Domingo, Abril 20, 2008

Endereços.

Para quem pegou o COLAPSO e entrou neste site, vai um aviso. O endereço no aperiódico está errado, então aqui vão os endereços de onde surgiu o Colapso:

- http://dedoscruzados.blogspot.com - aqui é o endereço antigo, onde estão 99% dos textos.

- http://dialogoscasuais.thunderweb.com.br - este é o endereço novo, mas por enquanto ainda está bem vazio. Mas em breve o pessoal estará publicando nele e, se conseguirmos, levaremos os textos antigos para cá.

É isso.. abraços pessoar.

Terça-feira, Abril 15, 2008

Da impessoalidade


Continuando o processo dos posts pessoais, demasiadamente pessoais... Só me resta falar: "da impossibilidade da pessoalidade e da impossibilidade da impessoalidade".



Como é duro ser fraco
E no final sentir que há algo quebrado
Lá dentro, no interior.

Como quisera ter podido ser valente
Mesmo que de cabeça quente
Cuspindo fogo e ardendo brasa.

Quisera eu ter músculos verbais tão potentes
Pra não ser atropelado por essa gente
Que esmaga mesmo sem ter um trator.

Não que queira imputar-lhes culpa
Não, de forma alguma.
Culpado sou eu de aceitar tudo em candura

Mas o destino é cruel em ventos tais,
Quem mata menos às vezes é quem mata mais.
E se peço a minha gente de dentro,
Já não tão branda,
Uma outra dança..

... É certamente na esperança
De poder dançar melhor
De poder estar melhor
De poder ser melhor
De poder poder,
Assumir o posto que me clama.

-> A pintura é do renomado artista Frei Nando, ou como é vulgarmente conhecido, FernandoR.

Quinta-feira, Abril 03, 2008

Diletantismo e Reducionismo

Tenho uma confissão, queridas/os não-leitores: tenho uma paixão pelo diletantismo. Uma paixão pela paixão: amadora ou não, um interesse pela ampliação do interesse, pela complexidade quantitativa e qualitativa.

As pessoas hoje parecem ter repulsa à explosão de territorialidades polimorfas. Não queridos, vocês devem ser especialistas, depois de 30 anos de trabalhos com uma abordagem, com uma linha reconhecida dentro de uma ciência estabelecida, ai você tem um bom curriculum vitae para mostrar a todos, para conseguir mais um emprego. Não queira trabalhar em diversas áreas, não queira misturar teorias, não queira ser artista.... Não queira ficar numa corda bamba.

Tudo bem definido: ou A ou B. Arroz ou Camarão. E eu, e todo o conjunto de estranhos seres, que fazem toda uma bagunça intelectual - e também sentimental - arrastando, numa liberdade pitoresca, todo armazem de cimento do conhecimento, transformando-o num caos de possibilidades, territorilizando-se in situ, cada vez com uma cara diferente? Monstros, artistas, gozos, arquétipos, política, música, loucura.

A esses, o gosto amargo de um não-reconhecimento, de um distanciamento. O que importa deixa de ser criar, alterar, transmutar... o que vale é a monotonia de um cerceamento... monocausalidade, linearidade, previsibilidade, solaridade, masculinidade (mesmo nas mulheres)....

E os sonhos foram deixados de lado... Onde está, onde está, onde está aquela estranheza estrelar a deriva por entre luas e tortas?

Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

Alma e Espírito

Primeiro post de 2008. É um texto do livro Psicologia Arquetípica de James Hillman (pgs. 51-53)... espero que goztem =)

Alma e Espírito
James Hillman (livro citado, capítulo 6)

Se imaginar é uma atividade inata da anima mundi, então a fantasia está sempre acontecendo e não está sujeita a uma epoché fenomenológica (Husserl: separar ou colocar em evidência no sentido de mover-se diretamente para o evento em si). Mais ainda, se a fantasia está sempre acontecendo, então epoché é uma fantasia em si: de isolamento, de objetividade, e de uma consciência que pode ser verdadeiramente mobilizada pelos fenômenos como eles são. A psicologia arquetípica sustenta, contudo, que não podemos nunca ser puramente fenomenológicos ou verdadeiramente objetivos. Nunca es está além do subjetivismo dado pelos dominantes das estruturas de fantasia inerentes à alma. Estes controlam as perspectivas subjetivas e as organizam em “instâncias”, de tal modo que a única objetividade que pode se tornar mais próxima resulta do olho subjetivo voltado para si mesmo, observando seu modo de olhar, examinando sua própria perspectiva com relação aos sujeitos arquetípicos, os quais estão neste momento direcionando nosso modo de ser no mundo dos fenômenos. A psicologia, como uma ciência objetiva, será sempre impossível, uma vez que se reconhece que a objetividade em si é um gênero poético (semelhante ao “escritor-como-espelho” do naturalismo francês), um modo de construir o mundo, de tal forma que as coisas aparecem puramente como coisas (sem face, animação, ou interioridade), sujeitas à vontade, separadas umas das outras, mudas, sem sentido ou paixão.

Há uma posição que é particularmente obstinada em prender-se à fantasia de que a fantasia está sempre acontecendo, e essa é a instância do espírito. Aparece como objetividade científica, metafísica ou como teologia. E quando a psicologia arquetípica criticou essas abordagens foi como parte de uma estratégia mais ampla para distinguir os métodos e a retórica da alma daqueles do espírito, de tal forma que a alma não seja mais obrigada a abrir mão do seu estilo para preencher as obrigações requeridas por uma perspectiva espiritual, quer seja filosófica, científica ou religiosa. Pra que a psicologia seja possível é precisa que se mantenha a diferença entre alma e espírito (Hillman, 1976; 1975ª, pp. 67-70; 1977a).

Algumas vezes a posição do espírito com sua retórica de ordem, número, conhecimento, permanência e lógica autodefensiva foi discutida como “senex” e saturnina (Vitale, 1973; Hillman 1975d); outras vezes, por causa da sua retórica de claridade e observação independente, foi discutida como apolínea (Hillman, 1972c); em outras ocasiões, devido à sua retórica de unidade, fundamentalidade, identidade, foi denominada “monoteísta”; e em outros contextos ainda, de “heróica” e também de “puer” (1967b).

Ao reconhecer que a perspectiva do espírito deve situar-se em posição superior (como a alma situa-se em posição inferior) e deve falar em termos transcendentes, fundamentais e puros, a psicologia arquetípica concebe como sua tarefa imaginar a linguagem espiritual da “verdade”, da “fé”, da “lei”, e assim por diante, como uma retórica do espírito, mesmo que o espírito seja obrigado, por essa mesma retórica, a tomar sua posição verdadeira e fielmente, isto é, literalmente.

