Terça-feira, Junho 16, 2009

Introdução a Antipsiquiatria: PARTE II



SOBRE OS TRATAMENTOS: PARTE II

“Não é talvez excessivamente absurdo afirmar que, com muita freqüência, é quando as pessoas começam a ficar mentalmente sadias que elas entram no hospital psiquiátrico” David Cooper


Considerando as considerações expostas no 1º post, identificamos que a estratégia básica do modelo hegemônico em psiquiatria só pode ser praticada a partir da uma pseudo-relação (sujeito-objeto), onde é essencialmente o psiquiatra que formula a verdade da loucura, a verdade do louco e, consequentemente, os tratamentos que permitirão a normalização, a adaptação do louco a atual sociedade. Portanto, a psiquiatria reforça, fortalece o status quo, a sociedade capitalista, a padronização das relações pessoais, em suma, toda a gama de comportamentos considerados aceitáveis num determinado contexto histórico. A neutralidade se situa como uma fantasia historicamente engendrada e alienante, na medida em que o sentido ideológico é camuflado, obscurecendo o sentido da práxis efetiva no mundo.

Ronald Laing questiona essa adaptação e a simulação de neutralidade sustentada pelo modelo positivista psiquiátrico. Não é natural a atitude de Pinel que ao “libertar os loucos”, acaba por prendê-los novamente, ou exclusivamente e institui o tratamento moral. Na invenção da psiquiatria não são questionados os efeitos histórico-sociais na emergência da loucura, ela é tomada como uma entidade per se, ahistórica e pouco influenciável em sua origem pelas relações humanas e sociais. Laing, Cooper e outros começarão a questionar justamente esta produção social, e vão considerar as patologias, se é que podemos dizer assim, da própria sociedade. Sob este viés a adaptação a uma sociedade louca seria a maior das loucuras.

Mais do que a loucura como produto de determinadas produções sociais (p.ex, intraestrutura econômica determinando a psique[1]), os antipsiquiatras vão começar a destacar como essencial na emergência do split sujeito-meio circundante, na produção de um território existencial alheio ao mundo do consenso, a influência de tipos específicos de relação interpessoal que atravessam grande parte do tecido social. Nesse viés, a loucura seria uma espécie de defesa contra a mais radical alienação, aquele onde o sujeito deixa de ser-para-si e passa a ser-para-o-outro, passa a ser uma extensão objetal para aquele olhar que, diante a insegurança ontológica do sujeito com sofrimento mental, pode significar uma perda de si. A perda de si e de sua auto-nomia produzem no sujeito uma noção de irrealidade, reforçada pelo medo de perder-se no outro. Laing vai fazer essas considerações especialmente num estudo fenomenológico da loucura, ainda na década de 50, chamado de “O Eu Dividido”, onde tipifica estes modos de perigo da perda-de-si, como, por exemplo, a absorção, a petrificação, a despersonalização e a implosão.

Então, neste primeiro momento, muito influenciado pela psicanálise e pelo existencialismo de Sartre, Laing ainda se vale mais abertamente dos rótulos: esquizofrênico, esquizofrenia, psicose, psicopatia/psicopata e o diferenciado “esquizóide”. Em Psiquiatria e Anti-psiquiatria Cooper faz a ressalva de que apesar de ter utilizado tais termos, considera que os mesmos devem ser superados[2]. No livro citado, Laing trabalha em cima de uma visão de que “o esquizofrênico” procuraria devido a uma fragilidade (insegurança ontológica) formada na infância (ontogenéticamente), se afastar das relações com os outros por estas se tornarem inviáveis. Cita casos onde pessoas que posteriormente receberiam o diagnóstico de “esquizofrenia” teriam sido tratadas como objeto, como “inexistentes” dentro de sua própria casa por seus familiares (mesmo quando há um zelo excessivo, o sujeito é um apêndice, uma extensão). Decorre desta forma de relação muitas dificuldades de auto-reconhecimento como sujeito autônomo, se não pode ser visto em sua diferença, ser reconhecido no olhar do outro, acaba acometido por sensações de irrealidade, na procura de sua identidade. Procura fazer tudo para agradar, repete comportamentos, e muitas vezes é aquela pessoa ideal, onde esse = percipi (ser é ser percebido), no entanto, seu verdadeiro Self encontra-se interiorizado, e tudo o que desvela, mostra de si, é uma fachada resultante de uma disjunção “Self” – “Falso Self”. Protege seu verdadeiro Self no mais profundo, mas esta defesa é desde sempre falha, na medida em que a) o falso-self progressivamente aumenta sua autonomia; b) uma enorme angustia é vivida na crescente sensação de irrealidade; c) toda realidade que é escondida se torna, através de uma constante, quiçá obsessiva, consciência de si, uma grande culpa e medo, culpa por não ser quem aparenta ser (sente-se cada vez mais tenebroso, na medida em que aumenta a raiva/ ódio), e teme que o olhar do outro atravesse sua couraça, isto é, sua persona e revele o irrevelável. Daí decorre uma série de fugas do outro. O self quer se ver descoberto, mas esta descoberta é tremendamente angustiante e o caminho muitas vezes é de reforço do falso-self, num caminho cíclico de auto-perpetuação da angustia até o aparecimento dos chamados sintomas prodrômicos ou a crise psicótica.

Como podem ver os esquemas lainguianos da década de 50 ainda permanecem com algumas categorias que serão re-vistas posteriormente. O termo anti-psiquiatria nasce em 67 quando Cooper escreve: “Psiquiatria e Anti-psiquiatria”, momento onde ele e também Laing estavam desenvolvendo métodos de terapia alternativos trabalhando tanto com os pacientes como seus familiares, daí nasce uma experiência bem interessante, a chamada vila 61. Essa experiência é influenciada pela comunidade terapêutica de Maxwell Jones que começara na Inglaterra numa tentativa de re-formular o espaço asilar (consagrado como experiência em 1959). De acordo com Paulo Amarante, citado por Ana Paula Gujor[3] em sua dissertação de mestrado, a comunidade terapêutica se caracterizava como “um processo de reformas institucionais, predominantemente restritas ao hospital psiquiátrico, e marcadas pela adoção de medidas administrativas democráticas, participativas e coletivas, objetivando a transformação da dinâmica institucional asilar”. A vila 61, embora em seu início tenha sido influenciada pelas dinâmicas da comunidade terapêutica, já se vale de um modelo teórico relacional e existencial. Nesta experiência original a suposição básica é que a esquizofrenia não é em si uma doença, uma patologia do sujeito, mas que a questão está na relação entre os membros de uma família e, de forma mais ampla, entre os membros de uma determinada comunidade. Cooper nos diz que: “A esquizofrenia, se é que significa alguma coisa, constitui m modo mais ou menos característico de comportamento grupal perturbado. Não existem esquizofrênicos”. Neste caso o sujeito que apresenta os assim nomeados sintomas psicóticos seria muito mais o bode expiatório do que um doente.

A vila 61 foi fundada em 1962 e Cooper manteve-se em sua direção até 1966. Ela foi fundada dentro de um grande hospital de “doenças mentais” ao noroeste de Londres. De acordo com Cooper: “A tarefa que escolhi (...) consiste em desenvolver uma unidade especificamente orientada no sentido do problema dos jovens, que recentemente ganharam o rótulo de ‘esquizofrenia’, na qual a abordagem se basearia numa compreensão da esquizofrenia, não como entidade mórbida, porém, como certo conjunto mais ou menos especificável de padrões de interação pessoal, ou seja, da esquizofrenia não como acontecendo em uma pessoa, mas, ao invés, como algo entre pessoas. Iríamos tentar, de fato, prescindir do que Don Jackson descreveu como ‘essa maldição da psiquiatria moderna, o paciente identificado’”. Os métodos de trabalho, portanto, focavam-se em A) trabalhos de grupo orientados não analiticamente ; B) terapia familiar ; C) grupo entre os funcionários, colocando em questão a irracionalidade institucional entre os próprios técnicos, isto é, aonde ainda estes sustentariam antigos estereótipos do imaginário social, como a idéia de que o “esquizofrênico” é violento, perturbado, contagioso, etc. Muitas vezes a violência do dito esquizofrênico se manifesta quando o mesmo é exposto a uma violência real (p.ex, a camisa de força), e repressões não passiveis de explicação clara, desde a repressão física, até a química.

Outro foco importante nesta experiência é o valor dado a autonomia. Acreditava-se que se deixado livre para escolher o “doente mental” ficaria o dia inteiro, e todo dia, deitado na cama e não faria absolutamente nada. Cooper organiza a vila 61 dando uma autonomia até então nunca vista para os pacientes, onde poderiam levantar a hora que quisessem de suas camas, e tivessem uma liberdade ampliada de ações. O resultado da ação causou tanto grandes tensões, inclusive entre vários enfermeiros, como também desfez alguns mitos, na medida em que muitos passaram a arrumar suas camas, fazer muitas coisas com maior autonomia, embora, acordassem mais tarde. Não seguiam a risca o “esperado” pelo desejo dos outros e, por outro lado, alcançavam crescentes “graus” de autonomia. Se esse tipo de rebeldia (não fazer o esperado) é característico, isso se deve, em parte, a forma como o serviço se organiza; muitos dos pacientes, se seguirmos o modelo existencial de Laing, eram extremamente obedientes e adaptados aos desejos dos pais ou sociais sobre eles antes de seus “surtos”. Teríamos a imagem da falta de autonomia que continua no hospital psiquiátrico, até de forma radicalizada; doravante toda a vida do sujeito é ordenada por outros, fortalecendo ou produzindo o que Goofman em “Manicômios, Prisões e Conventos” chama de “mortificação do eu”. Existe um tipo de sofrimento, alienação que mais do que tendo sua causa em suas relações familiares ou com a sociedade mais ampla, se funda na própria instituição asilar, o que foi chamado de neurose institucional e posteriormente de “o duplo da doença” por Basaglia na experiência da psiquiatria democrática italiana. Podemos concluir que a instituição manicomial radicaliza o tipo de situação agenciadora do surto e do “fracasso” do sujeito dentro de sua família. Então nessa rebeldia, apesar de seus aparentes “sintomas negativos” como “embotamento afetivo” se trata, em alguns casos, de clara insubmissão e um movimento de saúde, uma ultrapassagem da condição alienada e submissa anterior.

Se levarmos adiante esta idéia, o terapeuta deve estar ao lado da pessoa em sofrimento mental, mais do que ordenando sua experiência, lhe dando todas as formas prontas para resolução de problemas, o que implicaria em adaptação ao molde do terapeuta ou de um âmbito mais ou menos geral da sociedade. Em determinado momento Laing e Cooper comparam a experiência do louco com a desintegração, o desmembramento pelo qual passavam os xamãs, muito embora, os xamãs tivessem uma forma mais adequada de lidar com tal experiência. Se em nossa sociedade não encontramos mais as fórmulas para lidar com estas experiências, cabe ao terapeuta acompanhá-las e situar-se com sua presença, e com sua compreensão para facilitar que a viagem que o “louco” começou suceda da melhor forma possível. Cooper nos diz que “A experiência psicótica, contando com orientação correta, é capaz de conduzir a um estado humano mais avançado, porém, muito freqüentemente, é convertida pela experiência psiquiátrica num estado de paralisia e de estultificação da pessoa”. Se a experiência da loucura se compara a catábasis[4], deve haver uma anábasis (subida ou saída do Hades). O ditado Zen diz: “Aquele que perdeu sua vida a encontrará”, mas em alguns casos, a perda acomete o sujeito de uma tal forma que o mesmo não encontra forças em si mesmo para reagir ao dilaceramento e não consegue re-estruturar-se e, ainda pior, acaba encontrando ao invés de um curandeiro um psiquiatra que o encherá de psicofármacos para obnubilar a experiência, um psicólogo que lidará com ele como se fosse de sua “estrutura” a psicose enquanto uma realidade factual. Não se quer ignorar com isso todos os fatores que podem favorecer uma experiência de sofrimento atroz, mas re-lembrar a base existencialista: além de tudo que fizeram com você, importa o que você faz com tudo isso que fizeram de você. E quais são os instrumentos atuais para lidar com tal experiência de forma mais promissora?

