quarta-feira, maio 31, 2006

O zen e o hindu

"Certo estudante, em busca da iluminação interior, procurou um monge chamado Kwan-Zan para intruí-lo. Este perguntou-lhe onde tinha estudado e o que apredera. O ardoroso estudante respondeu que seus conhecimentos foram adquiridos no Monastério Yogen, sob a direção de Jkashitzu. Lá, aprendera tudo sobre o caminho gradual da meditação e, para demostrar-lhe a técnica meditativa, sentou-se a um canto, tranquilamente, de pernas cruzadas. Permaneceu assim durante alguem tempo, quando foi sacudido por Kwan-Zan que, aos gritos, lhe apontava o caminho da estrada dizendo: 'Fora! Meu mosteiro já tem muitos Budas de pedra! Não necessitamos de mais nenhum!'"

E um pequeno Koan:

"Há muito tempo um homem colocou um ganso no interior de uma garrafa. Ele cresceu tanto que de lá não pôde mais sair. Como poderá o homem retirá-lo da garrafa, sem quebrá-la nem ferir o animal?"

fonte: Introdução ao Zen-Budismo; D. T. Suzuki

terça-feira, maio 30, 2006

Sonhos

Os sonhos, as vezes, nos contam verdades indecifraveis em nossa vida diurna. Pois foi isso que me aconteceu esta noite (29/05-30/05) (29+5= 34, 3+4 = 7) (30+5 =35, 3+5=8). Uma voz me disse que as pessoas tem Iodo nas suas cabeças, de forma inata. Achei interessante, apesar deu não ter qualquer conhecimento do que Iodo signifique; no maximo, eu sabia que era um elemento da tabela periodica. Acordei então, e perguntei aos meus pais. Minha mãe então me disse que o Iodo é utilizado em machucados para que estes tenham uma melhoria, ou seja, como especie de curativo. Achei muito interessante. Talvez meu sonho seja mais inteligente do que eu..

Resolvi então procurar na internet, e eis o que mais achei: (obs: os negritos são meus).

O iodo foi descoberto em Maio de 1811, pelo químico francês, Bernard Courtois, que estava encarregado de produzir nitrato de potássio para os exércitos de Napoleão. O processo de Courtois consistia na conversão de nitrato de cálcio, oriundo de depósitos de salitre, em nitrato de potássio, por intermédio da potassa. Esta era obtida a partir das cinzas de algas marinhas. Courtois verificou que quando lavava essas cinzas com ácido sulfúrico, para extrair certas impurezas, surgia um leve fumo que se condensava nos instrumentos de cobre, corroendo-os. Posteriormente observou a formação de um precipitado, que ao ser aquecido dava origem a um vapor de cor violeta. As propriedades desta nova substância foram primeiro investigadas por F. Clement e J. B. Desormes e posteriormente por Gay-Lussac, que a identificou como um novo elemento. Gay-Lussac chamou-lhe iodo, que deriva da palavra grega para violeta.
Desde a sua descoberta que o iodo tem vindo a contribuir para o desenvolvimento da tecnologia química. Destacam-se as pesquisas de Hofmann em química orgânica sintética, bem como as de Williamson, Wurtz e Grignard, em meados no século XIX.

e em outro canto:

Nome: Iodo
Número Atómico: 53
Símbolo Químico: I
Configuração Electrónica: [Kr]4d105s25p5
Abundância:
Terra: 0.14 ppm Nome: Iodo

constatações: 53 o seu numero atomico.. invertido: 35 (o dia do sonho).. 3 + 5 = 8

fonte: http://nautilus.fis.uc.pt/st2.5/scenes-p/elem/e05300.html

segunda-feira, maio 29, 2006

Sexdução generalizada


Escuto sua respiração, lentamente, que se mistura aos seus gemidos como notas harmônicas. Olho os seus olhos brilharem como um sol interior, radiantes. Coloco lentamente meu pênis em sua vagina lubrificada pelo desejo. O vento ressoa na janela de nosso prédio de oito andares. “Meu bem, isso é maravilhoso” penso com meu coração. Telhados enormes cobrem nosso prédio, como uma antiga casa suíça, mas sem a neutralidade padrão. É demasiadamente proposital, demasiadamente intencional. Tambores rugem de antigos totens pós-modernos pendurados nas paredes, que se misturam naquele cenário polimorfo com computadores, pichações e livros desorganizados. O ritual se passa agora, neste eterno agora, neste antro da sedução, do prazer e do amor.

Um passaro passa pela janela e reluz sobre a beleza daquele momento singular. Já não há mais como saber se são as couraças que vão sendo des-feitas, as qlippoths eliminadas, ou se, de fato, elas nunca existiram. Livres, a chuva jorra. A liberdade, em seu vôo, observa a prisão hedonista, enquanto a liberdade hedonista observa a prisão voadora. Tudo se entrelaça em movimento ondulatórios, o sagrado e o profano, o divino e o diabólico.

Fogos de artifício anunciam a chegada de drogas no morro, que trarão êxtase e vicio aos seus usuários, mas, no quarto, naquele momento, onde lambo aqueles seios protuberantes e mordo voluptuosamente aquela pele macia, já não ha demarcação entre o livre arbítrio e o vicio, entre a vontade e o desejo, entre a liberdade e a necessidade, entre o infinito e o finito. Tudo se mistura por raios invisíveis de libido orgonotica em um manto cosmológico que cobre cada ser. Cada orgasmo gerado produz uma sociedade livre. Cada momento bem realizado produz liberdade. A razão perde a guerra, o prazer triunfa, ao menos, naquele momento, onde todas as leis e grilhões são quebrados, o amor prospera, a semente germina, a mutação se traduz em alegria. Dionísio beija Apolo, Afrodite fica maravilhada, Isis da luz para as estrelas brilharem, os quatro deitam na cama e dormem, enquanto Hermes traz do céu uma coroa.

quinta-feira, maio 25, 2006


Não é o fogo que destroi,
é o vazio.
Não é o diabo que mata,
é o deserto.





Nada melhor que a morte,
e a ressureição.
Os vários deuses que nos olham,
no outro mundo, as vezes nos dão a mão
E novamente o campo pode germinar bons frutos.

Conversa de Bar


Ainda sobrou alguma coisa, vida,
Do que fiz contigo,
em minha tortura?
diz que ainda sobrou aquele suspiro, vida
para eu poder me re-abilitar
e juntos podermos frutificar

Me desculpa se te corrompo com meus lamurios
vida, me perdoe
Por ser um imbecil que te corroi
vida, deixa eu te amar
Não preciso mais disso, me culpar,
por coisas tão imbecis que fiz
Não quero mais ficar neste cubiculo azedo.
Acredite em mim.

Eu quero a rosa do outono, vida
Quero a primavera florida.
Quero brincar de pique esconde, vida
Mas não quero mais a tempestade
que não precisa existir

Quero saber que os momentos terríveis existem,
e que não preciso cria-los em minha alma
quero saber vida, e com tal força, que você é a mais bonita
a mais bonita das joias deste mundo

quarta-feira, maio 24, 2006


Introdução ao Real

Parte IEpistemologia e os Gregos.

Eu me interesso pela epistemologia a algum tempo, apesar de não ser um estudioso no assunto. Para quem não sabe, epistemologia provém do grego: “episteme = conhecimento superior + logos = discurso, estudo”, o termo era utilizado por Platão que o distinguia da Doxa, que era o saber do senso comum. Dessa forma, o termo epistemologia foi utilizado como estudo dos saberes científicos, que procura determinar as condições que possibilitam o ato de conhecer, tal como, a discussão de questões referentes a sistematização e transmissão do conhecimento nas diferentes áreas de saber. Segundo alguns, ainda, a epistemologia teria nascido no momento do nascimento da filosofia grega, com Tales de Mileto.


Uma questão essencial da epistemologia já começa nos gregos: O que é real? O mundo dos sentidos? O mundo dos deuses? O mundo da razão? Como conhecemos? A primeira busca grega foi encontrar decodificadores universais para o caótico universo.
Tales, por exemplo, falava que tudo provinha da água. Temos, por exemplo, sua citação: “Tudo é água e o mundo está cheio de deuses” e a partir desta água primordial tudo se tornava diferenciado. É interessante observar que a água possui um aspecto simbólico de emoção, tal como, de inconsciência. Bem, partimos então, de uma concepção central, de onde tudo mais provinha, tal como: “Tudo vem de Deus”, ou ainda, como para Heráclito, tudo provinha do fogo. Claro que estes aspectos são, em sua maioria, metafóricos. Temos, ainda neste período Empédocles que propunha que tudo provinha de quatro elementos distintos (água, terra, fogo, ar) e estes eram eternos e se separavam e uniam-se através consecutivamente da discórdia e do amor (Éris e Eros).


O maior conflito nesta época, contudo, se deu entre o pensamento socrático e platônico contra o pensamento dos sofistas. Para Platão os sentidos não eram um método confiável de conhecimento, pois eles eram por demasia pessoais e sempre passiveis de mudança, por exemplo, podemos dizer que cada ser humano vê uma cor de rosa diferente, podemos dizer que cada ser humano pode considerar uma mulher bela partindo de diferentes características de análise, ou seja, não é possível generalizar e universalizar os julgamentos e as percepções provindas dos sentidos.


Platão então, após estudar com os Pitágoricos, que bebiam da fonte do orfismo e da matemática, procurou criar um conhecimento que transcendia a mera opinião e a mera moral individual, procurando a universalidade. Platão então, através do conhecimento adquirido com Sócrates, fundamentou sua tese sobre os arquétipos, que seriam padrões ontológicos e transcendentes que são a base de todo universo. Padrões racionais, diga-se de passagem. Exemplifiquemos alguns arquétipos platônicos: o bem, o mal, a beleza, a felicidade. O sensível, para Platão, estava relacionado ao irracional, enquanto o supra-sensível (os arquétipos) estavam relacionados a uma racionalidade transcendente.


Uma melhor compreensão acerca dos arquétipos socráticos é dada por Diotima ao falar a Sócrates sobre a beleza:
“Beleza que não se apresentará a seus olhos como a beleza de um rosto, das mãos ou de algo corpóreo, ou como a beleza de um pensamento ou da ciência, ou como a beleza que tem sua sede em outra coisa que não nela mesma, seja um ser vivo, a terra, o céu ou qualquer outra coisa; ele a verá como absoluta, existindo por si e em si, única, eterna, dela participando todas as outras coisas belas, de tal forma que, vindo elas a nascer ou morrer, ela não sofrerá aumento, diminuição ou mudança”.