Mais ainda, a diferença entre alma e espírito protege a terapia psicológica de ser confundida com disciplinas espirituais – orientais ou ocidentais – e dá ainda uma outra razão para a psicologia arquetípica evitar empréstimos de técnicas de meditação e/ou condicionamentos operantes, os quais conceituam eventos psíquicos em termos espirituais.

Sexta-feira, Dezembro 21, 2007

Cachos de antigos amores nos marca-dores

Cacho(s)-eira, na beira
D lemb-ranços o(dios)os
Quem, em desdem, massacra?
Com sua an(gelo)ical forma de deMOONio

O tempo passa e, assim, talvez
Tal vez possa ser excrescida
Numa me-móira guarda(dor)a e esquece(dor)a

Então, queridos amigos
No final
C guimos em frente
Apesar, por pesar, devagar
A cantar; a encantar
Muitas gentes...

... mesmo depois da FOGue(ira).

Sexta-feira, Novembro 16, 2007

Meio Assujeitado


Depois de tanto tempo esse blog intacto, continuará meio intacto, meio escrito...


Sujeito meio assujeitado,
Meio gente, meio gado
Correu mesmo estando parado
Como se fosse um condenado

Os relógios pararam meio dia
Um escuso senhor comeu o ovo
Fortalecendo toda ecolalia

Sujeito meio assujeitado,
Meio gente, meio gado
Correu feito um abestado
Como se fosse um iluminado

As certezas proliferam-se,
Como ervas daninhas do cemitério
Corroendo por dentro todo mistério

Ah! Senhor, se pudesse algo fazer!
Para reascender teu coração

As TV´s, o carro do som,
Você não ouviu as cores do seu sonho
Você deixou os mitos para trás!
Seu José, seu João
Dona Maria!

Alcatraz!
Peça ajuda
Vê-se escuta
O som do trovão
As favas o bom
Leia tua mão
Faça revolução!

Domingo, Outubro 21, 2007

DETENÇÕES E TRATAMENTOS AGRESSIVOS NA HISTÓRIA DA LOUCURA

Esse texto é parte de minha monografia de conclusão de Estágio no Juliano Moreira. O texto é copyleft, citem a vontade, mas utilizando as fontes... Boa leitura.

Na história da loucura podemos ver uma série de absurdos que foram realizados com pessoas que muitas vezes nem sequer tinham direito a defesa. A importância de revisarmos essa história para embasarmos nosso trabalho parece vir da necessidade de sempre darmos um passo atrás antes de projetar nossas sombras[1] numa população propicia para essa projeção, quer dizer, uma população que mesmo nos tempos atuais de reforma psiquiátrica ainda continua a margem, sendo mesmo insultada e ridicularizada em diversos locais pela população dita sã. James Hillman, psicólogo pós-junguiano, nos coloca uma consideração fundamental:
O primeiro é a máxima hipocrática: primum nihil nocere. Antes de mais nada, acima de tudo, primeiro, não faça mal, não prejudique nada. Antes de qualquer ação, ou plano de ação, antes de mais nada, considere o lado ruim antes do bom. Considere os riscos ao invés dos benefícios. Os gastos de pesquisa devem abordar os piores cenários possíveis e entender na íntegra a noção de “fazer mal” (Hillman apud Bernard, 1995i).

Na época cristã e medieval onde a compreensão sobre a loucura continha normalmente relação com a demonologia, encontramos no próprio malleus malificarum, obra visceral de caça as bruxas dos inquisidores Kramer e Sprenger, alguns pontos da terapêutica da loucura. Encontramos desde terapêuticas mais amenas até atos de violência imoderada, mas é importante considerar que: “para esses autores, o demônio aloja-se na cabeça de sua vítima e ali exerce controle, provocando a loucura e comportamentos de possessão e obsessão” (Tommasi, 2005, p.61).

Dentre as terapêuticas de Kramer e Sprender podemos lembrar que: “Um homem possuído por um demônio pode ser aliviado pelo poder da música, como foi Saul, pela harpa de David ou pelo poder de uma erva, ou pelo de qualquer outra substância material em que exista alguma virtude natural” (Kramer et Sprender apud Tommasi, p.61), mas ao mesmo tempo se após diversas orações, sessões, jejuns, privações se “o demônio não se retira, o endemoniado deve ser queimado vivo. Acreditava-se que dessa maneira o demônio também seria queimado” (Tommasi, p.62). Nessa época “a medida terapêutica usual era a fogueira” (op. cit). É possível acreditar, como Szasz, que neste momento: “as racionalizações teológicas e explicações mágicas serviram como fundamentos para a queima na fogueira, de milhares de doentes mentais” (Szasz et al apud Tommasi, p.63). Ou, ao menos, o que a época moderna chamou de doença mental.
Podemos ainda considerar que:

(...) na maior parte das cidades da Europa existiu, ao longo de toda a Idade Média e da Renascença, um lugar de detenção reservado aos insanos: é o caso do Châtelet de Melun ou da famosa Torre dos Loucos de Caen; são as inúmeras Narrturmer da Alemanha, tal como as portas de Lubeck ou o Jungpfer de Hamburgo” (Foucault, 2001, p.10).

A experiência padrão, no entanto, na Renascença foi a “Nau do Loucos” onde estes eram enviados a terras distantes e fizeram parte de todo imaginário renascentista, inclusive na própria pintura. A saída para o mar, para uma terra distante, estava toda carregada de simbolismo, muito além da mera utilidade social e limpeza da desrazão. Ainda nesta época, segundo Foucault (2001, p.11): “Acontecia de alguns loucos serem chicoteados publicamente, e que no decorrer de uma espécie de jogo eles fossem a seguir perseguidos numa corrida simulada e escorraçados da cidade a bastonadas. Outro dos signos de que a partida dos loucos se inscrevia entre os exílios rituais”.

A loucura na era clássica sai da imensidão do mar, da paradoxal relação prisão-liberdade na nau dos loucos e encontra seu lugar nos grandes hospitais, “O classicismo inventou o internamento, um pouco como a Idade Média a segregação dos leprosos; o vazio deixado por estes foi ocupado por novas personagens no mundo europeu: são os ‘internos’ ” (op. cit, p.53). Esse grande internamento não se dava pelo saber médico, saber este que só pronunciaria a “verdade” da loucura no final do século XVIII e inicio do século XIX com Pinel e Tuke. Na verdade essas casas de internação tinham intenções político-religiosas de repressão, “O internamento, esse fato maciço cujos indícios são encontrados em toda Europa do século XVII, é assunto de ‘polícia’” (op. cit, p.63). Quer dizer “O internamento seria assim a eliminação espontânea dos ‘a-sociais’” (op. cit, 79).

