma classificação, onde a analogia se torna homologia, a institucionalização daquela pessoa, pessoa que doravante vai ser atravessada pelo rótulo: inválido. Nesse caminho os profissionais de saúde acabam produzindo enfermidade, pois limitam:

A) As possibilidade de re-organização social daquela sujeito no seu contexto mais amplo, especialmente se o contexto mais amplo não é trabalhado.

B) Que o sujeito viva aquela experiência de desintegração e retorne dela de um outro modo (que possa terminar a viajem que começou).

A alienação do potencial humano por parte dos agentes de saúde se dá através de alguns movimentos, como, p.ex, o divorcio instituído entre práxis e intenção; doravante não é o sujeito que, em seu devir, pratica uma ação que lhe diz respeito, essa ação passa a ser fruto, resultado, de uma doença, de uma entidade, então “não é ele que faz o que faz”, é a Doença, é a alteração serotoninérgica, etc. Os meus atos para mim se tornam meus atos para o outro (eis o que Cooper chama de alienação primária, em diferença da alienação secundária elaborada por Marx). Com isso, evidente, não se quer dizer que todo ato tenha um fundamento consciente e elaborado por um Eu, entretanto, faz parte de algo inteligível para a história daquele sujeito, mesmo quando possui, e a consideração aqui é de todo minha, bases arquetípicas (seja dito também, Laing e Cooper tinham manifestas influencias de Jung).

Existe ainda uma outra questão sobre a “origem de conhecimento” da classificação psiquiátrica. Se a classificação fosse universal ao invés de situacional, ela deveria se repetir de qualquer modo, entretanto, faz-se necessário saber se a classificação “esquizofrênico”, “doente mental”, se produz com mais facilidade em determinados contextos específicos, p.ex, no consultório de um psiquiatra, num Centro de Atenção Psicossocial ou numa internação de “doentes mentais”. Será que um neurótico mais ou menos confuso ingressaria na carreira de doente num ambiente tal e num outro ambiente receberia outro rótulo, outra visão completamente diferente? Qual é, em última medida, a influência da imagem (paisagem, contexto) na construção do diagnóstico psiquiátrico? De acordo com Laing todo traço que supomos ser subjetividade é, em última instância, inter-subjetividade. Não seria possível, neste caso, observar uma essência, coisa-em-si do fenômeno nomeado de sintoma. Ainda é o mesmo autor que nos fala sobre a modificação do comportamento do suposto esquizofrênico diante do avental branco do médico, e nos presenteia com suas palavras na entrevista com Vicenzo Caretti em “Sobre loucos e sãos”: “Muito bem, estou convencido – é uma convicção que deriva de uma experiência de vinte anos e que partilho com muitos outros – que a experiência daria o seguinte resultado (nota: a avaliação dos “pacientes” em diferentes contextos): quando o hipotético esquizofrênico é tratado como tal, o índice de esquizofrenia é dez vezes mais elevado do que quando é tratado como uma pessoa qualquer”. Não é sem razão, portanto, que o surgimento da psiquiatria preventiva nos EUA tenha “resultado” num aumento de casos de psicose.

Tentei produzir aqui um pequeno panorama não sistemático das criticas epistemológicas dos anti-psiquiatras a psiquiatria dita clássica. Espero que tenha sido de proveito para os leitores e que faça emergir questões. A próxima parte, caso ninguém se manifeste propondo alguma outra coisa, será: “Sobre os Tratamentos: Parte II”, isto é, o que a anti-psiquiatria funda no âmbito da atenção a saúde das pessoas com sofrimento psíquico, especialmente as rotuladas como “esquizofrênicas”.

Inté Pessoar!


[1] - Totalização é um termo de J. P. Sartre que abarca uma unidade plural incompleta, isto é, um sistema aberto. Sartre diferencia justamente seu termo de totalidade, na medida em que a totalidade é fechada e inerte, é o que é.

(A Foto é do Ronald Laing).

terça-feira, maio 19, 2009

Tempo



Estava lendo o antigo blog em que escreviamos eu, João H., A. Guerra e Mr.Poulain, o famoso, ou não tão famoso assim, Diálogos Casuais (http://dedoscruzados.blogspot.com/). E que sentimento de nostalgia! Há pouco, vejam só, e parece tanto... e aquele atravessamento de uma lembrança vivida, de uma esperança semi-morta de uma grande transformação.