Situamo-nos aqui no lugar da atenção ao outro, ao ponto de Laing nos contar que acredita que o terapeuta ideal é aquele que age como um mestre zen. A não-ação, wu wei, em alguns momentos é um respeito ao silêncio e ao tempo do outro, uma forma de relação não diretiva. A posição é de criação de um espaço de continência, de cuidado, onde “o caminho que se pode falar não é o caminho”. São belas as palavras de Laing ao nos dizer que compreensão, mais do que a dupla análise interpretativa (redução histórica + consideração da situação presente) é amor. Acerca da não ação, citemos Laing em “Sobre Loucos e Sãos”:

“Estou convencido, porém, de que alguns experimentam estados mentais extremamente desagradáveis. Essencialmente, a única maneira que essas pessoas têm para sair deles é conquistar a capacidade de olhar, ou seja, simplesmente prestar atenção ao que acontece, sem fazer qualquer coisa. Chame de Zen, Chan, Satipathana, não importa. Se eles conseguem, de uma maneira ou de outra, abandonar-se sem sobrepor seus caprichos, então de todo este caos parece começar a surgir uma migalha de ordem”.


Para finalizar, lembremos que David Cooper nos fala acerca da necessidade de novos modelos arquitetônicos - políticos no atendimento, em sua época fundamentalmente baseados no isolamento e no âmbito asilar-hospitalar, e que os espaços de tratamentos caminhem em direção a comunidade, o que será radicalizado e efetivado com a psiquiatria democrática de Franco Basaglia a experiência italiana, que tanto influenciou a orientação da saúde mental brasileira. Caso o aspirante a escrivinhão aqui não morra na praia, a experiência da psiquiatria italiana será um dos assuntos futuros aqui no Blog.

Inté 2 pessoar!





[1] - Essa modalidade de teleologia é considerada fruto da razão analítica na leitura da Sartre feita por Laing e Cooper, na medida em que o positivismo e sua razão produzem esse tipo de esterilização do conhecimento, tomando totalizações como totalidades, desistoricizando, por conseguinte, a história (a relativização dos aboslutos). Contrapõem-se a esta leitura fatalista a concepção da razão dialética.

[3] - Gujor, Ana Paula. Os Centros de Atenção Psicossocial: Um estudo sobre a transformação do modelo assistencial em saúde mental, 2003.


[4] - Descida ao Hades no mundo Grego, aliás, a passagem de nível da Terra o Hades é feita através, p.ex, de Hermes, um psicopompo, um atravessador de dimensões, daí, hermenêutica. A hermenêutica também influenciou, até onde me é dado saber, as formulações anti-psiquiatricas.

Terça-feira, Junho 02, 2009

Introdução à Anti-Psiquiatria



Introdução à Anti-Psiquiatria


PARTE I:

A anti-psiquiatria começa a se formar no final dos anos 50, é nomeada como tal por Cooper em 1967, época em que foram produzidas muitas mutações sociais, muitas das quais continuaram nos estranhos, belos e turbulentos anos 70. Uma delas é a reviravolta sobre o saber psiquiátrico, inicialmente com o escocês Ronald Laing (1927 – 1989), Aaron Esterson e o sul africano David Cooper (1931-1986). Uma questão fundamental para estes autores é a violência cometida pelo saber psiquiátrico e pelas suas práticas no “tratamento” do assim designado “doente mental”.

A crítica epistemológica inicial é de que não seria possível a passagem do modelo de ciências naturais para a relação entre pessoas da forma como aconteceu na formação da psiquiatria, o que só poderia produzir confusão metodológica. Para tentar sustentar o rigor do saber científico clássico, seria necessário lidar com uma relação sujeito-objeto (S-O), ou S vis-à-vis O, onde ambos encontrar-se-iam de forma passiva, quer dizer, o sujeito conhecedor colocaria entre parêntesis sua pessoalidade e o objeto seria inerentemente passivo (uma planta, uma molécula, etc.). Nas ciências humanas, entretanto, isso não é possível nem sequer na separação pineliniana que procurou separar os “doentes mentais” de outras pessoas internadas no século XVIII, período onde se construiu o que Foucault (História da Loucura na Idade Clássica) chama de “A Grande Internação”, onde eram internados todos os tipos de “problemáticos”, passando por alcoólatras, “loucos”, “vagabundos”, “mendigos”, ladrões, magistas, etc, num mesmo espaço de confinamento a partir da condenação moral. Na separação aristotélica das categorias inventadas continuam a existir pessoas ao invés de apenas categorias; é de suma importância lembrar que se existe uma natureza humana o que caracteriza esta natureza é ser justamente possibilidade de possibilidade, ou seja, diante do fenômeno classificatório naturalista é perdida esta condição humana. Hegel chamava o ato lógico de negação e ultrapassagem em um sistema dialético de Aufhebung, o que Sartre posteriormente traduziu para o francês como depassér e foi traduzido para o português como depassagem. Considerando esta situação humana é impossível de uma vez por todas a previsibilidade total de sistemas altamente complexos, assim, em “ciências do homem” não é viável o projeto de Francis Bacon de dominação/manipulação plena do objeto.

Então para a psiquiatria fundar a loucura, tomando a esquizofrenia como loucura prototípica, como entidade nosológica ela deveria propor não apenas uma classificação descritiva dos sintomas (sinais, signos), mas também descobrir uma explicação causal para tal patologia, na medida em que é do fundamento da noção de doença sua atribuição causal. No entanto, não foi possível encontrar, até hoje, uma causa definitiva para a esquizofrenia, embora muito se hipotetize. A abstração do sujeito do seu meio social, como forma de procurar a essência da loucura é outro erro nos fundamentos do conhecimento, na medida em que o sujeito está necessariamente, pré-reflexivamente, no mundo, ou seja, a relação paciente – tratador é eminentemente S-O vis-à-vis S-O, em outras palavras, a relação entre dois sujeitos.

A relação entre dois sujeitos implica pelo menos: o que eu experiencio de mim, o que experiencio que o outro experiencia, o que experiencio que o outro experiencia que eu experiencio e o mesmo vale para o outro sujeito, o qual só tenho acesso a experiência a partir da sua objetivação, isto é, na sua saída de si para o mundo. Neste momento ao objetivar-se o paciente se torna, a partir da racionalidade analítica, objeto de meu olhar que procura a verificação e a falseabilidade de hipóteses e trato o sujeito, com sua totalização[1], como totalidade e ao fazer isso engendro uma desistorização do outro, alienando-o de seu potencial humano. Assim vai se constituindo por meio de uma classificação, onde a analogia se torna homologia, a institucionalização daquela pessoa, pessoa que doravante vai ser atravessada pelo rótulo: inválido. Nesse caminho os profissionais de saúde acabam produzindo enfermidade, pois limitam:

A) As possibilidade de re-organização social daquela sujeito no seu contexto mais amplo, especialmente se o contexto mais amplo não é trabalhado.

B) Que o sujeito viva aquela experiência de desintegração e retorne dela de um outro modo (que possa terminar a viajem que começou).

A alienação do potencial humano por parte dos agentes de saúde se dá através de alguns movimentos, como, p.ex, o divorcio instituído entre práxis e intenção; doravante não é o sujeito que, em seu devir, pratica uma ação que lhe diz respeito, essa ação passa a ser fruto, resultado, de uma doença, de uma entidade, então “não é ele que faz o que faz”, é a Doença, é a alteração serotoninérgica, etc. Os meus atos para mim se tornam meus atos para o outro (eis o que Cooper chama de alienação primária, em diferença da alienação secundária elaborada por Marx). Com isso, evidente, não se quer dizer que todo ato tenha um fundamento consciente e elaborado por um Eu, entretanto, faz parte de algo inteligível para a história daquele sujeito, mesmo quando possui, e a consideração aqui é de todo minha, bases arquetípicas (seja dito também, Laing e Cooper tinham manifestas influencias de Jung).

Existe ainda uma outra questão sobre a “origem de conhecimento” da classificação psiquiátrica. Se a classificação fosse universal ao invés de situacional, ela deveria se repetir de qualquer modo, entretanto, faz-se necessário saber se a classificação “esquizofrênico”, “doente mental”, se produz com mais facilidade em determinados contextos específicos, p.ex, no consultório de um psiquiatra, num Centro de Atenção Psicossocial ou numa internação de “doentes mentais”. Será que um neurótico mais ou menos confuso ingressaria na carreira de doente num ambiente tal e num outro ambiente receberia outro rótulo, outra visão completamente diferente? Qual é, em última medida, a influência da imagem (paisagem, contexto) na construção do diagnóstico psiquiátrico? De acordo com Laing todo traço que supomos ser subjetividade é, em última instância, inter-subjetividade. Não seria possível, neste caso, observar uma essência, coisa-em-si do fenômeno nomeado de sintoma. Ainda é o mesmo autor que nos fala sobre a modificação do comportamento do suposto esquizofrênico diante do avental branco do médico, e nos presenteia com suas palavras na entrevista com Vicenzo Caretti em “Sobre loucos e sãos”: “Muito bem, estou convencido – é uma convicção que deriva de uma experiência de vinte anos e que partilho com muitos outros – que a experiência daria o seguinte resultado (nota: a avaliação dos “pacientes” em diferentes contextos): quando o hipotético esquizofrênico é tratado como tal, o índice de esquizofrenia é dez vezes mais elevado do que quando é tratado como uma pessoa qualquer”. Não é sem razão, portanto, que o surgimento da psiquiatria preventiva nos EUA tenha “resultado” num aumento de casos de psicose.

Tentei produzir aqui um pequeno panorama não sistemático das criticas epistemológicas dos anti-psiquiatras a psiquiatria dita clássica. Espero que tenha sido de proveito para os leitores e que faça emergir questões. A próxima parte, caso ninguém se manifeste propondo alguma outra coisa, será: “Sobre os Tratamentos: Parte II”, isto é, o que a anti-psiquiatria funda no âmbito da atenção a saúde das pessoas com sofrimento psíquico, especialmente as rotuladas como “esquizofrênicas”.

Inté Pessoar!


[1] - Totalização é um termo de J. P. Sartre que abarca uma unidade plural incompleta, isto é, um sistema aberto. Sartre diferencia justamente seu termo de totalidade, na medida em que a totalidade é fechada e inerte, é o que é.

(A Foto é do Ronald Laing).

Terça-feira, Maio 19, 2009

Tempo



Estava lendo o antigo blog em que escreviamos eu, João H., A. Guerra e Mr.Poulain, o famoso, ou não tão famoso assim, Diálogos Casuais (http://dedoscruzados.blogspot.com/). E que sentimento de nostalgia! Há pouco, vejam só, e parece tanto... e aquele atravessamento de uma lembrança vivida, de uma esperança semi-morta de uma grande transformação.



Não que nesta época eu fosse tão ingenuo quanto há anos antes, no auge de minha adolescência, quando gritava com as roupas, os cabelos e até mesmo com a boca! palavras de (des)ordem, acreditando que o mundo poderia mudar de forma radical de um momento para o outro. Agente da revolução.


Mas, este sentimento de transformação, esta função transcendente in loco é algo de extremamente prazeroso e produz, no mínimo, uma mutação subterranea, nas entranhas. Sinto que o que sinto é algo de mais coletivo para um novo estágio da vida, aquele do trabalhador, do pai de família. Uma constelação, forma vazia atualizada pelos destroços contemporâneos.


Claro, traz muitas belezas singulares, no entanto, na compreensão da sombra, o quanto traz de tenebroso! O tempo se desvela de vez com seus ares mais perversos, o engolidor! Não é por menos que seu filho teve que abrir sua barriga e castrá-lo! Dinâmica compreensível quanto se vive este tipo de correria.