É importante considerar que no contexto do desatino, o louco era muito alem do que conhecemos pelas psicoses, mas eram considerados loucos muitas vezes os libertinos, os que viviam uma sexualidade considerada profana (ex: homossexuais), desempregados, bêbados, alquimistas, praticantes de magia, profanação, etc. Ainda na era clássica os loucos eram mostrados em grades para o público que os visitava como se eles fossem monstros, animais, apontando o dedo e refletindo sobre o que não se deve ser. Os guardiões de Bicêtre, por exemplo, eram conhecidos por fazerem os ditos loucos dançarem e fazerem acrobacias por meio de chibatadas (Tommasi, 2005).

O próprio corpo humano foi utilizado como medicamento, onde o corpo humano também é considerado, até pleno século XVIII, como um dos remédios privilegiados da loucura. Dentre esses remédios, diz Foucault (2001, p.303): “Os cabelos dos homens são bons para eliminar os vapores, se queimados e dados para que o doente aspire a fumaça... A urina do homem recém-expelida... é boa para os vapores histéricos”. O mais estranho para a mentalidade atual, no entanto, pode ser considerado os remédios das convulsões:

Mas são as convulsões, desde o espasmo histérico até a epilepsia, que atraem com a maior obstinação os remédios humanos – especialmente os que podem ser extraídos do crânio, parte mais preciosa do homem. Existe na convulsão uma violência que só pode ser combatida através da violência, e essa é a razão pela qual durante tanto tempo se utilizaram os crânios dos enforcados, mortos por mãos humanas e cujos cadáveres não tivessem sido sepultados em terra santa. (...) É também contra as convulsões que se utiliza sangue humano ainda quente, desde que não se abusasse dessa terapêutica cujo excesso podia levar à mania (op. cit).

As condições dos loucos na época clássica eram tão horríveis como as do inicio da era moderna, até o famoso gesto de Pinel e Tuke libertando os loucos das grades e amarras. Não que este gesto tenha dado fim as condições inumanas e ao cárcere dos “loucos”, mas certamente foi um avanço diante de tão horrenda situação. Deportes (apud Foucault, 2001, p. 148-49) nos dá um exemplo de como eram essas condições:

O infeliz que por mobília tinha apenas esse catre coberto de palha, vendo-se exprimido contra a muralha, na cabeça, nos pés ou no corpo, não podia gozar do sono sem ser molhado pela água que vertia dessa montanha de pedra. Em Salpêtrière, continua, a habitação é mais funesta e freqüentemente mais mortal. É que no inverno, quando das cheias do Sena, os cômodos situados ao nível dos esgotos, tornavam-se não apenas bem mais insalubres, como, além disso, refúgio para uma multidão de grandes ratos que à noite se jogavam sobre os infelizes ali presos, roendo-os onde podiam; encontraram-se muitas loucas, com os pés, as mãos e o rosto dilacerados pelas mordidas, muitas vezes perigosas, muitas das quais morriam. (...) Em Bethtleem a fim de conter um louco considerado furioso: ficava amarrado a uma longa corrente que atravessava a muralha, permitindo assim ao guardião dirigi-lo, mantê-lo na coleira, por assim dizer, do exterior; em seu pescoço havia sido colocado um anel de ferro ligado a um outro anel por uma curta corrente; este segundo anel deslizava ao longo de uma grossa barra de ferro vertical fixada em suas extremidades ao chão e ao teto de sua cela. Quando se começou a reforma Betheleem, encontrou-se um homem que durante doze anos vivera nessa cela submetido a esse sistema coercitivo.

Nas épocas mais contemporâneas, se o louco não era mais tratado como uma besta animal, isso não significa que o tratamento violento tenha se extinguido, mas tomou novas formas, um exemplo disso foi Ugo Cerletti que admitia a incompatibilidade da esquizofrenia e da epilepsia, incompatibilidade que ainda hoje até certo ponto é admitida, então ele sempre se perguntou de que forma gerar crises convulsivas em esquizofrênicos. Cerletti visitou certa vez um matadouro de porcos em Roma e observou que os porcos submetidos a choques elétricos antes de serem abatidos tinham crises convulsivas. “Foi uma iluminação as avessas! Cerletti concluiu que se poderia também provocar no homem uma convulsão, por corrente transcerebral, sem matá-lo” (Silveira, 2001, p. 11), assim em 1928 surgia o eletrochoque. “’Não, outra vez! É horrível!’ foram as primeiras palavras pronunciadas pela primeira vítima do eletrochoque” (op. cit).

Lembremos também as memoráveis súplícas de Antonin Artaud, internado no hospital de Rodez na França, para que parassem de lhe dar eletrochoques: Eis uma carta escrita por Artaud ao seu psiquiatra, em 1945:

O eletrochoque me desespera, apaga minha memória, entorpece meu pensamento e meu coração, faz de mim um ausente que se sabe ausente e se vê durante semanas em busca de seu ser, como um morto ao lado de um vivo que não é mais ele, que exige sua volta e no qual ele não pode mais entrar. Na última série, fiquei durante os meses de agosto e setembro na impossibilidade absoluta de trabalhar, de pensar e de me sentir ser...[i] (op. cit, p.12).

Outro tratamento que precedeu o eletrochoque foi o coma insulínico ou choque hipoglicêmico (método de Sakel), nesse tratamento a eficácia dependia de 30 a 40 horas de coma. “Tanto o coma insulínico quanto o eletrochoque provocam profunda regressão fisiológica e psicológica, apagando naqueles que são submetidos a esse tipo de tratamento as funções psíquicas superiores. Essa desmontagem da estrutura psíquica seria seguida, segundo seus adeptos, de uma reconstrução sadia” (op.cit).

Citemos Silveira (2001, p.12):

A perda de memória, em graus variados, em ambos os tratamentos de choque, poderá ser recuperada. E é precisamente nessa perda de memória, decorrente de possíveis ligeiras lesões cerebrais, que residiria a eficácia desse tratamento, isto é, o esquecimento dos acontecimentos que provocaram a psicose. E se durante a reconstrução da estrutura psíquica voltar a recordação dos acontecimentos motivadores dos distúrbios psíquicos?
Essa suposição é precisamente a mais aceita pelos adeptos dos tratamentos de choque. Valeria a pena esquecer os conteúdos nucleares das psicoses, ou antes, seria preferível trazê-los à tona, confrontá-los, tentar interpretá-los, metabolizando-os e mesmo transformando-os?

Chegamos finalmente a uma das mais complicadas invenções modernas, a lobotomia. Ela surgiu como método terapêutico em 1936, sendo criada por Egas Moniz, e seccionava fibras nervosas que ligavam os lobos frontais a partes subjacentes do cérebro. “A psicocirurgia é definida por W.Freeman como operação cirúrgica sobre o cérebro intacto, tendo por objetivo obter alívio para sintomas mentais” (op.cit). Para Moniz para curarmos pacientes com idéias fixas e comportamentos repetitivos temos que: “destruir arranjos mais ou menos fixos das conexões celulares que existem no cérebro, e particularmente aquelas que se relacionam com os lobos frontais” (Moniz apud Silveira, 2001, p. 12).