Para Platão o conhecimento provinha do “Hades” (ai ele faz uma série de distinções no mundo dos mortos no Fédon, que podem ou não ser consideradas como metafóricas), ou seja, do mundo dos mortos. Antes de nascerem os seres humanos conheceriam a Verdade, os arquétipos propriamente ditos, todavia, através do ato de nascimento este conhecimento seria esquecido. Para conhecer o real, portanto, o ser humano deveria voltar-se para dentro a fim de descobrir o que esqueceu. Platão dava, portanto, grande valor a meditação, pensamento, intelecto, análise. Ele conseguiu unir duas tendências dissonantes em sua época, a filosofia de Heráclito que dizia que “Tudo está em movimento” e a filosofia de Parmênedis que dizia que “Nada se modifica, toda modificação é ilusória”.


Nesta mesma época, de Sócrates e Platão, o outro forte segmento da filosofia eram os Sofistas que apenas acreditavam no conhecimento humano, no conhecimento relativo e particular, negando as generalizações. Platão, em seu ensaio sobre os Sofistas chama-os de “Erisianos mercenários” (o que nos faz lembrar, excluindo os mercenários, do movimento discordiano, que abordaremos mais a frente). Os sofistas cobravam para ensinar a arte da retórica, arte que Sócrates, por exemplo, era muito bem instruído.


Foi justamente a esse “o real de tudo está no indivíduo” que Platão atacou. Antístenes (que foi um cínico), filosofo daquela época, afirmava através do princípio de inerência que não se pode afirmar de um sujeito muitos predicados, ou mesmo nenhum que dele divirjam. Ele somente aceitava os predicados idênticos ao sujeito (ex: cavalo é cavalo, azul é azul, alias, o que nos lembra o princípio da identidade e a não-contradição de Descartes – o que é A é A, o que é B não pode ser A).


Uma questão aqui a ser colocada seria: Podemos falar que todos os homens são homens apesar de suas diferenças? Podemos falar que uma letra é uma letra, independente de sua grafia ou estilo do escritor? Podemos falar que todo livro é um livro? Podemos falar que todo trabalho é um trabalho? E, indo além em Platão: Podemos falar que existe uma letra ideal? Podemos falar que existe um livro ideal (um protótipo de livro)? Podemos falar que existe um trabalho ideal?
Para nós talvez seja muito fácil dizer: “é obvio que todo homem é um homem”, mas nem todo homem pensa assim. Estilpão, por exemplo, dizia que os conceitos genéricos não tinham nenhuma realidade e nenhum valor objetivo. Por isso, ao falar de “homem” não se está falando de ninguém, pois não se designa nem este e nem aquele.


Após Aristóteles a base do real passa das idéias universais e transcendentes para as coisas em si e suas categorias. A essência do real não estaria mais nas idéias eternas, mas agora “in rem” (na coisa). Já no enfoque de Aristóteles que podemos designar como universalia in rem (universais na coisa) a forma (eidos) e a matéria coexistem. Diferimo-nos agora do modelo “univeralia ante rem” (universais antes da coisa) platonico e do “universalia post rem (universais depois da coisa) para superar o “tertium non datur” (não há terceiro termo), ou seja, para superarmos a negação da dialética. Dessa forma Aristóteles teve papel fundamental na síntese epistemológica de sua época.


Aristóteles trouxe, portanto, uma imanência viva e não mecânica ao mundo. Expliquemos o porque. Ele voltou-se certamente aos objetos do mundo externo, num certo empirismo, mas com isso não ignorou o movimento da natureza viva, a physis que, para os gregos, tinha uma acepção muito diferente da física para nós. Aristóteles acreditava numa lógica teleológica da natureza, tudo continha um potencial para vir-a-ser bem, mas o que é o bem? O bem para Aristóteles é conseguir manifestar suas potencialidades. Por exemplo: uma semente tornar-se arvore, e um ser humano, parafraseando um nome de livro de Rogers: “Tornar-se Pessoa”. Para a empreitada do ser humano de vir-a-ser o bem existiam alguns pontos nevrálgicos como, por exemplo, o ser virtuoso. A virtude (areté) na Grécia de Homero, por exemplo, tinha uma conotação heróica e inata que, com Hesíodo passa a tornar-se uma construção. E é nesta conotação de construção que Aristóteles a empregará. O sujeito, com sua phrônesis(sabedoria prática), pode descobrir a virtude. A virtude, para Aristóteles, tem uma conotação muito interessante de mediania (meio termo entre extremos) que nos faz lembrar o “Nirdvandva” hindu e a conjuctio oppositorum (união de opostos) para Jung.


É interessante ressaltar a crença irremediável de Sócrates, Platão e Aristóteles (como santo Augustinho e Tomás de Aquino que abordaremos posteriormente) na razão. Os três eram o que poderíamos chamar de essencialistas, pois acreditavam numa essência de racionalidade no ser humano, onde esta mesma ocuparia papel central no cognição da realidade e da verdade.

domingo, maio 21, 2006

Poesia e tratado de escatologia.


As vezes, tudo parece uma vastidão de silêncio,
Seja um silêncio cheio,
seja um silêncio vazio.
As portas estão semi abertas,
a janela está fechada;
O mundo roda, e nada gira,
mas isso é fantástico.

As pessoas olham o corpo e dizem:
nada acontece.
Não conseguem ver as conexões,
pois seus olhos,
não lhes favorecem.

Queimam as mil mutações do atomo
Mas eu só queria ver aquela flor voar
Com a calma serena do vento de outono
Eu só queria sentar aos pés de uma macieira,
e flutuar.



Tratado pela merda iluminada. (Para Nietzsche, pois Nietzsche morreu).

Somos nós que somos pensados, mas achamos que abafamos. Não abafamos nada, apesar de nossos berros -A vela está apagada!". A vela continua acessa bem distante de nossas fezes, que vangloriamos, em nossos tratados escatológicos: "A defecação histórica, eis o que existe e
nada mais!".. Mas, quando descobrirmos que cada merda só existe a partir da luz e da sombra, o que faremos? O que faremos quando descobrirmos que era a vela, esta que gritamos estar apagada, que iluminava nossas fezes? Nem tudo está perdido... pois a luz que emana de fora, também emana de dentro.. e se escavarmos essas fezes, descobriremos a luz. A luz que é de fora, também é a luz de dentro...

terça-feira, maio 16, 2006

Mudança de Habito


Um pouco de autoridade,
vamos lá baby, você consegue.
Um pouco de entusiasmo,
Eu sei disso, você é bom.

Cante comigo, segure minha mão
Vamos girar as rodas da fortuna, amor
Vamos rodar nessa montanha russa
E atirar tiros certeiros
Vamos deixar essa fumaça baixar

Não fique bravo comigo,
eu sei que é assim..
Deixe eu te nutrir amor
Eu sei que você pode,
uns nascem e outros morrem

Cresça saudável, estufe o peito
Cante comigo essa noite,
vamos nos amar, virar um só
eu sei que você consegue.

Diga sim com desejo
Diga assim como desejo
Não espere pelo meu beijo
Bata na mesa e torne real,
O sucesso de seu novo disco vinil, amor
sensacional!

domingo, maio 14, 2006

Pró Voto Nulo!


“Votar em governantes, antes de ser instrumento democrático, é a negação da própria democracia”.

Votar em autoridades que nos “representem”, ao contrário de ser uma tarefa democrática, representa a negação da autoridade dos indivíduos concretos, e das populações locais que são destituídas de seu poder, de suas escolhas, em prol de uma autoridade que não faz parte de suas vidas e tem sua vida particular muito longe da grande maioria da população – que é, na verdade, desgraçada por condições de vida sub-humanas (graças a esse sistema de governantes, ao capitalismo, etc.).

Seria um engano acreditar que o voto nulo é simplesmente um mecanismo de protesto por melhores governantes. Isto seria utilizar o voto nulo para pedir mais desgraça. Com o mandato de Lula fica evidente que, tanto a esquerda quanto a direita institucionais, estão condenadas a corrupção, ao abuso de poder, a não resolver os conflitos e problemas da sociedade. Isso se deve a um problema muito maior do que a simples mudança de políticos. É, incialmente, um problema de todo sistema político.

Observar que o voto em candidatos não pode alterar a situação de degradação do sistema econômico, cultural, filosófico, em suma, paradigmático atual, é o primeiro passo para uma crítica mais efetiva de nossa sociedade hierárquica, desigual e injusta. A questão central, portanto, não deve ser se “50% dos votos anulam a eleição trazendo novos candidatos”, mas sim mostrar a ilegitimidade da autoridade dos governantes (presidentes, governadores, etc.) que, querendo ou não, serão corrompidos em seus mandatos. Devemos trocar o poder de governantes que não conhecem as nossas vidas por uma política que vise a autonomia dos indivíduos e bairros, com suas especificidades, trazendo o poder de volta ao povo efetivamente. Apenas desse modo poderemos falar em democracia, que como a etimologia da palavra nos diz, vem de: “demo – povo” “cracia – governo”, ou seja, o governo do povo.

Propõe-se, dessa maneira, uma política afirmativa através do voto nulo e não simples forma reativa de protesto. Buscamos o fim do capitalismo e criar uma organização descentralizada de poder, dando-o a quem lhe é devido: aos bairros, aos trabalhadores, as pessoas e criando, através do voto direto nas questões locais, a verdadeira democracia, a democracia direta!

quarta-feira, maio 10, 2006


Sociedade, Grupos e Movimentos Sociais.

1 – A classe média e classe usurpadora em suas relações sociais.