É um tempo que se você não o acompanha, com produtividade a mil, você é atropelado, massacrado, ferido, desqualificado. E, por outro lado, se você o segue, você se torna um quase-fantoche, manipulado pelas pressões atmosféricas. Do coração aos poucos é apagada aquela esperança, aquele calor tropical.


Típico tempo do capitalismo. Nestas horas é mais difícil levar a ferro e fogo as considerações sartreanas de liberdade, quer dizer, quando se está além do próprio ego, quando se está além de si na construção de uma família, o terror é mais tenebroso, a sombra se torna maior, tal como a luz, evidentemente. A enantiodromia funciona de forma mais radical, e haja couraça, haja carapaça para segurar a peteca!


Os povos do mundo inteiro, submetidos a condições desumanas, e mesmo aqueles de classe média, submetidos a lógica do capital, são verdadeiramente heróicos por suportarem tamanha carga. A imagem não tão heróica é a do jumento. Isso não significa, en conséquence, que sejam todos limpinhos e bonitinhos! Ideologias obscuras e trejeitos desumanos se constituem no seio dos dominantes e dos dominados. Mecanismos de poder, ações de poder-sobre atrevessam as menores e mais singulares veredas e transformam a multi-colorida auto-poiesis, a auto-gestão, em artimanhas de exclusão e dominação. O império se alastra sem bandeiras!


O olhar se torna cinza. O espetáculo da vida real exige um esforço sobre-humano para ser superado pela experiência humana, possibildiade de possibilidade. Uma relação autêntica, um sorriso, em algumas circunstâncias, são atos revolucionários!

Quarta-feira, Maio 06, 2009

Morto no Império.

Para uma dinâmica perversa, uma rosto apático surge no horizonte. Atravessado pelo odor do capital. Axiologia diabólica, mirabolante, tramada mais pela lógica das relações capitalistas do que por sujeitos com poder, dinheiro ou fama, não que, é evidente, os sujeitos concretos/individuais não tenham suas culpas, suas responsabilidades, o que é preciso ser dito.


O império nos atravessa com pouco, quase nenhuma, mediação. Sem pátria, sem rosto. Onipresente. Resistimos a uma entidade invisível e os ciclos de resistência não se alastram mais. Existem mais como rápidos fluxos de aparecimento/desaparecimento. Ou são continuas construções que ficam a margem do Big Eye.


Dia-bólico é aquilo que, ao contrário de sim-bólico, afasta. O que afasta é o que mata, pulsão de morte psicanalítica, porém, está longe de ser algo do jogo particular/universal/particular. Afastados como reificação, monadas reais, como se a noção leibziniana presentificasse de uma vez por todas. E a política da imanência grita ainda, como um grito primal, um rugido, de um deus pagão enlatado.


É a experiência comunicável? Como pode na era da globalização, das redes, da internet, esta pergunta ainda ser formulada?


Desenhei, pois não haviam mais palavras, para lhe comunicar o horror.




Sexta-feira, Maio 01, 2009


Capitlismo a céu aberto.


Algo meramente objetivo cruzou comigo hoje,
Me encostou,
Mas não me tocou,
Me olhou,
Mas não me viu,
Me derrubou,
E me deixou no chão

Segunda-feira, Março 30, 2009

Redução de Danos: PARTE III - Final

PARA ONDE VAMOS?
Redução de Danos Amadurecendo

Vinte e cinto anos de redução de danos são uma longa estrada. Neste período, o mundo mudou drasticamente; as novas tecnologias de comunicação fizeram o mundo menor e a AIDS mudou a face da Terra. Embora alguns de nós ainda mostram empatia e compreensão com as pessoas que vivem suas vidas de uma maneira diferente da que nós julgamos apropriados ou desejável, outros se tornaram menos tolerantes, mais egocêntricos e levam o que podem levar em nossas sociedades materialistas. Este é o clima em que a redução de danos tem que sobreviver. Não obstante, não é demasiado difícil conviver mesmo aqueles que são egocêntricos, dos benefícios da redução de danos. Porque o paradigma da redução de danos presta atenção não somente nos danos que os usuários de drogas causam a si mesmos, mas também ao dano causado ao outro. Como pode alguém ser contra isto? Como alguém pode se opor a intervenções que objetivam reduzir os danos causados pelo uso de drogas? Próximos de mudanças gerais na sociedade, nós podemos também observar uma mudança nos padrões de uso de drogas. As intervenções de redução de danos para o “viciado” típico são muitos diferentes das intervenções de redução de danos para os jovens que usam ecstasy no fim de semana. Em Amsterdã, nós enfrentamos agora um envelhecimento geral de nossos farmacodependentes. A idade média é ao redor de 42 anos e alguns deles já têm sido encontrados em casas de repouso para idosos! Alguns deles estão recebendo heroína diariamente como a parte do programa de prescrição de heroína, outros estão gastando uma parte substancial do dia nas chamadas salas de consumo, onde se encontram com outros farmacodependentes e onde podem consumir drogas em um ambiente relativamente seguro. Muitos deles são demasiado velhos e lentos para se adequar ao crime. Tornaram-se paciente crônicos que necessitam de cuidado em longo prazo. Os serviços mudaram para se adequar a este novo cenário.

Uma Geração Nova: Drogas Novas.

Nos anos 1990, a heroína transformou-se numa droga fora de moda. Os heroinômanos típicos passaram a ser considerados “perdedores”, “fracassados” e a nova geração não via mais a heroína como uma droga atraente. Entre os jovens, usar drogas não seria mais por muito tempo um “estilo de vida”, mas algo que caberia em uma circunstância particular. Isto significou que as drogas com meia-vida curta, sem síndrome de abstinência e fáceis de consumir estavam se tornando mais atrativas. O ecstasy preencheu muito bem estes critérios. O comprimido poderia ser tomado facilmente, o efeito duraria por apenas algumas horas e os sintomas de abstinência eram suaves. O usuário sente-se ativo e com humor amigável. No início do uso do ecstasy, este comprimido era ainda legal e pouco se sabia sobre os efeitos cerebrais a longo prazo. Ele foi usado nas chamadas festas rave, onde as pessoas dançariam toda a noite na batida da música techno. Na segunda-feira muitos deles voltariam a sala de aula ou ao trabalho. Assim, este era um estilo muito diferente do uso de drogas dos heroinômanos típicos. Depois que alguns acidentes fatais foram relatados, com as pessoas que morreram de superaquecimento e/ou de desidratação, mais e mais atenção foi dada às medidas de redução de danos durante tais festas techno. Uma organização desenvolveu a campanha da “casa segura” e começou a testar os comprimidos no local de uso. Esta era uma oportunidade boa de fazer o contato com os usuários e dizer-lhes para não usar demasiadamente, alertá-los a beber água o suficiente e refrescarem-se quando necessário. Os profissionais da campanha da “casa segura” alertaram também os organizadores das tais festas sobre as medidas de segurança, como a temperatura do ambiente, medidas de primeiros-socorros, etc.

Legalizar?

Frequentemente, as políticas da redução de danos são vistas como um primeiro passo para a legalização das drogas ilícitas. Muitas pessoas que trabalham em programas de redução de danos acreditam que a proibição causa mais problemas do que previne. Vêem quantos problemas seus pacientes têm meramente pelo fato de as drogas serem ilegais. Vêem os efeitos da má qualidade das drogas da rua quando se deparam com os abscessos. Estão frustrados quando vêem que as variações freqüentes na pureza da heroína da rua conduzem a overdoses – às vezes fatais. Estão preocupados, quando percebem que seus clientes compartilham agulhas e seringas e assim correndo o risco de infecções de HIV e/ou hepatite, meramente porque seus clientes estão receosos de serem presos pela polícia ao ser encontrado com as agulhas e seringas em seu bolso. Eles acreditam que tudo isto não aconteceria se as drogas fossem legais. Naturalmente, é um ponto de vista, embora nós tenhamos que ter cuidados para não atropelar as conclusões. Ninguém sabe que efeitos teria a revogação da proibição.
Mais pessoas experimentariam drogas, mais pessoas ficariam dependentes, ocorreriam mais complicações médicas, etc? Isto nos deixa amarrados. Naturalmente é possível que nós nunca tenhamos que tomar uma decisão sobre a legalização das drogas no caso de substâncias legais, tais como medicações, drogas sintéticas e suplementos alimentares adquiridos no mercado negro.
Por agora, entretanto, esta discussão não deve nos impedir de fazer nosso trabalho em uma maneira concreta e pragmática a fim de ajudar, tanto o quanto possível, os usuários de drogas a reduzir o dano que causam a si e a outros.

O Desafio

Aonde isto nos leva? Em Amsterdã, nós não esperamos grandes mudanças no sistema. A redução de danos transformou-se em parte integrante do sistema geral de atendimento e agora inclui instituições de tratamento de droga, assistentes sociais, instituições psiquiátricas, polícia, sistema judiciário e clínicos gerais. Ainda é possível que os responsáveis pelas políticas públicas tomem tudo como garantido e comecem a reduzir o orçamento destas instituições, de modo que logo muitos usuários de drogas apareçam nas ruas outra vez, causando problemas para seu ambiente. Assim nós temos que permanecer alertas.
Em outras partes do mundo, ainda há muito trabalho de base para ser feito para reduzir as conseqüências negativas do uso de drogas. Em alguns países nós ainda vemos resistência para os programas de troca de seringas, ou ouvimos responsáveis por políticas públicas dizerem que a metadona não funciona. Alguns políticos ainda pensam que o problema de drogas pode facilmente ser resolvido, afirmando que os usuários de drogas são criminosos e devem ser postos na cadeia. A abordagem que nós preferimos é realmente a da nossa própria escolha. Kethleen Cravero, diretora da UNAIDS, disse isto muito elegantemente ao dirigir-se à conferência internacional da redução de danos na Tailândia em 2003:
“Após muitos anos de silencia, de negação e de discriminação, o mundo se pronunciou sobre a necessidade de lidar com os usuários de drogas injetáveis (UDI) em um mundo com AIDS. Em junho de 2001, a Sessão Especial sobre a AIDS na Assembléia Geral das Nações Unidas adotou a Declaração do Compromisso em HIV/AIDS. Todos os 184 Estados-Membro, unanimemente e sem restrições, se comprometerem com as metas específicas e os objetivos relacionados aos UDI. Que inclui:
... estabelecendo em 2003 metas nacionais de prevenção para reduzir a incidência da infecção por HIV entre as populações-chave, incluindo taxas de infecção ou com risco elevado de nova infecção; e em 2005 expandir o acesso aos preservativos e aos insumos de injeção, e assegurar a disponibilidade dos programas de redução de danos relacionados ao uso de drogas. Também em 2001, um documento conjunto de posicionamento das Nações Unidas foi aprovado, recomendando um pacote detalhado de medidas dirigido ao HIV e ao uso injetável de drogas...
E
Existem muitas maneiras de abordar os problemas relacionados ao uso de drogas e da infecção de HIV. Nós podemos nos convencer de que os desafios são intransponíveis, que o comportamento do UDI é imutável e as soluções são insustentáveis. E assim nossas intervenções serão falhas, subestimadas e indiferentes. Ou nós podemos decidir agir no que nós já sabemos ser verdadeiro – que os usuários de drogas respondem bem aos serviços e ao tratamento, se beneficiam das opções para melhorar suas vidas e as vidas de seus companheiros e, dado uma possibilidade, podem agir com forças positivas para a mudança. E então nossos esforços serão vibrantes e eficazes, oferecendo esperança e oportunidade, especialmente aos jovens que agora estão exigindo um futuro melhor e mais saudável. A escolha é nossa.