Depois da psicocirurgia os pacientes se tornavam dóceis e autômatos, além de ficarem muito prejudicadas as faculdades de abstração e imaginação, suas produções pueris e decadentes. Já as famílias e a dinâmica do hospital iam muito bem, gozando da tranqüila calmaria. (Silveira, 2001).

A explicação ética da época era de uma doçura incomensurável: “Em editorial – ‘A ética da leucotomia’ – publicado no British Medical Journal, em 1952, em defesa da psicocirurgia, pode-se ler este espantoso argumento: ‘Se a alma pode sobreviver à morte, certamente poderá sobreviver a leucotomia’” (op. cit, p.13).

Mediante tão brutais acontecimentos, de uma lógica da violência que até certo ponto foi derrubada por Nise da Silveira no Brasil, acreditamos na importância de relatar essa história dos tratamentos agressivos na loucura para podermos olhar de frente todas as atrocidades que já foram cometidas com esse público, para que não voltemos a incorrer nos mesmos erros. Mediante a ênfase dada por Silveira nesses fatos, nessa necessidade de modificação da psiquiatria de sua época, acreditamos ser vital o conhecimento dessa história justamente para clarearmos nossas condutas, não sendo iludidos nem mesmo por supostos saberes científicos que, mesmo em toda sua cientificidade, muitas vezes incorrem nos mais absurdos e deletérios enganos, talvez não no nível biológico, farmacológico, material, mas uma falta muito mais grave, uma falta de humanidade.

Lembremos, para o fechamento do capítulo, o poema de Beta (apud Silveira, 2001, p.13):
Os médicos dão muito remédio
E as enfermeiras para não terem trabalho
Só ficam gritando
Vou dar choque
Vou dar amarra
Ser louco é uma barra.
Beta










[1] - É importante que definamos o conceito de sombra. Por sombra entendemos tudo aquilo que é recusado pela pessoa e mantém-se inconsciente, quer dizer, abaixo do limiar da consciência. Desse modo a sombra não necessariamente fala de algo negativo, ela apenas fala do recusado, seja algo que seria extremamente benéfico para o sujeito ou não. Segundo Von Franz: “A sombra não é o todo da personalidade inconsciente: representa qualidades e atributos desconhecidos ou pouco conhecidos do ego – aspectos que pertencem sobretudo à esfera pessoal e que poderia também ser conscientes. Sob certos ângulos a sombra pode, igualmente, consistir de fatores coletivos que brotam de uma fonte situada fora da vida pessoa do indivíduo” (Jung, 2001, p.168).
[i] - Artaud, A. Ouvres Completes XI, p. 13. Gallimard, Paris, 1974.

Sexta-feira, Setembro 14, 2007

É amigos..


Sábado, Agosto 25, 2007

Fotograspirante

Que me importam os vultos? Os vultos dizem muito mais do que uma clareira numa noite de verão... versão acabada da neblina, tonteia as vistas dos visores. Só um idiota pode ser engolido por seus olhos. Aquele que de fato vê se esforça por nublar o mundo, acaba por chacoalhar as pedras. Os sonhos de verdade estão nas mãos.

Depois do estilete verbal de Von Darsê, as pessoas fecharam os olhos e abriram as bocas, línguas se entrelaçaram e massas viraram moças, maças fizeram-se em rostos e vermelhas frutas. Quantos cantos não saíram daquele lago aberto ao fechado. Mãos manearam os arquetes e fizeram salgadas comidas: está é a santidade da massa, fazer comida com. Aqueceram-se junto ao fogo, pois é o fogo que queimou a tristeza e a melancolia. E.T.ernidade.

Fraternos irmãos, se aconchegou de suas palavras Gagaya Mana. Que hoje seja um dia e não mais outro, que hoje seja uma noite e não mais outra. Vocês me escutam com as mãos e eu lhe falo com a pele: não queridos concubinatos, o concúbito não é de se fazer de paisagens! Um pintor que se rende a iluminação não passa de um holofote! Imbecil, não consegue criar! Imbecil, não consegue concertar! Imbecil, não consegue construir!

Os meus pés dançam e minha mente morreu para dar lugar a minha alma. A alma não sabe da linguagem, o automatismo da linguagem se contrabalanceia pela fluidez da língua. Não, amados, chega de fotógrafos! Roubam nossa almas as fotografias, roubam todo poder do deus do momento, Jihoku-Uhuban. Uhuban nos deu(s) a luz e a volúpia de tal forma que a forma se perdeu, meu corpo agora é corpo. O circulo, a reta, o hexágono são todos possibilidades. Ninguém nasceu para se perder em fotografias, ninguém nasceu para ser gravador de vozes, ninguém nasceu para repetir, ninguém nasceu para olhar no espelho. Idiotas, ainda não aprenderam o valor que o fogo tem! Idiotas, ainda não tomaram uma ducha de luar! Idiotas, não viram que a aurora era feita com corpos e salivas? Idiotas, não sabem ainda construir!

Meu ódio é de um amor tremendo, e assim me aniquilo, não de palavras, nem de imagens, não de sentimentos, nem de pensamentos. As respostas foram feitas para quem não sabe formular perguntas. Nada é tão visível quanto um neblina. A turvidão é mais reta do que o claridão. Aloha irmãos, toquem pois vossos corpos e estejam a espreita do matagal, pois é do mato que surge o que tem valia. O sapo pula e águia voa, mas ainda nossos espelhos não aprenderam a falar.