Mediante a grande atuação dos movimentos sociais na atualidade e, não menos presente, a atuação de grupos ideologicamente determinados nestes, surgiu à idéia de fazer um texto abordando alguns aspectos psicológicos e sociais presentes nestas relações. Antes, acredito ser interessante falar um pouco sobre as opiniões contemporâneas da classe média (que seria um erro, hoje, chamar de “pequena-burguesia”), e da classe rica (ou classe usurpadora), sobre os movimentos sociais para termos alguns insights sobre as visões e relações “gerais” da sociedade.
É interessante ver como se confundem nas opiniões, da classe média, as ilusões do virtual em detrimento do concreto. Vemos comumente, na classe média, difundida a idéia de mobilidade de classes, onde o jogo de acumulação do capital se associa à idéia da potencialidade do indivíduo de “vencer na vida”, como ter propriedades dependesse do quão apto, potente e evoluído é o indivíduo. A idéia espetacular do summum bonum (sumo bem) que é fantasiada pela burocracia (governo do escritório), através da mídia de massa, é a idéia de que o “bom” é alcançado através da ascensão monetária, onde a acumulação de capital passa a ser imperativo de um modo de vida feliz e fantástico. O indivíduo que consegue ascender socialmente é bom e poderoso. O jogo de valores foi invertido. Ao invés das pessoas criarem os valores, eles são definidos pela sua acumulação de capital. Devíamos ser nós a falar: “o dinheiro é bom ou o dinheiro é mal porque, através dele, acontece/faço X ou Y” e assim definir a qualidade do objeto, mas, ao contrário, o dinheiro nos define: “Fulano é bom porque possui dinheiro”, “Fulano é potente porque possui uma Ferrari”.
A propaganda, seja através de signos, seja através de imagens, passa de maneira subliminar e inconsciente(1) os valores que a população deve se submeter. Cria também, com efeito, a falsa idéia de mobilidade social relacionando à potencialidade do indivíduo, eliminando assim as influências sociais e políticas da miséria, ignora dessa forma que a formação de classes(2) é resultado, dentre outros, da política capitalista.
Guy Debord fala-nos um pouco sobre essa situação:
“A separação é o alfa e o ómega do espetáculo. A institucionalização da divisão social do trabalho, a formação de classes, tinha construído uma primeira contemplação sagrada, a ordem mítica em que todo o poder se envolve desde a origem. O sagrado justificou a ordenação cósmica e ontológica que correspondia aos interesses dos Senhores, ele explicou e embelezou o que a sociedade não podia fazer. Todo poder separado foi pois espetacular, mas a adesão de todos a uma tal imagem imóvel não significava senão o reconhecimento comum de um prolongamento imaginário para a pobreza da actividade social real, ainda largamente ressentida como uma condição unitária. O espetáculo moderno exprime, pelo contrário, o que a sociedade pode fazer, mas nesta expressão o permitido opõe-se absolutamente ao possível. O espetáculo é a conservação da inconsciência na modificação prática das condições de existência.” (Debord, 1997, n 25).
Debord mostra que, na contemporaneidade, não foi desfeita a idéia de in-mobilidade das condições de existência. De fato, foram apenas passadas as idéias de “mobilidade social” e “liberdade econômica”. A classe média, portanto, em sua maioria, continua a não compreender diversos movimentos sociais “mais radicais” (ou mais combativos), pois não entende o que seria uma modificação econômica, organizacional e psíquica numa sociedade. Para ela a sociedade “é como é”, ou seja, esta estratificada para sempre no capitalismo, de tal modo que, parece coisa extremamente absurda cogitar um novo modo de organização, um novo modo de vida. Para a classe média e classe rica, analisando de forma genérica, o “il faut savoir-vivre” (é preciso saber viver) é “sempre” o “saber-viver” dentro do sistema capitalista, é uma adaptação a neurose social contemporânea. E, indo além, é o “passar por cima dos outros” para ascender socialmente no jogo “darwinista social” criado pelo pensador Spencer e consagrado por Stirner. É a competição de todos contra todos. A classe média acredita piamente que se todos os miseráveis (inclua-se movimentos sociais dos trabalhadores) trabalhassem e estudassem eles teriam condições de ter um “bom emprego” e uma “boa família” (leia-se emprego e família capitalista).
Ignoramos hoje a condição humana, pois “Como diz Alvenga, a característica do homem é sua mudança” (Melo, 2002). É o absurdo contemporâneo.

2 – Os Movimentos Sociais.

A) Grupos x Massa x Pessoa.

Abriremos este tópico com uma distinção muito básica de “grupo”, “massa” e “multidão” para após analisarmos os termos e tentarmos definir, dentro dos limites, bons modos de atuação para movimentos sociais, sejam eles ideologicamente determinados ou sem uma ideologia clara. Para a definição buscamos Franz, que define: “(1) grupo, i.e., um conjunto de pessoas que estão relacionadas entre si intelectualmente ou no nível de sentimento e em que cada uma desempenha determinado papel; (2) multidão, i.e., um ajuntamento aleatório de pessoas; e (3) massa, i.e., uma grande multidão emocional e instintivamente unida que, de modo geral, segue um líder”. (Franz, 1999).
Antigamente, segundo Franz, o grupo ordenado e a massa caótica apresentavam contrastes mais nítidos do que na contemporaneidade, contudo, “tendiam a tombar um sobre o outro com mais facilidade; os grupos primitivos facilmente se descontrolavam, assim como os grupos de jovens ou de pessoas mentalmente instáveis, mas, enquanto fenômenos, eles são mais rígidos em um nível primitivo (tabus!), e os fenômenos caóticos de massa tendem a ser mais turbulentos e histéricos” (ibid). Dessa forma, os grupos tendiam a ter regras preto-e-branco, ou seja, não relativizadas e, como diz Franz, quanto “mais efetivamente civilizado se torna o homem, mais flexíveis se tornam suas regras sociais de comportamento (...)” (ibid). Lembremos ainda que para Proudhon a pluralidade era a base da liberdade, segundo Trindade, grande estudioso em Proudhon: “A teoria da liberdade como força de composição é o ponto de partida e conseqüência do justicialismo ideo-realista. A liberdade é tornada possível pelo jogo de pluralidade das forças antagônicas do universo físico, social e pessoa; (...) ela é eficaz pela multiplicação das relações sociais, e engrenagem de todas as liberdade”. (Trindade, 2001), e prossegue “Só a liberdade eficiente, que implica a moral e a educação, é a liberdade total” (ibid).
Os grupos, portanto, apresentam maior organização, metas melhores construídas, objetivo mais bem delimitado, contudo, quando se extremam, radicalizam, tendem a gerar fanatismos ideológicos, como os fanatismos religiosos antigos. Já do outro lado, a massa tende a ignorar as ideologias, ignora, em grande parte, os indivíduos que participam dela, pois seu objetivo é sempre mais imediato, menor organizado e, se ela se radicaliza, pode produzir conteúdos emocionais compulsivos e explosivos, sendo direcionados para o bem ou para o mal.
Acreditamos que o melhor seria um equilíbrio entre a massa e o grupo, pois grupos muito burocráticos e rígidos podem inibir a singularidade de seus indivíduos, tal como, massas pouco estruturadas podem levar ao vazio, ou seja, a improdutividade. Certo é que a experiência de grupos, de pessoas unidas, gera um aumento da força e da potencia, possibilitando a chegada em um objetivo. Como diria Raul Seixas: “Sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade”.
A pessoa deve poder estar na tensão dialética entre o seu “próprio”, sua singularidade, e a moral-teoria grupal, coletiva, seus valores. O grupo então deve sempre ter o cuidado para não podar os indivíduos e suas singularidades, ao mesmo tempo em que não deve permitir um jogo de tiranos, de todos contra todos, como o Einzige (único) que propôs Max Stirner e sua exaltação do egoísta. Um grupo é sempre uma relação e as pessoas devem aprender a con-viver e se inter-relacionar, pois estão em contato com outras pessoas e numa troca constante.
Necessário é, numa dada situação, que mesmo um grupo organizado releve algumas de suas próprias regras para dar a espontaneidade uma oportunidade, como em determinados momentos “a flor da pele” esta espontaneidade é necessária, não perdendo, contudo, seu próprio objetivo, sua teleologia. A massa caótica, no entanto, também deve ser contida por regras, mesmo que mínimas – quando a autonomia dos indivíduos do grupo permitir – para não cair num mero “destruir por destruir” ou “fazer por fazer”, sem uma perspectiva de construção ou criação de alternativas.
O zoólogo Adolf Portmann “salientou que entre grupos de animais mudanças criativas de padrões de comportamento só podem ser iniciadas por indivíduos. Por exemplo, um pássaro individual de um bando de pássaros migratórios decide permanecer no mesmo lugar durante o inverno. Se morre, nada mais resulta; mas se sobrevive, outros pássaros poderão ficar com ele no inverno seguinte, e assim, lentamente, todo o grupo algumas vezes muda os hábitos”. (Franz, 1999).
Não queremos aqui ignorar as mudanças que ocorrem simultaneamente em um grupo, região, ou mesmo no mundo – ou quando elas, apesar de terem sido originadas numa constelação psíquica de apenas um indivíduo se proliferam antes de, de fato, terem chegado a serem conduzidas conscientemente -. Acreditamos nessa possibilidade bem colocada pelo também biólogo Rupert Sheldrake em sua teoria dos campos morfogenéticos e pelo psicólogo Carl Gustav Jung em sua teoria do inconsciente coletivo. O que não queremos ignorar é a possibilidade de criação individual e a singularidade dos indivíduos que não podem ser rompidas e engolfadas pelo processo grupal.
Na psicologia de Jung chamamos o processo de singularização de “processo de individuação”. Esse processo não pode ser abandonado, pois sem ele inevitavelmente cairemos sobre o domínio de autoridades, tiranos, fundamentalismos, etc., pois não temos, sem esse processo, autoridade o suficiente, em nos mesmos, para confrontarmos-nos com o poder. Com efeito: “A individuação é, em ultima analise, incompatível com quaisquer exigências de um poder coletivo, ainda que este esteja dissimulado através da atitude de um líder de grupo bem intencionado (...) pois somente o Si-mesmo é capaz de nos conferir uma autoridade natural que não foi solicitada pelo ego” (ibid). O processo de individuação é um processo que nos leva a nosso modo mais próprio de ser.
Para a meta de integrar o grupo, as massas espontâneas, caóticas e o indivíduo, construímos o texto: “convergência anarquista” uma união entre o anarquismo histórico organizado e a espontaneidade e a volição do chamado anarquismo ontológico. Claro que isso é apenas uma pequena introdução capenga a essa tentativa que pode ser mais bem organizada no passar da história.