Conclusão

Como conclusão, nós podemos dizer que a redução de danos se transformou num importante ingrediente das políticas de droga em todo o mundo. As organizações internacionais parecem mais receosas em dizer ruidosamente que a redução de danos deve ser um dos pilares da política de drogas. E os responsáveis pelas políticas locais e regionais, agora frequentemente incluem automaticamente as intervenções da redução de danos na política geral de drogas. Estes são desdobramentos positivos. Entretanto, há também razão suficiente para o pessimismo, quando se ouve sobre como os direitos dos usuários de drogas são violados, quando se vê que muitos usuários de drogas ainda têm que praticar crimes para obter sua dose diária, e quando se percebe que ainda muitos usuários de drogas injetáveis compartilham de agulhas e seringas porque não têm nenhum acesso a insumos limpos. Assim, nós ainda não podemos nos sentar e ficar satisfeitos. A ação é necessária e, felizmente, muitos de nós estão ainda cheios da energia para enfrentar obstáculos possíveis e conquistar juntos os desafios.
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Sexta-feira, Março 27, 2009

Redução de Danos: TEXTO PARTE II

Já que ninguem comentou no último post, o que significa que este post foi relativamente um sucesso, vai a segunda parte.


UMA DROGA PARA OUTRA...

Quando as pessoas conversam sobre a terapia de substituição, acredita-se freqüentemente que não faz nenhum sentido dar aos usuários uma droga “oficial” para substituir as drogas compradas nas ruas. Ou ainda, se o uso das drogas ilegais pode continuar mesmo após passarem a receber a droga “oficial”, muitas pessoas questionaram quais são as vantagens que tal sistema de tratamento pode ter. Deixe-me explicar. Quando a metadona foi introduzida primeiramente por Dole e Nyswander nos anos 1960 nos Estados Unidos da América, acreditou-se que esta poderia substituir a heroína. A metadona não faz os pacientes se sentirem entorpecidos, pode ser tomada via oral dispensando a injeção e os efeitos duram por 24 a 36 horas, bastante longos compradas às 4 a 6 horas da heroína. Estas são as vantagens mais óbvias. Mas havia também alguns inconvenientes, por exemplo, porque a metadona também é um opiáceo, introduz dependência com síndrome de abstinência na retirada. Então, por que o trabalho? Na prática nós vimos que centenas dos milhares de heroinômanos se beneficiaram do uso da metadona. A metadona afastou-os do ambiente das drogas, eliminou o comportamento criminal, eliminou o HIV. Também poderíamos observar que o tratamento com a metadona criou um bom vínculo com os pacientes. Estes estavam realmente permanecendo no tratamento por muito mais tempo e, pelo contato regular que tiveram com a equipe, poderiam trabalhar seus problemas sociais e psicológicos. Todos os efeitos que nós temos que valorizar. Assim talvez a terapia de substituição não nos deu a “bala mágica”, mas salvou muitas vidas e contribuiu muito para o controle de um problema social e médico complexo.

Com o Pé Na Estrada...

Um dos ícones da rede de redução de danos de Amsterdã é o projeto da Metadona no Ônibus. Um programa de metadona sobre rodas por assim dizer. Por que sobre rodas? Havia diversas razões para começar tal projeto. Inicialmente, nós enfrentávamos grandes problemas com a vizinhança. Este NIMBY (Not in My Back Yard – Não no meu jardim) é um fenômeno bem conhecido. E quando se leva em consideração a quantidade de problemas causados por usuários de drogas naqueles dias, se pode somente compreender tal reação da comunidade. Entretanto, algo necessitava ser feito. Tendo uma clínica sobre rodas, nós poderíamos distribuir o ônus uniformemente nas várias regiões da cidade. Ficando em uma área específica para apenas uma hora, tornou-se tolerável para a comunidade. Além disso, um ônibus poderia entrar nas áreas onde os muitos usuários de drogas se reuniam. Aqui se deve mencionar que o atendimento médico e as sessões de aconselhamento mais prolongadas eram conduzidas em prédios usuais. Assim o ônibus era principalmente para a provisão da metadona e mais tarde também para a troca de agulhas e seringas e a distribuição dos preservativos. Somente intervenções breves ocorriam no ônibus. Naturalmente há também alguns inconvenientes em operar em uma clínica móvel. Por exemplo em um dia frio de inverno, a equipe de saúde teria que trabalhar sob circunstâncias difíceis. Os problemas técnicas com o motor também podiam acarretar grandes transtornos. Além disso, um ônibus é vulnerável a possíveis ataques violentos. Embora todos estes problemas fossem sérios, nós conseguimos superar a maioria deles, e hoje, 25 anos depois que foi lançado, o ônibus da metadona de Amsterdã ainda está com o pé na estrada todos os dias do ano.

Devolva Esta Seringa!

A primeira troca de seringas no mundo começou em 1984 em Amsterdã. Era uma iniciativa de um grupo de usuários de drogas. Estavam receosos de uma eclosão de hepatite B quando uma farmácia localizada no centro da cidade decidiu não vender mais nenhuma agulha ou seringa aos usuários de droga. O plano inicial era vendê-las nas dependências da União dos Usuários de Drogas de Amsterdã (MDHG). Entretanto, a Secretaria Municipal de Saúde não estava feliz com esta idéia, porque eram agulhas e seringas que terminariam espalhadas na rua ou – pior ainda – em parques infantis. Após alguma deliberação, um dos membros da União dos Usuários de Drogas trouxe a idéia dourada “vamos trocá-las, você traz sua seringa usada e ganha uma nova de graça”. Este foi o começo da troca de seringas, que é hoje uma medida de prevenção do HIV praticada em muitas partes do mundo, de Katmandu a São Paulo, de Melbourne a Dublin e de Nova Deli a Vancouver. O aspecto interessante da troca de seringas é ser uma faca de dois gumes: protege o ambiente do material contaminado e ajuda usuários de drogas injetáveis a proteger-se da infecção por HIV e hepatite. Desde o início da troca de seringas em Amsterdã, nós começamos a avaliar os resultados. Nós decidimos olhar três fatores:
1. Ajuda a diminuir a infecção de HIV?
2. Promove o hábito de injetar drogas, levando ao aumento do número de usuários de drogas injetáveis?
3. A troca de seringas ajuda a cooptar novos usuários para a rede de atendimento?
Um total de 150 usuários de drogas injetáveis foi entrevistado, metade usuários do programa de troca de seringas e a outra metade que não utilizava o serviço. O resultado foi bastante convincente: os usuários do programa mostraram drástica redução de agulhas e seringas compartilhadas além do que alguns nunca tinham estado em contato com a rede de atendimento. O padrão de uso de drogas variou de pessoa a pessoa: alguns aumentaram seu uso, outros reduziram e outros ficaram estáveis. Isto mostrou que a troca de seringa não teve nenhum efeito significativo no nível de uso das drogas. Desde o primeiro estudo em Amsterdã, muitos outros estudos foram realizados sobre os efeitos dos programas de troca de seringas. Os resultados foram sempre similares aos resultados deste primeiro estudo.

A Redução de Danos e o Tratamento Orientado Para a Abstinência

Inicialmente, quando a redução de danos foi introduzida em Amsterdã, aqueles que trabalham em serviços orientados para a abstinência estavam receosos que isso significasse o fim do seu negócio. Algumas comunidades terapêuticas tradicionais (TC) vieram a Amsterdã tentando convencer autoridades locais a retirar o seu apoio à redução de danos. Os partidários da redução de danos estavam prontos para rotular os partidários das TC como intolerantes, dogmáticos e ineficazes. Desta forma, existiam todos os elementos para um grande conflito. Os clientes que deixaram as comunidades terapêuticas e foram aos programas de metadona estavam cheios de suas frustrações e alimentavam as idéias dos partidários da redução de danos sobre os partidários das TC. Também, os farmacodependentes que tinham deixado o programa de metadona e foram para as TC falavam da atividade omissa dos programas de redução de danos. Tudo isto não ajudou a comunicação e a cooperação. Com base nos boatos que os programas de redução de danos desmotivavam as pessoas a ingressar nos tratamentos orientados para a abstinência, nós decidimos monitorar, de um lado, o número de pacientes que ingressavam nos programas de metadona e, de outro lado, o número de pacientes nos tratamentos orientados para a abstinência. No período de 1981 a 1988, inicialmente, o número de pessoas nos programas de metadona aumentaram drasticamente e então se tornou estável. No mesmo período, o número dos pacientes nos tramentos orientados para a abstinência cresceu mais de 200%! Assim, em vez de afastar os pacientes dos tratamentos, pareceu que os programas de redução de danos realmente atraíam as pessoas para a rede de tratamento e motivavam para os programas orientadas para a abstinência. Pode-se dizer que este trabalho pairava sobre a cena das drogas. Conversando pessoalmente com funcionários de programas orientados para a abstinência pode-se notar que muitos pacientes encaminhados dos programas de redução de danos estavam mais prontos e motivados para começar o tratamento do que os pacientes que vinham de outros encaminhamentos.

Redução de Danos em uma Perspectiva Internacional:
Redução de Danos: Um Produto de Exportação?

Nos últimos 20 anos, eu tenho falado sobre a Política de Redução de Danos Holandesa com milhares de especialistas. Eles vinham a Amsterdã para estudar nossa abordagem ou pediam que nós participássemos de conferências. Parecia que sempre que uma cidade ou um país discutia sua própria abordagem do problema de drogas ou estavam no processo de fazer grandes mudanças, alguém levantava a pergunta: “O que eles fazem em Amsterdã? Vamos verificar”. Para alguns, Amsterdã seria um exemplo de como NÃO fazer coisas. Estes pensavam que nós éramos muito permissivos com os usuários de drogas e muitos dos nossos problemas eram devidos à nossa própria omissão. Outros, entretanto, entusiasmavam-se muito com o que viram e ouviram e voltavam para casa para colocar em prática as medidas da redução de danos, adaptadas à sua própria realidade cultural e social.
Sempre nos preocupamos em não “vender” nossa abordagem, pois estávamos muito cientes de que esta abordagem tem que ser compatível com a cultura local. O que funcionou na Holanda pode não funcionar em outro local. Embora nós não devamos “vender” nossa abordagem, nós somos – é claro – orgulhosos do que estabelecemos e falamos sobre o assunto com entusiasmo. Sempre nos certificamos de ter dados suficientemente fortes para sustentar nossa proposta e sempre permitimos que as pessoas “vejam nossa cozinha”. Assim, sim, nós exportamos a redução de danos para todas as partes do mundo, mas somente “vendemos” aos sócios que se convencerem que esta abordagem seria benéfica para sua própria comunidade.

As Conferências Internacionais

Desde 1990, foram organizadas conferências internacionais anuais sobre a redução de danos relacionadas às drogas em várias partes do mundo. Estas conferências são importantes fóruns de encontro de pessoas que estão desenvolvendo novas intervenções ou procurando novos conhecimentos e apoio. Ao longo dos anos, as conferências tornaram-se mais e mais científicas. Isto estimulou abordagens de redução de danos mais baseadas em evidências. Os “crentes” agora têm que vir com dados para subsidiar seu ponto de vista. Esta é um desenvolvimento saudável. Felizmente, as conferências não se tornaram chatas ou engessadas e ainda é uma ampla sala de debates e opiniões. Um recurso muito interessante da Conferência Internacional de redução de danos é que há sempre um lugar para os usuários de drogas. Eles devem participar do comitê do programa e figurar entre os palestrantes das conferências. Como o Pat O´Hare, diretor executivo do IHRA, Associação Internacional da redução de danos, disse uma vez: “É o meu trabalho, mas são suas vidas”. Por este motivo é importante incluir os usuários de drogas no movimento da redução de danos e certificar de que nós continuamos compreendendo suas necessidades e sua realidade a fim de otimizar as intervenções.

E sobre o Álcool?