Terça-feira, Julho 10, 2007

Da árvore da montanha

Os olhos de Zaratustra tinham visto um mancebo que evitava a sua presença. E, uma tarde, ao atravessar sozinho as montanhas que rodeiam a cidade denominada Vaca Malhada, encontrou esse mancebo sentado ao pé da árvore, dirigindo ao vale um olhar fatigado. Zaratustra agarrou a árvore a que o mancebo se encontrava e disse:
“Se eu quisesse sacudir essa árvore com as minhas mãos não poderia; mas o vento que não vemos açoita-a e dobra-a como lhe apraz. Também a nós mãos invisíveis nos açoitam e dobram rudemente”.
A tais palavras, o mancebo ergue-se assustado, dizendo: “Ouço Zaratustra, e positivamente estava a pensar nele”.
“Porque te assustas? O que sucede à arvore sucede ao homem.
Quanto mais se quer erguer para o alto e para a luz, mais vigorosamente enterra as suas raízes para baixo, para o tenebroso e profundo: o mal”.
“Sim; para o mal!”, exclamou o mancebo. “Como é possível teres descoberto minha alma?” Zaratustra sorriu e disse: “Há almas que nunca se descobrirão, a não ser que se principie por inventá-las”.
“Sim; para o mal!”, exclamou outra vez o mancebo.
“Dizias a verdade, Zaratustra. Já não tenho confiança em mim desde que quero subir às alturas, e já nada tem confiança em mim. A que se deve isto?
Eu me transforma muito depressa: o meu hoje contradiz o meu ontem. Com freqüência salto degraus quando subo, coisa que os degraus me não perdoam.
Quando chego em cima, sempre me encontro só. Ninguém me fala; o frio da solidão faz-me tiritar. Que é que quero, então, nas alturas?
O meu desprezo e o meu desejo crescem a par; quanto mais me elevo mais desprezo o que se eleva. Que é que quer ele nas alturas?
Como me envergonho da minha ascensão e das minhas quedas! Como me rio de tanto anelar! Como odeio o que voa! Como me sinto cansado nas alturas!”
O mancebo calou-se. Zaratustra olhou atentamente para a àrvore a cujo pé se encontravam e falou assim:
“Esta árvore está solitária na montanha. Cresce muito sobranceira aos homens e aos animais.
E se quisesse falar ninguém haveria que a pudesse compreender, de tanto que cresceu.
Agora espera, e continua esperando. Que esperará, então? Habita perto demais das nuvens: acaso esperará o primeiro raio?”
Quando Zaratustra acabava de dizer isto, o mancebo exclamou com gestos veementes:
“É verdade, Zaratustra: dizes bem. Eu ansiei por minha queda ao querer chegar às alturas, e tu eras o raio que esperava. Olha: que sou eu, desde que tu nos apareceste? A inveja aniquilou-me!” Assim falou o mancebo, e chorou amargamente. Zaratustra cingiu-lhe a cintura com o braço e levou-o consigo. Depois de andarem juntos durante algum tempo, Zaratustra começou a falar assim:
“Tenho o coração dilacerado. Melhor do que as tuas palavras, dizem-me os teus olhos todo o perigo que corres.
Assim não és livre, ainda procuras a liberdade. As tuas buscas fizeram-se insone e inquieto de maneira excessiva.
Quere escalar a altura livre; a tua alma está sedenta de estrelas; mas também os teus maus instintos têm sede de liberdade.
Os teus cães selvagens querem ser livres; ladram de prazer no seu covil quando o teu espírito tende a abrir todas as prisões.
Para mim, és ainda um preso que sonha com a liberdade. Aí, a alma de presos assim torna-se prudente, mas também astuta e má.
O que libertou o seu espírito necessita ainda purificar-se. Ainda lhe restam muitos vestígios de prisão e de lodo: é preciso, todavia, que a sua vida se purifique.
Sim; conheço o teu perigo: mas por meu amor e minha esperança aconselho a não afastares para longe de ti o teu amor e a tua esperança!
Ainda te conheces nobre, assim como nobre te reconhecem os outros, que te guardam rancor e te olho com maus olhos. Fica sabendo que um nobre é para todos um obstáculo no seu caminho.
Também para os bons um nobre é um obstáculo no seu caminho, e se lhe chamam bom é tão-somente para o pôr de lado.
O nobre quer criar alguma coisa nova e uma nova virtude. O bom deseja o velho e que o velho se conserve.
O perigo do nobre, contudo, não é tornar-se bom, mas insolente, zombeteiro e destruidor.
Ah, eu conheci nobres que perderam a sua mais elevada esperança. E depois caluniaram todas as elevadas esperanças.
Desde então têm vivido abertamente com minguadas aspirações, e dificilmente traçam metas para mais de um dia.
“O espírito é também voluptuosidade” – diziam. E então se quebram as asas do seu espírito; arrasta-se agora de um lado para o outro, maculando tudo quanto consome.
Noutro tempo pensavam fazer-se heróis; agora são folgazões. O herói é para eles aflição e espanto.
Mas por meu amor e minha esperança te aconselho: não expulses para longe de ti o herói que há na tua alma! Santifica a tua mais elevada esperança!”
Assim falou Zaratustra.

Quinta-feira, Junho 21, 2007

Galerinha esperta, aqui ta sem post por enquanto, mas estou escrevendo para um outro blog também, esse aqui, que é meu particular, não vai parar ou falecer, no entanto... quem quiser ler os textos do outro blog deixo aqui o link, em franca exposição: http://dedoscruzados.blogspot.com

Esse blog tem sido feito com meus amigos Guerra e Mr.Durdem. Enjoy.

Domingo, Junho 10, 2007

Desterritorialização


Um sopro de vida. Toquei meus lábios aos dela. Sol passageiro, vento frio. Corri estando no mesmo lugar e fiz movimentos repetitivos. Seria possível algum prazer? Armários esvaziavam seus bolsos ao meu lado, lado a lado, percebi que eu também era um deles, um dos mais firmes, de pesadas amarras. Por Deus! Nunca me vi tão só.

Desejei por um minuto uma contração genital mecânica, tensão e descarga. Imaginei-me um computador. Fantasiei. O céu é muito azul pela manhã, mas está frio. Frio em torno de tantos armários, mas ninguém pode ver o que há dentro desses estranhos objetos. Por favor, não me julgue esta manhã. Tribunais e cárceres privados. O olhar dela é como uma lança atravessando um pequeno coelho. Sinto a desproporção de forças, meus olhos tremem, meu coração bate forte. Simpático, não é o moço da esquina, armários não são simpáticos, o sistema nervoso sim, agudo em medo.

Esconda-se, é o grito do fraco. Não é tarde demais, é o grito do esperançoso. Olhei ao meu lado e não havia café da manhã grátis. Não comi nada, sou um armário e isso me enerva profundamente. Meus fuzis queimam sem queimar, minhas paredes se tornaram quentes para evitar qualquer abertura. Minha sombra me espreita, mas deixo-a calada, pois o sol que em mim bate gera a escuridão projetada no chão rasteiro.

Meu metal derrete, já estou descendo ao chão. Talvez eu vaze por um bueiro qualquer e bóie junto com excrementos e outras imundices. Seria grato. Talvez eu possa ser comido por um rato que servirá de experimentos de laboratório. Seria ótimo ser dessecado. Será que satisfaria minha pulsão exibicionista? Estranhos sentimentos. Não sou mais um armário. Mostro-me ao mundo desesperadamente. Quando me tornei a história de uma história?

Afasta por favor! Esse olhar de repulsa, esse olhar julgador, essa cara de espanto. Trago a superfície os restos do esgoto. Sinto-me culpado. Talvez se eu tivesse ficado lá, talvez se eu ainda fosse um armário... Estranhas pessoas me olham, de jaleco branco, óculos e caras curiosas. Sou metal, não sou mais rato. Encaro-os. Solto raios, tremam! Chuva acida, desejo a morte. Morram! Sob a égide da lua meu metal se transforma em prata. Brilho, mas não sou artista. Talvez apenas um metaleiro. Um prateado para servir comida a sacerdotisas.