B) Lideranças

As lideranças, na maioria dos casos, prestam um desserviço aos grupos e as sociedades, pois através da representação concêntrica ignoram a autonomia dos cidadãos e criam a resignação. Fica evidente que as pessoas que pertencem a movimentos onde as autoridades se institucionalizam tendem a projetar (falaremos a posteriori sobre a projeção) na autoridade (líder) todas as suas responsabilidades e toda sua potencia nessas figuras. A liderança, em geral, cria uma hierarquia que evita o crescimento e o amadurecimento da população, de um grupo, ou de um movimento social.
Claro que não podemos ignorar as diferenças entre os tipos de liderança ou autoridade. Mas aqui é um campo dinamitado; perigoso pisar e explodir. A autoridade pode ser uma autoridade naturalmente instituída e não formalizada como, por exemplo, uma pessoa que sabe muito uma determinada teoria e uma outra pessoa, por apreciá-la, imputa-lhe esse status. Outro exemplo seria uma pessoa carismática que atrai as pessoas ao seu redor como Gandhi. Existem também as autoridades institucionalizadas que podem ser ou não autoritárias, ou seja, que utilizem sua autoridade para coagir, reprimir, manipular, comandar, etc. As autoridades institucionalizadas tornam-se, muitas vezes, grandes problemas para os grupos, pois resultam, muitas vezes, em autoritarismos. Quando essa atitude paternalista dos lideres não está presente não há necessidade de um líder institucionalizado. O líder é a negação da liderança dos indivíduos. Ele impede o movimento autônomo dos agrupados, pois evita que eles tomem decisões, como acontece no processo da democracia representativa. O melhor seria, acreditamos, que qualquer tipo de autoridade fosse se desfazendo com o tempo para dar lugar a autonomia dos indivíduos e da coletividade, todavia, não é absurdo que existam pessoas mais admiradas, respeitadas e valoradas do que outras, tal como, não é absurdo dizer que essas pessoas exercem certa autoridade sobre seus companheiros.
Ainda existe, entre outros, um grande perigo no processo de liderança. A organização que trabalha de forma hierárquica ou com lideranças informais permanentes só atrai indivíduos fracos e inseguros, incapazes de tomar decisões e incapazes de criação; são aqueles indivíduos que devem seguir toda cartilha de alguma teoria já pronta. Em um grupo, o líder do grupo muitas vezes é quem se identifica com o “espírito do grupo” e isso acaba por tornar-se problemático. Identificado como espírito do grupo o indivíduo reforça apenas opiniões simétricas as suas e tenta “coletivizar” o pensamento do grupo, no sentido de reificar todos ao mesmo pensamento. Nesta tentativa de coletivizar as opiniões, cortando as individualidades e diferenças, a singularidade se degenera em egoísmo contido, reprimido, pois surge uma necessidade latente de opiniões próprias.
Evidente que é necessário opiniões comuns e objetivos claros, mas, não é interessante a formação de robôs ideologicamente controlados por contingências externas. Acreditamos que o melhor processo grupal se de na maneira horizontal, não só com votos iguais a todos, mas também estimulando, a todo momento, a autonomia dos indivíduos e não apenas do grupo. O grupo não pode estraçalhar o indivíduo, tal como, o indivíduo também não pode passar por cima do grupo. Novamente estamos num ponto dialético e tenso, pois uma relativa permissividade deve ser possível, ao mesmo tempo em que contradições absurdas devem ser podadas, como, por exemplo, um indivíduo que seja a favor da pena de morte entrar para um grupo de pacifistas, um autoritário ou capitalista entrar num grupo anarquista.

C) Projeções nos processos grupais.

O termo projeção é usado de mais de uma maneira, portanto, definamo-nos o que queremos dizer quando dizermos “projeção”. Segundo Franz: “A psicologia profunda de Sigmund Freud e a de C. G. Jung têm em comum o uso da expressão projeção, mas cada um deles a utiliza com significado diferente. Na visão de Freud, a projeção ocorre quando uma pessoa neurótica se livra de um conteúdo emocional, deslocando-o para outra coisa como o objeto de intenção (...) (ibid). Na visão de Jung, contudo, esta é apenas uma entre muitas possibilidades. De acordo com ele, todos os conteúdos psíquicos dos quais ainda não temos consciência aparecem de uma forma projetada como supostas propriedades de objetos externos. A projeção, a partir desse ponto de vista, é um deslocamento que ocorre de uma maneira não intencional e inconsciente, ou seja, sem ser percebido, de um conteúdo subjetivo para um objeto externo”. A projeção leva, pois, a um relacionamento irreal. Para Jung, em suas palavras, projeção significa: “transferir para o objeto um processo subjetivo. (É o oposto de introjeção v.). A projeção é portanto um processo de dissimilação em que é tirado do sujeito um conteúdo subjetivo e incorporado de certa forma ao objeto. Pela projeção, o sujeito se livra de conteúdos penosos e incompatíveis, mas também de valores positivos que, por qualquer motivo, como, por exemplo, a auto-subestima, são inacessíveis a ele.(...)” (Jung, 1991).
O processo de projeção se da não apenas na relação entre duas pessoas, mas também em processos grupais e sociais. É muito constante vermos grupos se demonizando e se um terceiro observador, que nada sabe, observa-se a situação veria que nenhum deles tem razão, ou seja, ambos tem perspectivas irreais que alimentam mutuamente. Dessa forma, através de uma projeção, determinados grupos podem projetar suas sombras em outros grupos ao invés de lidar com elas, seja falando que o outro grupo é autoritário, demagogo, reformista, antiético, pequeno burguês, desorganizado, burocrático, etc.
Quando falamos de sombra queremos dizer: “O termo ‘sombra’, como conceito psicológico, refere-se ao lado obscuro, ameaçador e indesejado da nossa personalidade. Nossa tendência, no desenvolvimento de uma personalidade consciente, é buscarmos incorporar uma imagem daquilo que gostaríamos de ser. As qualidades que pertenceriam a essa personalidade consciente, mas que não estão de acordo com a pessoa que queremos ser, são rejeitadas e vêm a constituir a sombra” (Sanford, 1988). Um exemplo de sombra não integrada é a história “o médico e o monstro” de Stevenson.
As projeções podem, portanto, ser projetadas de maneira coletiva num determinado grupo rival, por exemplo, no jogo cíclico entre punks e skinheads, entre partidos políticos, na relação da população alemã no nazismo nos judeus, negros, homossexuais, etc. E também podem ser projetadas de maneira individual, como um indivíduo com medo de um aspecto seu, como seu “autoritarismo” começa a projetar em indivíduos e grupos aquele elemento, emocionalmente carregado, que ele não consegue lidar em si mesmo. Cegamo-nos com a faca amaldiçoada de Édipo para não vermos a nossa lastimosa face no espelho.




1 – Quando falamos de inconsciente aqui referimo-nos ao inconsciente pessoal, descrito por Carl Gustav Jung (1875-1961).

2 - Seria interessante ainda um estudo sobre até que ponto essa palavra ainda possui validade e de que modo ela pode ser definida. Se de maneira simplista, como bloco de pessoas com uma determinada renda; como pessoas que fazem parte de grupos antagônicos dentro da sociedade que, em sua luta, movimentam a história; como bloco psíquico e econômico razoavelmente homogêneo, etc.

Bibliografia

1 – Debord, G., A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
2 – Franz, Marie-Louise Von. Psicoterapia. São Paulo: Paulus, 1999 – (Amor e psique)
3 – Melo, Elizabeth C. Mergulhando num mar sem fundo. Rio de Janeiro. 2002.
4 – Jung, Carl Gustav, Tipos Psicológicos. Petrópolis: Editora Vozes Ltda. 1991.
5 – Sanford, John A., 3ª edição. Mal o lado sombrio da realidade; (tradução Sílvio José Pilon, João Silvério Trevisan; Revisão Ivo Storniolo). – São Paulo: Paulus, 1988.
6 – Trindade, Francisco. O Essencial Proudhon. São Paulo: Imaginário, Nu-Sol, Soma. 2001.

segunda-feira, maio 08, 2006

Divaga-ações

- Pensamentos:

. Proudhon é mais interessante do que Marx..
. Stirner não me agrada muito.

- Questões:

. O trabalho pode ser limitado a um conceito genérico?
. E o homem?
- O que seria, portanto, a idéia que permeia todos os trabalhos e todos os homens? Seria tiranico fazer essa generalização? Ou seria natural? Qual a validade objetiva do sensível? E das idéias?

pensando..

domingo, maio 07, 2006


A Clara Torre

André Breton
Le Libertaire, 11 de janeiro de 1952

Foi no negro espelho do anarquismo que o surrealismo reconheceu-se pela primeira vez, bem antes de definir-se a si mesmo e quando era apenas associação livre entre indivíduos, rejeitando espontaneamente e em bloco as opressões sociais e morais de seu tempo. Entre as fontes de inspiração onde bebíamos, nesse pós-guerra de 1914, e cuja força de convergência era inabalável, figurava esta final da “Balada de Solness”, de Laurent Tailhade:

Arrebata nossos corações em disparada, em farrapos
Anarquia! Ó portadora de luz!
Expulsa a noite! Esmaga os vermes!
E ergue ao céu, ainda que seja com nossos túmulos,
A clara torre que sobre o mar domina!

Nesse momento, a recusa surrealista é total,, absolutamente inapta a deixar-se canalizar no plano político. Todas as instituições sobre as quais repousa o mundo moderno e que acabam de resultar na Primeira Guerra Mundial são tidas por nós como aberrantes e escandalosas. Para começar, é contra todo aparelho de defesa da sociedade que lutamos: exercito, “justiça”, policia, religião, medicina mental e legal, ensino escolar. Tanto as declarações coletivas quanto os textos individuais do Aragon do passado, de Artaud, Crevel, Desnos, do Eluard de outrora, de Ernst, Leiris, Masson, Péret, Queneau os meus, atenstam a vontade comum de fazer com que fossem reconhecidos como flagelos e, como tais, combatidos. Todavia, para combatê-los com alguma chance de sucesso, ainda é preciso atacar sua armadura que, em última analise, é de ordem lógica e moral: a pretensa “razão’ em uso, e de uma etiqueta fraudulenta, recobre o “senso comum” mais desgastado, a “moral” falseada pelo cristianismo com o objetivo de desencorajar qualquer resistência contra a exploração do homem.
Um grande fogo conservava-se sob as cinza – éramos jovens – e creio que devemos insistir no fato de que ele avivou-se constantemente para liberar-se da obra e da vida dos poetas:

Anarquia! Ó portadora de luz!

Chama-se não mais Tailhade, mas Baudelaire, Rimbaud, Jarry, que todos os nosso jovens camaradas libertários deveriam conhecer, assim como deveriam também conhecer Sade, Lautréamont, o Schwob do Livro de Monelle.
Porque uma fusão orgânica não pôde operar-se nesse momento entre os elementos anarquistas, propriamente ditos, e elementos surrealistas? Ainda estou, vinte e cinco anos depois a perguntar-me. Não resta dúvida de que a idéia da eficácia que terá sido o espelho de toda essa época decidiu de outra forma. O que se pode considerar como o triunfo da Revolução Russa e a realização de um Estado operário provocava uma grande mudança de visão. A única sombra do quadro – que se precisaria como mancha indelével – residia no esmagamento da insurreição de Kronstradt, em 18 de março de 1921. Nunca os surrealistas conseguiram passar por cima disso. Entretanto, por volta de 1925, só a III internacional parecia dispor dos meios desejados para transformar o mundo. Poder-se-ia crer que os sinais de degenerescência e regressão, já facilmente observáveis no Leste, ainda eram conjuráveis. Os surrealistas viveram, então, na convicção de que a revolução social estendida a todos os paises não podia deixar de promover um mundo libertário (alguns diziam, um mundo surrealista, mas é a mesma coisa). Todos, inicialmente, julgaram dessa forma, inclusive aqueles (Aragon, Eluard, etc) que, em seguida, decaíram de seu ideal primeiro até o ponto de fazer no stalinismo uma carreira invejável (aos olhos dos homens de negócios). Mas o desejo e a esperança humanos jamais poderiam estar à mercê daqueles que traem:

Expulsa a noite! Esmaga os vermes!