Em agosto de 2000, eu participei de um seminário em Recife, Brasil, chamado LATS (Seminário Itinerante da América Latina). Durante este seminário, a pergunta persistente era: “E sobre o álcool?” Aparentemente, o álcool era o principal problema de “drogas” e as intervenções da redução de danos eram extremamente necessárias. Baseado nisto, decidiu-se organizar uma conferência internacional sobre o álcool e a redução de danos. Esta conferência ocorreu em Recife em 2002 e foi um grande sucesso. Um total de mais de quinhentos delegados de várias partes do mundo discutiu a questão do álcool por três dias. Um relatório de conferência foi produzido e um livro foi publicado. Alguns dos achados importantes foram que a redução de danos é uma opção viável no campo do álcool e que a abordagem de redução de danos focalizaria mais nos “danos relacionados ao álcool” que na quantidade de álcool consumida. As perguntas “onde”, “como” e “quando” foram consideradas mais importantes do que a pergunta “quanto”. Esta maneira de pensar tem implicações importantes nas coletas de dados, e também na medida do sucesso de uma intervenção. No livro “Álcool e Redução de Danos”, foi descrito quais os profissionais confrontados com os dados relacionados ao álcool. Isto mostrou que os “especialistas do álcool” têm apenas um papel modesto. O trabalho principal é feito por generalistas. Frequentemente falta conhecimento suficiente sobre o álcool e os danos relacionados ao álcool, o que evidencia a necessidade de capacitação.

Quinta-feira, Março 19, 2009

25 ANOS DE REDUÇÃO DE DANOS

Vou dividir o texto em 3 postes para facilitar a leitura. Eis, então, a parte I:

- E no final comentários sobre o texto.

Vinte e Cinco Anos de Redução de Danos: A experiência de Amsterdã (Tradução Fernanda G. Moreira)
Ernst Buning

Introdução:

Ao olhar para a história da redução de danos, levantam-se automaticamente as perguntas: “quem a desenvolveu? Onde? Quando? E por que?” Respondendo a estas perguntas: os primeiros a desenvolverem políticas de redução de danos foram especialistas, autoridades locais e representantes de usuários de drogas, em algumas cidades européias. Tudo começou nos anos 1970 em Amsterdã e Roterdã, na Holanda e ema algumas cidades britânicas, como Liverpool. Outras cidades européias como Zurique, na Suíça, Frankfurt, na Alemanha e Barcelona, na Espanha começaram mais tarde. Todas estas cidades enfrentavam problemas sérios com farmacodependentes, comunidades protestando, rede de atendimento inadequada e sensação de impotência e ineficácia da força policial. A redução de danos, com seu foco no pragmatismo, pareceu ser a estratégia mais lógica a ser seguida.
Muito frequentemente, acredita-se que a redução de danos seja uma abordagem “progressista” ou “liberal”. Indubitavelmente, existem aspectos progressivos e liberais em sua maneira de focar os direitos humanos dos usuários de drogas, e ao aceitar que algumas pessoas não estão prontas para interromper este uso. Mas ao mesmo tempo, a redução de danos é uma alternativa para gerenciar e controlar um problema social complexo que pode ser um peso para muitas comunidades. Com as estratégias da redução de danos, a comunidade está em contato com um grupo de pessoas que causam muitos problemas. Adotando atitudes de empatia, compreensão e não-exclusão, os primeiros passos são dados para reduzir o dano que os usuários de drogas causam ao seu ambiente. Fornecendo informações sobre o HIV e dando-lhes meios de proteger-se e a outros da contaminação, a comunidade conserva vidas e dinheiro. A redução de danos tem pouco a haver com a “esquerda” ou “direita”, “progressista” ou “conservador”. É uma estratégia muito prática para controlar um problema complexo. A melhor maneira de fazer isto é envolver as pessoas em questão, isto é, os usuários de droga. Isto só pode ser conseguido mostrando respeito e empatia. É simples assim.
Neste capítulo, eu me deterei em Amsterdã, pois esta é a cidade onde eu trabalhei nos últimos 25 anos, e testemunhei o nascimento da redução de danos e fui capacitado para executar uma série de intervenções neste sentido.
Atualmente, a redução de danos é completamente aceita como a principal abordagem dos problemas relacionados ao uso indevido de drogas em meu país. Algo que começou há 25 anos como um experimento, agora se tornou a principal corrente de pensamento. Quem pensaria isto, há 25 anos?

As Coisas Saíram Fora do Controle...

Nos anos 1970, o problema do uso indevido de drogas em Amsterdã cresceu consideravelmente e em 1978 as coisas saíram fora de controle. O que aconteceu? Quando a heroína foi inicialmente introduzida em Amsterdã em 1972, somente alguns hippies, que já usavam o ópio, experimentaram a heroína. Mas logo chegaram novos grupos de usuários de heroína, entre os quais, os jovens do Suriname. O Suriname é uma antiga colônia holandesa, que se tornou independente em 1975. No período de 1970 a 1975 muitas pessoas vieram para a Holanda, esperando um melhor futuro social e econômico do que no recém-independente Suriname. Naqueles dias, a Holanda enfrentou sua primeira crise econômica após a guerra. Nós também tivemos uma crise de energia por causa de um boicote de petróleo dos países árabes e o desemprego alcançou um nível muito elevado. Desnecessário dizer que os novos imigrantes do Suriname não foram recebidos com braços abertos. Eles enfrentaram problemas sérios, tais como o racismo, o desemprego e a falta de moradia. Alguns deles fizeram contato com membros da comunidade chinesa que, naqueles dias, eram responsáveis pelo tráfico de heroína. Um número substancial de jovens imigrantes do Suriname era recrutado para trabalhar como traficantes nas ruas e logo muitos deles ficaram dependentes de heroína. Em 1978, estimava-se haver cerca de dois mil dependentes de heroína originários do Suriname, sem qualquer contato com a rede de atendimento, envolvidos seriamente com a criminalidade, gerando grande apreensão pública na região central de Amsterdã.
Outro grupo que surgiu era formado por jovens das famílias de classe operária. Saíram cedo da escola e não conseguiam encontrar trabalho. Tinham uma visão muito negativa da vida, não confiavam no sistema e encontraram na “carreira” do heroinômano uma boa alternativa a ficar em casa fazendo nada.
Um terceiro grupo de heroinômanos era compostos pelos farmacodependentes que vieram de outras partes da Europa à “Meca” das drogas, Amstredã. Por causa de seu clima tolerante, se tornou internacionalmente famosa como a Meca das drogas e muitos dependentes químicos que se sentiam reprimidos e mal entendidos em seu próprio país, julgaram apropriado vir a Amsterdã.
Tudo isto junto, em 1978, havia aproximadamente dez mil dependentes de heroína em Amsterdã e somente muito poucas instituições para dar-lhes ajuda e suporte. A comunidade não aceitou mais por muito tempo o incômodo causado pelos dependentes químicos e começou a mobilizar e pressionar as autoridades locais. Em outras palavras: as coisas saíram fora de controle e era necessária alguma ação.

Agindo

O conselho da cidade de Amsterdã solicitou ajuda da Secretaria de Saúde Municipal local (GG&GD) para resolver a bagunça. Em sua missão, o GG&GD assume que é responsável pela saúde pública da população de Amsterdã e também por “assegurar a continuidade da vida pública em caso de grandes catástrofes”. Cuidar da situação descrita a respeito do uso problemático de drogas se encaixa na missão do GG&GD. Definindo as drogas como um problema de saúde pública, foi encontrada uma maneira de lidar com os problemas sociais, médicos e judiciais relacionados ao uso da droga em uma estrutura bem conhecida e estabelecida. A estratégia foi desenvolvida com os seguintes elementos:
. É preciso entrar em contato com todas as pessoas que usam drogas e causam problemas a si e/ou a outros.
. É preciso estudá-los para entender qual é o problema e que tipo de ajuda precisam.
. É preciso desenvolver um sistema de registro para acompanhar os pacientes.
. É preciso mapear todas as instituições de assistência e otimizar o seu uso.
Baseando-se nestes pontos simples, não foi tão difícil desenvolver ações concretas. Entrar em contato significa que nós tivemos que mudar nossa atitude: nós não poderíamos continuar por muito tempo esperando em nossos escritórios que os usuários de droga viessem do nosso jeito. Não, tivemos que sair para encontrá-los nos lugares que eles estavam. A fim de conhecer as necessidades do farmacodependentes, tivemos que mudar nossa atitude com relação ao tratamento oferecido a eles. Nós pensávamos que o tratamento voltado para a abstinência era a melhor opção, mas a maioria dos heroinômanos não achava o mesmo. A nossa oferta não seria aceita, então tivemos que mudar nosso jeito para encontrar as necessidades deles. Nossa oferta teve que se adequar à demanda. Finalmente, tivemos que otimizar nossa cooperação. Talvez esta tenha sido a parte mais difícil. Nós havíamos criado nossos próprios reinos e agora precisávamos otimizar nossa oferta. Desnecessário dizer que todas estas ações não foram feitas do dia para noite. No parágrafo: “estratégias de redução de danos”, três intervenções serão detalhadas: programas de redutores de dano nas ruas, terapia de substituição e troca de seringas.

Não Podemos Agir Sozinhos...

Quanto um problema de drogas sai fora de controle da forma como aconteceu em Amsterdã, é óbvio que nenhuma organização consegue dar conta agindo isoladamente. Havia os jogadores principais em Amsterdã, ié, a Secretaria de Saúde Municipal (GG&GD), o centro de Jellinek, algumas ONG menores e naturalmente a polícia e a prefeitura da cidade. A prefeitura da cidade organizou reuniões regulares onde todas as partes envolvidas se encontravam. Estas reuniões eram essenciais para firmar um consenso das intervenções a serem realizadas e estabelecer uma divisão de trabalho apropriada. Foi acordado uma tentativa de incluir clínicos gerais no projeto e –quando necessário – treinados. Aproximadamente duzentos dos quatrocentos clínicos gerais passaram a prescrever a metadona aos heroinômanos. Acordos foram feitos com as clínicas de metadona, os pacientes “difíceis” podiam sempre ser encaminhados do clínico geral para a clínica. Isto tirou muito do peso colocado nos ombros do clínico geral e ajudou-nos a envolver muitos deles no projeto. Um registro central, também foi criado a fim de impedir prescrição duplicada.
Era fácil cooperação entre as instituições? Absolutamente não. Existiam muitos pontos de vista diferentes, muitas diferenças ideológicas e em muitos dos casos, as instituições estavam receosas de perder dinheiro ou poder (ou ambos) ao se associar a outras instituições. Entretanto, todos perceberam que nenhum de nós teve a solução ideal e que dependíamos uns dos outros para controlar o problema, então se criou uma estratégia equilibrada. Porque afinal, todos queríamos o mesmo: reduzir os problemas relacionados ao uso de substância ilícitas.

A Ameaça Está Aqui Dentro

Exatamente quando nós pensávamos que o problema estava controlado, surgiu um problema novo: a AIDS. Sem ser notada, já tinha se instalado em Amsterdã, sendo transmitida de uma pessoa para outra por meio das agulhas e seringas contaminadas e do sexo desprotegido. Inicialmente nós pensávamos que “naturalmente” Amsterdã seria poupada da epidemia de HIV. Nós tínhamos uma rede de atendimento tão boa, tínhamos contatado mais de 80% dos farmacodependentes, as agulhas e seringas estavam livremente disponíveis, assim por que nós deveríamos nos preocupar? Bem, estávamos errados! Os primeiros estudos realizados em 1986 mostraram uma prevalência do HIV entre as prostitutas dependentes era da ordem de 30%. Nós ficamos chocados e levou algum tempo para nos darmos conta das conseqüências. Mas, uma vez conscientizados, pusemos muitos de nossos conflitos ideológicos de lado e começamos a trabalhar duramente. Expandimos a troca de seringas, realizamos campanhas intensivas de informação sobre sexo seguro e técnicas mais seguras de injeção e disponibilizamos preservativos em todos os lugares onde os usuários de drogas poderiam ser encontrados. Infelizmente, para muitos farmacodependentes, estas ações vieram tarde e estes morreram de AIDS antes que uma medicação eficaz estivesse disponível. Felizmente, outros passaram a usar o sistema a seu favor, permaneceram soronegativos e assim sobreviveram.