Não que nesta época eu fosse tão ingenuo quanto há anos antes, no auge de minha adolescência, quando gritava com as roupas, os cabelos e até mesmo com a boca! palavras de (des)ordem, acreditando que o mundo poderia mudar de forma radical de um momento para o outro. Agente da revolução.


Mas, este sentimento de transformação, esta função transcendente in loco é algo de extremamente prazeroso e produz, no mínimo, uma mutação subterranea, nas entranhas. Sinto que o que sinto é algo de mais coletivo para um novo estágio da vida, aquele do trabalhador, do pai de família. Uma constelação, forma vazia atualizada pelos destroços contemporâneos.


Claro, traz muitas belezas singulares, no entanto, na compreensão da sombra, o quanto traz de tenebroso! O tempo se desvela de vez com seus ares mais perversos, o engolidor! Não é por menos que seu filho teve que abrir sua barriga e castrá-lo! Dinâmica compreensível quanto se vive este tipo de correria.


É um tempo que se você não o acompanha, com produtividade a mil, você é atropelado, massacrado, ferido, desqualificado. E, por outro lado, se você o segue, você se torna um quase-fantoche, manipulado pelas pressões atmosféricas. Do coração aos poucos é apagada aquela esperança, aquele calor tropical.


Típico tempo do capitalismo. Nestas horas é mais difícil levar a ferro e fogo as considerações sartreanas de liberdade, quer dizer, quando se está além do próprio ego, quando se está além de si na construção de uma família, o terror é mais tenebroso, a sombra se torna maior, tal como a luz, evidentemente. A enantiodromia funciona de forma mais radical, e haja couraça, haja carapaça para segurar a peteca!


Os povos do mundo inteiro, submetidos a condições desumanas, e mesmo aqueles de classe média, submetidos a lógica do capital, são verdadeiramente heróicos por suportarem tamanha carga. A imagem não tão heróica é a do jumento. Isso não significa, en conséquence, que sejam todos limpinhos e bonitinhos! Ideologias obscuras e trejeitos desumanos se constituem no seio dos dominantes e dos dominados. Mecanismos de poder, ações de poder-sobre atrevessam as menores e mais singulares veredas e transformam a multi-colorida auto-poiesis, a auto-gestão, em artimanhas de exclusão e dominação. O império se alastra sem bandeiras!


O olhar se torna cinza. O espetáculo da vida real exige um esforço sobre-humano para ser superado pela experiência humana, possibildiade de possibilidade. Uma relação autêntica, um sorriso, em algumas circunstâncias, são atos revolucionários!

quarta-feira, maio 06, 2009

Morto no Império.

Para uma dinâmica perversa, uma rosto apático surge no horizonte. Atravessado pelo odor do capital. Axiologia diabólica, mirabolante, tramada mais pela lógica das relações capitalistas do que por sujeitos com poder, dinheiro ou fama, não que, é evidente, os sujeitos concretos/individuais não tenham suas culpas, suas responsabilidades, o que é preciso ser dito.


O império nos atravessa com pouco, quase nenhuma, mediação. Sem pátria, sem rosto. Onipresente. Resistimos a uma entidade invisível e os ciclos de resistência não se alastram mais. Existem mais como rápidos fluxos de aparecimento/desaparecimento. Ou são continuas construções que ficam a margem do Big Eye.


Dia-bólico é aquilo que, ao contrário de sim-bólico, afasta. O que afasta é o que mata, pulsão de morte psicanalítica, porém, está longe de ser algo do jogo particular/universal/particular. Afastados como reificação, monadas reais, como se a noção leibziniana presentificasse de uma vez por todas. E a política da imanência grita ainda, como um grito primal, um rugido, de um deus pagão enlatado.


É a experiência comunicável? Como pode na era da globalização, das redes, da internet, esta pergunta ainda ser formulada?


Desenhei, pois não haviam mais palavras, para lhe comunicar o horror.




sexta-feira, maio 01, 2009


Capitlismo a céu aberto.


Algo meramente objetivo cruzou comigo hoje,
Me encostou,
Mas não me tocou,
Me olhou,
Mas não me viu,
Me derrubou,
E me deixou no chão