Sabe-se muito bem que impiedosa pilhagem foi feita dessas ilusões durante o segundo quartel deste século. Por uma terrível ironia, ao mundo libertário com o qual se sonhava, substituindo-se um mundo onde a mais servil obediência é obrigatória, onde os direitos mais elementares são negados ao homem, onde toda a vida social gira em torno do policial e do carrasco. Como em todos os casos em que um ideal humano chega a esse cumulo de corrupção, o único remédio é refortalecer-se na grande corrente sensível onde se originou, remontar aos princípios que lhe permitiram constituir-se. É no próprio fim desse movimento, hoje, mais do que nunca necessário, que se encontrará o anarquismo, somente ele – não mais a caricatura que nos apresentavam ou a coisa hedionda que fazem dele – mas aquele que nosso camarada Fontenis descreve “como o próprio socialismo, isto é, essa reivindicação moderna pela dignidade do homem (sua liberdade tanto quanto seu bem-estar); o socialismo, concebido não como a simples resolução de um problema econômico ou político, mas como a expressão das massas exploradas em seu desejo de criar uma sociedade sem classes, sem Estado, onde todos os valores e aspirações humanos possam se realizar”.
Essa concepção de uma revolta e de uma generosidade indissociáveis uma da outra, e, a despeita de Albert Camus, ilimitáveis tanto uma quanto a outra, os surrealistas a fazem sua, hoje, sem reservas. Liberada das brumas de morte destes tempos, eles a consideram como a única capaz de fazer ressurgir a olhos cada vez mais numerosos,

A clara Torre que sobre o mar domina!

Fonte: Surrealismo e Anarquismo, Imaginário.

quarta-feira, abril 26, 2006

Liturgía

Ozmud luta contra Arimã e o céu pega fogo, quimeras e pessoas desesperadas correm com alfinetes de prata enfiados em suas peles. Eu, escuto Janis Joplin, baby. "Oh lord, por que você não me da um mercedes bens?"

Ricardo Reis

Não canto a noite pq no meu canto
O sol que canto acabará em noite
Não ignoro o que esqueço
Canto por esquecê-lo

Pudesse eu suspeder,
inda que em sonho
O Apolíneo curso, e conhecer-me
Inda que louco, gêmeo,
De uma hora imperecível!

segunda-feira, abril 24, 2006

Imaginação Ativa


Segundo Capitulo sobre imaginação ativa do livro Psicoterapia da Marie-Louise Von Franz. Divirtam-se.