Após a chuva brilha um arco-iris. Ainda não tão brilhante. É um arco-iris de cores, de culpas, é um arco-íris que se forma da chuva necessária. Eu amo o arco-iris. Ele brilha para mim, e eu brilho para ele. Quisera eu vê-lo unido a lua numa orquestra, mas não me sinto harmônico. Não sou tão forte para ser um deus. Canto de alguma forma, pedindo o perdão da natureza. Não me deixe só. Sob o lastro de tragédias e maravilhas, vejo uma estrada. Caminho.

Quinta-feira, Junho 07, 2007

Ensaio sobre a Morte: Da defesa a libertação

Estou a muito tempo sem publicar nada, mas a maioria dos leitores desse blog, como me conhecem ou fora da Internet, ou por contatos de MSN e/ou orkut sabem que isso se deve a minha recente paternidade, alem de compromissos de estágio, faculdade, etc. Voltei a escrever neste pequeno texto, em linhas diretas e sem citações ou leitura de livros, algo um pouco mais informal. Não que eu não venha escrevendo, na verdade aquele artigo que publiquei aqui: “Para além do positivismo...” está agora mais que dobrado de tamanho e bem melhor em qualidade, mas só o publicarei pronto posteriormente. No momento voltemo-nos ao nosso tema, que achei interessante publicar mais para criar um referencial de debate e poder desenferrujar o blog - e meus dedos.

Vivemos numa época onde a morte é muitas vezes tratada de forma imprópria, ou seja, é tratada não com pessoas singulares, com suas metas e mitos individuais, mas é tratada como estatística. Nossos hospitais procuram ampliar a vida de qualquer maneira, como se essa fosse a verdadeira questão a ser colocada: concertar a máquina humana para ampliar sua durabilidade, proteger o computador de possíveis interferências que prejudiquem seu funcionamento adaptado ao mundo do trabalho, da família, em suma, da sociedade.

Qual é o sentido da vida? Esta seria uma pergunta coletiva, que se perde em respostas de livros de auto-ajuda, que só afastam a pessoa dela mesma, mas quando voltamo-nos a nossa própria história a “Coisa” se desvela: “Qual é o sentido da minha vida?”. Para mim, um jovem tocando a vida adulta, é difícil imaginar algum sentido mais profundo, uma contemplação e re-significação do que se passou em totalidade, no entanto, a pergunta sobre a morte pode gerar ares diversos. A morte se insinua na vida.

Já dizia Sartre que a morte é um ato singular, afinal, ninguém pode morrer por mim. Se eu morro pela religião, pela política, pela família, pela ideologia ou por uma nação, qualquer um pode morrer por mim, qualquer um poderia sacrificar sua vida em nome dos mesmos ideais, no entanto, quando lido com a morte, com meu estado de morrer, estou eu e minha negação, meu não-ser, frente-a-frente.

Se a vida é constituída de reversibilidade, isto é, se toda causa gera sempre o mesmo efeito – se voltando no tempo da resposta voltássemos sempre ao mesmo estimulo – saberíamos quando, como e talvez mesmo onde morrer, já que observando as diversas experiências alheias estaríamos mais ou menos precavidos quanto às possibilidades e probabilidades reais da morte, todavia, a coisa não é tão simples. Existe um tempo único, irreversível, um tempo acausal, não determinista, onde o “destino” pode ocorrer. Podemos estar num determinado momento numa grama extensa, sem nenhuma culpa, e sermos espancados pelos erros alheios, podemos ser atropelados por um motorista bêbado que disputava um pega. Existe algo de incontrolável, inconstruivel na vida e é esse tempo que nos coloca como abertura de possibilidade de sentido, mas não possibilidade de dominar a vida.

Deveríamos abandonar de vez o projeto gengiskaniano de poder-sobre para nos doarmos ao poder enquanto potencia, enquanto possibilidade de possibilidade. Dessa forma a morte ao ser um estado próprio em potencial é presentificada, e ao se presentificar ela nos coloca em relação ao mistério. Viver é entrar em contato com o sagrado. Se podemos morrer a qualquer hora deveríamos viver a vida com plenitude. Aqui abrimos as portas as escolhas, mas ao escolher sempre perdemos, escolher é decisão, de-cisão. Cindimos e perdemos nosso desejo de onipotência infantil: não podemos ser tudo, mas precisamos ser nos mesmos. Poderíamos entrar em outros conceitos existenciais como a responsabilidade, mas voltemos com a morte.

A morte nos faz tremer e certamente isso é relativamente cultural e relativamente arquetípico, já que sempre criamos rituais para lidarmos com a morte, existe uma necessidade de agüentarmos, suportarmos ela, além do fato da morte ser algo irrefreável, ontológico, por ser assim dizer. Poderíamos sobre um ponto de vista racional, como o da psicanálise, falar que os rituais e explicações alem da morte são mecanismos de defesa. Protegemos a nos mesmos da morte, do medo de morrer, dessa forma criamos rituais e religiões que embasem paraísos e vidas além da morte. Essa explicação é valiosa, no entanto, unilateral. Poderíamos dizer, então, que toda criação teórica é uma forma de defesa, uma forma de defesa contra a angustia da relação que envolve o “inferno que é o outro” ou uma tentativa teleológica de completar a Falta primordial que sentimos no rompimento da relação simbiótica com o Outro, a função materna.

Muito justo. No entanto, teríamos também que considerar mesmo qualquer modo de abertura de possibilidades como defesa, no final, os modos de defesa do ego poderiam ser ampliados a quase todos os tipos de fenômeno reduzindo a vida humana a uma procura de evitar a dor. Este princípio racional e causal é insuficiente para toda explicação, em primeiro lugar porque ignora o social, as flexões culturais que podem levar a um tipo de comportamento, seja religioso, seja de formação teórica, teológica em relação a morte ou a outros fenômenos. Em última análise, a partir do referencial causal, poderíamos dizer que generalizar o mecanismo de defesa é uma defesa contra aspectos irracionais da vida.

Dito isto podemos também abrir outras portas de observação dos modos de lidar com o morrer. Os modos de atribuição de sentido a vida, na relação com a visão da morte, abrem portas tanto de comportamentos diferentes e próprios (singulares), como pode ser um encontro do sentido da vida que estava latente, um sentido que faz a pessoa encontrar sua totalidade. Da mesma forma o próprio stress, por exemplo, considerado prejudicial pode ser algo que abra novas portas, como um atleta stressado que vence uma corrida por causa da pressão exercida sobre ele, de certa forma ultrapassando seus próprios limites.