DROGAS EM AMSTERDÃ
Coffeeshops

Todos que estiveram em Amsterdã, viram nossos coffeeshops. Estes são bares onde a cannabis pode ser comprada e usada. O consumidor pode comprar até cinco gramas por vez. O varejista tem um menu com uma visão geral dos vários produtos e uma descrição dos efeitos. Ele tem que seguir determinadas normas e regras a fim de manter sua licença:
. Proibida a venda de drogas pesadas (cocaína e heroína).
. Proibida a venda aos menores de 18 anos.
. Proibida a propaganda.
. Não incomodar a vizinhança.
A policia verifica regularmente os coffeeshops para ver se trabalham de acordo com o regulamento. Caso contrário, o lugar é fechado.
Por que nós temos estes coffeeshops? É porque nós pensamos que é legal ficar “chapado”? Naturalmente não. Nós temos estes coffeeshops porque acreditamos que é apropriado separar o mercado das drogas pesadas do mercado das drogas leves[1]. Isto significa que as pessoas que querem usar a cannabis podem fazê-lo em um ambiente relativamente seguro. Não haverá ninguém “empurrando”, querendo que o usuário de cannabis troque por drogas mais pesadas e não haverá ninguém vendendo mercadorias roubadas e nenhuma possibilidade de inaugurar uma ficha criminal se a policia chegar. O interessante é que a existência dos coffeeshops na Holanda não trouxe um consumo mais elevado de cannabis do que nos países ao redor. O consumo regular de cannabis no EUA é duas vezes mais elevado que na Holanda. Isto prova que a disponibilidade das drogas é somente um fator para que as pessoas tomem a decisão de usar drogas ou não. A Holanda tem sido criticada por ter coffeeshops, mas, ao mesmo tempo, muitos outros países têm uma política similar para as drogas leves. Em numerosos países, a polícia é condescendente para usuários individuais de cannabis, pois se percebeu que seria muito custoso para o sistema judiciário se todos os usuários de droga leve fossem presos e processados.
Em 2003, a cannabis foi disponibilizada para o uso terapêutico na Holanda. Os médicos agora podem prescrevê-la, por exemplo, para aliviar os efeitos colaterais da quimioterapia ou da farmacoterapia para a AIDS ou para o alívio dos sintomas da Esclerose Múltipla. Com uma prescrição médica, os pacientes podem obtê-la na farmácia. A cannabis necessária para este tipo de tratamento é cultivada em dois centros na Holanda sob a supervisão estrita do Ministério da Saúde Holandês.

Cavalgando o Dragão.

Embora a epidemia de AIDS tenha golpeado Amsterdã duramente, poderia mesmo ter sido muito pior se nós não tivéssemos assim muitos dependentes que “cavalgam o dragão” mais do que injetavam. O que aconteceu? Esta é uma antiga história da cultura surinamesa. Nesta cultura, pôr uma agulha em seu braço é um grande tabu. Assim os jovens imigrantes do Suriname entraram em contato com a comunidade chinesa e foram introduzidos à heroína, pediram aos chineses alternativas para injetar drogas. Os chineses ensinaram-lhes o método de cavalgar o dragão: a heroína é posta sobre um pedaço de papel-aluminio. Um isqueiro é preso sob a folha e aceso. O papel esquenta e a heroína começa a soltar fumaça. A folha é presa parcialmente em um ângulo de modo que a heroína escorra para a parte inferior do papel. O fumo (o drgão) é inalado por meio de um tubo. O usuário segue a fumaça e assim “cavalga o dragão”. Na língua holandesa, esta forma de fumar é chamada chinesing. Devido ao fato de muitos traficantes de rua cavalgarem o dragão, esta maneira de consumir drogas virou moda e logo muitos dependentes de heroína que eram holandeses nativos e também “turistas das drogas” começaram a imitar o comportamento dos traficantes de rua e trocaram o hábito de injetar pelo fumo da heroína. No fim dos anos 1980, estima-se que uns 60% dos heroinômanos estavam fumando. Também por causa da ameaça do HIV, o número dos usuários da forma injetável caiu consideravelmente.

Cocaína

Quando nós fizemos as primeiras saídas do projeto “Metadona de Ônibus” em 1979, revelou-se que 50% de nossos clientes usavam cocaína regularmente. Isto significa que a cocaína faz parte da cena das drogas pesadas há muito tempo. Muitos dependentes de drogas pesadas seguiriam programas de metadona reduzindo o uso da heroína, mas continuavam o uso de cocaína. No fim dos anos 1980, foi introduzido o hábito de fumar a pasta-base da cocaína. Inicialmente feito em grupo, com cachimbos d´água cheios de rum, o uso logo passou a ser individual. Muitos usariam o método de “seguir o dragão”. Pegariam a cocaína e misturá-la-iam com o bicarbonato de sódio e um pouco d´água. Então a aqueceriam e a nova substância seria posta sobre a folha de alumínio e fumada. Isto era “crack avant la lettre”. Ainda hoje, a cocaína é usada desta maneira por um grupo de dependentes de drogas pesadas. Em Amsterdã, os dependentes de drogas pesadas sempre foram usuários de múltiplas drogas. A heroína era a droga principal, que começou tudo, mas a cocaína e os benzodiazepínicos sempre tiveram um papel muito importante.

Exemplos de Intervenções de Redução de Danos: Redutores de Danos nas Ruas, Metadona e Troca de Seringa.

Se Eles Não Vem a Você....

Muitos usuários de drogas não estão interessados nos serviços tradicionais de tratamento orientado para abstinência. Estes vêem este tipo de serviço como paternalista, forçando-os a fazer coisas que não estão prontos para fazer. Se isto é verdadeiro ou não, não é importante. Importante é que esta é a imagem dos serviços tradicionais. Assim, se os usuários de drogas não vierem a nós, nós temos que ir a eles. Em Amsterdã nós fizemos isto de muitas maneiras diferentes. A primeira é o bem conhecido “Trabalho de Esquina”. Os trabalhadores (redutores de dano) que são próximos do ambientes das drogas, por causa do seu estilo de vida ou por causa de sua própria história de uso drogas, vão aos lugares de uso de drogas. De um lado, eles são parte disto, no entanto, de outro lado, representam o sistema estabelecido e dão forma a uma ponte. Fornecem intervenção em crises, dão informação e suporte e encaminham os farmacodependentes às instituições de atendimento. A segunda maneira em que nós fizemos o contato foi nas delegacias de polícia. A polícia de Amsterdã procurou o GG&GD com um pedido. Existiam muitos problemas com os dependentes de heroína presos que teriam sintomas de síndrome de abstinência, tais como vômitos, pela interrupção abrupta do uso de heroína. Para a polícia era muito difícil lidar com eles e queriam que um médico do GG&GD examinasse todos os dependentes de heroína presos. Este programa começou em 1977. Atualmente entre 1.500 e 2.000 dependentes de heroína presos foram examinados, receberam medicação, tal como a metadona, para minimizar os sintomas da síndrome de abstinência, foram feitos encaminhamentos e – quando necessário – um assistente social foi encarregado de cuidar de problemas sociais mais imediatos. Aproximadamente 50% das pessoas vistas na delegacia de polícia não estavam em contato com a rede de atendimento regular. Este programa gerou oportunidades excelentes de “vender” as instituições de atendimento. Uma terceira maneira de estabelecer contato com os dependentes de heroína era nos hospitais. Os hospitais gerais enfrentavam grandes problemas com os farmacodependentes em suas divisões. Freqüentemente, a equipe médica não sabia o que fazer. Deveriam agradáveis? Deveriam ajudar um dependente a mudar o hábito? Deveriam confrontá-lo? Uma equipe de enfermeiras do GG&GD foi recrutada para ver todos os pacientes dependentes de drogas em todos os hospitais gerais de Amsterdã. Estas enfermeiras falariam com os pacientes e com as equipes médicas. A primeira prioridade era o tratamento adequado da condição médica pela qual o paciente foi admitido. Isto exigiria alguma disciplina do paciente e alguma paciente da equipe médica. Somente depois que a condição médica tinha sido tratada, a questão do uso indevido de droga seria abordada. Enquanto isso, o paciente receberia a metadona a fim de tratar a síndrome de abstinência. Esta também se mostrou uma maneira muito eficaz de contatar novos farmacodependentes e motivá-los para aderir à rede de atendimento.
[1] - Eu uso o adjetivo leve para designar os derivados da cannabis como o haxixe e a maconha. Apesar de estas serem menos danosas que as drogas “pesadas”, ainda assim são drogas e quando usadas com muita freqüência podem causar sérios problemas ao usuário.

Terça-feira, Fevereiro 17, 2009

Hipótese Etiológica V.1; RD 2.3


Um velho sábio uma vez me contou uma estória, sobre um rapaz, pois que o sábio queria ser ouvido, e fazer-me ouvir, a estória daquele jovem, tão parecido conosco, da vida moderna. E disse assim:


Era uma vez Ricardo, aos seus 16 anos já começara a apresentar sintomas de depressão, não saia de casa para nada, concentrava suas forças, embora não quisesse, em auto-depreciações aparentemente injustificadas. Já nessa época bebia bastante. Aos 17 começou o uso de cocaína, e em pouco tempo, em conjunção com a explosão do crack nas bocas de fumo da sua cidade, resolveu experimentar o dito cujo, como se fizesse o antigo ditado presentificar-se: “A situação faz o ladrão”.


Ao subir a boca de fumo de um morro popular da Zona Sul, ainda com sua linguagem entrecortada pelos dois mundos, pediu:


- Vê uma pedra de 15, por favor. (Evidentemente seguida de muitas mais)


Ricardo após vender um bocado de coisas de sua casa e ainda sem coragem para cometer outros furtos, resolve, após uma desconstelação temporária de sua não tão pomposa heroicidade, tratar sua já nítida dependência. Após algumas semanas de tratamento, novamente no morro, pede ao vendedor da boca:


- Vê um pó de 10, por favor. (Seguido de alguns mais).


Quando a depressão batia forte, Ricardo ia ao Centro de Atenção onde fazia tratamento pedir ao psiquiatra que lhe atendia:


- Vê um prozac de 20 e um tofranil de 25, por favor. A minha acabou. (Ainda faria vários pedidos deste).

Após o termino do tratamento, sem dúvidas um sucesso, o jovem rapaz saiu pela porta da frente, de peito estufado. Aspirou o ar, como se este fosse puro, e tossiu. Atravessou a rua e quase foi atropelado; do outro lado da calçada olhou com medo e compaixão para garotos jogados pela rua baforando a “pedra” que deixara para trás. Chegando em casa se deparou com o terror da ausência de dinheiro numa sociedade de consumo.


Foi para o mercado e não pensou duas vezes:


- Balconista! Me vê uma Pepsi cola de 3 e um M&M de 5.


Assim contou-me o velho sábio.

Quinta-feira, Fevereiro 12, 2009

Questões de realidade


Em primeiro lugar, não gostaria de gerar expectativas sobre este post, pois ele foi feito com menos rigor que o de praxe. Feito o adendo, vamos ao post propriamente dito.

Podemos dizer, sem muito medo de errar, que a fenomenologia foi um grande avanço para livrar-nos de uma saraivada de pré-conceitos sobre a questão da realidade e sobre a vida das pessoas. A redução eidética, isto é, o movimento do fenomenologo de suspender os juizos prévios sobre um fenômeno (phainomenon) permite que o fenômeno se mostre, se desvele (alethéia) em sua radicalidade na relação com seu observador. O ser humano como sujeito de possibilidades, dá sentido àquilo que aparece e se coloca, mesmo antes de sua reflexão, em relação. Uma relação pré-reflexiva. Em outros cantos, Doutos do saber, intelectuais ou não, tentaram reduzir a realidade a um fragmento que em pouco tempo mofava, como se a realidade pudesse ser reduzida a questões químicas, psicológicas, empíricas ou racionais. É nesta desestratificação, neste movimento de colocar em movimento, que a fenomenologia nos é tão cara. E o mais interessante é que ela nos coloca em devir sem deixar de perder o próprio fenômeno, como acontecia com as infindáveis discussões medievais.