Gostaria de me concentrar em alguns pontos que formam o caráter específico da imaginação ativa de Jung em comparação com o grande número de outras técnicas que estão aparecendo hoje em dia por toda parte. Encontramos hoje grande número de pessoas que praticaram alguma técnica de imaginação antes de se submeterem à análise junguiana; e, de acordo com minha experiência, percebi que é muito difícil fazer com que elas consigam realizar a verdadeira imaginação ativa. Esta última pode ser melhor dividida em quatro partes ou fases.
1- Como sabemos, primeiro devemos esvaziar a nossa consciência do ego, libertando-nos do fluxo de pensamentos do ego. Isso já é bastante difícil para muitas pessoas que não conseguem interromper a ‘mente alucinada’, como a chamam os zen budistas. O processo é mais fácil no caso da pintura e mais fácil ainda no caso da atividade com areia. Entretanto, está última fase fornece à consciência figuras já existentes. Embora seja verdade que isso pareça tornar possível passar por cima da “esterilidade”, ou ausência de quaisquer idéias (que é freqüentemente a primeira coisa que ocorre), ao mesmo tempo tem a tendência de provocar dificuldades posteriores quando o analisando precisa se envolver com a verdadeira imaginação ativa. A maioria das técnicas de meditação oriental, como o zen, certos exercícios de ioga, bem como a meditação taoísta, põem-nos diante dessa primeira fase. Na meditação zen, temos que eliminar não apenas todos os pensamentos do ego, como também quaisquer fantasias que possam ascender do inconsciente. Temos que rechaçá-los por meio de um koan ou deixá-lo passar desapercebidos. O único objetivo da postura física sentada é a interrupção simbólica de toda atividade.
2- Nesse ponto, temos que deixar que uma imagem de fantasia oriunda do inconsciente flua para o campo da percepção interior. Ao contrário das técnicas orientais acima mencionadas, neste caso nós acolhemos a imagem em vez de enxotá-la ou desconsiderá-la, passando a nos concentrar nela. Depois de atingirmos esse ponto, temos que ficar atentos a dois tipos de erro: o primeiro é quando nos concentramos demais na imagem que surgiu e literalmente a “fixamos”, congelando-a, por assim dizer; o segundo é quando não nos concentramos o suficiente, o que faz com que as imagens internas comecem a se modificar rápido demais e um “filme interno” acelerado comece a passar. Na minha experiência, pude perceber que são basicamente as pessoas do tipo intuitivo que costumam cometer esse último erro. Elas escrevem infindáveis contos de fantasia que não têm um ponto focal, ou não se envolvem em um relacionamento pessoal com os eventos interiores. Esse é o nível da imaginação passiva, da imaginatio fantastica que contrasta com a imaginatio vera, como chamariam os alquimistas. Isso me lembra muito a katathyme Birlderleben (vida de imagem catatímica) de H.Leuner. Leuner admitiu haver sido inspirado pela imaginação ativa de Jung, tendo porém decidido simplificá-la – não obtendo, na minha opinião, resultados muito bons. Acho muito difícil ajudar os analisando que se dedicaram a essa forma de prática da imaginação a mudar para a verdadeira imaginação ativa. A objectivierung des Unvewussten (objetificação do inconsciente) de W.L. Furrer também apresenta as mesmas deficiências, bem como a técnica mais antiga de le rêve éveillé (sonho desperto) de René Desoilee. Essas técnicas também permitem a presença e a intervenção do analista, o que é um grande erro que discutirei mais adiante.
3- Chegamos agora a terceira fase. Ela consiste em conferir uma forma à imagem de fantasia interiormente percebida seja relatando-a por escrito, pintando-a, esculpindo-a, escrevendo-a como uma musica ou dançando-a (em cujo caso os movimentos da dança devem ser anotados). Na dança, o corpo vem a participar, o que é às vezes fundamental, principalmente quando certas emoções e a função interior são tão inconscientes que é como se estivessem enterradas no corpo¹. Com freqüência, também esclarece melhor uma questão muito discutida hoje em dia – o papel do corpo na análise. Com efeito, a obra alquímica, de acordo com Jung, nada mais é do que uma imaginação ativa realizada com substâncias químicas, ou seja, misturando-as, aquecendo-as, e assim por diante. Os alquimistas orientais, especialmente os taoístas chineses, faziam isso principalmente procurando trabalhar com os materiais no próprio corpo e mais raramente com suas retortas no laboratório. Os alquimistas ocidentais trabalhavam com a matéria principalmente fora do corpo, na retorta, afirmando que “nossa alma imagina grandes coisas fora do corpo”. Paracelso e seu discípulo Gerhard Dorn, contudo, também trabalharam com o chamado firmamento dentro do corpo, no qual esperavam produzir influências mágicas externas. Achavam que essas influências mágicas tinham um relacionamento sincrônico per analogiam com a matéria do corpo. Dessa forma, a imaginação ativa está essencialmente ligada ao corpo através do significado simbólico dos seus componentes químicos. Pessoalmente, já vivenciei com freqüência fortes reações física positivistas e negativas a imaginações ativas corretas ou erroneamente executadas. Certo analisando até mesmo sofreu grave ataque cardíaco psicogênico, quando agia contra seus sentimentos em uma imaginação ativa. Afetos e emoções intensos representam às vezes um obstáculo à prática da imaginação ativa. O próprio Jung, segundo ele relata em suas memórias, tinha às vezes que recorrer a exercícios de ioga para controlar suas emoções antes que fosse capaz de extrair delas uma imagem com a qual pudesse se relacionar em uma imaginação ativa.
Certo tipo de imaginação ativa pode ser realizado como uma conversa com partes internamente examinadas do nosso corpo, na qual também escutamos o que elas dizem (como Odisseu fazia às vezes, na Odisséia, com seu coração ou seu “freno”). Essa técnica é às vezes favorável no caso de um sintoma físico psicogênico. Sempre que a matéria está envolvida, seja dentro ou fora do corpo, podemos esperar fenômenos sincrônicos, o que demonstra que essa forma de imaginação ativa é especialmente “carregada de energia”. Em seu aspecto negativo, ela se aproxima da magia e dos perigos desta última, sobre os quais falarei adiante.
Dois tipos de erro, que Jung descreve em sua dissertação A dinâmica do inconsciente,² tendem a ocorrer nessa terceira fase. Um deles consiste em atribuir ênfase exagerada à elaboração estética do conteúdo da fantasia, transformando-a em uma obra de arte, o que faz com que a pessoa negligencie sua “mensagem” ou significado. Na minha experiência, isso acontece principalmente no caso da pintura e dos relatos escritos. O excesso de forma mata o conteúdo, assim como a arte de certos períodos históricos “enterrou os deuses em ouro e mármore”. (Hoje em dia, freqüentemente sentimos mais prazer em contemplar um amuleto primitivo ou a arte rústica dos cristãos primitivos do que a arte decadente de Roma.) As funções da sensação e do sentimento são as primeiras a nos induzir em erro neste caso. Esquecemos que o que estamos retratando é apenas a aparência de uma realidade interna e que o objetivo é entrar em contato com a realidade e não com a aparência.
O outro tipo de erro consiste em fazer o oposto. A pessoa faz rapidamente um esboço do conteúdo e imediatamente entra na questão do significado. Os tipos intuitivos e pensamento são os que especialmente cometem esse erro. Isso demonstra uma falta de amor e dedicação. Podemos facilmente perceber isso quando um paciente nos traz um esboço descuidado ou um relato escrito com negligência, dizendo que já sabe “o significado”. Essa terceira fase, na qual fornecemos ao inconsciente uma maneira de se expressar, freqüentemente proporciona grande alívio, mas ainda não é a verdadeira imaginação ativa.
4 – Chegamos agora à quarta fase, a fase decisiva, aquela que está ausente em quase todas as técnicas de imaginação – a confrontação moral com o material já produzido. Nesse ponto, Jung nos adverte com relação a um erro freqüentemente cometido que compromete todo o processo. Trata-se do erro de entrarmos nos eventos internos com um ego fictício em vez de com o verdadeiro ego.
Gostaria de ilustrar o que acabo de dizer com um exemplo. Certo analisando sonhou que encontrou um casco de cavalo no deserto. O casco era de certo modo muito perigoso e começou a persegui-lo. Era uma espécie de demônio relacionado com o deus Wotan. O homem tentou continuar a fantasiar esse sonho em uma imaginação ativa. Ele estava agora correndo montado no cavalo, mas o demônio estava ficando cada vez maior e conseguindo chegar cada vez mais perto. O analisando deu a volta e de algum modo conseguiu esmagar o demônio com os pés. Quando ele me contou isso, fiquei impressionada com a estranha discrepância entre a aparência dele e o resultado da história. Ele parecia assustado e atormentado. Assim sendo, disse-lhe que de certa maneira eu não acreditava no final feliz da história, mas não sabia por quê. Uma semana depois ele me confessou que quando o demônio pata de cavalo o alcançou ele (o analisando) se partiu em dois. Somente uma parte do seu ego venceu o demônio; a outra se afastou da ação e ficou observando do lado de fora. Por conseguinte, ele só alcançou a vitória com um ego-herói fictício; seu verdadeiro ego evadiu-se, secretamente dizendo de si para si: “Afinal de contas, é apenas fantasia”.
Quando e estado observável de um analisando deixa, como nesse caso, de se harmonizar com o que aconteceu em uma imaginação ativa, podemos admitir que ocorreu esse erro de ego fictício. É difícil manter isso afastado. Outro analisando, em uma imaginação ativa, teve um longe e romântico caso amoroso com uma figura da anima. Ele nunca disse a ela que se casara recentemente. Quando eu lhe fiz perguntas a respeito disso, respondeu que nunca faria isso na vida real (ocultar que era casado). Assim, seu ego na imaginação ativa não era o mesmo que seu ego no dia-a-dia! Estava claro que a coisa toda não era completamente real para ele; era mais como se estivesse escrevendo um romance do que fazendo uma imaginação ativa. Esse ponto é tremendamente importante, porque toda eficácia da imaginação ativa depende dele. As pessoas com um caráter muito fragmentado ou com psicoses latentes não conseguem de modo nenhum fazer a imaginação ativa ou só conseguem com o ego fictício.
Por esse motivo, Jung nos aconselhou a não utilizarmos a técnica da imaginação ativa com pacientes do grupo de casos limítrofes. Na realidade, o analisando do meu segundo exemplo não era uma pessoa doente e, sim, um intelectual. O intelecto é um grande trapaceiro; ele nos ilude e nos leva a desconsiderar o aspecto moral dos eventos, e nos deixa dominar pela dúvida de que, afinal de contas, a coisa toda não passa de uma fantasia e uma veleidade. A imaginação ativa requer certo grau de ingenuidade.
Jung comentou certa vez que a psiquiatria de hoje descobriu as três primeiras etapas do processo, mas não consegue compreender a quarta. A maioria das técnicas de imaginação atuais não chegam a atingir esse ponto. Existe ainda outro aspecto que ainda não foi compreendido. A maioria das técnicas criativas ou imagéticas atuais permite certa participação do analista ou até mesmo exige que ele intervenha. Ou ele propõe o tema (como na técnica de Happich ou no treinamento autógeno avançado de J. H. Schultz) ou intervém, fazendo sugestões, quando o analisando “empaca”. Jung, por outro lado, costumava deixar seus pacientes “empacados” onde quer que estivessem até que encontrassem por si mesmos uma saída. Ele nos contou que teve certa vez uma paciente que estava sempre caindo em certas “armadilhas” na vida real. Recomendou a ela que fizesse uma imaginação ativa. Imediatamente ela se viu, na imaginação, atravessando um campo e encontrando um muro. Ela sabia que tinha que passar para o outro lado, mas como? Jung apenas disse: “O que você faria na vida real?” Ela simplesmente não conseguiu pensar em nada. Finalmente, depois de muito tempo, pensou em caminhar ao longo do muro para ver se ele terminava em algum ponto. Não terminava. Então, ela procurou uma porta ou uma abertura. Novamente, não chegou a lugar nenhum, e Jung não ofereceu nenhuma ajuda. Finalmente, ela pensou em ir buscar um martelo e uma talhadeira para abrir um buraco no muro. Essa foi a solução.
O fato de a mulher levar tanto tempo para achar uma solução foi reflexo do seu comportamento inepto na realidade exterior. Por esse motivo é absolutamente fundamental não oferecermos ajuda; se o fizermos, o paciente não aprende nada e continua tão infantil e passivo quanto antes. Por outro lado, quando dolorosamente aprender suas lições na imaginação ativa, ele também aprenderá alguma coisa com relação à sua vida exterior. Jung não ajudava os pacientes, ainda que permanecessem “empacados” por semanas, insistindo em que continuassem a tentar sozinhos achar uma solução.
Com o uso controlado de drogas, a quarta fase está novamente ausente. A pessoa que supervisiona carrega toda a responsabilidade em vez de isso caber à pessoa que esta fazendo a imaginação. Deparei com um livro interessante de autoria de dois irmãos, Terence e Dennis McKenna, chamado The invisible landscape.³ Esses dois corajosos jovens foram ao México e fizeram experiências em si mesmo com uma planta alucinógena recém-descoberta no local. De acordo com o relato deles, sofreram estados mentais esquizofrênicos que provocaram uma “expansão dos seus horizontes espirituais”. Infelizmente, não fornecem uma descrição precisa das experiências, apenas dicas a respeito de terem visitado outros planetas e recebido a ajuda de um ser invisível que freqüentemente aparecia como um inseto gigantesco. A segunda parte do livro apresenta os insights que se originaram do seus “horizontes espirituais mais amplos”, e é aí que surge o desapontamento. Eles não são de modo nenhum diferentes de outras especulações atuais altamente intuitivas a respeita da mente, da matéria, do sincronismo, e assim por diante. Não apresentam nada novo ou criativo, apenas coisas que os autores bem informados facilmente poderiam ter criado conscientemente. O ponto mais importante surge no final, quando o livro termina com a idéia de que toda a vida na Terra será destruída e, por essa razão, teremos que fugir para outro planeta ou escapar internamente, em direção à esfera da mente cósmica.
Gostaria de comparar o exposto com um sonho. Trata-se do sonho de um estudante, que não corre o risco de se tornar psicótico e que está atualmente fazendo análise junguiana. Sou grata a ele por permitir que eu narre seu sonho. Depois que fiz esta palestra, Edward Edinger apresentou o mesmo sonho e ofereceu excelente interpretação dele.4 O sonho (em forma levemente reduzida) é o seguinte:
“Estou caminhando ao longo do que são chamadas as Palisades, das quais podemos contemplar Nova Iorque. Estou andando ao lado de uma figura de anima desconhecida para mim; ambos somos conduzidos por um homem que é nosso guia. Não restou pedra sobre pedra em Nova Iorque – o mundo foi destruído. Incêndios se alastram por toda parte; milhares de pessoas correm sem ruma em todas as direções. O rio Hudson inundou grandes partes da cidade. Anoitece. Bolas de fogo no céu assobiam em direção a Terra. É o fim do mundo.
O que causou isso foi uma raça de gigantes que veio do espaço. Vi dois deles sentados no meio das pedras, indiferentemente pegando um punhado de pessoas atrás do outro e engolindo-os como se fossem uvas. Era uma visão horrível... Nosso guia nos explicou que esses gigantes haviam vindo de diferentes planetas onde eles viviam em paz uns com os outros. Haviam aterrizado em discos voadores (eram as bolas de fogo). A terra que conhecíamos fora na verdade planejada pelos gigantes. Eles haviam “cultivado” nossa civilização da maneira como cultivamos legumes e verduras em estufa. Agora tinham vindo para a colheita. Havia uma razão especial para isso, que eu só vim a saber mais tarde.
Eu fora salvo porque minha pressão sanguínea era levemente alta. Se fosse normal ou alta demais, eu teria sido devorado. Assim, fui escolhido para passar por essa provação através do fogo e, se eu conseguisse superá-la com êxito, teria permissão para salvar também outras almas. Vi então, diante de mim, um gigantesco trono dourado, brilhante como o sol. Nele estavam sentado o rei e a rainha dos gigantes. Eles eram os responsáveis pela destruição do nosso planeta.
Minha provação, além do tormento de ter de vivenciar tudo isso, consistia em ter que galgar os degraus do trono até o ponto em que conseguisse olhar diretamente no rosto deles. Isso se deu em estágios. Comecei a ascensão. O caminho era longo, mas sabia que tinha percorrê-lo, que o destino do mundo e da humanidade dependia de mim. Aí acordei, ensopado de suor. Compreendi depois, quando acordei, que a destruição da terra era a festa de casamento do rei e da rainha.”
Esse sonho lembra a invasão da Terra por gigantes descrita no livro bíblico de Enoc, que foi interpretada por Jung como uma “invasão prematura (da consciência) realizada pelo inconsciente coletivo”. Isso provocou uma inflação generalizada. Os anjos que (segundo Enoc) haviam gerado gigantes com mulheres humanas forneceram à humanidade muitas novas formas de conhecimento, e isso ocasionou uma inflação. Está claro que o sonho acima reflete nossa semelhante situação atual, e o livro dos irmãos McKennas mostra claramente, entre outras coisas, aonde leva uma exploração prematura das visões do inconsciente coletivo – ou seja, a um estado mental extremamente precário. Ao mesmo tempo, contudo, esse sonho adequadamente mostra a diferença entre a alucinação causada pelas drogas e uma abordagem feita pelo inconsciente que não foi procurada. No sonho, a pessoa recebe uma tarefa: chegar até o rei e a rainha. Por outro lado, de acordo com as conclusões dos McKennas, tudo que o indivíduo precisa fazer é tentar se afastar. Parece então que um aspecto construtivo do inconsciente só é constelado quando está frente a frente com um ego individual como parceiro. Essa é a situação que buscamos atingir na imaginação ativa, e é por isso que o uso de drogas – ainda que sob uma supervisão responsável – ou a prática de técnicas de imaginação nas quais o analista assume o comando não são adequados, porque então o ego não é capaz de se confrontar com o inconsciente.
Tanto as cenas apocalípticas do livro dos McKennas quanto as do sonho acima descrito estão relacionadas com o medo que temos de uma guerra nuclear. Mas em vez de fugir para o espaço, o sonho entrega à pessoa a tarefa de observar face a face o casamento do rei com a rainha. Essa tarefa representa a união dos opostos – do pai com a mãe, da mente com a matéria, e assim por diante. Lembro-me de que Jung nos disse certa vez, quando lhe perguntamos se uma terceira guerra mundial era inevitável, que só seria possível evitar essa guerra se um número suficiente de pessoas conseguisse manter unidos os opostos dentro de si. Neste caso, também, todo o fardo coletivo repousa sobre os ombros de uma só pessoa, a que sonhou. O inconsciente só consegue nos mostrar uma saída para a crise se nós, enquanto indivíduo, permanecermos conscientes dos opostos.
Um importante tema no sonho é o guia, o qual instrui o sonhador. Essa figura só aparece quando o analista não assume seu lugar. Hermes, a alma orientadora dos alquimistas, chamava a si mesmo de “o amigo solitário” (cuiusque segregati – cada um que está separado do rebanho). O resultado mais importante da imaginação ativa, segundo Jung, é fazer com que o analisando se torne independente do analista. Por esse motivo, não devemos interferir nela (a não ser para operar correções no método). Quando um analisando lê para mim uma imaginação ativa, com freqüência penso em silêncio: “Eu nunca teria feito ou dito isso!” Isso demonstra como é individual a maneira pela qual as reações do ego surgem em relação ao inconsciente na imaginação ativa – e é isso que determina qual o curso que os eventos tomarão.
Uma nova (ou melhor, antiqüíssima) abordagem da imaginação ativa é a descrita nos livros de Carlos Castaneda. Trata-se do método do bruxo e xamã Don Juan, que ele chama de “sonho”. Por trás disso estão as antigas tradições dos xamãs dos índios mexicanos. Correm boatos de que grande parte do conteúdo desses livros foi inventado por Castaneda, embora tenha utilizado material genuíno dos xamãs. O “sonho” certamente é parte desse material genuíno. Ele é exoticamente índio e jamais poderia ter sido inventado por um homem branco. O “sonho” é alcançado com a ajuda de fenômenos externos da natureza. O mestre Don Juan leva Castaneda para as regiões incultas e solitárias da natureza. Na penumbra da noite, Castaneda pensa ver a forma escura de um animal moribundo. Terrivelmente assustado, ele quer fugir, mas depois olha com mais atenção e percebe que se trata apenas de um galho sem vida. Mais tarde, Don Juan diz: “O que você fez não é nenhum triunfo... Você desperdiçou um belo poder, um poder que soprou vida naquele galho morto... Aquele ganho era um animal de verdade e estava vivo no momento em que o poder o tocou. Como o que o mantinha vivo era o poder, o truque era, como no sonho, sustentar a visão”.5
O que Don Juan chama de poder aí é o mana, mulungu, etc., em outras palavras, o aspecto energético do inconsciente coletivo. Ao desvalorizar sua fantasia, olhando para ela de maneira racional, Castaneda afugentou o poder e perdeu a oportunidade de “parar o mundo”. (Essa é a expressão de Don Juan para interromper o pensamento do ego.) Don Juan também chama esse sonho de “insanidade controlada”, o que lembra o comentário de Jung de que a imaginação ativa é uma “psicose voluntária”.
Esse tipo de imaginação ativa com coisas externas da natureza lembra a arte dos alquimistas, que realizam sua imaginação ativa com metais, plantas e pedras, mas com uma diferença: os alquimistas sempre tinham um vaso. Esse vaso era seu imaginatio vera et non fantastica ou sua theoria. Desse modo, eles não se perdiam e mantinham um “controle” dos eventos no sentido literal, uma espécie de filosofia religiosa. Don Juan também tinha esse controle, mas ele não consegue transmiti-lo para Castaneda e, portanto, sempre tem que assumir a liderança.
Como já mencionamos, os rituais que acompanham a imaginação ativa são particularmente eficazes, mas ao mesmo tempo perigosos. Isso freqüentemente constela um grande número de eventos sincrônicos, os quais facilmente podem ser interpretados como magia. As pessoas que correm o perigo de se tornarem psicóticas freqüentemente também interpretam erroneamente esses eventos de uma maneira perigosa. Lembro-me do caso de um homem que no início de um lapso esquizofrênico atacou fisicamente a mulher. Ela chamou o policial do povoado e um psiquiatra. Enquanto os dois homens, junto com a mulher e o marido perturbado, estavam de pé no saguão de entrada da casa, a única lâmpada que iluminava a cena explodiu em mil pedaços, e eles ficaram no escuro cobertos de pedaços de vidro partido. O homem perturbado imediatamente chegou à conclusão de que como o sol e a lua haviam ocultado sua luz na crucificação de Cristo, o que acontecera fora um sinal de que ele, o salvador do mundo, estava sendo injustamente detido. No entando, o que aconteceu foi exatamente o oposto: o evento sincrônico estava levando uma mensagem sadia – estava advertindo-o para que não tivesse um blecaute mental (uma lâmpada significa a consciência do ego, ao contrário do sol, que é a Divindade). Neste caso, estamos no movendo em terreno perigoso. Embora esse evento não tenha relação com uma imaginação ativa, eventos semelhantes freqüentemente ocorrem durante a imaginação ativa. Esse exemplo demonstra como podemos perder o rumo nessa “psicose voluntária”. Assim, o alquimista Zósimus corretamente adverte contra os demônios que podem confundir o trabalho alquímico. Tocamos aqui na distinção entre a imaginação ativa e a magia, particularmente a magia negra. Como sabemos, Jung adverte contra o tipo de imaginação ativa que envolve pessoas vivas. Ela pode afetá-las magicamente, e toda magia, inclusive a magia “branca”, tem um efeito bumerangue em relação à pessoa que a prática. Por conseguinte, a longo prazo, ela é destrutiva. Lembro-me também de um caso no qual Jung me aconselhou a usá-la. Eu tinha uma analisando mais velha que estava totalmente possuída pelo seu animus; ela não estava mais acessível e estava à beira de um lapso psicótico. Jung me aconselhou a falar com o animus dela em uma imaginação ativa. Isso iria ajudá-la, porém me prejudicaria, mas ele disse que ainda assim eu deveria tentar, como último recurso. De fato, o efeito foi benéfico, e Jung me ajudou depois a combater o efeito bumerangue. Não obstante, nunca mais ousei repetir a experiência.
A fronteira entre a imaginação ativa e a magia é extremamente sutil. No caso da magia, existe sempre algum desejo em jogo, relacionado com uma intenção boa ou destruitiva. Também observei que uma forte possessão da parte do animus ou da anima impede as pessoas de fazerem a imaginação ativa. Isso torna impossível a necessária abertura interior. Só devemos praticar a imaginação ativa com objetivo exclusivo de obter a verdade a respeito de nós mesmos. Mas, na prática, freqüentemente um desejo ulterior se insere sub-repticiamente, e a pessoa cai na imaginatio fantástica. Notei um perigo semelhante no oráculo I Ching. Se a pessoa não abandona, antes de lançar as moedas, todo e qualquer desejo com relação a um resultado específico, ela freqüentemente interpreta erroneamente o oráculo. Existe também o caso oposto de ver ou ouvir “a coisa certa” na imaginação ativa e depois duvidar de que a coisa seja genuína. Com freqüência, a imaginação ativa nos liberta disso, fazendo de repente algo tão surpreendente que pensamos: “Eu não poderia de modo nenhum ter inventado isso!”
Finalmente, temos ainda a fase final – aplicar na vida cotidiana o que aprendemos na imaginação ativa. Lembro-me de um homem que prometeu à sua anima, durante a imaginação ativa, que dedicaria a ela dez minutos por dia. Ele se atrapalhou e ficou com um mau humor neurótico que durou até perceber que não havia mantido a promessa. Mas é claro que isso se aplica a todas as percepções da análise. Essa é a “abertura da retorta” na alquimia, algo que é naturalmente produzido quando compreendemos a etapa anterior. Quando uma pessoa deixa de fazer isso, é um indício de que não completou realmente a quarta fase da confrontação moral.