Além do que, a partir de um referencial finalista, poderíamos questionar: “Qual o sentido de reduzirmos todos esses comportamentos a mero fator defensivo?”, “Aonde queremos chegar com isso?”. O referencial do sentido pode tanto se tornar unilateral, dogmático, como permitir suportar situações insuportáveis, é como disse Nietzsche: “Quem tem um porque viver pode suportar quase qualquer como”, o sentido pode ultrapassar barreiras biológicas e sociais. Se é fato que dificilmente escaparemos aos condicionamentos da vida coletiva, de ser um decadant, por outro podemos tentar nos aventurar. A morte é o que permite essa aventura, sem a morte, num sentido de perda total da consciência, do ego e do desligamento dos laços que mantinham a unidade corpórea e seu funcionamento, nunca poderíamos estar em devir.

Num paralelo cosmológico, é necessário sair do pré-universo quântico, onde não existia tempo nem espaço, para conhecer polaridades, vida e morte, eu e outro, matéria e anti-matéria, a morte pode ser, portanto, um retorno, um voltar-se a nossa origem e a nossa totalidade. Sem a morte não há vida.

Quinta-feira, Maio 03, 2007

De-lírio.


Delírio = "Esta palavra deriva de lira, sulco, de modo que delirio significa exatamente afaster-se do sulco, do caminho reto da razão" (Foucault, Hist. da Loucura, 237.. extraido de James, dictionnaire universel de médicine).


É preciso delirar. "A morada do homem é o extraordinário". Heráclito de Éfeso

Quarta-feira, Maio 02, 2007

Love Hate Love

Texto de Felipe Liro.

“Eu te odeio! Te odeio do fundo da alma! Te odeio do fundo desta casa! E é aqui no fundo deste solo que vou te enterrar! Eu não preciso mais de você. Eu odeio você. Eu odeio vocês! Todos vocês! E todos vocês pagarão...”.

O Medo, que antes tão alegre, sorria e batia palmas enquanto se deleitava assistindo a cena virou-se para ele agora como se olhasse um espelho, os olhos vidrados em si mesmo. E pronto. Não havia mais Alegria. Esta jazia ainda fresca, ensangüentada no chão, caída aos seus pés, com eco surdo do baque de seu corpo ainda ecoando. E tremendo este também caiu, sem nem mais uma palavra. Não havia mais Medo.

“ Não preciso do Medo. Nem dele, nem da Alegria, nem de você! Vivo de mim mesmo.
Descobri hoje, quando vi o Orgulho cair no chão de joelhos, chorando e rastejando e implorando por você. POR VOCÊ! Patético e idiota. Que morresse como homem, mas não, ele implorou. E ele chamou, clamou por você... e o que você fez? Você não o deixou, e o deixou doente”.

“Onde esta a Paz? O que você fez com minha filha?” Perguntou aflito. “A Paz?” Respondeu. “Ha muito esta vinha sendo atormentada pelo Desespero e pela Desconfiança. Matei os três. Cansei de todos. Só haverá espaço para mim aqui dentro”.

Ele deu um passo à frente, sua face contorcida de si mesmo, seus olhos frios como água, brilhando como fogo.

“Não há mais Desespero, somente eu. Em minha lucidez eu sou forte!” Ele gritou. “Não há mais Coragem para resistir a mim, para se desculpar, perdoar, voltar ou seguir em frente. Somente eu.”!

“Não, não! Não a Paz, ela não...” ele murmurava ajoelhado entre soluços e lagrimas junto a Tristeza. A Esperança ruiu sob seu próprio peso, as mãos juntas ao peito, respirando com dificuldade.”

“NÃO PRECISO DA PAZ IRMÃO!” ele berrava enquanto chutava o corpo desfigurado da Calma, caída naquele chão vermelho, que parecia pulsar com a violência de cada murro dado. “DESDE QUE NASCEMOS NESTA CASA, ELA NUNCA OLHOU O GEMÊO BASTARDO NOS OLHOS!”.

“Mas a Esperança... olhe para ela, ela ainda vive”.

“Não preciso da Esperança! Após anos com ela não senti nada a não ser dor!”.

“Você é louco...”.

“E você um hipócrita. Você só pensa em você. Você é egoísta. Você separa a todos tanto quanto eu com tuas mentiras e fantasias que prometes, desejas e contas aos quatro cantos! Mas eu assumo a mim, abraço a mim e o que sou, enquanto você escorrega em si mesmo”. Ele dizia mergulhado em si. “Não sabes que no fim de tudo apenas eu sou verdadeiro? Apenas eu sou eterno! E você não passa de algo que trai os que te abrigam em um incesto macabro com teu filho. Teu filho que devora os homens por dentro enquanto você os joga de quatro no chão. Mas não mais! Enterrei o Ciúme! Porque eu me amo! Eu me amo enquanto você se odeia. Eu sou você e você eu”.

Dito isto se manteve parado em seu lugar, observando o outro se derretendo em choro. Não teve o prazer de matá-lo. Preferiu deixá-lo se matar afogado em suas próprias lagrimas, como ele sempre ameaçou fazer. Agora, com o Amor morto, ele olhou ao redor da casa fria, enchendo o coração com a fumaça de um cigarro, enquanto assistia os últimos suspiros da Esperança em sua agonia. E assim morreu também a Tristeza, com um sorriso irônico no rosto. Agora não havia mais nenhuma emoção na casa.

E o coração, agora vazio, vive assombrado para sempre pelo o pranto daquele que apunhalou o Ódio quando este possuía apenas a si para odiar. Pois nem o ódio vive sozinho. Nada vive sozinho, apenas ele. O ultimo deles. O único verdadeiro.
A Solidão.
Quem nunca se sentiu sozinho?

Sexta-feira, Abril 27, 2007

Conversas sobre a Maioridade Penal.

A discussão sobre a diminuição da maioridade penal volta a aparecer, agora em decorrência da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça) ter levado adiante o desejo desta nova regulamentação. Já teve sua primeira vitória no congresso e continua avançando por meio dos atos dos senadores “conservadores” e de direita, que tem o respaldo de grande parte da mídia “burguesa” e de uma parcela da população engolida pelo discurso reacionário.

No momento a diminuição seria para 16 anos em crimes chamados “hediondos”, além do trafico de drogas, no entanto isso é apenas uma parte do desejo da reacionária oligarquia. O deputado e ex-coronel Alberto Fraga, por exemplo, sugere que a idade limite deva ser fixada aos 11 anos de idade. É nesse ritmo que a diminuição da maioridade penal progride e tal como ela, os resultados práticos só podem ser funestos. Ao futuro qual será a nova diminuição, 4 anos, perguntar-se-á, pois não se vê pequenos meninos que nada tem tentarem “roubar”?