Isso, e uma série de saberes contemporâneos, nos dão margem a pensar a complexidade da realidade. Em última análise, lembrando Edgar Morin, a complexidade não é apenas um conjunto quantitativo gigantesco de relações que se estabelecem num determinado fenômeno, mas também a própria incerteza que aparece na relação com o observado. Quer dizer, a complexidade é a impossibilidade do princípio de identidade se impor de uma vez por todas. Se “A” é “A”, “A” também pode ser “B”, “C” ou “D” e isso simultaneamente. Uma árvore pode ser ao mesmo tempo objeto de estudo de um biólogo, uma sombra para um sol escaldante e uma ligação com a mãe natureza e, ainda assim, ser uma árvore.

No entanto, o que talvez os fenomenologos não percebam, é que estar no mundo é já se colocar em algum mundo. Se pensarmos a realidade como uma única realidade então incorremos no erro de subjugar outras formas de estar no mundo a erros. A forma indutiva não é a salvação da Verdade. Em última análise, não é mais que uma interpretação dizer que existe per si um caminho “as coisas mesmas”. Este caminho é parte de uma fantasia mais ou menos importante para o pensamento ocidental e se quisermos de fato colocar a questão da realidade em devir é fundamental que pensemos as múltiplas possibilidades de realidade.

Quando alguém entra em um estado alterado de consciência, o que podemos dizer? Podemos pensar: esta pessoa está alucinando (se ela vê, ouve, sente algo que contém as propriedades de uma senso-percepção padrão e que não tem estímulo perceptível as outras pessoas), esta pessoa está delirando (se possui pensamentos persistentes e não adaptados a uma determinada cultura, sendo impermeáveis à argumentação lógica), esta pessoa tem uma ilusão (percebe de forma errônea determinada estimulação que existe no mundo consensual), ou ainda que esta pessoa está adaptada a uma determinada cultura que crê neste tipo de coisa e, por conseguinte, é uma pessoa normal enganada, é um possível iluminado, ou é um esquizofrênico em potencial.

Claro que poderíamos multiplicar este quadro infindávelmente, mas também não se trata disso. O encontro com outras realidades que não a realidade padrão, que Robert Anton Wilson chama de “Túnel Realidade do Consenso” é normalmente pensado como um erro de percepção, erro de juízo, ou qualquer outro tipo de julgamento equivocado. Isso se deve a esta reflexão de que a realidade deva ser isto ou aquilo outro, uma limitação que se por um lado faz parte de nossas possibilidades organísmicas (nosso padrão orgânico/genético) por outro faz parte da uma longa aprendizagem social que inclusive molda e permite um determinado caminho do desenvolvimento biológico, cognitivo, perceptivo...

Se é possível encontrar elementos isomórficos num determinado mosaico fenomenal, por exemplo, numa tomografia computadorizada de cérebros de “esquizofrênicos” em crise, não significa que as realidades existenciais sejam compartilhadas. Da mesma forma não é porque a dependência de drogas geralmente passe pela alteração da via dopaminérgica (aumento do neurotransmissor dopamina passando pela via meso-límibica, passando pelo núcleo accumbens até o córtex pré-frontal) que a dependência seja formada sempre numa mesma e única configuração de real. Ou mesmo que a mudança nestas regiões cerebrais resulte inevitavelmente numa dependência.

Com isto não quero dizer que a realidade seja psicológica, bioquímica ou outro reducionismo qualquer. Pretendo, em primeiro lugar, lembrar da frase de Paul Éluard: "Existem outros mundos, mas estão neste” para sustentar a idéia de um monismo poli-realista. As realidades, como túneis realidade, são ao mesmo tempo diferenciadas e inter-relacionadas. Uma pessoa que vê algo não-padrão e que não percebe seu corpo na realidade consensual pode morrer para “nossa” realidade assim mesmo se tomar um tiro. Evidente que este modo de pensar/sentir não passa de uma fantasia, por outro lado, assim como nossos amigos Sufis ao falar do Alam-al Mithal, esta realidade está longe de ser inócua. Colocar-se em uma fantasia ou ser colocado nela é estar em um mundo com seus riscos, prazeres, liberdades, deveres, etc. O que não podemos dizer é exatamente do que se tratam estes outros mundos. Neste caso, o primeiro momento, é mais justo que nos coloquemos como os fenomenologos – isto se não podemos nos colocar como experimentadores – e perguntar a esta outra realidade, a este sujeito que se coloca ai, como é esta outra realidade, como é esta experiência e não dizer de pré-mão o que seria o que ali ocorre singularmente.

Jung em seu artigo “O real e o Supra-real” de 1933 dizia que não conhece nada a respeito de um supra-real na medida em que tudo o que age, tenha sido visto ou não, é real. Todo pensamento, fantasia, imaginação é realidade, pois se fosse irrealidade nada saberíamos sobre. E prossegue dizendo que este assunto só se complica quando impomos uma limitação unilateral na idéia de realidade, e re-lembra a frase reducionista – sem dar nome aos bois – de Locke: Nihil est in intellectu quod non antea fuerit in sensu (não existe nada no intelecto que antes não tenha passado pelos sentidos). O pensamento expresso por Jung é a base de uma realidade ampliada (em relação a realidade positivista e materialista), porém, esta realidade monista é ainda formada por sub-tipos de realidade que são vistos por uma minoria de pessoas, as vezes uma ou duas, o que justifica pensarmos sobre as diferenças radicais entre realidades que se engendram dentro desta realidade mais ampla.

O máximo que talvez pudéssemos fazer é perceber se existem certos padrões nesta descensus ad ínferos (decida aos infernos), nem que seja a presença de uma sensação de viajem, de uma vivência anímica de encontro com uma alteridade. Os padrões arquetípicos neste caso nos ajudam a nomear estas singularidades, como ao falar da descida ao que não é possível denominar complexo do Eu (ego) e lembrar os mitos de Hermes ou as vivências em Zagreu (1º Dioniso). Como falar da diferença entre os túneis realidade sofridos de uma “bad trip” e dos encontros com os Jardins do Éden.

A pergunta que se impõe seria: Quais as possíveis finalidades da alteração do estado de consciência? O que há de importante em não limitar as realidades alternativas a meros erros? Elas produzem algo de benéfico? Produzem que tipo de sentido? Estas realidades podem contribuir de alguma forma para o encontro da singularidade de cada um? Qual a relação entre diferentes realidades e o estado onírico? E a idéia de inconsciente? Como se produzem estes estados neuroquimicamente, há correlação entre todos eles?

Por ai vai.

Segunda-feira, Fevereiro 09, 2009

"O destino nos persegue como um louco com uma navalha na mão"

Coruja, Coruja,
Venha me ajudar,
Coruja, Coruja,
Filha de Atená

E dos biscoitos chineses, sempre eles:

Reze pelo que deseja, faça o necessário.

Quinta-feira, Outubro 16, 2008

Comunidade e Mosaico de Estranhezas




O termo comunidade é daquelas palavras que dificilmente fazem brotar qualquer neutralidade ou imparcialidade. Os adeptos do positivismo sempre tiveram “um pé atrás” (ou os dois) diante não só deste termo, como também da idéia que conceberam de comunidade. Isso porque, nos primórdios, o paradigma positivista aparece em contraposição ao modelo medieval, pelo menos parcialmente, na medida em que vários pontos, inclusive no religioso, existem convergências significativas. Essa contraposição, em termos sociais, pode ser observada, por exemplo, no abandono do modelo de “guildas” onde existia algo próximo a uma lei interna que geria o mosaico, ou sistema, se preferirem o termo fisicalista.


Na individualização construída que se radicaliza na revolução francesa não havia mais espaço para a idéia de comunidade enquanto homogeneização total (ou quase) de sujeitos em sub-estruturas grupais que se afastavam da unidade de alta complexidade composta, dentre outros, pelo Estado. Logo, a individualização promovida foi uma individualização que por um lado afasta os sujeitos concretos da antiga idéia de comunidade, como lugar dos comuns, mais radicalmente como lugar dos iguais e por outro lado, com o fenômeno da nacionalização unifica esses sujeitos sob a égide de uma lei única, que iguala esses sujeitos a partir dessa cisão.


Já do “outro lado do muro”, no prenuncio do auge individualista os primeiros socialistas resgatam antigas “utopias”, romanceadas pelo ardor da paixão (pathos) e fantasiadas através do arquétipo do paraíso, que foi constelado, por exemplo, no Éden pelos cristãos. Para alguns destes primeiros socialistas a socialização radical proposta era a fundação de uma comunidade global – ou situacional e localizada para alguns, como os Anabatistas e outros “proto-comunistas” – onde haveria homogeneidade de pensamentos, bens materiais (ou ao menos o fim da propriedade privada), objetivos e visões de mundo. As pessoas seriam boas por excelência (o mito roussauniano se propagou de tal modo que aparece com força mesmo na emergente psiquiatria ou nos casebres-fazendas religiosas que visavam o tratamento dos desvairados e desatinados).


Na observação cotidiana de uma comunidade, sejamos francos, não é isso que vemos ou ouvimos. Comunidade não se trata nem de uma soma de sujeitos (que aqui o princípio gestáltico tome potencia! “o todo é maior que a soma das partes”), nem tampouco de uma igualdade absoluta e indiscutível de (in)existências. Temos, portanto, que compreender comunidade de um outro modo, onde seja possível uma superação das dicotomias “individual x coletivo”, “singularidade x homogeneidade”. Uma comunidade só pode ser definida a partir da uma ligação sentimental/afetiva entre seus membros, de um continuum espaço-temporal – o que nos remete a questão do território - e de uma simbólica de diferença a partir da unidade, ou seja, mosaico de isomorfos não-triviais. Em conseqüência a comunidade é lócus privilegiado de desenvolvimento das potencialidades humanas, da individuação, pois é nesta ligação estreita entre as dimensões singulares e genéricas que a dialética pode desestratificar conduções estereotipadas, isto é, temos aqui o funcionamento da própria “função transcendente” (cf. Jung, Natureza da Psique).


Clareando a idéia da comunidade como mosaico, devemos considerar que mosaico é um termo utilizado como substituto da noção de sistema, já que “sistema” esteve associado intimamente a física newtoniana e ao positivismo, sendo mais claro, a certeza estabelecida através da trajetória (a verdade revelada pela sucessão causal espaço-temporal). Nessa perspectiva sistema é o conjunto de elementos não havendo qualquer noção de totalidade. Então, mosaico permite atentar para o que é comum, para a “comunidade”, ao mesmo tempo que para a diferença, sendo cada parte do mosaico isomórfica ao todo, quer dizer, de forma semelhante (não igual). Mas não apenas isomórfica, mas isomórfica não-trivial, considerando aqui a abertura e o fechamento do mosaico, quando dizemos que ele é “não-trivial” queremos dizer que cada parte do mosaico é relativamente fechada e relativamente aberta (assim como o todo do mosaico, já que ambos tem ismorfismo), por conseguinte, há abertura e modificação do mosaico sem necessariamente consideramos causas ou efeitos (aqui considerando mais de um tipo de temporalidade, tempo-continuidade, tempo-circularidade), ou seja, o mosaico não é definido a priori nem se limita a si mesmo (A não é necessariamente/exatamente A, e pode ser ao mesmo tempo B – alteração do princípio de identidade de Descartes e do princípio de não-contradição aristotélico), sendo, por outro lado, claramente definível. Assim, sabemos que é uma coisa é uma coisa, mas essa coisa sempre rompe o seu próprio estatuto. Então, um grupo nunca se resume a suas relações dadas (está em trans-formação), apesar de percebemos claramente sua coesão e unidade (de alta complexidade).