Notas:

¹ - Cf. R. F. C. Hull, “Bibliographical Notes on Active Imagination”, in Spring, 1971; E. Humbert, “L´imagination acive d´après C. G. Jung”, in Cahiers de Psychologie Junghienne, Paris, 1977; C. G. Jung, “The Transcendent Function”, CW8.
² - C. G. Jung, “The Transcendent Function,” CW8.
³ - Terence e Dennis McKenna, The Invisible Landscape, Seabury Press, Nova Iorque, 1975.
4– Ver Edward F. Edinger, “The Myth of Meaning”, Quadrant 10, 1977, pp. 34ss.
5 – Carlos Castaneda, Journey to Ixtlan, Simon and Schuster, Nova Iorque, 1972, pp 132-33. (Trad. Bras.: Viagem a Ixtlan, Record, Rio de Janeiro.)

sábado, abril 15, 2006

O executivo e a psicoterapia.


Sobre as cinzentas nuvens de domingo, andava com a cabeça voltada ao chão, um inferno e uma maldição. Não sabia bem como se enfurnara numa tal situação, de desespero e depressão, só bem sabia, que assim era e assim seria. Tomou alguns calmantes, enquanto olhava para o chão sujo de uma cidade grande, e continuou seu caminho obscuro pela cidade ameaçadora. Prédios altos ofuscavam sua respiração pálida, uma tremedeira em suas pernas mostrava sua neurose manifesta.

Nalberto prosseguia, com seu dinheiro no bolso, e sua infelicidade na alma. Era muito rico, de fato, não conseguia parar de ganhar dinheiro. Sentia o cheiro de uma boa transação e não podia evitar ganhar aquele dinheiro certo. Dessa forma, Nalberto tornou-se rico. Mas, todo aquele dinheiro, em nada era aproveitado, enfurnara-se em todo seu legado, de ser um pobre coitado. Só sabia ganhar e ganhar, ambiciosamente.