Em termos internacionais, em relação ao nosso próprio Zeitgeist (espírito da época), a diminuição é pouco embasada, pois o Brasil conta com uma média de crimes de jovens inferior a média que, pela ONU, é de 11,6%, enquanto o Brasil se encontra com 10%. No Japão, por exemplo, essa média é de mais de 40% e, no entanto, coisa estranha, a idade penal é de 20 anos. Qual é esse desejo de encarceramento que tanto o brasileiro precisa? Será que também não há uma confusão relacionada a uma criminalidade excessiva que é imputada aos jovens? Ou se trata do sensacionalismo promovido pelas emissoras quando há um jovem envolvido em algum crime hediondo como o de João H.?

Será mesmo que ainda acreditamos que é apenas através da violência e da tortura que as situações podem ser modificadas? Isso mostra a falta de perspectivas de outros tipos de relação e organização social e de inter-relações numa grande parte do imaginário popular. A solução é falar de um outro, de um “monstro” o qual não possui humanidade, é coisa, objeto. Ora, isto antes de ser algo que se relacione linearmente com os fatos é uma invenção, claro, com projeções energeticamente muito fortes. Não se trata de admitir essa mentalidade americanizada como efeito da violência dos jovens. Desta forma temos que nos perguntar de que forma a paranóia coletiva influi para esta realidade. Um medo de tudo, de todos, que impede as pessoas de saírem de casa, de se relacionarem e de viverem. Um medo que torna melhor uma solução que desumaniza o outro do que uma solução que o veja como humano, como parte também de fiações diversas, sociais, econômicas, imaginarias. Se pudermos falar alguma coisa que o ser humano é, acima e além de tudo, é possibilidade. Infelizmente isto parece estar sendo perdido.

Dentre o publico mais pobre, assim como na classe média e alta, é comum encontrar defensores dessas posturas carcerárias e mais radicalmente de direita, por exemplo: pena de morte. Vemos ai de que forma há uma ampliação da rede conservadora que elimina qualquer coerência de classes, o que vemos hoje é uma luta desumana pelo capital, tomado de forma divinizada. Não só isso, mas também um forte desejo de um grande Pai com os mil olhos de Argos. O ser humano é segundo plano.

Todos sabem da insuficiência das prisões, e também das “prisões” juvenis como padre Severino, no entanto, perguntemo-nos, quais seriam as conseqüências práticas da diminuição da maioridade penal? Primeiramente podemos cogitar que teríamos ou prisões individualizadas para menores, o que é muito pouco provável, ou estes seriam jogados nas prisões comuns. Com isto teremos, ao contrário de uma diminuição “de criminosos” nas ruas, uma especialização. Jovens agora não só com a experiência das ruas, mas com a experiência hiper-especializada das cadeias. Mestrado em criminologia, ou melhor, traficologia (infantil aquele que crê que o trafico e sua decorrente “guerra” será resolvida com medidas totalmente alheias a sua “essência”).

Estranho pensamento é o dos que imaginam que os jovens que cometem delitos ficam sem punição, ao contrário, são também levados a especializações do crime, a exemplo do que acontece no Padre Severino e outros. São prisões, certamente. O que mudaria com a lei seria o agravamento dessa situação miserável, o agravamento do desejo de vingança social com os menores. Certamente não há desejo algum de re-abilitação... Será que isso ainda existe?

Se, por um lado, é muito valido aqui o ditado: audiatur et altera pars (ouça-se também a outra parte), por outro temos que nos posicionar. É com razão que temos repulsa a toda morte e fealdade, com razão que vemos com horror a morte de João Helio e de tantos outros. Só podemos agradecer que ainda não tenhamos virado robôs, no entanto, o pensamento direitista só poderá no levar a mais guerra, a mais desigualdade e a mais humilhação.

Em Matheus 5, 14 lemos: "Vos estis lux mundi" (Vós sois a luz do mundo). É a população, i.e, nós mesmos, que deveríamos tomar medidas efetivas que alterem este quadro de coisas, mas como sempre preferimos continuar nosso jogo de projeções. Não me espantaria, neste estranho momento, o pedido de lideres fascistas pelo próprio povo. Nos colocamos como fracos, sem responsabilidade, é o “outro”, este “monstro inato” o culpado pelas atrocidades sociais. Nós, cidadãos de bem, não temos culpa alguma. Estranho pensamento. Mas ainda há esperanças, pois é no caos onde brilham estrelas cintilantes, de onde emerge centelhas das mais diversas. Novas consciências, novos mundos.

Ainda assim, mesmo em tempos onde a própria população miserável joga contra ela mesma, há de haver algum possibilidade de mutação, de transformar esta matéria bruta em ouro, rubedo.

Sexta-feira, Março 30, 2007

O Gato








O animal: irracional, ao menos ao julgar positivo, onde o animal seria a negação da razão em relação ao referente: Homem. Claro que o gato foge as categorias de macho, ou ao menos, do macho “dominante”. O gato, noturno, de identificação lunar, maternal, independente; seu simbolismo seria usado por séculos em diferentes metáforas, desde as mais reacionários (geralmente sacaniando-o) até as revolucionários (em algumas ocasiões louvando-o). Nise da Silveira em “O mundo das imagens” diz que os egípcios, p. ex., veneravam três deusas leoas – Sekhmet, pekhet e Tefnet -, todas a mesma divindade.
“Sekhmet, a poderosa, é a deusa das batalhas, que lança fogo pela enorme goela. Pekhet desencadeia torrentes devastadoras nos desertos do leste, onde habita. Tefnet, sujeita a grandes cóleras, emite fogo pelos olhos e pela boca. Mas nem sempre essas deusas se apresentam sob aspecto tão terrificante. Elas podem metamorfosear-se em gata, tornando-se assim dóceis e amáveis. Neste caso, seu nome é Bastet, a benévola”.

Por que falo de gatos, ou de felinos? Estranho bicho. Lembro-me primeiro do blog Kato Nigra, especialmente o post de 07 de junho de 2006 (http://katonigra.blogspot.com/2006_06_01_archive.html) donde JH trata do simbolismo desse animal: “é característica das contraculturas a contra-utilização dos signos da cultura oficial. se o gato preto é agouro e má sorte para a simbologia ocidental-cristã, vira vigoroso símbolo de rebeldia nas mãos dos artistas-operários” e ainda busca um exemplo histórico onde o gato “para os sindicalistas da IWW (Industrial Workers of the World), representava a sabotagem, a ação direta dos trabalhadores contra o capital” (ver imagem 1). De fato é Proudhon que pinta “a liberdade sob a forma de uma mulher segurando uma lança com o barrete frígio na ponta e tende a seus pés um gato. Ao contrário, Napoleão detestava gatos” (Silveira, op. cit). Paul Klee que fez a pintura “Gato e Pássaro” (imagem 2) em 1928 diz: "A coisa mais estranha é que eu não posso viver sem um gato. De um cão nunca me tornarei escravo, mas um gato é outra coisa, não é um animal. Um gato encontrado surge-me sempre como dono de um destino". Paul Klee (Pintor Suíço) 1879-1940.