Cada projeto comunitário, cada ação na comunidade, da comunidade deve passar pelo sujeito concreto e, logo, passará por sua dimensão ético/estética/religiosa, por uma imbricação de sentidos, desejos, etc. Cada sujeito num grupo ou numa comunidade está presente, alterando o mosaico, mas ao tempo pode possuir uma dissonância e essa dissonância faz parte de toda fundação complexa (inserção da incerteza e das bifurcação nos mosaicos, toda totalidade é não-toda – faltante, inacabada, apesar de formar um todo), onde não existe previsibilidade, pois o mosaico não se comporta linearmente, nem mesmo aleatoriamente, mas de forma, como diz Morin, semi-aleatória.


Feitas essas considerações, podemos tentar superar, de alguma forma, o antigo pensamento de comunidade, onde o povo, a população, os membros do mosaico eram considerados “massas disformes” e logo deveriam ser conduzidas por um salvador da pátria, aquele que “sabendo do real do sistema” conduzi-lo-ia ao progresso. Ora, a população não é massa disforme, nem responde apenas a apelos materiais, restando a burguesia as sutilezas psicológicas, mas cada pessoa dentro da população contem o todo daquele mosaico (princípio hologramático, Ued Maluf, por outro lado, re-formula seu nome, por considerá-lo fisicalista), sem se limitar a ele (possibilidade de criação, não porém ex nihilo).


Concluímos que através de outra percepção de comunidade é possível pensá-la como lugar fundamental da individuação e que alterações no território simbólico (psicoide) engendram mudanças, usando um termo pouco interessante, mas clarificador, psico-fisicas. Logo, é vital em qualquer ação psíquica, política, social, sentir as territorialidades, as comunidades que se formam, que se des-formam, que se trans-formam e atravessam cada sujeito concreto e cada mosaico social. O mais-que-óbvio, que as vezes não é tão óbvio assim, que o texto discute é a superação da dicotomia sujeito-objeto, sujeito-comunidade, pois é na comunidade que o sujeito se individua e no sujeito que a comunidade faz o mesmo.
(Pitura - Paul Klee - Cidade de Sonhos)

Sábado, Agosto 09, 2008



Ave Deus dos Mares!

Ave Queridos peixareiros que peixearam 08/08/08, louvados sejam!

Ave Todos nós que, doravante, somos peixes graudos!

The parrachian´s way

It´s ok!

Terça-feira, Julho 15, 2008

Tem alguem ainda aí? Alou??

Eco
Eco
Eco

E Narciso encanto, decantado. Mas, quiçá, Narciso desencanto, rio sujo, poluído, merda marrom.

Blog-vivo, calado. Deserto vazio ou cheio?

Nunca imaginei que a vida pudesse ser dura assim. Nunca sentira na pele a queimadura que o capital nos faz sentir.

Medo, desespero. Anuncio de ónibus: teatro da vida real.

Blog falante, através de dedos calados, dias quentes, pensamentos abafados.

Quando me enveredei por este caminho? Posso continuar?

Só um idiota revela seus sentimentos em público.

Eco
Eco
Eco

Todos se resolvem, diz a fantasia. O diabo está sempre a espreita: conheço bem o fascista que ronda minha alma. Se esconde no hipocampus - come um belo filé de badejo à belle-manière. Mais c´est tout ou c´est rien. Ou o caminho do meio ainda é um resistência?

Domingo, Abril 20, 2008

Endereços.

Para quem pegou o COLAPSO e entrou neste site, vai um aviso. O endereço no aperiódico está errado, então aqui vão os endereços de onde surgiu o Colapso:

- http://dedoscruzados.blogspot.com - aqui é o endereço antigo, onde estão 99% dos textos.

- http://dialogoscasuais.thunderweb.com.br - este é o endereço novo, mas por enquanto ainda está bem vazio. Mas em breve o pessoal estará publicando nele e, se conseguirmos, levaremos os textos antigos para cá.

É isso.. abraços pessoar.

Terça-feira, Abril 15, 2008

Da impessoalidade


Continuando o processo dos posts pessoais, demasiadamente pessoais... Só me resta falar: "da impossibilidade da pessoalidade e da impossibilidade da impessoalidade".



Como é duro ser fraco
E no final sentir que há algo quebrado
Lá dentro, no interior.

Como quisera ter podido ser valente
Mesmo que de cabeça quente
Cuspindo fogo e ardendo brasa.

Quisera eu ter músculos verbais tão potentes
Pra não ser atropelado por essa gente
Que esmaga mesmo sem ter um trator.

Não que queira imputar-lhes culpa
Não, de forma alguma.
Culpado sou eu de aceitar tudo em candura

Mas o destino é cruel em ventos tais,
Quem mata menos às vezes é quem mata mais.
E se peço a minha gente de dentro,
Já não tão branda,
Uma outra dança..

... É certamente na esperança
De poder dançar melhor
De poder estar melhor
De poder ser melhor
De poder poder,
Assumir o posto que me clama.

-> A pintura é do renomado artista Frei Nando, ou como é vulgarmente conhecido, FernandoR.

Quinta-feira, Abril 03, 2008

Diletantismo e Reducionismo

Tenho uma confissão, queridas/os não-leitores: tenho uma paixão pelo diletantismo. Uma paixão pela paixão: amadora ou não, um interesse pela ampliação do interesse, pela complexidade quantitativa e qualitativa.

As pessoas hoje parecem ter repulsa à explosão de territorialidades polimorfas. Não queridos, vocês devem ser especialistas, depois de 30 anos de trabalhos com uma abordagem, com uma linha reconhecida dentro de uma ciência estabelecida, ai você tem um bom curriculum vitae para mostrar a todos, para conseguir mais um emprego. Não queira trabalhar em diversas áreas, não queira misturar teorias, não queira ser artista.... Não queira ficar numa corda bamba.

Tudo bem definido: ou A ou B. Arroz ou Camarão. E eu, e todo o conjunto de estranhos seres, que fazem toda uma bagunça intelectual - e também sentimental - arrastando, numa liberdade pitoresca, todo armazem de cimento do conhecimento, transformando-o num caos de possibilidades, territorilizando-se in situ, cada vez com uma cara diferente? Monstros, artistas, gozos, arquétipos, política, música, loucura.

A esses, o gosto amargo de um não-reconhecimento, de um distanciamento. O que importa deixa de ser criar, alterar, transmutar... o que vale é a monotonia de um cerceamento... monocausalidade, linearidade, previsibilidade, solaridade, masculinidade (mesmo nas mulheres)....

E os sonhos foram deixados de lado... Onde está, onde está, onde está aquela estranheza estrelar a deriva por entre luas e tortas?

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

Alma e Espírito

Primeiro post de 2008. É um texto do livro Psicologia Arquetípica de James Hillman (pgs. 51-53)... espero que goztem =)

Alma e Espírito
James Hillman (livro citado, capítulo 6)

Se imaginar é uma atividade inata da anima mundi, então a fantasia está sempre acontecendo e não está sujeita a uma epoché fenomenológica (Husserl: separar ou colocar em evidência no sentido de mover-se diretamente para o evento em si). Mais ainda, se a fantasia está sempre acontecendo, então epoché é uma fantasia em si: de isolamento, de objetividade, e de uma consciência que pode ser verdadeiramente mobilizada pelos fenômenos como eles são. A psicologia arquetípica sustenta, contudo, que não podemos nunca ser puramente fenomenológicos ou verdadeiramente objetivos. Nunca es está além do subjetivismo dado pelos dominantes das estruturas de fantasia inerentes à alma. Estes controlam as perspectivas subjetivas e as organizam em “instâncias”, de tal modo que a única objetividade que pode se tornar mais próxima resulta do olho subjetivo voltado para si mesmo, observando seu modo de olhar, examinando sua própria perspectiva com relação aos sujeitos arquetípicos, os quais estão neste momento direcionando nosso modo de ser no mundo dos fenômenos. A psicologia, como uma ciência objetiva, será sempre impossível, uma vez que se reconhece que a objetividade em si é um gênero poético (semelhante ao “escritor-como-espelho” do naturalismo francês), um modo de construir o mundo, de tal forma que as coisas aparecem puramente como coisas (sem face, animação, ou interioridade), sujeitas à vontade, separadas umas das outras, mudas, sem sentido ou paixão.

Há uma posição que é particularmente obstinada em prender-se à fantasia de que a fantasia está sempre acontecendo, e essa é a instância do espírito. Aparece como objetividade científica, metafísica ou como teologia. E quando a psicologia arquetípica criticou essas abordagens foi como parte de uma estratégia mais ampla para distinguir os métodos e a retórica da alma daqueles do espírito, de tal forma que a alma não seja mais obrigada a abrir mão do seu estilo para preencher as obrigações requeridas por uma perspectiva espiritual, quer seja filosófica, científica ou religiosa. Pra que a psicologia seja possível é precisa que se mantenha a diferença entre alma e espírito (Hillman, 1976; 1975ª, pp. 67-70; 1977a).

Algumas vezes a posição do espírito com sua retórica de ordem, número, conhecimento, permanência e lógica autodefensiva foi discutida como “senex” e saturnina (Vitale, 1973; Hillman 1975d); outras vezes, por causa da sua retórica de claridade e observação independente, foi discutida como apolínea (Hillman, 1972c); em outras ocasiões, devido à sua retórica de unidade, fundamentalidade, identidade, foi denominada “monoteísta”; e em outros contextos ainda, de “heróica” e também de “puer” (1967b).

Ao reconhecer que a perspectiva do espírito deve situar-se em posição superior (como a alma situa-se em posição inferior) e deve falar em termos transcendentes, fundamentais e puros, a psicologia arquetípica concebe como sua tarefa imaginar a linguagem espiritual da “verdade”, da “fé”, da “lei”, e assim por diante, como uma retórica do espírito, mesmo que o espírito seja obrigado, por essa mesma retórica, a tomar sua posição verdadeira e fielmente, isto é, literalmente.

Mais ainda, a diferença entre alma e espírito protege a terapia psicológica de ser confundida com disciplinas espirituais – orientais ou ocidentais – e dá ainda uma outra razão para a psicologia arquetípica evitar empréstimos de técnicas de meditação e/ou condicionamentos operantes, os quais conceituam eventos psíquicos em termos espirituais.

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

Cachos de antigos amores nos marca-dores

Cacho(s)-eira, na beira
D lemb-ranços o(dios)os
Quem, em desdem, massacra?
Com sua an(gelo)ical forma de deMOONio

O tempo passa e, assim, talvez
Tal vez possa ser excrescida
Numa me-móira guarda(dor)a e esquece(dor)a

Então, queridos amigos
No final
C guimos em frente
Apesar, por pesar, devagar
A cantar; a encantar
Muitas gentes...

... mesmo depois da FOGue(ira).

Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Meio Assujeitado


Depois de tanto tempo esse blog intacto, continuará meio intacto, meio escrito...


Sujeito meio assujeitado,
Meio gente, meio gado
Correu mesmo estando parado
Como se fosse um condenado

Os relógios pararam meio dia
Um escuso senhor comeu o ovo
Fortalecendo toda ecolalia

Sujeito meio assujeitado,
Meio gente, meio gado
Correu feito um abestado
Como se fosse um iluminado

As certezas proliferam-se,
Como ervas daninhas do cemitério
Corroendo por dentro todo mistério

Ah! Senhor, se pudesse algo fazer!
Para reascender teu coração

As TV´s, o carro do som,
Você não ouviu as cores do seu sonho
Você deixou os mitos para trás!
Seu José, seu João
Dona Maria!

Alcatraz!
Peça ajuda
Vê-se escuta
O som do trovão
As favas o bom
Leia tua mão
Faça revolução!