No final da rua cheirou o destino. Algo lhe contara que era ali, naquela drogaria a sua esquerda, que encontraria o que desejava. Entrara despretensiosamente naquela drogaria, afinal, nem bem sabia o que queria, naquela feira de produtos. Avistou e chamou o farmacêutico senhor balconista. “Meu bom velho” disse ele, sei que aqui vocês tem algo para mim! O farmacêutico, muito sábio - de tantos anos de alquimia - não se fez de rogado, disse logo, para que Nalberto se fizesse ouvidos: “Temos sim meu bom senhor! Ótimos produtos para as cabeleiras!”. E prosseguiu:

“O que pode haver com seus cabelos, meu rico senhor? A eles falta brilho, apesar deu poder notar, tão claramente, que é tratado com o melhor dos produtos do mercado”.
“Eu não bem sei, meu velho balconista” – respondeu Nalberto, “essas coisas terríveis sempre me acompanharam, se bem me entende”.

O velho balconista então foi atrás das escuras paredes e voltou, da escuridão, com um vidro verde. Era um condicionador. O velho então disse: “Filho, passe isto para que sua dor seja dominada e então você poderá compreender porque teu cabelo não brilha”. Nalberto agradeceu o balconista farmacêutico e partiu da loja, com um pingo de esperança. Quando saiu, percebeu que as coisas começaram a se modificar, as cores começaram a ficar um pouco diferentes. Não ligou muito e foi para casa utilizar seu condicionador verde.

Utilizou-o. O condicionador verde tirou a amargura profunda do coração de Nalberto, que sentiu que pela primeira vez tinha a possibilidade de decidir entre: ficar na tristeza ou tentar uma vida nova. Tudo ficara de tal modo colorido, que nem mesmo importava muito se aquilo era uma escolha. Nalberto chamou o condicionador de “fada verde”, pois aquilo alterara sua visão de tal modo que, as vezes, parecia até uma linda alucinação.

Nalberto foi andando extasiado pela cidade até que viu uma flor entre aqueles prédios gigantescos e tristonhos. Era uma flor linda, violeta. Nalberto então descobriu que deveria ir para o campo, ligou para seu trabalho e desmarcou todos seus compromissos. Pegou algum dinheiro no banco, comprou uma bicicleta e foi caminhando até o interior. Todos falavam: “Pobre Nalberto, ficou louco” ou “Como uma pessoa tão rica pode enlouquecer assim?”.

Já no interior, Nalberto compreendeu a beleza da vida. Viu, como nunca, a textura de tudo, a sombra maravilhosa de todas as coisas... o mundo, ora, o mundo, tornara-se sagrado! Sacro-santo! O mais estranho ainda estava porvir. Nalberto chegara a uma montanha onde viu a coisa mais maravilhosa de sua vida, um lindo Pegasus. De inicio, ficou assustadíssimo, mas aos poucos foi se encantando cada vez mais. Subiu nele e começaram a voar por aquele mar celeste, a epifania do destino tornada real, no agora.

Impossível seria transcrever o êxtase de Nalberto, era felicidade e nada mais, o que sentia. Depois de sentir a liberdade, encontraria ainda, naquelas regiões tão esquizofrênicas a um cidadão da cidade grande, o grande amor da sua vida, uma menina chamada Leia. Nalberto quando a viu sentiu seu cheiro. Sabia que era o amor de sua vida, mas não apenas, sentiu seu tato, tocou-lhe o rosto e sentiu aquele momento maravilhoso. Nalberto finalmente aprendeu o que era a felicidade e a liberdade.

quarta-feira, abril 05, 2006

Passagens Fantasticas

Leonardo da Vinci:

“Não deve ser difícil a você parar algumas vezes para olhar as manchas de uma parede, ou as cinzas de uma fogueira, ou as nuvens, a lama e outras coisas no gênero nas quais... vai encontrar idéias verdadeiramente maravilhosas.”

Nietzsche, no Zaratustra:

A hora em que digais: “Que importa a minha felicidade! É pobreza, imundice e conformidade lastimosa. A minha felicidade, porem, deveria justificar a própria existência!” A hora em que digais: “Que importa minha razão! Anda atrás do saber como o leão atrás do alimento. A minha razão é pobreza, imundice e conformidade lastimosa!”

e ainda:

“O homem é corda estendida entre o animal e o Super-homem: uma corda sobre um abismo; perigosa travessia, perigoso caminhar; perigoso olhar para trás, perigoso tremer e parar.

O que é de grande valor no homem é ele ser uma ponte e não um fim; o que se pode amar no homem é ele ser uma passagem e um acabamento.

Eu só amo aqueles que sabem viver como que se extinguindo, porque são esses os que atravessam de um para outro lado.”

e noutra passagem:

“Amo aquele cuja alma transborda, a ponto de se esquecer de si mesmo e quanto esteja nele, porque assim todas as coisas se farão para sua ruína.”

Σάραπις


O mundo gira e gira, tudo parece seguir o já esperado, padrões outrora determinados. Procuro a iluminação na autonomia e no livre-arbítrio, as sombras dificultam minha visão da luz, a procura por ora conduz ao indeterminado. Mas, quando chego neste não lugar utópico procuro minha intuição e pré ver o que está por vir. Sou extemporâneo, fora e alem do meu tempo. Encontro o destino e minha historia já constituída antes de meu ser se juntar ao mundo, pertenço a algo muito maior do que poderia esperar, ao cosmos, ao Nous, a alma do mundo. A tensão de dois mundos se debate em meu ser, o tempo se faz no futuro longínquo, em meu vir-a-ser, e não obstante minha historia só, e simplesmente, se faz agora, “voici, mon histoire!”.


Passo por vielas bem estreitas e por ruas muito largas, meu cérebro procura a minha alma e minha alma procura o meu cérebro. Procuro uma síntese fantástica de tudo já existente, desde da espontaneidade amorfa esquizofrênica, a mais perfeita ordem racional e lógica. E, por tempos incongruentes, destruo e rasgo o que não desejo, como o fogo que queima, a lei que proíbe, os olhos que se perfuram com a faca amaldiçoada pelo destino.


Invoco Sarapis, deus-regente de Alexandria. .

segunda-feira, abril 03, 2006

Matrimonio do ceu e do inferno

2 Poesias do livro: Matrimonio do ceu e do inferno;

Proverbios do Inferno

A raposa prove a si mesmo; mas Deus prove o leão.
Pense de manhã. Aja à tarde. Coma ao anoitecer. Durma à noite.
Aquele que sofreu, você impõe que o conheça.
Assim como o arado segue palavras, Deus recompensa as orações.
Os tigres da ira são mais sábios que os cavalos da instrução.
Espere veneno da água parada.
Você nunca sabe o que é o bastante até que saiba o que é mais que o bastante.
Ouça os tolos reprovar! É um elogio de reis!
Os olhos de fogo, as narinas de ar, a boca de água, a barba de terra.
O fraco de coragem é forte em esperteza.
A macieira nunca pergunta à faia como deve crescer; nem o leão, ao cavalo, como deve apanhar sua presa.
O receptor agradecido traz uma colheita abundante.
Se os outros não fossem tolos, nós o seriamos.
A alma do doce deleite nunca pode ser poluída.
Quando vês uma Águia, vês uma parte do Gênio. Ergue tua cabeça!
Assim como a lagarta escolhe as mais belas folhas para colocar seus ovos, assim o sacerdote coloca sua maldição nas mais belas alegrias.
Criar uma florzinha é labor de eras.
A maldição distende: a benção relaxa.
O melhor vinho é o mais velho, a melhor água a mais nova.
As orações não aram! Os elogios não colhem!
A alegria não ri! A tristeza não chora!




A cabeça Sublime, o coração Emoção, as genitálias Beleza, as mãos e pés Proporção.
Como o ar para um passaro ou o mar para um peixe, assim é o desprezo para um desprezível.
O corvo deseja que tudo fosse preto, a coruja, que tudo fosse branco.
Exuberância é Beleza.
Se o leão fosse aconselhado pela raposa, ele seria esperto.
O aperfeiçoamento faz estradas retas, mas as estradas tortas sem Aperfeiçoamento são estradas de Gênio.
Antes assassinar uma criança em seu berço que acalentar desejos não realizados.
Onde o homem não está, a natureza é estéril.
A verdade nunca pode ser contada de forma a ser compreendida, e não acreditada.
É o bastante! Ou é Demais!

quarta-feira, março 29, 2006

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O Retorno.

A baioneta antiga dispara o tiro para o alto, anunciando no asfalto a chegado do meu eu. Todos escrutam as exigências que dizem para não ver-me, pois seria isso uma afronta a coroa. Mas, o povo valente e destemido, ardente de ungido brado, me vê passar pelo asfalto. Sagrado, me torno, pois a multidão de eus não friccionados se aglomera pelo aglomerado e em poucos segundos me torna: O rei do majestoso arado.

Fricciono então a terra com minha reles mão, segurando tão majestoso arado. Sinto um sentimento ecumênico e outro de tal sorte iluminado. Sim, bem sabia, que teria que arcar com as conseqüências de arar em terras de reis malditos ou de malditos reis. Mas, se meu povo que sou me unge com tamanha gloria, poderia eu, ignorar-lhe a historia? Não, já estava traçado, desde tempos sagrados, imemoriais e de propriedades tais, que devo eu seguir e ainda me redimir de todos os erros ou de todo algo errado que possa eu, ter cometido no passado.

Levanto a mão e aro, enfrento e abalo os portais já tão bem trancados que jamais alguém imaginaria que seria de tal forma, e por tão medíocre ser, desafiados. Quanta incontinência nessa diatribe que fura de lado a lado, e de extremo a extremo, o mais pesado dos metais e o mais fechado dos portais. Quão tolo não seria o mortal que um dia tornaria concreto tal pecado. Só poderia ser um suicida atormentado – dizia o vizinho escandalizado -. Mas o que fazer se o destino – e somente ele – me leva a não ser a escolha do real? Precisava derrubar as portas deste umbral e entortar as cordas desse violino cego. Pois sua autoridade a muito já desfalecera por teu próprio fraco ego, que só sabe dar ordens e ordenar sórdidos castigos sazonais, que temperam o povo de terror.

O estranho desfecho parecia já fora tomado, no alto do céu, onde ninguém tem controle sobre o que se passa ao seu lado. Se a povo em êxtase, reuniu-se e despiu-se, de seu corpo já marcado por marcas de gado, e gritou sobre o asfalto, onde outrora era celebrado o assassinato, palavras de ordens tais que impossível seria dizer algo mais, sobre a liberdade e a virtude de ser totalmente livre, só temos a gloriar o estribe, que nos faz subir ao céu.. Agora sim, diziam todos os eus não sintetizados em um só, estamos plenamente de acordo com sermos você.